Poemas sobre Vitória

23 resultados
Poemas de vitória escritos por poetas consagrados, filósofos e outros autores famosos. Conheça estes e outros temas em Poetris.

Nem Sequer Sou Poeira

N√£o quero ser quem sou. A avara sorte
Quis-me oferecer o século dezassete,
O pó e a rotina de Castela,
As coisas repetidas, a manh√£
Que, prometendo o hoje, dá a véspera,
A palestra do padre ou do barbeiro,
A solid√£o que o tempo vai deixando
E uma vaga sobrinha analfabeta.
J√° sou entrado em anos. Uma p√°gina
Casual revelou-me vozes novas,
Amadis e Urganda, a perseguir-me.
Vendi as terras e comprei os livros
Que narram por inteiro essas empresas:
O Graal, que recolheu o sangue humano
Que o Filho derramou pra nos salvar,
Maomé e o seu ídolo de ouro,
Os ferros, as ameias, as bandeiras
E as opera√ß√Ķes e truques de magia.
Cavaleiros crist√£os l√° percorriam
Os reinos que há na terra, na vingança
Da ultrajada honra ou querendo impor
A justiça no fio de cada espada.
Queira Deus que um enviado restitua
Ao nosso tempo esse exercício nobre.
Os meus sonhos avistam-no. Senti-o
Na minha carne triste e solit√°ria.
Seu nome ainda n√£o sei. Mas eu, Quijano,
Serei o paladino.

Continue lendo…

O Sentimento dum Ocidental

I

Avé-Maria

Nas nossas ruas, ao anoitecer,
H√° tal soturnidade, h√° tal melancolia,
Que as sombras, o bulício, o Tejo, a maresia
Despertam-me um desejo absurdo de sofrer.

O céu parece baixo e de neblina,
O g√°s extravasado enjoa-me, perturba;
E os edifícios, com as chaminés, e a turba
Toldam-se duma cor monótona e londrina.

Batem carros de aluguer, ao fundo,
Levando à via-férrea os que se vão. Felizes!
Ocorrem-me em revista, exposi√ß√Ķes, pa√≠ses:
Madrid, Paris, Berlim, S. Petersburgo, o mundo!

Semelham-se a gaiolas, com viveiros,
As edifica√ß√Ķes somente emadeiradas:
Como morcegos, ao cair das badaladas,
Saltam de viga em viga os mestres carpinteiros.

Voltam os calafates, aos magotes,
De jaquet√£o ao ombro, enfarruscados, secos;
Embrenho-me, a cismar, por boqueir√Ķes, por becos,
Ou erro pelos cais a que se atracam botes.

E evoco, então, as crónicas navais:
Mouros, baixéis, heróis, tudo ressuscitado!
Luta Cam√Ķes no Sul, salvando um livro a nado!
Singram soberbas naus que eu n√£o verei jamais!

E o fim da tarde inspira-me; e incomoda!

Continue lendo…

Quando Analiso a Conquistada Fama

Quando analiso
a conquistada fama dos heróis
e as vitórias dos grandes generais,
n√£o sinto inveja desses generais
nem do presidente na presidência
nem do rico na sua vistosa mans√£o;
mas quando eu ouço falar
do entendimento fraterno entre dois amantes,
de como tudo se passou com eles,
de como juntos passaram a vida
através do perigo, do ódio, sem mudança
por longo e longo tempo atravessando
a juventude e a meia-idade e a velhice
sem titubeios, de como leais
e afeiçoados se mantiveram
‚ÄĒ a√≠ ent√£o √© que eu me ponho pensativo
e saio de perto à pressa
com a mais amarga inveja.

