Poemas sobre Longe

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Poemas de longe escritos por poetas consagrados, filósofos e outros autores famosos. Conheça estes e outros temas em Poetris.

Amar-te é Vir de Longe

Amar-te é vir de longe,
descer o rio verde atr√°s de ti,
abrir os braços longos desde os sete
anos sob a latada ao pé do largo,
guardar o cheiro a figos vistos l√°,
a olho nu, ao pé, ao pé de ti,
parar a beber √°gua numa fonte,
um acaso perdido no caminho
onde os vimes me roçam a memória
e te anunciam m√£os e te perfazem;
como se o sino à hora de tocar
j√° fosse o tempo todo badalado,
e a tua boca se abrisse atr√°s do tojo,
e abaixo dos cal√ß√Ķes as pernas nuas
se rasgassem só para o pequeno sangue,
tal o pequeno preço que me pedes.
Atrás da curva estavas, és, serias,
nos muros de granito, nas amoras.
Amar-te era lembrança e profecias,
uma porta j√° feita para abrir,
e encontrar o lar ou m√ļsica lavada
onde, se nasces, vives, duras, moras
‚ÄĒ meu nome exacto e p√£o
no ch√£o das alegrias.

F√°brica

Oh, a poesia de tudo o que é geométrico
e perfeito,
a beleza nova dos maquinismos,
a força secreta das peças
sob o contacto liso e frio dos metais,
a segura confiança

do saber-se que é assim e assim exactamente,
sem lugar a enganos,
tudo matemático e harmónico,
sem nenhum imprevisto, sem nenhuma aventura,
como na cabeça do engenheiro.
Os oper√°rios t√™m nos m√ļsculos, de cor,
os movimentos dia a dia repetidos:

é como se fossem da sua natureza,
longe de toda a vontade e de todo o pensamento;

como se os metais fossem carne do corpo
e as veias se abrissem
àquela vida estranha, dura, implacável
das m√°quinas.

Os motores de tantos mil cavalos
alinhados e seguros de si,
seguros do seu poder;

as articula√ß√Ķes subtis das bielas,
o enlace justo das engrenagens:
a f√°brica, todo um imenso corpo de movimentos
concordantes, dependentes, necess√°rios.

Saudades Trágico-Marítimas

Chora no ritmo do meu sangue, o Mar.
Na praia, de bruços,
fico sonhando, fico-me escutando
o que em mim sonha e lembra e chora alguém;
e oiço nesta alma minha
um longínquo rumor de ladainha,
e soluços,
de al√©m…

Chora no ritmo do meu sangue, o Mar.

São meus Avós rezando,
que andaram navegando e que se foram,
olhando todos os céus;
s√£o eles que em mim choram
seu fundo e longo adeus,
e rezam na √Ęnsia crua dos naufr√°gios;
choram de longe em mim, e eu oiço-os bem,
choram ao longe em mim sinas, press√°gios,
de al√©m, de al√©m…

Chora no ritmo do meu sangue, o Mar.

Naufraguei cem vezes j√°…
Uma, foi na nau S. Bento,
e vi morrer, no tr√°gico tormento,
Dona Leonor de S√°:
vi-a nua, na praia √°spera e feia,
com os olhos implorando
– olhos de esposa e m√£e –
e vi-a, seus cabelos desatando,
cavar a sua cova e enterrar-se na areia.
– E sozinho me fui pela praia al√©m…

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Lisboa perto e longe

Lisboa chora dentro de Lisboa
Lisboa tem pal√°cios sentinelas.
E fecham-se janelas quando voa
nas praças de Lisboa Рbranca e rota
a blusa de seu povo – essa gaivota.

Lisboa tem casernas catedrais
museus cadeias donos muito velhos
palavras de joelhos tribunais.
Parada sobre o cais olhando as √°guas
Lisboa é triste assim cheia de mágoas.

Lisboa tem o sol crucificado
nas armas que em Lisboa est√£o voltadas
contra as m√£os desarmadas – povo armado
de vento revoltado violas astros
Рmeu povo que ninguém verá de rastos.

Lisboa tem o Tejo tem veleiros
e dentro das pris√Ķes tem velas rios
dentro das m√£os navios prisioneiros
ai olhos marinheiros – mar aberto
– com Lisboa t√£o longe em Lisboa t√£o perto.

