Textos sobre Anos

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Textos de anos escritos por poetas consagrados, filósofos e outros autores famosos. Conheça estes e outros temas em Poetris.

Para a Minha Mulher

Desde que a Maria João casou (oficialmente) comigo há treze anos, damos por nós a casarmo-nos um com o outro, voluntária ou involuntariamente, várias vezes por dia.
Vou contar s√≥ uma. Esta semana, quando volt√°vamos da praia, a Maria Jo√£o estava a pentear-se e deu-me uns cabelos soltos para eu deitar pela janela do carro. Tive ci√ļmes que algu√©m pudesse apanhar os lindos cabelos dela e disse-lhe. Dei-lhes um beijinho e atirei-os ao vento. E a Maria Jo√£o disse: ¬ęAgora tenho eu ci√ļmes que algu√©m apanhe o cabelo com beijinhos teus¬Ľ.

Cas√°mos um com o outro nesse momento. J√° t√≠nhamos casado cinco vezes na praia. Casar √© o que acontece quando duas pessoas descobrem que, por estarem a fazer ou terem feito uma coisa grande ou pequena, s√£o as duas √ļnicas pessoas no mundo. Todas as outras pessoas n√£o podem fazer parte daquele prazer. Aquele prazer s√≥ √© poss√≠vel para duas pessoas concretas: ela e eu.

À nossa volta casavam-se muitas outras pessoas, casando-se mais por nós estarmos de fora, juntamente com todas as outras. Às vezes somos nós os espectadores. Vemos outras pessoas a casarem-se: um homem a rir-se leva uma mulher a rir-se nos braços pelo mar adentro e não a deixa cair até ela pedir.

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Conseguir Escrever

O of√≠cio de escritor √© talvez o √ļnico que se torna mais dif√≠cil √† medida que mais se pratica. A facilidade com que me sentei a escrever aquele conto n√£o se pode comparar com o trabalho que me d√° agora escrever uma p√°gina. Quanto ao meu m√©todo de trabalho, √© bastante coerente com isto que vos estou a dizer. Nunca sei quanto vou poder escrever nem o que vou escrever. Espero que me ocorra alguma coisa e, quando me ocorre uma ideia que ache boa para a escrever, ponho-me a dar-lhe voltas na cabe√ßa e deixo-a ir amadurecendo. Quando a tenho terminada (e √†s vezes passam muitos anos, como no caso de Cem Anos de Solid√£o, que passei dezanove anos a pensar), quando a tenho terminada, repito, ent√£o sento-me a escrev√™-la e √© a√≠ que come√ßa a parte mais dif√≠cil e a que mais me aborrece. Porque o mais delicioso da hist√≥ria √© conceb√™-la, ir arredondando-a, dando-lhe voltas e mais voltas, de maneira que na altura de nos sentarmos a escrev√™-la j√° n√£o nos interessa muito, ou pelo menos a mim n√£o me interessa muito; a ideia que d√° voltas.

Os Deuses Reclinados

… Por todos os lados as est√°tuas de Buda, de Lorde Buda… As severas, verticais, carcomidas est√°tuas, com um dourado de resplendor animal, com uma dissolu√ß√£o como se o ar as desgastasse… Crescem-lhes nas faces, nas pregas das t√ļnicas, nos cotovelos, nos umbigos, na boca e no sorriso pequenas m√°culas: fungos, porosidades, vest√≠gios excrement√≠cios da selva… Ou ent√£o as jacentes, as imensas jacentes, as est√°tuas de quarenta metros de pedra, de granito areento, p√°lidas, estendidas entre as sussurrantes frondes, inesperadas, surgindo de qualquer canto da selva, de qualquer plataforma circundante… Adormecidas ou n√£o adormecidas, est√£o ali h√° cem anos, mil anos, mil vezes mil anos… Mas s√£o suaves, com uma conhecida ambiguidade ultraterrena, aspirando a ficar e a ir-se embora… E aquele sorriso de suav√≠ssima pedra, aquela majestade imponder√°vel, mas feita de pedra dura, perp√©tua, para quem sorriem, para quem, sobre a terra sangrenta?… Passaram as camponesas que fugiam, os homens do inc√™ndio, os guerreiros mascarados, os falsos sacerdotes, os turistas devoradores…

E manteve-se no seu lugar a est√°tua, a imensa pedra com joelhos, com pregas na t√ļnica de pedra, com o olhar perdido e n√£o obstante existente, inteiramente inumana e de alguma forma tamb√©m humana, de alguma forma ou de alguma contradi√ß√£o estatu√°ria,