O Mundo que eu Venci Deu-me um Amor

O mundo que eu venci deu-me um amor,
Um troféu perigoso, este cavalo
Carregado de infantes couraçados.
O mundo que venci deu-me um amor
Alado galopando em céus irados,
Por cima de qualquer muro de credo.
Por cima de qualquer fosso de sexo.
O mundo que venci deu-me um amor
Amor feito de insulto e pranto e riso,
Amor que força as portas dos infernos,
Amor que galga o cume ao paraíso.
Amor que dorme e treme. Que desperta
E torna contra mim, e me devora
E me rumina em cantos de vit√≥ria…

Memórias

Você foi a maior das minhas amarguras
E vive até hoje na minha loucura
E foi a mais cruel de todas as vitórias
E faz parte do livro das minhas memórias
Lembrar de que nada de bom,
Você me deu, só machuca alguém
Que n√£o viveu

Vou recomeçar,
Vou tentar viver
Vou tirar você da minha vida
E p’ra n√£o chorar
Antes de partir
Vou tentar sorrir na despedida

Agora que voltei à minha realidade
Tentando me esquecer,
De que tudo foi verdade
Vou rebuscando,
Fundo nas minhas memórias
P’ra riscar voc√™ da minha hist√≥ria

A um Mosquito

Invencível mosquito,
√Čmulo do mais livre pensamento,
Sem corpo, e de todo espírito,
Que deste fim a um t√£o alto intento,
Quando precipitado
O céu de Délia acometeste ousado.

As portas de diamante
Cerradas ao clamor de tanta gente
Abriste triunfante,
Zombando da esperança impertinente,
Que entre temor, e espanto
Nunca acabou comigo esperar tanto.

Cupido, que inquieta
Délia sentiu ferida,
Espera, que o sinta,
A lança, que tiraste em sangue tinta,
Que o peito endurecido
√Č prova das setas de Cupido.

Porém de nada disto
Te mostres t√£o soberbo, e presumido,
Que podes sem ser visto
Passar a mais ferir, sem ser sentido,
E para castigar-te,
N√£o ocupas lugar nalguma parte.

Foras de amor ferido,
Se tivera o teu erro algum desconto,
Ou se achara Cupido
Aonde a ponta da seta p√īr o ponto.
Condolação bastante;
Pois não picaste a Délia como amante.

Buscaste a noite escura
Por cometer a Délia mais oculto;
Quem medo te afigura,
Se n√£o faz o teu corpo nenhum vulto,

Continue lendo…

A Proibição

Tem cuidado ao amar-me.
Pelo menos, lembra-te que to proibi.
Não que restaure o meu pródigo desperdício
De alento e sangue, com teus suspiros e l√°grimas,
Tornando-me para ti o que foste para mim,
Mas t√£o grande prazer desgasta a nossa vida duma vez.
Para evitar que teu amor por minha morte seja frustrado,
Se me amas, tem cuidado ao amar-me.

Tem cuidado ao odiar-me,
E com os excessos do triunfo na vitória,
Ou tornar-me-ei o meu próprio executor,
E do ódio com igual ódio me vingarei.
Mas tu perder√°s a pose do conquistador,
Se eu, a tua conquista, perecer pelo teu ódio:
Ent√£o, para evitar que, reduzido a nada, eu te diminua,
Se tu me odeias, tem cuidado ao odiar-me.

Contudo, ama-me e odeia-me também.
Assim os extremos n√£o far√£o o trabalho um do outro:
Ama-me, para que possa morrer do modo mais doce;
Odeia-me, pois teu amor é excessivo para mim;
Ou deixa que ambos, eles e n√£o eu, se corrompam
Para que, vivo, eu seja teu palco e n√£o teu triunfo.
Ent√£o, para que o teu amor,

Continue lendo…

Viver!

Viver!… E o que √© a Vida?…
‚Äď Atento, escuto
A primitiva e alta profecia…
E a escut√°-la, a sonhar, vou resoluto,
Por caminhos de Amor, com alegria!
E vivo! E na minh’alma, a uma a uma,
Como num quebra mar de encantamentos,
Sinto as ondas bater, ‚Äď ondas de espuma,
…Evoca√ß√Ķes, memorias, sentimentos…

Amo! ‚Äď No meu Amor vivo a infinita,
A suprema Beleza, ‚Äď sou amado!…
E, pelo Sol que no meu peito habita,
Luto! Sinto o Futuro à nossa espera,
Vivo, na minha luta, o meu Amor!…
E sinto bem que a eterna Primavéra
A alcançaremos só por nossa Dor!
S√īfro! E no meu sofrer, nesta anciedade
Com que os meus olhos fitam o nascente,
Em devoção, em pranto, em claridade,
‚Äď Sonha o meu cora√ß√£o de combatente…

Sofrer, lutar, amar ‚Äď , vida completa,
Piedosa, humilde e s√≥ de Amor ungida ‚Äď
‚Äď Meu cora√ß√£o de amante e de Poeta
‚Äď Sente em si mesmo o cora√ß√£o da Vida!…
Sonho exaltado e puro, Amor t√£o grande,
Que me domina todo e me levanta
√Äs regi√Ķes em que o sentir se expande,

Continue lendo…

Escavação

Numa √Ęnsia de ter alguma cousa,
Divago por mim mesmo a procurar,
Desço-me todo, em vão, sem nada achar,
E a minh’alma perdida n√£o repousa.

