Textos sobre Afeto

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Textos de afeto escritos por poetas consagrados, filósofos e outros autores famosos. Conheça estes e outros temas em Poetris.

Desprezo e Receio

J√° notei que a maior parte dos homens se sente a√ßulada e indignada quando, em pleno combate moral, recorremos √† ternura e ao afecto. √Č v√™-los feras amansadas e apanhadas de surpresa assim que recorremos √† viol√™ncia ou √† dureza. Ra√ßa detest√°vel! Tal preceito mant√©m-se praticamente inalter√°vel no que respeita ao amor.
Realidade estranha e deplorável, pois, em muitos casos, é igualmente aplicável à amizade; realidade pavorosa, desesperante, mas inevitável, necessária à subsistência das nossas sociedades, dos governos mais democráticos aos mais despóticos. Quando não é refreado nem reprimido, o homem aproveita imediatamente para cometer abusos. Despreza quem o receia e maltrata quem o ama; receia quem o despreza e ama quem o maltrata.

Este Amor Infinito e Imaculado

Querida, o teu viver era um letargo,
Nenhuma aspiração te atormentava;
Afeita j√° do jugo ao duro cargo,
Teu peito nem sequer desafogava.
Fui eu que te apontei um mundo largo
De novas sensa√ß√Ķes; teu peito ansiava
Ouvindo-me contar entre caricias,
Do livre e ardente amor tantas delicias!

N√£o te mentia, n√£o. Sentiste-o, filha,
Esse amor infinito e imaculado,
Estrela maga que incessante brilha
Da alma pura ao casto amor sagrado;
Afecto nobre que jamais partilha
O coracão de vícios ulcerado.
N√£o sentes, nem recordas, j√° sequer?
Quem deste amor te despenhou, mulher ?

Eu n√£o! Se muitos crimes me desluzem,
Se p√īde transviar-me o seu encanto,
Ao menos uma só não me recusem,
Uma virtude só: amar-te tanto!
Embora inj√ļrias contra mim se cruzem,
Cuspindo insultos neste amor t√£o santo,
Diz tu quem fui, quem sou, e se é verdade
O opróbrio aviltador da sociedade.

A Capacidade de Adaptação dos Portugueses

Os observadores estrangeiros maravilham-se de que Portugal resista √† crise pol√≠tica e econ√≥mica com tal poder de adapta√ß√£o. H√° nos Portugueses uma sinceridade para com o imediato que desconcerta o panorama que transcende o imediato. O infinito √© o que eu situo – dizem. E assim vivem. Protegidos talvez por essa condi√ß√£o de afecto pelas coisas, pelos seus pr√≥prios delitos, que n√£o consideram dram√°ticos, s√≥ ao jeito das necessidades. De resto ‚ÄĒ quem se apresenta a salvar-nos que n√£o esteja suspeitamente indignado? Os que muito se formalizam muito escondem; os que acusam demasiado privam-se de ser leais consigo pr√≥prios. O pa√≠s n√£o precisa de quem diga o que est√° errado; precisa de quem saiba o que est√° certo.

N√£o h√° Felicidade Solit√°ria

√Č a fraqueza do homem que o torna soci√°vel; s√£o as nossas mi¬≠s√©rias comuns que levam os nossos cora√ß√Ķes a interessar-se pela humanidade: n√£o lhe dever√≠amos nada, se n√£o f√īssemos homens. Todos os afectos s√£o ind√≠cios de insufici√™ncia: se cada um de n√≥s n√£o tivesse necessidade dos outros, nunca pensaria em unir-se a eles. Assim, da nossa pr√≥pria enfermidade, nasce a nossa fr√°gil fe¬≠licidade. Um ser verdadeiramente feliz √© um ser solit√°rio; s√≥ Deus goza de uma felicidade absoluta; mas qual de n√≥s faz uma ideia do que isso seja? Se algum ser imperfeito se pudesse bastar a si mes¬≠mo, de que desfrutaria ele, na nossa opini√£o? Estaria s√≥, seria mi¬≠ser√°vel. N√£o posso acreditar que aquele que n√£o precisa de nada possa amar alguma coisa: n√£o acredito que aquele que n√£o ama na¬≠da se possa sentir feliz.