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N√£o Podemos Ter a Certeza de Nada

Somos todos iguais na fragilidade com que percebemos que temos um corpo e ilus√Ķes. As ambi√ß√Ķes que demor√°mos anos a acreditar que alcan√ß√°vamos, a pouco e pouco, a pouco e pouco, n√£o s√£o nada quando vistas de uma perspectiva apenas ligeiramente diferente. Daqui, de onde estou, tudo me parece muito diferente da maneira como esse tudo √© visto da√≠, de onde est√°s. Depois, h√° os olhos que est√£o ainda mais longe dos teus e dos meus. Para esses olhos, esse tudo √© nada. Ou esse tudo √© ainda mais tudo. Ou esse tudo √© mil coisas vezes mil coisas que nos s√£o imposs√≠veis de compreender, apreender, porque s√≥ temos uma √ļnica vida.
‚ÄĒ Porqu√™, pai?
‚ÄĒ N√£o sei. Mas creio que √© assim. S√≥ temos uma √ļnica vida. E foi-nos dado um corpo sem respostas. E, para nos defendermos dessa indefini√ß√£o, transform√°mos as certezas que constru√≠mos na nossa pr√≥pria biologia. Fomos e somos capazes de acreditar que a nossa exist√™ncia dependia delas e que n√£o ser√≠amos capazes de continuar sem elas. Aquilo em que queremos acreditar corre no nosso sangue, √© o nosso sangue. Mas, em consci√™ncia absoluta, n√£o podemos ter a certeza de nada. Nem de nada de nada,

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A Moda

As varia√ß√Ķes da sensibilidade sob a influ√™ncia das modifica√ß√Ķes do meio, das necessidades, das preocupa√ß√Ķes, etc., criam um esp√≠rito p√ļblico que varia de uma gera√ß√£o para outra e mesmo muitas vezes no espa√ßo de uma gera√ß√£o. Esse esp√≠rito publico, rapidamente dilatado por contacto mental, determina o que se chama a moda. Ela √© um possante factor de propaga√ß√£o da maior parte dos elementos da vida social, das nossas opini√Ķes e das nossas cren√ßas.
Não é só o vestuário que se submete às suas vontades. O teatro, a literatura, a política, a arte, as próprias idéias científicas lhe obedecem, e é por isso que certas obras apresentam um fundo de semelhança que permite falar do estilo de uma época.
Em virtude da sua acção inconsciente, submetemo-nos à moda sem que o percebamos. Os espíritos mais independentes a ela não se podem subtrair. São muito raros os artistas, os escritores que ousam produzir uma obra muito diferente das ideias do dia.
A influência da moda é tão pujante que ela obriga-nos, por vezes, a admirar coisas sem interesse e que parecerão mesmo de uma fealdade extrema, alguns anos mais tarde. O que nos impressiona numa obra de arte é muito raramente a obra em si mesma,

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A Inconst√Ęncia no Amor e na Amizade

N√£o pretendo justificar aqui a inconst√Ęncia em geral, e menos ainda a que vem s√≥ da ligeireza; mas n√£o √© justo imputar-lhe todas as transforma√ß√Ķes do amor. H√° um encanto e uma vivacidade iniciais no amor que passa insensivelmente, como os frutos; n√£o √© culpa de ningu√©m, √© culpa exclusiva do tempo. No in√≠cio, a figura √© agrad√°vel, os sentimentos relacionam-se, procuramos a do√ßura e o prazer, queremos agradar porque nos agradam, e tentamos demonstrar que sabemos atribuir um valor infinito √†quilo que amamos; mas, com o passar do tempo, deixamos de sentir o que pens√°vamos sentir ainda, o fogo desaparece, o prazer da novidade apaga-se, a beleza, que desempenha um papel t√£o importante no amor, diminui ou deixa de provocar a mesma impress√£o; a designa√ß√£o de amor permanece, mas j√° n√£o se trata das mesmas pessoas nem dos mesmos sentimentos; mant√™m-se os compromissos por honra, por h√°bito e por n√£o termos a certeza da nossa pr√≥pria mudan√ßa.
Que pessoas teriam começado a amar-se, se se vissem como se vêem passados uns anos? E que pessoas se poderiam separar se voltassem a ver-se como se viram a primeira vez? O orgulho, que é quase sempre senhor dos nossos gostos,

