Poemas sobre √ćntimos

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Poemas de íntimos escritos por poetas consagrados, filósofos e outros autores famosos. Conheça estes e outros temas em Poetris.

Nada Fica de Nada

Nada fica de nada. Nada somos.
Um pouco ao sol e ao ar nos atrasamos
Da irrespir√°vel treva que nos pese
Da humilde terra imposta,
Cad√°veres adiados que procriam.

Leis feitas, est√°tuas vistas, odes findas ‚ÄĒ
Tudo tem cova sua. Se nós, carnes
A que um íntimo sol dá sangue, temos
Poente, por que n√£o elas?
Somos contos contando contos, nada.

N√£o!

Tenho-te muito amor,
E amas-me muito, creio:
Mas ouve-me, receio
Tomar-te desgraçada:
O homem, minha amada,
N√£o perde nada, goza;
Mas a mulher √© rosa…
Sim, a mulher é flor!

Ora e a flor, vê tu
No que ela se resume…
Faltando-lhe o perfume,
Que é a essência dela,
A mais viçosa e bela
V√™-a a gente e… basta.
Sê sempre, sempre, casta!
Ter√°s quanto possuo!

Ter√°s, enquanto a mim
Me alumiar teu rosto,
Uma alma toda gosto,
Enlevo, riso, encanto!
Depois ter√°s meu pranto
Nas praias solit√°rias…
Ondas tumultu√°rias
De l√°grimas sem fim!

À noite, que o pesar
Me arrebatar de cada,
Irei na campa rasa
Que resguardar teus ossos,
Ah! recordando os nossos
T√£o venturosos dias,
Fazer-te as cinzas frias
Ainda palpitar!

Mil beijos, doce bem,
Darei no pó sagrado,
Em que se houver tornado
Teu corpo t√£o galante!
Com pena, minha amante,
De n√£o ter a morte
Ca√≠do a mim em sorte…
Caído em mim também!

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À Minha Filha

Vejo em ti repetida,
A anos de dist√Ęncia,
A minha própria vida,
A minha pr√≥pria inf√Ęncia.

√Č tal a semelhan√ßa,
√Č tal a identidade,
Que é só em ti, criança,
Que entendo a eternidade.

Todo o meu ser se exala,
Se reproduz no teu:
√Č minha a tua fala,
Quem vive em ti, sou eu.

Sorris como eu sorria,
Cismas do meu cismar,
O teu olhar copia,
Espelha o meu olhar.

√Čs como a emana√ß√£o,
Como o prolongamento,
Quer do meu coração,
Quer do meu pensamento.

Encarnas de tal modo
Minha alma fugitiva,
Que eu n√£o morri de todo
Enquanto sejas viva!

Por que mistério imenso
Se fez a transmiss√£o
De quanto sinto e penso
Para esse coração?

Foi como se eu andasse
Noutra alma a semear
Meu peito, minha face,
Meu riso, meu olhar…

Meus íntimos desejos,
Meus sonhos mais doirados,
Florindo com meus beijos
Os campos semeados.

Bendita é a colheita,
Deus confiou em n√≥s…

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A Dama de Elche

Seus olhos
pararam no limiar. Mas a morte
participa também do mistério da vida,
e essas amêndoas que mantém
explícitas ao nada, anunciam
outra árvore em nós.

Toda a feição já se concentra
no que os olhos n√£o dizem. Antes
fossem fechados,
como os l√°bios na dureza do mento,
e a ciência ou a razão que nos perturba
n√£o deixariam no berloque aguerrido
essa espantosa serenidade gélida de amor.

Mulher-senhora. M√£e?
Nos adornos
da espera, (nossa
a d√ļvida) fica a vida
que freme, e os abismos
que a beleza flanqueiam. Até que os pés
alados
despertem a princesa. Ent√£o,
Deus a recolhe,
e roça
nossas parcas medidas. A morte
desancora. Pela rigidez
da inacessível máscara, escorre
como as chuvas
o seu íntimo trabalho de existir.

Stella

J√° raro e mais escasso
A noite arrasta o manto,
E verte o √ļltimo pranto
Por todo o vasto espaço.

Tíbio clarão já cora
A tela do horizonte,
E j√° de sobre o monte
Vem debruçar-se a aurora.

À muda e torva irmã,
Dormida de cansaço,
Lá vem tomar o espaço
A virgem da manh√£.

Uma por uma, v√£o
As p√°lidas estrelas,
E v√£o, e v√£o com elas
Teus sonhos, coração.

Mas tu, que o devaneio
Inspiras do poeta,
Não vês que a vaga inquieta
Abre-te o √ļmido seio?

Vai. Radioso e ardente,
Em breve o astro do dia,
Rompendo a névoa fria,
Vir√° do roxo oriente.