Rentabilizar o Tempo

Sempre que damos algo como adquirido deixamos de sentir a plenitude, abdicamos da ess√™ncia e acabamos por nos esquecer do ¬ęAgora¬Ľ, o √ļnico momento de a√ß√£o que temos e que √© verdadeiramente real. O que pretendo afirmar com estas linhas √© t√£o simples como isto: o facto de sabermos do fim aproxima-nos de tudo o que realmente vale a pena e nada √© mais imponente que a natureza, as pessoas e os afetos. Nada √© mais importante que a forma como escolhemos rentabilizar o tempo finito que temos. Damos mais valor √† vida quando temos a certeza absoluta que vamos morrer e quanto mais cedo adquirirmos essa consci√™ncia, mais sentimos, mais nos damos, mais sabemos receber, mais arriscamos, mais desfrutamos, mais celebramos, mais inspiramos e, por conseguinte, mais felizes somos tamb√©m.

A Pluralidade Humana

A pluridade humana, condi√ß√£o b√°sica da ac√ß√£o e do discurso, tem o duplo aspecto da igualdade e diferen√ßa. Se n√£o fossem iguais, os homens seriam incapazes de compreender-se entre si e aos seus antepassados, ou de fazer planos para o futuro e prever as necessidades das gera√ß√Ķes vindouras. Se n√£o fossem diferentes, se cada ser humano n√£o diferisse de todos os que existiram, existem ou vir√£o a existir, os homens n√£o precisariam do discurso ou da ac√ß√£o para se fazerem entender. Com simples sinais e sons poderiam comunicar as suas necessidades imediatas e id√™nticas.
Ser diferente n√£o equivale a ser outro – ou seja, n√£o equivale a possuir essa curiosa qualidade de ¬ęalteridade¬Ľ, comum a tudo o que existe e que, para a filosofia medieval, √© uma das quatro caracter√≠sticas b√°sicas e universais que transcendem todas as qualidades particulares. A alteridade √©, sem d√ļvida, um aspecto importante da pluralidade; √© a raz√£o pela qual todas as nossas defini√ß√Ķes s√£o distin√ß√Ķes e o motivo pelo qual n√£o podemos dizer o que uma coisa √© sem a distinguir de outra.
Na sua forma mais abstracta, a alteridade est√° apenas presente na mera multiplica√ß√£o de objectos inorg√Ęnicos, ao passo que toda a vida org√Ęnica j√° exibe varia√ß√Ķes e diferen√ßas,

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A Minha Família é a Minha Casa

A solid√£o absoluta √© n√£o ter ningu√©m a quem dizer um simples: ‚Äútenho vontade de chorar‚ÄĚ. N√£o precisamos de muito para viver bem ‚Äď para ser feliz basta uma fam√≠lia e pouco mais.

A fam√≠lia √© a casa e a paz. O ref√ļgio onde uma vontade de chorar n√£o √© motivo de julgamento, apenas e s√≥ uma necessidade s√ļbita de… fam√≠lia. De um equil√≠brio para o qual o outro √© essencial… assim tamb√©m se passa com a vontade de sorrir que, em fam√≠lia, se contagia apenas pelo olhar.

Nos dias de hoje vai sendo cada vez mais dif√≠cil encontrar gente capaz de ser fam√≠lia. Os ego√≠smos abundam e cultiva-se, sozinho, o individual. Como se n√£o houvesse espa√ßo para o amor. Dizem que amar √© arriscado, que √© coisa de loucos…
Todos temos sentimentos mais profundos. Cada um de n√≥s √© uma unidade, mas o que somos passa por sermos mais do que um. Parte de unidades maiores. Estamos com quem amamos e quem amamos tamb√©m est√°, de alguma forma, connosco. O amor √© o que existe entre n√≥s e nos enla√ßa os sentimentos mais profundos. Onde uma vontade de chorar √© um sinal de que h√° algo em mim que √© maior do que eu…