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Trazer a Paix√£o de Volta

Se te encontras numa rela√ß√£o, e parto do princ√≠pio que se l√° est√°s √© porque ainda a queres, a √ļnica via para trazeres a paix√£o de volta ao seio do vosso quotidiano passa por romp√™-lo. Sim, acabar com os h√°bitos, com as rotinas doentias e enfadonhas e com tudo aquilo que est√°, deem conta ou n√£o, a acabar convosco e a consumir-vos lentamente. Daqui a pouco, se √© que j√° n√£o se encontram nesse estado, j√° nem podem olhar um para o outro, ouvir-se, cheirar-se e muito menos tocar-se e, por incr√≠vel que pare√ßa, nada disto significa que o amor tenha desaparecido. O que se escafedeu foi mesmo a paix√£o, a ponte que passa por cima de todas as diferen√ßas, conflitos e afins. Uma noite de sexo ou uma conchinha ao dormir, por exemplo, conseguem salvar a turbul√™ncia de uma semana inteira. √Č a magia dos sentidos.

Portanto, e retomando a nossa conversa, se queres despertar novamente o fogo entre ti e a pessoa com quem estás, não esperes mais pelo trágico e anunciado fim nem por uma eventual iniciativa que o outro possa tomar, agarra tu nas rédeas da tua vida e convida a pessoa para um jantar ou um outro programa qualquer num lugar diferente,

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Até a Pessoa Amada Voltar

Até ela, a pessoa amada, voltar, o tempo não corre como costuma correr. Atrasa-se e detém-se. Suspende-se e atrapalha-nos. Move-se de um lado para o outro. Arrasta os lugares: aqueles onde ela está e aquele (a nossa casa) onde eu espero por ela.

Esperar é um sofrimento mas também se aprende a esperar. Olhar para um relógio é a pior coisa que se pode fazer porque esses quantificadores malévolos são contabilistas automatizados que sabem contar todos os tempos, excepto os tempos de quem ama, espera e tem medo.

N√£o s√£o capazes de contar os tempos de todas as pessoas dotadas de um corpo com cora√ß√£o e alma. Que somos todos, quer queiramos, quer n√£o. Quem √© que quer? Ningu√©m. E de que nos serve? De nada. At√© ela, a pessoa amada, voltar, a √ļnica coisa que podemos fazer √© a que mais nos custa: esperar que ela volte. Mas quando √© que ela volta? Os minutos podem n√£o ser anos mas os quartos-de-hora s√£o semanas inteiras.

Mesmo saber que ela, a pessoa amada, voltará é difícil. Até acreditamos que queira voltar. Mas preocupamo-nos: e se ela não puder voltar? Pensar nisso é como morrer vivo sem pensar nisso.

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Como Manipular um P√ļblico

Segundo uma lei conhecida, os homens, considerados colectivamente, s√£o mais est√ļpidos do que tomados individualmente. Numa conversa a dois, conv√©m que respeitemos o parceiro, mas essa regra de conduta j√° n√£o √© t√£o indispens√°vel num debate p√ļblico em que se trata de dispor as massas a nosso favor.

H√° uns anos, um pol√≠tico pagou a figurantes para o aplaudirem numa concentra√ß√£o. Como bom profissional, compreendera que uma claque, embora n√£o melhore o discurso, predisp√Ķe melhor os espectadores a descobrirem os seus m√©ritos. O mimetismo √© a mola principal para mover as massas no sentido do entusiasmo, do respeito ou do √≥dio. Mesmo perante um pequeno p√ļblico de trinta pessoas, h√° sempre algo de religioso que prov√©m da coagula√ß√£o dos sentimentos individuais em express√£o colectiva. No meio de um grupo, √© necess√°ria uma certa energia para pensar contra a maioria e coragem para exprimir abertamente essa opini√£o.
Os manipuladores de opinião ou, para utilizar uma palavra mais delicada, os comunicadores, sabem que, para conduzir mentalmente uma assembleia numa determinada direcção, é necessário começar por agir sobre os seus líderes. A primeira tarefa consiste em determinar quem são, apesar de eles próprios não o saberem. Um manipulador não tarda a distinguir o punhado de indivíduos em que pode apoiar-se para influenciar os outros.