Nada tendo, decido-me a criar:
Brando a espada: sou luz harmoniosa
E chama genial que tudo ousa
Unicamente √† f√īr√ßa de sonhar…

Mas a vit√≥ria fulva esvai-se logo…
E cinzas, cinzas s√≥, em vez do fogo…
– Onde existo que n√£o existo em mim?

. . . . . . . . . . . . . . .
. . . . . . . . . . . . . . .

Um cemitério falso sem ossadas,
Noites d’amor sem b√īcas esmagadas –
Tudo outro espasmo que princ√≠pio ou fim…

O Sucesso Feliz

o sucesso é ter quem fique feliz com o meu sucesso,
tão simples assim, e é mesmo assim,
vale-me quem me abrace quando estou feliz, e no final das contas é mais por isso que estou feliz,
de que vale ao campe√£o do mundo ser campe√£o do mundo se n√£o tiver quem o ame para ser campe√£o do mundo consigo?,
todas as vitórias são colectivas,
sobretudo as individuais.

Ode Marítima

Sozinho, no cais deserto, a esta manh√£ de Ver√£o,
Olho pro lado da barra, olho pro Indefinido,
Olho e contenta-me ver,
Pequeno, negro e claro, um paquete entrando.
Vem muito longe, nítido, clássico à sua maneira.
Deixa no ar distante atr√°s de si a orla v√£ do seu fumo.
Vem entrando, e a manh√£ entra com ele, e no rio,
Aqui, acolá, acorda a vida marítima,
Erguem-se velas, avançam rebocadores,
Surgem barcos pequenos de tr√°s dos navios que est√£o no porto.
H√° uma vaga brisa.
Mas a minh’alma est√° com o que vejo menos,
Com o paquete que entra,
Porque ele est√° com a Dist√Ęncia, com a Manh√£,
Com o sentido marítimo desta Hora,
Com a doçura dolorosa que sobe em mim como uma náusea,
Como um começar a enjoar, mas no espírito.

Olho de longe o paquete, com uma grande independência de alma,
E dentro de mim um volante começa a girar, lentamente,

Os paquetes que entram de manh√£ na barra
Trazem aos meus olhos consigo
O mistério alegre e triste de quem chega e parte.

Continue lendo…

Caminharemos de Olhos Deslumbrados

Caminharemos de olhos deslumbrados
E braços estendidos
E nos l√°bios incertos levaremos
O gosto a sol e a sangue dos sentidos.

Onde estivermos, h√°-de estar o vento
Cortado de perfumes e gemidos.
Onde vivermos, h√°-de ser o templo
Dos nossos jovens dentes devorando
Os frutos proibidos.

No ritual do ver√£o descobriremos
O segredo dos deuses interditos
E marcados na testa exaltaremos
Estátuas de heróis castrados e malditos.

√ď deus do sangue! deus de miseric√≥rdia!
√ď deus das virgens loucas
Dos amantes com cio,
Imp√Ķe-nos sobre o ventre as tuas m√£os de rosas,
Unge os nossos cabelos com o teu desvario!

Desce-nos sobre o corpo como um falus irado,
Fustiga-nos os membros como um l√°tego doido,
Numa chuva de fogo torna-nos sagrados,
Imola-nos os sexos a um arcanjo loiro.

Persegue-nos, estonteia-nos, degola-nos, castiga-nos,
Arranca-nos os olhos, violenta-nos as bocas,
Atapeta de flores a estrada que seguimos
E carrega de aromas a brisa que nos toca.

Nus e ensanguentados dançaremos a glória
Dos nossos esponsais eternos com o estio
E coroados de apupos teremos a vitória
De nos rirmos do mundo num leito vazio.