Dos íntimos sonhares
Que a noite protegera,
De tanto que eu vertera
Em l√°grimas a pares,

Do amor silencioso,
Místico, doce, puro,
Dos sonhos de futuro,
Da paz, do etéreo gozo,

De tudo nos desperta
Luz de importuno dia;
Do amor que tanto a enchia
Minha alma est√° deserta.

A virgem da manh√£
J√° todo o c√©u domina…

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Fé

As ora√ß√Ķes dos homens
Subam eternamente aos teus ouvidos;
Eternamente aos teus ouvidos soem
Os c√Ęnticos da terra.

No turvo mar da vida,
Onde aos parcéis do crime a alma naufraga,
A derradeira b√ļssola nos seja,
Senhor, tua palavra.

A melhor segurança
Da nossa íntima paz, Senhor, é esta;
Esta a luz que h√° de abrir √† est√Ęncia eterna
O fulgido caminho.

Ah ! feliz o que pode,
No extremo adeus às cousas deste mundo,
Quando a alma, despida de vaidade,
Vê quanto vale a terra;

Quando das glórias frias
Que o tempo d√° e o mesmo tempo some,
Despida j√°, ‚ÄĒ os olhos moribundos
Volta às eternas glórias;

Feliz o que nos l√°bios,
No cora√ß√£o, na mente p√Ķe teu nome,
E só por ele cuida entrar cantando
No seio do infinito.

Ruínas

Cobrem plantas sem flor crestados muros;
Range a porta anci√£; o ch√£o de pedra
Gemer parece aos pés do inquieto vate.
Ruína é tudo: a casa, a escada, o horto,
S√≠tios caros da inf√Ęncia.
Austera moça
Junto ao velho port√£o o vate aguarda;
Pendem-lhe as tranças soltas
Por sobre as roxas vestes.
Risos n√£o tem, e em seu magoado gesto
Transluz n√£o sei que dor oculta aos olhos;
‚ÄĒ Dor que √† face n√£o vem, ‚ÄĒ medrosa e casta,
√ćntima e funda; ‚ÄĒ e dos cerrados c√≠lios
Se uma discreta muda
L√°grima cai, n√£o murcha a flor do rosto;
Melancolia t√°cita e serena,
Que os ecos n√£o acorda em seus queixumes,
Respira aquele rosto. A m√£o lhe estende
O abatido poeta. Ei-los percorrem
Com tardo passo os relembrados sítios,
Ermos depois que a m√£o da fria morte
Tantas almas colhera. Desmaiavam,
Nos serros do poente,
As rosas do crep√ļsculo.
“Quem és? pergunta o vate; o sol que foge
No teu l√Ęnguido olhar um raio deixa;
‚ÄĒ Raio quebrado e frio; ‚ÄĒ o vento agita
Tímido e frouxo as tuas longas tranças.

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A Coragem no Gesto de Viver

O solit√°rio gesto de viver
n√£o demanda a coragem que h√° na faca,
na ponta do punhal e até no grito
de quem fala mais alto e est√° coberto
de raz√Ķes, de certezas, de verdades.
O gesto de viver se oculta em dobras
tão íntimas do ser, que o desfazê-las
é mais que indelicado, é violência
que nem sequer se pode conceber.
O gesto de viver é só coragem,
mas, de tal forma próprio e incomparável,
que não se exprime em verbo, imagem, mímica
ou qualquer outra forma conhecida
de contar, definir ou explicar.
A coragem no gesto de viver
est√° em coisas simples, por exemplo,
na di√°ria decis√£o de levantar.
E mais, em se vestir e trabalhar
por entre espadas, punhos e navalhas,
peito aberto, sem armas, passo firme,
e à noite, ainda intacto, regressar.

Noite por Ti Despida

Adulta é a noite onde cresce
o teu corpo azul. A claridade
que se d√° em troca dos meus ombros
cansados. Reflexos
coloridos. Amei
o amor. Amei-te meu amor sobre ervas
orvalhadas. Não eras tu porém
o fim dessa estrada
sem fim. Canto apenas (enquanto os √°lamos
amadurecem) a transparência, o caminho. A noite
por ti despida. Lume e perfume
do sol. √ćntimo rumor do mundo.

Ver√£o

Eu te chamo tumulto
e virei sobre ti
ao fogo dos frutos
na hora em que a polpa da tarde
fende
e pelo campo escorrem farelos de ouro
à luz azul da bruma.

Para ti alço
com a rigidez de um bico,
garras, córneas, penas descendo
em teu tremor,
instante todo de corpo a n√£o ser
mais que carcassa, maré, esvaimento.