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O Bem e o Mal

Quando os acontecimentos nos colocam em oposi√ß√£o ao meio envolvente, todos desenvolvemos as for√ßas de que dispomos, ao passo que nas situa√ß√Ķes em que apenas fazemos o nosso dever nos comportamos, compreensivelmente, como quem paga os seus impostos. Daqui se conclui que tudo o que √© mau se pratica com mais ou menos imagina√ß√£o e paix√£o, enquanto o bem se caracteriza por uma inconfund√≠vel pobreza de afecto e mesquinhez.
(…) Se abstrairmos daquela grande fatia central do mundo e da vida ocupada por pessoas em cujo pensamento as palavras bem e mal deixaram de ter lugar desde que largaram as saias da m√£e, ent√£o as margens, onde ainda h√° prop√≥sitos morais deliberados, ficam hoje reservadas √†quelas pessoas boas-m√°s ou m√°s-boas, das quais algumas nunca viram o bem voar nem o ouviram cantar e por isso exigem de todas as outras que se extasiem com elas diante de uma natureza da moral com p√°ssaros empalhados pousados em √°rvores mortas; o segundo grupo, por seu lado, os mortais maus-bons, espica√ßados pelos seus rivais, manifestam, pelo menos em pensamento, uma tend√™ncia para o mal, como se estivessem convencidos de que √© apenas nas m√°s ac√ß√Ķes, menos desgastadas do que as boas, que ainda pulsa alguma vida moral.

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Possuir-te é Gozar de um Tesouro Infinito

Que suprema felicidade foi hoje a minha, querida desta alma! Como tu estavas, linda, terna, amante, encantadora! Nunca te vi assim, nunca me pareceste t√£o bela! Que deliciosa variedade h√° em ti, minha Rosa adorada! Possuir-te √© gozar de um tesouro infinito, inesgot√°vel. Juro-te que j√° n√£o tenho m√©rito em te ser fiel, em te protestar e guardar esta lealdade exclusiva que te hei-de consagrar at√© ao √ļltimo instante da minha vida: n√£o tenho m√©rito algum nisso. Depois de ti, toda a mulher √© imposs√≠vel para mim, que antes de ti n√£o conheci nenhuma que me pudesse fixar.

E o que eu te estimo e aprecio al√©m disso. A ternura de alma verdadeira que tenho por ti. Onde estavam no meu cora√ß√£o estes afectos que nunca senti, que s√≥ tu despertaste e que d√£o √† minha alma um bem-estar t√£o suave? Realmente que te devo muito, que me fizeste melhor, outro do que nunca fui. O que sinto por ti √© inexplic√°vel. Bem me dizias tu que em te conhecendo te havia de adorar deveras. √Č certo, assim foi, e estou agora seguro deste amor, porque repousa em bases t√£o s√≥lidas que j√° nada creio que o possa destruir.

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A Necessidade da Compaix√£o

Arrebatavam-me os espect√°culos teatrais, cheios de imagens das minhas mis√©rias e de alimento pr√≥prio para o fogo das minhas paix√Ķes. Mas porque quer o homem condoer-se, quando presenceia cenas dolorosas e tr√°gicas, se de modo algum deseja suport√°-las? Todavia, o espectador anseia por sentir esse sofrimento que, afinal, para ele constitui um prazer. Que √© isto sen√£o rematada loucura? Com efeito, tanto mais cada um se comove com tais cenas quanto menos curado se acha de tais afectos (delet√©rios). Mas ao sofrimento pr√≥prio chamamos ordinariamente desgra√ßa, e √† comparticipa√ß√£o das dores alheias, compaix√£o. Que compaix√£o √© essa em assuntos fict√≠cios e c√©nicos, se n√£o induz o espectador a prestar aux√≠lio, mas somente o convida √† ang√ļstia e a comprazer o dramaturgo na propor√ß√£o da dor que experimenta? E se aquelas trag√©dias humanas, antigas ou fingidas, se representam de modo a n√£o excitarem a compaix√£o, e espectador retira-se enfastiado e criticando. Pelo contr√°rio, se se comove, permanece atento e chora de satisfa√ß√£o.
Amamos, portanto, as l√°grimas e as dores. Mas todo o homem deseja o gozo. Ora, ainda que a ningu√©m apraz ser desgra√ßado, apraz-nos contudo a ser compadecidos. N√£o gostaremos n√≥s dessas emo√ß√Ķes dolorosas pelo √ļnico motivo de que a compaix√£o √© companheira insepar√°vel da dor?