Continue lendo…

Cantiga da velha m√£e e dos seus dois filhos

Ai o meu pobre filho, que rico que é
ai o meu rico filho, que pobre que é
Nascidos do mesmo ventre
Um vive de joelhos pró outro passar à frente
E esta velha m√£e para aqui j√° no sol poente

Um dia h√° muito tempo, vi-os partir
levando cada um do outro o porvir
Seguiram pela estrada fora
Um voltou-se para tr√°s, disse adeus que me vou embora
Voltaremos trazendo connosco a vitória

De que vitória falas, disse eu então
Da que faz um escravo do teu irm√£o?
Ou duma outra que rebenta
como um rio de f√ļria no peito feito tormenta
quando n√£o h√° nada a perder no que se tenta?

Passaram muitos anos sem mais saber
nem por onde passavam, nem se por ter
criado os dois no mesmo ch√£o
eram ainda irm√£os, partilhavam ainda o p√£o
E o silêncio enchia de morte o meu coração

Depois vieram novas que o que vivia
da miséria do outro, se enriquecia
N√£o foi para isto que andei
dias que foram longos e noites que n√£o contei
a lutar pra ter a justiça como lei

Às vezes rogo pragas de os ver assim
Sinto assim uma faca dentro de mim
Sei que estou velha e doente
Mas para ver o mundo girar de modo diferente
Ainda sei gritar,

Continue lendo…

O Nascimento

Aí vem a estrela! Aí vem, sobre a montanha,
Rompendo a sombra et√©rea do crep√ļsculo!
A paisagem tornou-se mais estranha,
Mais cheia de silêncio e de mistério!
Dormem ainda as √°rvores e os homens,
E dorme, em alto ramo, a cotovia…
E, se ergue já seu canto, é porque sonha
julga ver, sonhando, a luz do dia!

E, pelos negros píncaros, a estrela
√Č divino sorriso alumiante.
Oh, que esplendor! Que formosura aquela!
√Č l√≠rio de oiro aberto! √Č rosa a arder!

Aí vem a estrela! Aí vem, sobre a montanha,
T√£o virginal, t√£o nova, que parece
Sair das m√£os de Deus, a vez primeira!

E como, sobre os montes, resplandece!

Persegue-a o sol amado… No oriente,
Alastra um nimbo anímico de luz.
E a antiga dor das trevas, suavemente,
Ondula, em transparência e palidez.

Aí vem a estrela, alumiando a serra!
E os olhos encantados dos pastores
Voltam-se para a estrela… E c√° na terra
H√° m√°goas e penumbras, a fugir…

Como ela voa, cintilando e rindo
Aos penhascos agrestes e desnudos!

Continue lendo…

A Guerra

Musa, pois cuidas que é sal
o fel de autores perversos,
e o mundo levas a mal,
porque leste quatro versos
de Hor√°cio e de Juvenal,

Agora os ver√°s queimar,
j√° que em v√£o os fecho e os sumo;
e leve o vol√ļvel ar,
de envolta como turvo fumo,
o teu furor de rimar.

Se tu de ferir n√£o cessas,
que serve ser bom o intento?
Mais carapuças não teças;
que importa d√°-las ao vento,
se podem achar cabeças?

Tendo as s√°tiras por boas,
do Parnaso nos dois cumes
em hora negra revoas;
tu d√°s golpes nos costumes,
e cuidam que é nas pessoas.

Deixa esquipar Inglaterra
cem naus de alterosa popa,
deixa regar sangue a terra.
Que te importa que na Europa
haja paz ou haja guerra?

Deixa que os bons e a gentalha
brigar ao Casaca v√£o,
e que, enquanto a turba ralha,
v√° recebendo o balc√£o
os despojos da batalha.

Que tens tu que ornada história
diga que peitos ferinos,

Continue lendo…

Desejo

Oh! quem nos teus braços pudera ditoso
No mundo viver,
Do mundo esquecido no l√Ęnguido gozo
D’infindo prazer.

Sentir os teus olhos serenos, em calma,
Falando d’al√©m,
D’al√©m! duma vida que sonha minha alma,
Que a terra n√£o tem.

