CitaçÔes de Fernando Py

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Duplo

Olho-me adentro sem cessar e no silĂȘncio
e na penumbra de mim mesmo nĂŁo me exprimo
nesse mim que se esconde e se retrai no vago
espaço de urna célula e vai construindo
outro mim de mim, disposto em gĂȘmeos compassos,
e nĂŁo aparece ao olho, ao espelho, Ă  imagem
casualmente em mĂĄscara, fechado Ă  curio-
sidade de meus olhos lacerados, cegos
de tanta luz enganosa, nem se derrama
sobre a superfĂ­cie polida e indiferente,
enquanto cresce em mim a presença de estranho
ser nĂŁo eu, de irrevelada e prĂłpria pessoa,
que domina esse meu corpo, casca de angĂșstia
e contradiçÔes simétricas envolventes,
e me explora e me assimila; mas sou eu sĂł
a me percorrer e nele me vejo e sinto,
como de dois corpos iguais matéria viva,
e me faço e refaço e me desfaço sempre
e recomeço e junto a mim eu mesmo, gĂȘmeo,
nada acabo e tudo abandono, dividido
entre mim e mim na batalha interminĂĄvel…

Conhecimento do Amor

Amor, como o compreendo agora, Ă© mais
renĂșncia que desejo. Outrora hostil,
agressivo, hoje sĂșplica, murmĂșrio
Ă­ntimo, cinzas em silĂȘncio, amor,
Ă  morte assemelhando-se, besouro
em agonia, dor da perda, o sonho
estraçalhado, renunciar, renu-
nciar sempre, e sem espera, ao corpo amado.

A vida me consente essa amargura
e Ă© preciso vivĂȘ-la sem demora,
abrir os olhos, aceitar a sombra,
meditar sem rancor a decepção —
instante em que a mulher se distancia
e a voz ao telefone ri tranquila
anunciando a partida: outros braços,
agora, amor, mesclado de impotĂȘncia
e irrisĂŁo, lĂĄgrimas que nĂŁo se mostram.

Toda renĂșncia compĂ”e jogo amargo
de desespero e morte. Renunciar,
ainda que de joelhos, deitado, o corpo
ansiando pelo teu amor se fira,
e o coração, tumulto, empalideça
e nada reste enfim que a vida mesma,
percorrida com calma e indiferença.

Assim, amor, te compreendo agora:
— devoção malquerida a toda hora.

Quarenta Anos

a Carlos Nejar

Sinto a velhice em mim oculta e rude
em meio ao sol e ao riso da manhĂŁ,
nesse engano das horas, nessa vĂŁ
esperança de eterna juventude
que se desfaz de mim, e sou maça
mordida, podre, e rio e nĂŁo me ilude
esse carinho, essa algazarra. O alude
dentro de mim começa. Mesmo sã,
a estrutura se abala em sombra e ruga
e os caminhos sĂł descem, pesa o fardo,
e entre cinzas de mim, alheio, ardo,
de um fogo jĂĄ morrente em sua fuga.

Mesquinho embora, curvo e pungitivo,
meu corpo vibra e se deseja vivo.