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Ver Correr a Esperança

De bru√ßos sobre o lavat√≥rio, abro a torneira, tapo o ralo, fico alguns momentos a ver correr a esperan√ßa, que vai enchendo aos poucos a bacia. Depois fecho a torneira e, retirando a tampa, vejo-a escoar-se em gorgolejos que cada vez s√£o mais humanos e mais fundos. √Č a respira√ß√£o do ralo, que s√≥ ent√£o dou conta de que est√° dentro de mim, por uma dessas distor√ß√Ķes a que √© costume eu ser atreito e que me impede ainda de me ver no pr√≥prio espelho, que, apesar de se encontrar √† minha frente, n√£o consigo deslocar do avesso dos meus olhos.

Os meus sentidos rangem, solid√°rios com os canos, eles que eu gostaria de poder assimilar ao mar, a um c√©u azul, desanuviado, e que jamais me d√£o do esp√≠rito vis√Ķes onde n√£o se encastoem nuvens e rebentem tempestades.

Repito a operação. Mergulho às vezes as mãos na minha esperança, mas retiro-as ao cabo de algum tempo, antes que se transformem em raízes. Destapo uma vez mais o ralo. Assim corre a amizade Рpenso, olhando o redemoinho -, assim correm os afectos, que, depois de encherem a bacia onde a custo nos lavamos sem os fazermos transbordar,

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A Dor e o Tédio São os Dois Maiores Inimigos da Felicidade

O panorama mais amplo mostra-nos a dor e o t√©dio como os dois inimigos da felicidade humana. Observe-se ainda: √† medida que conseguimos afastar-nos de um, mais nos aproximamos do outro, e vice-versa; de modo que a nossa vida, na realidade, exp√Ķe uma oscila√ß√£o mais forte ou mais fraca entre ambos. Isso origina-se do facto de eles se encontrarem reciprocamente num antagonismo duplo, ou seja, um antagonismo exterior ou oubjectivo, e outro interior e subjectivo. De facto, exteriormente, a necessidade e a priva√ß√£o geram a dor; em contrapartida, a seguran√ßa e a abund√Ęncia geram o t√©dio. Em conformidade com isso, vemos a classe inferior do povo numa luta constante contra a necessidade, portanto contra a dor; o mundo rico e aristocr√°tico, pelo contr√°rio, numa luta persistente, muitas vezes realmente desesperada contra o t√©dio. O antagonismo interior ou subjectivo entre ambos os sofrimentos baseia-se no facto de que, em cada indiv√≠duo, a susceptibilidade para um encontra-se em propor√ß√£o inversa √† susceptibilidade para o outro, j√° que ela √© determinada pela medida das suas for√ßas espirituais. Com efeito, a obtusidade do esp√≠rito est√°, em geral, associada √† da sensa√ß√£o e √† aus√™ncia da excitabilidade, qualidades que tornam o indiv√≠duo menos suscept√≠vel √†s dores e afli√ß√Ķes de qualquer tipo e intensidade.

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N√£o se Render a um Humor Vulgar

Grande homem √© o que nunca se submete a impress√Ķes passageiras. √Č li√ß√£o de advert√™ncia a reflex√£o sobre si; conhecer a sua real disposi√ß√£o e preveni-la, e ainda ponderar sobre o outro extremo para achar, entre o natural e o artificial, o fiel da sind√©rese. O princ√≠pio de corrigir-se √© o conhecer-se, pois h√° monstros de impertin√™ncia: sempre est√£o de algum humor, variando com eles os seus afectos; e, arrastados eternamente por essa destemperan√ßa civil, empenham-se de modos contradit√≥rios; e n√£o s√≥ esse excesso arru√≠na a vontade como tamb√©m afronta o ju√≠zo, alterando o querer e o entender.

O Segredo de Salvar-me Pelo Amor

Quem há aí que possa o cálix
De meus l√°bios apartar?
Quem, nesta vida de penas,
Poder√° mudar as cenas
Que ningu√©m p√īde mudar ?

