CitaçÔes de Luís Miguel Nava

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Frases, pensamentos e outras citaçÔes de Luís Miguel Nava para ler e compartilhar. Os melhores escritores estão em Poetris.

Sem outro Intuito

AtirĂĄvamos pedras
Ă  ĂĄgua para o silĂȘncio vir Ă  tona.
O mundo, que os sentidos tonificam,
surgia-nos entĂŁo todo enterrado
na nossa prĂłpria carne, envolto
por vezes em ferozes transparĂȘncias
que as pedras acirravam
sem outro intuito além do de extraírem
Ă s ĂĄguas o silĂȘncio que as unia.

O Grito

Corria pela rua acima quando a sĂșbita explosĂŁo dum grito o fez parar instantaneamente. Todo o seu corpo estremeceu. O que ele desde sempre receara acabara de ocorrer: algures, nesse momento, uma caneta começara a deslizar sobre uma folha de papel, dando assim corpo Ă quele grito que de hĂĄ muito, como as esculturas no interior da pedra, se mantinha na expectativa desse simples gesto dum escritor para atingir a realidade. Tapou os ouvidos com as mĂŁos. O grito mais nĂŁo era que um sinal, mas o que esse sinal lhe transmitia deixava-o aterrado. Acabara de ser posta a funcionar uma engrenagem que a partir de agora nada nem ninguĂ©m, e muito menos ele, iria alguma vez poder travar, um mecanismo de que ele prĂłprio iria inapelavelmente ser a maior vĂ­tima. Mais tarde ou mais cedo isso teria de se dar, mas agora que, sem qualquer aviso prĂ©vio, se soubera propulsado para outra dimensĂŁo da sua vida, como se os fios que a governavam tivessem repentinamente mudado de mĂŁos, o facto de hĂĄ longo tempo o pressentir nĂŁo o impediu de olhar Ă  sua volta com estranheza, uma estranheza que antes de mais nascia de tudo Ă  primeira vista ter ficado como estava,

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Falésias

Poder-me-ĂŁo encontrar, trago um rapaz na minha
memĂłria, a casa a uma janela
da qual ele vem como um sabor Ă  boca,
falĂ©sias onde o aguardo Ă  hora do crepĂșsculo.

Regresso assim ao mar de que nĂŁo posso
falar sem recorrer ao fogo e as tempestades
ao longe multiplicam-nos os passos.
Onde eu nĂŁo sonhe a solidĂŁo fĂĄ-lo por mim.

O Uivo

Quando um cĂŁo uiva Ă© como se o fizesse do interior dos nossos ossos e os pusesse Ă  mostra, os confundisse com aquilo que nos cerca, de algum modo entĂŁo o nosso esqueleto integra o pĂĄtio, a roupa branca pendurada, a pilha de tijolos, hĂĄ entre tudo isso e os nossos ossos uma afinidade a que somente o cĂŁo, como se o mar todo lhe pesasse na garganta, empresta nitidez.

Ver Correr a Esperança

De bruços sobre o lavatĂłrio, abro a torneira, tapo o ralo, fico alguns momentos a ver correr a esperança, que vai enchendo aos poucos a bacia. Depois fecho a torneira e, retirando a tampa, vejo-a escoar-se em gorgolejos que cada vez sĂŁo mais humanos e mais fundos. É a respiração do ralo, que sĂł entĂŁo dou conta de que estĂĄ dentro de mim, por uma dessas distorçÔes a que Ă© costume eu ser atreito e que me impede ainda de me ver no prĂłprio espelho, que, apesar de se encontrar Ă  minha frente, nĂŁo consigo deslocar do avesso dos meus olhos.

Os meus sentidos rangem, solidårios com os canos, eles que eu gostaria de poder assimilar ao mar, a um céu azul, desanuviado, e que jamais me dão do espírito visÔes onde não se encastoem nuvens e rebentem tempestades.

Repito a operação. Mergulho Ă s vezes as mĂŁos na minha esperança, mas retiro-as ao cabo de algum tempo, antes que se transformem em raĂ­zes. Destapo uma vez mais o ralo. Assim corre a amizade – penso, olhando o redemoinho -, assim correm os afectos, que, depois de encherem a bacia onde a custo nos lavamos sem os fazermos transbordar,

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Paisagem Citadina

A pele por fulgurantes
instantes muitas vezes abre-se até onde
seria impensĂĄvel que exercesse
com tĂŁo grande rigor o seu domĂ­nio.

NĂŁo temos entĂŁo dela senĂŁo rĂĄpidas
visÔes, onde os reclames
do coração se cruzam, solitårios
e agrestes, reflectidos

por trĂĄs nos ossos empedrados.
Em certas posiçÔes vĂȘem-se as cordas
do nosso espírito esticadas num terraço.

A roupa dĂłi-nos porque, embora
nos cubra a pele, Ă© dentro
do espĂ­rito que estĂŁo os tecidos amarrados.