E quando, inerte
‚ÄĒ casca ou pele, gretado
o teu querer não for mais que apetência
ou saudade,
o sangue a escorrer ainda
escondendo os talos da grama mais pequena,
há-de permanecer aos olhos que o não vêem
íntimo sinal de união
entre a fêmea e o macho
‚ÄĒ o que penetra
e quanto, deixando penetrar
inaugura.

Musa Consolatrix

Que a m√£o do tempo e o h√°lito dos homens
Murchem a flor das ilus√Ķes da vida,
Musa consoladora,
√Č no teu seio amigo e sossegado
Que o poeta respira o suave sono.

N√£o h√°, n√£o h√° contigo,
Nem dor aguda, nem sombrios ermos;
Da tua voz os namorados cantos
Enchem, povoam tudo
De íntima paz, de vida e de conforto.

Ante esta voz que as dores adormece,
E muda o agudo espinho em flor cheirosa,
Que vales tu, desilus√£o dos homens?
Tu que podes, ó tempo?
A alma triste do poeta sobrenada
√Ä enchente das ang√ļstias;
E, afrontando o rugido da tormenta,
Passa cantando, alcíone divina.

Musa consoladora,
Quando da minha fronte de mancebo
A √ļltima ilus√£o cair, bem como
Folha amarela e seca
Que ao chão atira a viração do outono,
Ah! no teu seio amigo
Acolhe-me, ‚ÄĒ e ter√° minha alma aflita,
Em vez de algumas ilus√Ķes que teve,
A paz, o √ļltimo bem, √ļltimo e puro!

Só no Pensamento Volta o Mundo

Só no pensamento volta o
mundo. Ao ruído da voz
apenas aspiro ‚ÄĒ que a alma
é o ser mais que a dor ou o
verde cinza do halo das
árvores na manhã íntima das
cores diurnas. Temi os
deuses pelo coração dos
homens, ao homem temo
que por metade vive o medo
divino. Resta, no espasmo
da terra, a m√°goa seca, a
ruína da água, a traição do
nada neste corpo de cera,
coroado do silêncio ferido.
Se não de amor é o dia
aberto quando as vísceras
róseas ouvem a respiração
do fogo derramado eros.
Que a estreita vida diz na
t√£o pouco breve humilde
erva a t√£o febril brisa, cio de
matinal b√ļzio ou rouca
flauta. Ent√£o me ergo e
ouso, vaso do vento, clamar
a queda. √ď esta humana e
divina pobreza de querer
sem fulgor, de tudo poder
sem desejo, alheio ou meu!
O que do futuro ignoro é
maior que o tempo que vivo,
é palavra de cega língua, em
mim calada por jamais lida.

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Cinismos

Eu hei de lhe falar lugubremente
Do meu amor enorme e massacrado,
Falar-lhe com a luz e a fé dum crente.

Hei de expor-lhe o meu peito descarnado,
Chamar-lhe minha cruz e meu Calv√°rio,
E ser menos que um Judas empalhado.

Hei de abrir-lhe o meu íntimo sacrário
E desvendar a vida, o mundo, o gozo,
Como um velho filósofo lendário.

Hei de mostrar, t√£o triste e tenebroso,
Os pegos abismais da minha vida,
E hei de olh√°-la dum modo t√£o nervoso,

Que ela h√° de, enfim, sentir-se constrangida,
Cheia de dor, tremente, alucinada,
E h√° de chorar, chorar enternecida!

E eu hei de, ent√£o, soltar uma risada.

Há Metafísica Bastante em não Pensar em Nada

Há metafísica bastante em não pensar em nada.

O que penso eu do mundo?
Sei l√° o que penso do mundo!
Se eu adoecesse pensaria nisso.

Que idéia tenho eu das cousas?
Que opini√£o tenho sobre as causas e os efeitos?
Que tenho eu meditado sobre Deus e a alma
E sobre a criação do Mundo?

Não sei. Para mim pensar nisso é fechar os olhos
E n√£o pensar. √Č correr as cortinas
Da minha janela (mas ela n√£o tem cortinas).

O mistério das cousas? Sei lá o que é mistério!
O √ļnico mist√©rio √© haver quem pense no mist√©rio.
Quem est√° ao sol e fecha os olhos,
Começa a não saber o que é o sol
E a pensar muitas cousas cheias de calor.
Mas abre os olhos e vê o sol,
E j√° n√£o pode pensar em nada,
Porque a luz do sol vale mais que os pensamentos
De todos os filósofos e de todos os poetas.
A luz do sol n√£o sabe o que faz
E por isso não erra e é comum e boa.

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Cantar do Amigo Perfeito

Passado o mar, passado o mundo, em longes praias,
de areia e ténues vagas, como esta
em que haverá de nossos passos a memória
embora soterrada pela areia nova,
e em que sobre as muralhas quanta sombra
na pedra carcomida guarda que pass√°mos,
em longes praias, outras nuvens, outras vozes,
ainda recordas esta, ó meu amigo?