Quem possui na alma o segredo
De salvar-me pelo amor?
Quem me dar√° gota de √°gua
Nesta angustiosa fr√°gua
De um deserto abrasador?

Se alguém existe na terra
Que tanto possa, és tu só!
Tu só, mulher, que eu adoro,
Quando a Deus piedade imploro,
E a ti peço amor e dó.

Se soubesses que tristeza
Enluta meu coração,
Terias nobre vaidade
Em me dar felicidade,
Que eu busquei no mundo em v√£o.

Busquei-a em tudo na terra,
Tudo na terra mentiu!
Essa estrela carinhosa
Que luz √† inf√Ęncia ditosa
Para mim nunca luziu.

Infeliz desde criança
Nem me foi risonha a fé;
Quando a terra nos maltrata,
Caprichosa, acerba e ingrata,
Céu e esperança nada é.

Pois a ventura busquei-a
No vivo anseio do amor,
Era ardente a minha alma;
Conquistei mais de uma palma
À custa de muita dor.

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Amar ou Ser Amado?

Que √© o que mais deseja e mais estima o amor: ver-se conhecido ou ver-se pago? √Č certo que o amor n√£o pode ser pago, sem ser primeiro conhecido; mas pode ser conhecido, sem ser pago. E considerando divididos estes dois termos, n√£o h√° d√ļvida que mais estima o amor e melhor lhe est√° ver-se conhecido que pago. Porque o que o amor mais pretende, √© obrigar; o conhecimento obriga, a paga desempenha. Logo muito melhor lhe est√° ao amor ver-se conhecido que pago; porque o conhecimento aperta as obriga√ß√Ķes, a paga e o desempenho desata-as. O conhecimento √© satisfa√ß√£o do amor pr√≥prio; a paga √© satisfa√ß√£o do amor alheio. Na satisfa√ß√£o do que o amor recebe, pode ser o afecto interessado; na satisfa√ß√£o do que comunica, n√£o pode ser sen√£o liberal. Logo, mais deve estimar o amor ter segura no conhecimento a satisfa√ß√£o da sua liberalidade, que ver duvidosa na paga a fidalguia do seu desinteresse. O mais seguro cr√©dito de quem ama, √© a confiss√£o da d√≠vida no amado; mas como h√°-de confessar a d√≠vida, quem a n√£o conhece? Mais lhe importa logo ao amor o conhecimento que a paga; porque a sua maior riqueza √© ter sempre individado a quem ama.

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Fazer as Pazes

Para fazer as pazes √© preciso haver uma guerra. Mas, quando n√£o h√° uma guerra ou s√≥ a suspeita, ou ci√ļme, de haver uma amea√ßa, ou uma desaten√ß√£o, de a paz que encanta e apaixona, se tornar num h√°bito, as pazes ficam feitas e celebra-se essa felicidade.
O conflito e a diferen√ßa de personalidades – a identidade pessoal de cada um e quanto estamos dispostos a sacrificarmo-nos por defend√™-la – s√£o grossamente exagerados. √Č a necessidade de se achar que se √© diferente – nos afectos, nas necessidades – que provoca todos os mal-entendidos e a maior parte das infelicidades.
Muito ganharíamos Рse perdêssemos só o que temos de perder e amargar -, se partíssemos do princípio que somos todos iguais, homens e mulheres, eu e tu, eles e nós. E que é o pouco que nos diferencia e distancia, por muito caro que nos saia, que consegue o milagre de tornarmo-nos mais atraentes uns aos outros.
As guerras imaginadas são mil vezes melhores do que as verdadeiras. A ilusão da diferença (de personalidades, sexos, sexualidades, culturas Рe tudo o mais que arranjamos para chegar à ficção vaidosa que cada um é como é) passou a ser o que apreciamos ser a nossa nociva e dispensável individualidade.

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O Verdadeiro Gesto de Amor

Aquilo que de verdadeiramente significativo podemos dar a alguém é o que nunca demos a outra pessoa, porque nasceu e se inventou por obra do afecto. O gesto mais amoroso deixa de o ser se, mesmo bem sentido, representa a repetição de incontáveis gestos anteriores numa situação semelhante. O amor é a invenção de tudo, uma originalidade inesgotável. Fundamentalmente, uma inocência.