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A Desordem da Minha Natureza

(…) enfrentei pela primeira vez o meu ser natural enquanto decorriam os meus noventa anos. Descobri que a minha obsess√£o de que cada coisa estivesse no seu lugar, cada assunto no seu tempo, cada palavra no seu estilo, n√£o era o pr√©mio merecido de uma mente ordenada mas, pelo contr√°rio, um sistema completo de simula√ß√£o inventado por mim para ocultar a desordem da minha natureza. Descobri que n√£o sou disciplinado por virtude, mas como reac√ß√£o contra a minha neglig√™ncia; que pare√ßo generoso para encobrir a minha mesquinhez, que passo por prudente por ser pessimista, que sou conciliador para n√£o sucumbir √†s minhas c√≥leras reprimidas, que s√≥ sou pontual para que n√£o se saiba que pouco me importa o tempo alheio. Descobri, por fim, que o amor n√£o √© um estado de alma mas um signo do Zod√≠aco.

A Guerra como Revolta da Técnica

Todos os esfor√ßos para estetizar a pol√≠tica convergem para um ponto. Esse ponto √© a guerra. A guerra e somente a guerra permite dar um objectivo aos grandes movimentos de massa, preservando as rela√ß√Ķes de produ√ß√£o existentes. Eis como o fen√≥meno pode ser formulado do ponto de vista pol√≠tico. Do ponto de vista t√©cnico, a sua formula√ß√£o √© a seguinte: somente a guerra permite mobilizar na sua totalidade os meios t√©cnicos do presente, preservando as actuais rela√ß√Ķes de produ√ß√£o. √Č √≥bvio que a apoteose fascista da guerra n√£o recorre a esse argumento. Mas seria instrutivo lan√ßar os olhos sobre a maneira como ela √© formulada. No seu manifesto sobre a guerra colonial da Eti√≥pia, diz Marinetti: ¬ęH√° vinte e sete anos, n√≥s futuristas contestamos a afirma√ß√£o de que a guerra √© antiest√©tica (…) Por isso, dizemos: (…) a guerra √© bela, porque gra√ßas √†s m√°scaras de g√°s, aos megafones assustadores, aos lan√ßa-chamas e aos tanques, funda a supremacia do homem sobre a m√°quina subjugada. A guerra √© bela, porque inaugura a metaliza√ß√£o on√≠rica do corpo humano. A guerra √© bela, porque enriquece um prado florido com as orqu√≠deas de fogo das metralhadoras. A guerra √© bela, porque conjuga numa sinfonia os tiros de fuzil,

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O Intelecto Como Exagero

A beleza, a verdadeira beleza, acaba onde a a express√£o intelectual come√ßa. O intelecto √© j√° uma forma de exagero e destr√≥i a harmonia de qualquer rosto. Assim que nos sentamos a pensar, ficamos s√≥ nariz, ou s√≥ testa, ou uma coisa horr√≠vel do g√©nero. Olha para os homens bem sucedidos em qualquer das profiss√Ķes eruditas. Como s√£o perfeitamente hediondos! A n√£o ser, evidentemente, na Igreja. Mas a verdade √© que na Igreja eles n√£o pensam. Um bispo continua a dizer aos oitenta anos o que lhe mandaram dizer quando era um rapaz de dezoito e, por conseguinte, parece sempre perfeitamente encantador.

O Segredo de Salvar-me Pelo Amor

Quem há aí que possa o cálix
De meus l√°bios apartar?
Quem, nesta vida de penas,
Poder√° mudar as cenas
Que ningu√©m p√īde mudar ?

Quem possui na alma o segredo
De salvar-me pelo amor?
Quem me dar√° gota de √°gua
Nesta angustiosa fr√°gua
De um deserto abrasador?

Se alguém existe na terra
Que tanto possa, és tu só!
Tu só, mulher, que eu adoro,
Quando a Deus piedade imploro,
E a ti peço amor e dó.

Se soubesses que tristeza
Enluta meu coração,
Terias nobre vaidade
Em me dar felicidade,
Que eu busquei no mundo em v√£o.

Busquei-a em tudo na terra,
Tudo na terra mentiu!
Essa estrela carinhosa
Que luz √† inf√Ęncia ditosa
Para mim nunca luziu.

Infeliz desde criança
Nem me foi risonha a fé;
Quando a terra nos maltrata,
Caprichosa, acerba e ingrata,
Céu e esperança nada é.

Pois a ventura busquei-a
No vivo anseio do amor,
Era ardente a minha alma;
Conquistei mais de uma palma
À custa de muita dor.