Lisba é uma palavra dolorosa
Lisboa s√£o seis letras proibidas
seis gaivotas feridas rosa a rosa
Lisboa a desditosa desfolhada
palavra por palavra espada a espada.

Lisboa tem um cravo em cada m√£o
tem camisas que abril desabotoa
mas em maio Lisboa é uma canção
onde h√° versos que s√£o cravos vermelhos
Lisboa que ninguem ver√° de joelhos.

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Inf√Ęncia

Sonhos
enormes como cedros
que é preciso
trazer de longe
aos ombros
para achar
no inverno da memória
este rumor
de lume:
o teu perfume,
lenha
da melancolia.

Poema do Homem Novo

Niels Armstrong p√īs os p√©s na Lua
e a Humanidade saudou nele
o Homem Novo.
No calendário da História sublinhou-se
com espesso traço o memorável feito.

Tudo nele era novo.
Vestia quinze fatos sobrepostos.
Primeiro, sobre a pele, cobrindo-o de alto a baixo,
um colante poroso de rede tricotada
para ventilação e temperatura próprias.
Logo após, outros fatos, e outros e mais outros,
catorze, no total,
de película de nylon
e borracha sintética.
Envolvendo o conjunto, do tronco até aos pés,
na cabeça e nos braços,
confusíssima trama de canais
para circulação dos fluidos necessários,
da água e do oxigénio.

A cobrir tudo, enfim, como um bal√£o ao vento,
um envólucro soprado de tela de alumínio.
Capacete de rosca, de especial fibra de vidro,
auscultadores e microfones,
e, nas m√£os penduradas, tent√°culos programados,
luvas com luz nos dedos.

Numa cama de rede, pendurada
da parede do módulo,
na majestade augusta do silêncio,
dormia o Homem Novo a caminho da Lua.
C√° de longe, na Terra, num borborinho ansioso,

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Memória Consentida

Neste lugar sem tempo nem memória,
nesta luz absoluta ou absurda,
ou só escuridão total, relances há
em que creio, ou se me afigura,
ter tido, alguma vez, passado

com biografia, onde se misturam
datas, nomes, caras, paisagens
que, de t√£o r√°pidas, me deixam
apenas a lembrança agoniada
de n√£o mais poder lembr√°-las.

Sobra, por vezes, um estilhaço
ou fragmento, como o latido
de um c√£o na tarde dolente
e comprida de uma remota inf√Ęncia.
Ou o indistinto murm√ļrio de vozes

junto de um rio que, como as vozes,
n√£o existe j√° quando para ele
volvo, surpreso, o olhar cansado.
Insidiosas, rangem t√°buas no soalho,
ou é o sussurro brando do vento

no zinco ondulado, na fronde umbrosa
dos eucaliptos de perfil no horizonte,
com o mar ao fundo. Que soalho,
de que casa, que vento em que paragens,
onde o mar ao longe que, entrevistos,

os n√£o vejo j√° ou, sequer, recordo
na brevidade do instante cruel?
De que sonho, ou vida, ou espaço de outrem
provêm tais sombras melancólicas,

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A Velhice é um Vento

A velhice é um vento que nos toma
no seu halo feliz de ensombramento.
E em n√≥s dep√Ķe do que se deu √† obra
somente o modo de n√£o sentir o tempo,
sen√£o no ritmo interior de a sombra
passar à transparência do momento.
Mas um momento de que baniram horas
o h√°bito e o jeito de estar vendo
para muito mais longe. Para de onde a obra
surde. E a velhice nos ilumina o vento.

Suma Teológica

N√£o vim de longe, meu amor, nem sossobraram
navios no alto mar, quando nasci.

Nada mudou. Continuaram as guerras;
continuou a subir o preço do pão;
continuaram os poetas, uma vez por outra,
a perguntar por ti.

√Č certo que, ent√£o, imensa gente
envelheceu instant√Ęnea e misteriosamente.

Mas até isso, meu amor, se não sabe ainda
se foi por minha causa,
se por causa de outros que ter√£o nascido
ao mesmo tempo que eu.

Aprendamos, Amor

Aprendamos, amor, com estes montes
Que, t√£o longe do mar, sabem o jeito
De banhar no azul dos horizontes.

Façamos o que é certo e de direito:
Dos desejos ocultos outras fontes
E desçamos ao mar do nosso leito.