Aqui passe√°mos tanta vez, por entre os corpos
da alheia juventude, impudica ou severa,
esplêndida ou sem graça, à venda ou pronta a dar-se,
ido na brisa o sol às mais sombrias curvas;
e o meu e o teu olhar guiando-se leais,
de nós um para o outro conquistando
– em longes praias, outras nuvens, outras vozes,
ainda recordas, diz, ó meu amigo?

Também aqui relembro as ruas tenebrosas,
de vulto em vulto percorridas, lado a lado,
numa nudez sem espírito, confiança
tranquila e √°spera, animal e t√°cita,
j√° menos que amizade, mas diversa
da suspeição do amor, tão cauta e delicada
– em longes praias, outras nuvens, outras vozes,
ainda as recordas, diz, ó meu amigo?

Também aqui,

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Nunca a Alheia Vontade Cumpras por Própria

Nunca a alheia vontade, inda que grata,
Cumpras por própria.
Manda no que fazes,
Nem de ti mesmo servo.
Ninguém te dá quem és.
Nada te mude.
Teu íntimo destino involuntário
Cumpre alto.
Sê teu filho.

Vocação de Poeta

Recentemente, ao repousar
Sob essa folhagem
Ouvi bater, tiquetaque,
Suavemente, como em compasso.
Aborrecido, fiz uma careta,
Depois, abandonando-me,
Acabei, como um poeta,
Por imitar o mesmo tiquetaque.

Ouvindo assim, upa,
Saltar as sílabas,
Desatei de repente a rir,
Durante um bom quarto de hora.
Tu poeta? Tu poeta?
Estarás assim mal da cabeça?
¬ęSim, senhor, voc√™ √© poeta¬Ľ,
Diz Pic, o P√°ssaro, encolhendo os ombros.

Quem espero eu sob este arbusto?
Quem estarei a espreitar como um ladr√£o?
Uma palavra? Uma imagem?
Logo a minha ruína aparece.
Nada do que rasteja, ou que saltite
Escapa ao impulso dos meus versos,
¬ęSim, senhor, voc√™ √© poeta¬Ľ,
Diz Pic, o P√°ssaro, encolhendo os ombros.

A rima é como uma flecha,
Que temor, que tremor,
Ao penetrar no coração,
Lagarto a contorcer-se!
Morrereis assim, pobres diabos,
Ou ficareis embriagados,
¬ęSim, senhor, voc√™ √© poeta¬Ľ,
Diz Pic, o P√°ssaro, encolhendo os ombros.

Versículos informes que se atropelam,
Pequenas palavras loucas, que efervescência
Até que, linha a linha,

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Oh, Vida! Fugitiva Companheira

Oh, Vida!
Fugitiva companheira,
Eu sinto que n√£o posso acompanhar-te.
Por isso, nesta hora feiticeira,
Quisera erguer-te uma barreira
E fazer-te parar
E abraçar-te;
E abraçar-te tão íntimo e tão fundo
Que toda a vida apenas de um segundo
Em mim entrasse, em mim vivesse,
E que depois viesse o fim do Mundo
Ou que eu morresse!…

À Morte

Tu que mísero vives
no vão dos braços
em s√ļbito furor

Tu de m√£os cativas
senhor dos ombros
indefeso dador

Tu que os dedos secas
no liso peito
armado amador

Tu no c√°rcere vivo
das horas idas
impune rumor

Tu rendida palavra
√≠ntimo tr√Ęnsito
do barco raptor

Tu que na minha pele
t√°ctil ardor

am√°vel me esperas

Amor

Não vês como eu sigo
Teus passos, não vês?
O c√£o do mendigo
Não é mais amigo
Do dono talvez!

Ao pé de uma fonte
No fundo de um vale,
No alto de um monte
Do vasto horizonte,
Sem ti estou mal!

Sem ti, olho e canso
De olhar, e que vi?
Os olhos que lanço,
Acharem descanso,
Só acham em ti!

Os ventos que empolam
A face do mar,
E as ondas que rolam
Na praia, consolam
Tamanho pesar?

As formas estranhas
De nuvens que v√£o
Roçando as montanhas
Em ondas tamanhas
Distraem-me? N√£o!

A pomba que abraça
No ar o seu par,
E a nuvem que passa,
Não tem essa graça
Que tens a andar!

Parece o pezinho,
De lindo que é,
Ligeiro e levinho
O de um passarinho
Voando de pé!

O rosto, h√° em torno
Da p√°lida oval,
Daquele contorno
T√£o puro, o adorno
Da auréola imortal!

N√£o sei que luz vaga,

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