Eu dera este mundo, com tudo o que encerra
Por tal galard√£o:
Tesouros, e glórias, os tronos da terra,
Que valem, que s√£o?

A sede que eu tenho n√£o morre apagada
Com tal aridez:
Pudesse eu ganh√°-los, e iria seu nada
Depor a teus pés.

E só desejando mais doce vitória,
Dizer-te: eis aqui
Meu ceptro e ciência, tesouros e glória:
Ganhei-os por ti.

A vida, essa mesma daria contente,
Sem pena, sem dor,
Se um dia embalasses, um dia somente,
Meu sonho d’amor.

Isenta do laço que ao mundo nos prende,
A vida que vale?
A vida é só vida se o amor nela acende
Seu doce fanal.

Aos mundos que eu sonho pudesse eu contigo,
Voando, subir;
Depois que importava? depois no jazigo
Sorrira ao cair.

Continue lendo…

Pilotagem

E os meus olhos rasgar√£o a noite;

E a chuva que vier ferir-me nas vidraças
Compreender√°, ent√£o, a sua inutilidade;

E todos os sinos que alimentavam insónias
h√£o-de repetir as horas mortas
só para os ouvidos da torre;

E os outros ruídos abafar-se-ão no manto negro da noite;

E a m√£o alva que me apontava os nortes
e ficou debruçada no postigo
amortalhada pela neve
reviver√° de novo;

E os meus braços se erguerão transfigurados
para o abraço virgem dos teus braços
que andava perdido, sem dar fé deste seu reino;

E todas as luzes que tresnoitaram os homens
apagar-se-√£o;

E o silêncio virá cheio de promessas
que n√£o se cansaram na viagem;

E todos os povos de Babel
com as riquezas que h√° no mundo
vir√£o festejar a paz em minha honra;

E os caminhos se abrir√£o
para os homens que seguirem de m√£os dadas:

O sangue derramado de Cristo
terá finalmente significação,
e da in√ļtil cruz do mart√≠rio
se erguerá o pendão da vitória;

Continue lendo…

O Vencedor Vencido

Não é fácil amar o que venceu,
o que leva alguns passos de avançada,
que o amor só se oferece ao que perdeu,
muito embora com culpa declarada.
Todavia, o que vence multiplica
sobre si as ang√ļstias de perder:
interroga, analisa e só complica
aquilo que n√£o pode perceber;
e quando, em esgotamento prematuro,
ele aceita uma calma provisória,
vêm os homens que o lançam contra o muro
e lhe atiram ao rosto essa vitória.

√Č t√£o Suave a Fuga deste Dia

√Č t√£o suave a fuga deste dia,
Lídia, que não parece, que vivemos.
Sem d√ļvida que os deuses
Nos s√£o gratos esta hora,

Em paga nobre desta fé que temos
Na exilada verdade dos seus corpos
Nos dão o alto prêmio
De nos deixarem ser

Convivas l√ļcidos da sua calma,
Herdeiros um momento do seu jeito
De viver toda a vida
Dentro dum só momento,

Dum só momento, Lídia, em que afastados
Das terrenas ang√ļstias recebemos
Olímpicas delícias
Dentro das nossas almas.

E um só momento nos sentimos deuses
Imortais pela calma que vestimos
E a altiva indiferença
Às coisas passageiras

Como quem guarda a c’roa da vit√≥ria
Estes fanados louros de um só dia
Guardemos para termos,
No futuro enrugado,

Perene à nossa vista a certa prova
De que um momento os deuses nos amaram
E nos deram uma hora
N√£o nossa, mas do Olimpo.

Poema para Iludir a Vida

Tudo na vida est√° em esquecer o dia que passa.
N√£o importa que hoje seja qualquer coisa triste,
um cedro, areias, raízes,
ou asa de anjo
caída num paul.
O navio que passou além da barra
j√° n√£o lembra a barra.
Tu o olhas nas estranhas √°guas que ele h√°-de sulcar
e nas estranhas gentes que o esperam em estranhos
[portos.
Hoje corre-te um rio dos olhos
e dos olhos arrancas limos e morcegos.
Ah, mas a tua vitória está em saber que não é hoje
[o fim
e que h√° certezas, firmes e belas,
que nem os olhos vesgos
podem negar.
Hoje é o dia de amanhã.