As Profecias

(fragmentos)

I

depois de tudo
minha casa permanecer√° nos fundos

minguantes novos
cidades mortas
ruas desconhecidas

barcos de vento
perdidos sons

foi l√° que brinquei de longe
e perdi-me de mim
foi l√° a primeira tosquia
quando me tiraram tudo

nem o leque
para afugentar a maturação
nem a haste
para defender-me das feras
nem o silêncio
para vestir-me no esquecimento

depois de tudo
minha casa permanecer√° nos fundos

foi l√° que brinquei de longe
e me perdi de mim

II

A flor abre-se em terra
para o forte a ser nosso.

Perto estamos
dos rios coagulados
de mel colhido aos tempos.
Perto estamos
da nocturna fé de ser impuro
benvinda das lonjuras.

Perto estamos dos infantes campos
junto ao longe tranquilo de viver.
Ouvi, solit√°rias meninas, solit√°rios meninos:
o vento ch√£o que varre os prados
onde somos horizontais,
afinal.

III

Trago a palma na m√£o, aqui estou,

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Ilumina-se a Igreja por Dentro da Chuva

Ilumina-se a igreja por dentro da chuva deste dia,
E cada vela que se acende √© mais chuva a bater na vidra√ßa…

Alegra-me ouvir a chuva porque ela é o templo estar aceso,
E as vidra√ßas da igreja vistas de fora s√£o o som da chuva ouvido por dentro …

O esplendor do altar-mor é o eu não poder quase ver os montes
Atrav√©s da chuva que √© ouro t√£o solene na toalha do altar…

Soa o canto do coro, latino e vento a sacudir-me a vidraça
E sente-se chiar a √°gua no fato de haver coro…

A missa é um automóvel que passa
Atrav√©s dos fi√©is que se ajoelham em hoje ser um dia triste…
S√ļbito vento sacode em esplendor maior
A festa da catedral e o ruído da chuva absorve tudo
Até só se ouvir a voz do padre água perder-se ao longe
Com o som de rodas de autom√≥vel…

E apagam-se as luzes da igreja
Na chuva que cessa …

Natal

Que nos trazes a n√£o ser
l√°grimas cada vez mais,
natal eterno a nascer
de outros natais…
Ligeira esperança que toca
os nossos olhos molhados
e o sangue da nossa boca,
amorda√ßados…

Ah bruxuleante luz
acenando ao longe em v√£o
e que a dor nos reproduz
em ilus√£o…
Ternura dum breve instante
que o próprio instante desterra,
morta no facto constante
de tanta guerra…

O Que Amamos Está Sempre Longe de Nós

O que amamos está sempre longe de nós:
e longe mesmo do que amamos – que n√£o sabe
de onde vem, aonde vai nosso impulso de amor.

O que amamos est√° como a flor na semente,
entendido com medo e inquietude, talvez
só para em nossa morte estar durando sempre.

Como as ervas do ch√£o, como as ondas do mar,
os acasos se v√£o cumprindo e v√£o cessando.
Mas, sem acaso, o amor límpido e exacto jaz.

N√£o necessita nada o que em si tudo ordena:
cuja tristeza unicamente pode ser
o equívoco do tempo, os jogos da cegueira

com setas negras na escurid√£o.

O Amor é o Homem Inacabado

Todas as √°rvores com todos os ramos com todas
[as folhas
A erva na base dos rochedos e as casas
[amontoadas
Ao longe o mar que os teus olhos banham
Estas imagens de um dia e outro dia
Os vícios as virtudes tão imperfeitos
A transparência dos transeuntes nas ruas do acaso
E as mulheres exaladas pelas tuas pesquisas
[obstinadas
As tuas ideias fixas no coração de chumbo nos
[l√°bios virgens
Os vícios as virtudes tão imperfeitos
A semelhança dos olhares consentidos com os
[olhares conquistados
A confus√£o dos corpos das fadigas dos ardores
A imitação das palavras das atitudes das ideias
Os vícios as virtudes tão imperfeitos

O amor é o homem inacabado.

Tradução de António Ramos Rosa

O Solit√°rio

Como alguém que por mares desconhecidos viajou,
assim sou eu entre os que nunca deixaram a sua p√°tria;
os dias cheios est√£o sobre as suas mesas
mas para mim a dist√Ęncia √© puro sonho.