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O Enigma do Ser Humano

Encontramos uma pessoa que achamos interessante. Tentamos, como se costuma dizer, ¬ęsitu√°-la¬Ľ. (Tenho o h√°bito de fazer isso at√© com os senhores e as senhoras que l√™em as not√≠cias na televis√£o.) Nas nossas recorda√ß√Ķes, procuramos rostos parecidos com o que temos agora diante de n√≥s. O movimento lento das p√°lpebras faz lembrar um orador na Associa√ß√£o de Biologia, as comissuras dos l√°bios s√£o iguais √†s de um docente de Qu√≠mica em Uppsala nos anos cinquenta. Em suma, uma entoa√ß√£o que conhecemos ali, uma express√£o do rosto que recordamos de outro lado, e imaginamos que fic√°mos a compreender. Reconstitu√≠mos o desconhecido com o aux√≠lio do que conhecemos.
O psicanalista no seu consult√≥rio (nem sei se √© assim que se diz, nunca fui a nenhum) faz, em princ√≠pio, o mesmo: associa experi√™ncias, recorda√ß√Ķes, para encontrar as chaves do novo, do desconhecido, com que se confronta.
Mas as pe√ßas que vamos buscar, os factos a que recorremos, esse molho de chaves que s√£o os rostos antes encontrados e que fazemos tilintar na nossa m√£o, √©, tamb√©m ele, o desconhecido. Explicamos um enigma com outro enigma. √Č a mesma coisa que comprar um novo exemplar do mesmo jornal para confirmar uma not√≠cia em que n√£o acreditamos.

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A Poesia

… Quantas obras de arte… J√° n√£o cabem no mundo… Temos de as pendurar fora dos quartos… Quantos livros… Quantos livrecos… Quem ser√° capaz de os ler?… Se fossem comest√≠veis… Se numa panela de grande calado os fiz√©ssemos em salada, os pic√°ssemos, os alinh√°ssemos… J√° n√£o se pode mais… Estamos at√© ao pesco√ßo… O mundo afoga-se na mar√©… Reverdy dizia-me: ¬ęAvisei o correio para que n√£o me trouxesse mais livros… N√£o poderia abri-los. N√£o tenho espa√ßo. Trepam pelas paredes, temi uma cat√°strofe, ruiriam em cima da minha cabe√ßa¬Ľ… Todos conhecem Eliot… Antes de ser pintor, de dirigir teatros, de escrever luminosas cr√≠ticas, lia os meus versos… Sentia-me lisonjeado… Ningu√©m os compreendia melhor… At√© que um dia come√ßou a ler-me os seus e eu, egoisticamente, corri a protestar: ¬ęN√£o mos leia, n√£o mos leia¬Ľ… Fechei-me no quarto de banho, mas Eliot, atrav√©s da porta, lia-mos… Fiquei muito triste… O poeta Frazer, da Esc√≥cia, estava presente… Increpou-me: ¬ęPorque tratas assim Eliot?¬Ľ… Respondi: ¬ęN√£o quero perder o meu leitor. Cultivei-o. Conhece at√© as rugas da minha poesia… Tem tanto talento… Pode fazer quadros… Pode escrever ensaios… Mas eu quero manter este leitor, conserv√°-lo, reg√°-lo como planta ex√≥tica… Compreendes-me, Frazer?¬Ľ… Porque a verdade, se isto continua,

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O Governo Mundial

Pode evitar-se a guerra por algum tempo por meio de paliativos, expedientes ou uma diplomacia subtil, mas tudo isso √© prec√°rio, e enquanto durar o nosso sistema pol√≠tico actual, pode ser considerado como quase certo que grandes conflitos h√£o-de surgir de vez em quando. Isso acontecer√° inevitavelmente enquanto houver diferentes Esados soberanos, cada um com as suas for√ßas armadas e juiz supremo dos seus pr√≥prios direitos em qualquer disputa. H√° somente um meio de o mundo poder libertar-se da guerra, √© a cria√ß√£o de uma autoridade mundial √ļnica, que possua o monop√≥lio de todas as armas mais perigosas.

Para que um governo mundial pudesse evitar graves conflitos, seria indispens√°vel possuir um m√≠nimo de poderes. Em primeiro lugar precisava de ter o monop√≥lio de todas as principais armas de guerra e as for√ßas armadas necess√°rias para o seu emprego. Devia tamb√©m tomar as precau√ß√Ķes indispens√°veis, quaisquer que fossem, para assegurar, em todas as circunst√Ęncias, a lealdade dessas for√ßas ao governo central.