O Segredo das Mulheres

Como os homens andam sempre atrasados em relação às mulheres (porque só pensam numa coisa de cada vez e acham que falar acerca das coisas é pior do que fazê-las), quem sabe se não é estudando o comportamento feminino de hoje que poderemos vislumbrar o nosso macaquismo masculino de amanhã?
As mulheres de hoje sabem quem lhes pode fazer mal: são as outras mulheres. Os homens, por muito amados e queridos, nem sequer são considerados competidores. São como são, têm a inteligência e o material que têm Рe que Deus os abençoe por ser assim, como os pêssegos-rosa e os arcos-íris e todos os outros fenómenos naturais que são difíceis de prever e de controlar.

O segredo das mulheres, que nenhum homem pode perceber, a n√£o ser que seja amado por alguma que se sinta suficientemente amada por um para lhe contar mais do que o suficiente para ele continuar a existir tal como √© (que mais n√£o se lhe pede) √©: os homens n√£o entram na equa√ß√£o. √Č tudo uma quest√£o entre elas.
Elas s√£o espertas. √Č por isso que morrem de medo umas das outras. Conhecem o perigo e sabem quem pode emperig√°-las.

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Toda a Comunidade nos Torna Vulgares

Viver com uma imensa e orgulhosa calma; sempre para al√©m. – Ter e n√£o ter, arbitrariamente, os seus afectos, o seu pr√≥ e contra, condescender com eles por umas horas; montar sobre eles como em cavalos, frequentemente como em burros; – √© que se deve saber aproveitar a sua estupidez tal como a sua fogosidade. Conservar os seus trezentos primeiros planos; tamb√©m os √≥culos escuros; pois h√° casos em que ningu√©m nos deve olhar nos olhos e muito menos ainda nas nossas ¬ęraz√Ķes¬Ľ. E escolher, para companhia, aquele v√≠cio matreiro e sereno, a cortesia. E ficar senhor das suas quatro virtudes, a coragem, a perspic√°cia, a simpatia, a solid√£o. Pois a solid√£o √© entre n√≥s uma virtude, como tend√™ncia e impulso sublimes do asseio que adivinha como, no contacto de homem para homem – ¬ęem sociedade¬Ľ – tudo √©, inevitavelmente, sujo, Toda a comunidade nos torna de qualquer modo, em qualquer parte, em qualquer altura – ¬ęvulgares¬Ľ.

Para a Psicologia do Artista

Para que haja arte, para que haja alguma ac√ß√£o e contempla√ß√£o est√©ticas, torna-se indispens√°vel uma condi√ß√£o fisiol√≥gica pr√©via: a embriaguez. A embriaguez tem de intensificar primeiro a excitabilidade da m√°quina inteira: antes disto n√£o acontece arte alguma. Todos os tipos de embriaguez, por muito diferentes que sejam os seus condicionamentos, t√™m a for√ßa de conseguir isto: sobretudo a embriaguez da excita√ß√£o sexual, que √© a forma mais antiga e origin√°ria de embriaguez. Tamb√©m a embriaguez que se segue a todos os grandes apetites, a todos os afectos fortes; a embriaguez da festa, da rivalidade, do feito temer√°rio, da vit√≥ria, de todo o movimento extremo; a embriaguez da crueldade; a embriaguez da destrui√ß√£o; a embriaguez resultante de certos influxos meteorol√≥gicos, por exemplo a embriaguez primaveril; ou a devida ao influxo dos narc√≥ticos; por fim, a embriaguez da vontade, a embriaguez de uma vontade sobrecarregada e dilatada. ‚ÄĒ O essencial na embriaguez √© o sentimento de plenitude e de intensifica√ß√£o das for√ßas. Deste sentimento fazemos part√≠cipes as coisas, contragemo-las a que participem de n√≥s, violentamo-las, ‚ÄĒ idealizar √© o nome que se d√° a esse processo. Libertemo-nos aqui de um preconceito: o idealizar n√£o consiste, como se cr√™ comummente, num subtrair ou diminuir o pequeno,

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