Penetra profundamente no meu rosto um mundo,
t√£o desabitado talvez como uma lua;
mas eles n√£o deixam um √ļnico pensamento s√≥,
e todas as suas palavras s√£o habitadas.

As coisas que de longe trouxe comigo
parecem muito raras, comparadas com as suas ‚ÄĒ:
na sua vasta p√°tria s√£o feras,
aqui sustém a respiração, por vergonha.

Tradução de Maria João Costa Pereira

A L√°grima

7

Tornamo-la espelho. Certa, vem
dos dias longos, gastos, fulgurante
traçando o curso: aí, diante
do vidro se encontra, se retém

sobre a mesa, leve, a dor. De quantos
golpes, e sorrisos, se constrói? In-
dizível parte, e passa, e fin-
da alva, algures – se longe, tantos

olhos a espiam. Que som havia
antes, tal espaço? Palavra ou
tão só a noite? E (ainda) leda

se desdobra, a: sinal, ave, fria
corre, imagem dura que secou
no sulco, v√£o: a l√°grima, a queda.

O Livro Fechado

Quebrada a vara, fechei o livro
e n√£o ser√° por inc√ļria ou descuido
que algumas p√°ginas se reabram
e os mesmos fantasmas me visitem.
Fechei o livro, Senhor, fechei-o,

mas os mortos e a sua memória,
os vivos e sua presença podem mais
que o √°lcool de todos os esquecimentos.
Abjurado, recusei-o e cumpro,
na gangrena do corpo que me coube,

em lugar que lhe n√£o compete,
o dia a dia de um destino tolerado.
Na raça de estranhos em que mudei,
é entre estranhos da mesma raça
que, dissimulado e obediente, o sofro.

Aventureiro, ou n√£o, servidor apenas
de qualquer miss√£o remota ao sol poente,
em amanuense me tornei do horizonte
severo e restrito que me n√£o pertence,
lavrador vergado sobre solo alheio

onde n√£o cai, nem vinga, desmobilizada,
a sombra elíptica do guerreiro.
Fechei o livro, calei todas as vozes,
contas de longe cobradas em nada.
Fale, somente, o silêncio que lhes sucede.

Mãe, os Meninos Andam Distraídos

Mãe, os meninos andam distraídos junto
ao rio e tu n√£o queres saber de os perder.
Sentaste-te a pensar nesse homem que
apareceu e a desfolhar os malmequeres
da tua bata nova ‚ÄĒ e n√£o viste que te
largaram a m√£o nem para onde fugiram
com a pressa do vento. M√£e, os meninos

saíram da tua beira para a beira do rio
e tu n√£o queres saber de os chamar. Eles
estendem agora os braços pequeninos
para o sol que brilha sobre as √°guas
como um punhado de moedas que nunca

h√£o-de ter ‚ÄĒ mas tu hoje s√≥ conheces
um nome nos teus l√°bios e nem sequer te
lembras que esse nome não é o que puseste
a nenhum deles. M√£e, os meninos

s√£o t√£o pequenos e j√° v√£o t√£o longe que
a luz pode ceg√°-los para sempre. Andam
perdidos no rio h√° tanto tempo que ser√°
tarde de mais quando gritarem por ti ‚ÄĒ
porque a ideia do amor é hoje muito maior
do que a voz deles. M√£e, se tu quiseres, eu

posso tomar conta dos meninos,

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Romance do Terceiro-Oficial de Finanças

Ah! as coisas incríveis que eu te contava
assim misturadas com luas e estrelas
e a voz vagarosa como o andar da noite!

As coisas incríveis que eu te contava
e me deixavam hirto de surpresa
na solid√£o da vila quieta!…
Que eu vinha alta noite
como quem vem de longe
e sabe o segredo dos grandes silêncios
Рos meus braços no jeito de pedir
e os meus olhos pedindo
o corpo que tu mal debru√ßavas da varanda!…

(As coisas incríveis eu só as contava
depois de as ouvir do teu corpo, da noite
e da estrela, por cima dos teus cabelos.
Aquela estrela que parecia de propósito para enfeitar os teus cabelos
quando eu ia namorar-te…)

Mas tudo isso, que era tudo para nós,
n√£o era nada da vida!…
Da vida é isto que a vida faz.
Ah! sim, isto que a vida faz!…
Рisto de tu seres a esposa séria e triste
de um terceiro-oficial de finan√ßas da C√Ęmara Municipal!…