O governo mundial tinha de formular, portanto, certas regras relativas ao emprego das suas for√ßas armadas. A mais importante determinaria que, em qualquer conflito entre dois Estados. cada um tinha de se submeter √†s decis√Ķes da autoridade mundial.

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Eleve os Seus Padr√Ķes

Sempre que queira realmente fazer uma mudan√ßa, a primeira coisa que deve fazer √© elevar os seus padr√Ķes. Quando as pessoas me perguntam o que realmente mudou a minha vida h√° oito anos, eu digo-lhes que a coisa mais importante foi mudar o que exigia de mim mesmo. Tomei nota de todas as coisas que j√° n√£o queria aceitar na minha vida, de todas as coisas que eu j√° n√£o toleraria, e de todas as coisas que eu aspirava a ser.

Pense nas consequ√™ncias de longo alcance postas em movimento por homens e mulheres que elevaram os seus padr√Ķes e agiram de acordo com eles, decidindo que n√£o tolerariam menos. A hist√≥ria narra os exemplos inspiradores de pessoas como Leonardo da Vinci, Abraham Lincoln, Helen Keller, Mahatma Gandhi, Martin Luther King, Jr., Rosa Parks, Albert Einstein, C√©sar Ch√°vez, Soichiro Honda, e muitos outros que deram o passo magnificamente poderoso de elevar os seus padr√Ķes. O mesmo poder que estava ao dispor deles est√° ao seu dispor, se tiver a coragem de o reivindicar. Mudar uma organiza√ß√£o, uma empresa, um pa√≠s – ou um mundo – come√ßa com o simples passo de voc√™ pr√≥prio mudar.

Tudo Se Me Evapora

Tudo se me evapora. A minha vida inteira, as minhas recorda√ß√Ķes, a minha imagina√ß√£o e o que cont√©m, a minha personalidade, tudo se me evapora. Continuamente sinto que fui outro, que pensei outro. Aquilo a que assisto √© um espect√°culo com outro cen√°rio. E aquilo a que assisto sou eu.
Encontro às vezes, na confusão vulgar das minhas gavetas literárias, papéis escritos por mim há dez anos, há quinze anos, há mais anos talvez. E muitos deles me parecem de um estranho; desconheço-me deles. Houve quem os escrevesse, e fui eu. Senti-os eu, mas foi como em outra vida, de que houvesse agora despertado como de um sono alheio.

N√£o H√° Amor como o Primeiro

N√£o h√° amor como o primeiro. Mais tarde, quando se deixa de crescer, h√° o equivalente adulto ao primeiro amor ‚ÄĒ √© o primeiro casamento; mas n√£o √© igual. O primeiro amor √© uma chapada, um sacudir das ra√≠zes adormecidas dos cabelos, uma voragem que nos come as entranhas e n√£o nos explica. Electrifica-nos a capacidade de poder amar. Ardem-nos as √≥rbitas dos olhos, do impens√°vel calor de podermos ser amados. Atiramo-nos ao nosso primeiro amor sem pensar onde vamos cair ou de onde salt√°mos. Saltamos e ca√≠mos. Enchemos o peito de ar, seguramos as narinas com os dedos a fazer de mola de roupa, juramos fazer tr√™s ou quatro mortais de costas, e estatelamo-nos na √°gua ou no ch√£o, como patos disparados de um obus, com penas a esvoa√ßar por toda a parte.

H√° amores melhores, mas s√£o amores cansados, amores que j√° levaram na cabe√ßa, amores que sabem dizer ‚ÄúAlto-e-p√°ra-o-baile‚ÄĚ, amores que j√° d√£o o desconto, amores que j√° t√™m medo de se magoarem, amores democr√°ticos, que se discutem e debatem. E todos os amores d√£o maior prazer que o primeiro. O primeiro amor est√° para al√©m das categorias normais da dor e do prazer. N√£o faz sentido sequer.

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Caminhamos Todos para a Eternidade

Influência da brevidade do tempo sobre os trabalhos dos homens: suponde que um astrónomo demonstrasse geometricamente que daqui a mil anos um planeta no seu percurso cortará a órbita terrestre precisamente no momento e no ponto em que a terra ali se encontrar e que a destruição da terra será a consequência dessa enorme colisão; o langor irá então apoderar-se de todas as actividades; não haverá mais ambição, monumentos, poetas, historiadores e talvez tampouco guerreiros ou guerras. Cada um cultivará o seu jardim e plantará as suas couves. Sem desconfiarmos, caminhamos todos para a eternidade.