Cita√ß√Ķes de Ary dos Santos

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Frases, pensamentos e outras cita√ß√Ķes de Ary dos Santos para ler e compartilhar. Os melhores escritores est√£o em Poetris.

Poeta Castrado, N√£o!

Serei tudo o que disserem
por inveja ou negação:
cabeçudo dromedário
fogueira de exibição
teorema corol√°rio
poema de m√£o em m√£o
l√£zudo publicit√°rio
malabarista cabr√£o.
Serei tudo o que disserem:
Poeta castrado n√£o!

Os que entendem como eu
as linhas com que me escrevo
reconhecem o que é meu
em tudo quanto lhes devo:
ternura como j√° disse
sempre que faço um poema;
saudade que se partisse
me alagaria de pena;
e também uma alegria
uma coragem serena
em renegar a poesia
quando ela nos envenena.

Os que entendem como eu
a força que tem um verso
reconhecem o que é seu
quando lhes mostro o reverso:

Da fome j√° n√£o se fala
– √© t√£o vulgar que nos cansa –
mas que dizer de uma bala
num esqueleto de criança?

Do frio não reza a história
– a morte √© branda e letal –
mas que dizer da memória
de uma bomba de napalm?

E o resto que pode ser
o poema dia a dia?

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Cavalo à solta

Minha laranja amarga e doce
meu poema
feito de gomos de saudade
minha pena
pesada e leve
secreta e pura
minha passagem para o breve breve
instante da loucura.

Minha ousadia
meu galope
minha rédea
meu potro doido
minha chama
minha réstia
de luz intensa
de voz aberta
minha den√ļncia do que pensa
do que sente a gente certa.

Em ti respiro
em ti eu provo
por ti consigo
esta força que de novo
em ti persigo
em ti percorro
cavalo à solta
pela margem do teu corpo.

Minha alegria
minha amargura
minha coragem de correr contra a ternura.

Por isso digo
canção castigo
amêndoa travo corpo alma amante amigo
por isso canto
por isso digo
alpendre casa cama arca do meu trigo.

Meu desafio
minha aventura
minha coragem de correr contra a ternura.

Nona Sinfonia

√Č por dentro de um homem que se ouve
o tom mais alto que tiver a vida
a glória de cantar que tudo move
a força de viver enraivecida.

Num pal√°cio de sons erguem-se as traves
que seguram o tecto da alegria
pedras que s√£o ao mesmo tempo as aves
mais livres que voaram na poesia.

Para o alto se voltam as volutas
hieráticas    sagradas    impolutas
dos sons que surgem rangem e se somem.

Mas de baixo é que irrompem absolutas
as humanas palavras resolutas.
Por deus n√£o basta. √Č mais preciso o Homem.

Meu amor, meu amor

Meu amor meu amor
meu corpo em movimento
minha voz à procura
do seu próprio lamento.

Meu lim√£o de amargura meu punhal a escrever
nós parámos o tempo não sabemos morrer
e nascemos nascemos
do nosso entristecer.

Meu amor meu amor
meu nó e sofrimento
minha mó de ternura
minha nau de tormento

este mar não tem cura este céu não tem ar
nós parámos o vento não sabemos nadar
e morremos morremos
devagar devagar.

O Poema Original

Original é o poeta
que se origina a si mesmo
que numa sílaba é seta
noutra pasmo ou cataclismo
o que se atira ao poema
como se fosse ao abismo
e faz um filho às palavras
na cama do romantismo.
Original é o poeta
capaz de escrever em sismo.

Original é o poeta
de origem clara e comum
que sendo de toda a parte
não é de lugar algum.
O que gera a própria arte
na força de ser só um
por todos a quem a sorte
faz devorar em jejum.
Original é o poeta
que de todos for só um.

Original é o poeta
expulso do paraíso
por saber compreender
o que é o choro e o riso;
aquele que desce à rua
bebe copos    quebra nozes
e ferra em quem tem juízo
versos brancos e ferozes.
Original é o poeta
que é gato de sete vozes.

Original é o poeta
que chega ao despudor
de escrever todos os dias
como se fizesse amor.

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Desespero

N√£o eram meus os olhos que te olharam
Nem este corpo exausto que despi
Nem os l√°bios sedentos que poisaram
No mais secreto do que existe em ti.

N√£o eram meus os dedos que tocaram
Tua falsa beleza, em que n√£o vi
Mais que os vícios que um dia me geraram
E me perseguem desde que nasci.

N√£o fui eu que te quis. E n√£o sou eu
Que hoje te aspiro e embalo e gemo e canto,
Possesso desta raiva que me deu

A grande solid√£o que de ti espero.
A voz com que te chamo é o desencanto
E o espermen que te dou, o desespero.

Retrato de Amigo

Por ti falo. E ninguém sabe. Mas eu digo
meu irmão    minha amêndoa    meu amigo
meu tropel de ternura    minha casa
meu jardim de carência    minha asa.

Por ti morro e ninguém pensa. Mas eu sigo
um caminho de nardos empestados
uma intensa e terrífica ternura
rodeado de cardos por muitíssimos lados.

Meu perfume de tudo    minha essência
meu lume    minha lava    meu labéu
como é possível não chegar ao cume
de tão lavado céu?

Soneto de Mal Amar

Invento-te    recordo-te   distorço
a tua imagem mal e bem amada
sou apenas a forja em que me forço
a fazer das palavras tudo ou nada.

A palavra desejo incendiada
lambendo a trave mestra do teu corpo
a palavra ci√ļme atormentada
a provar-me que ainda n√£o estou morto.

E as coisas que eu n√£o disse? Que n√£o digo:
Meu terraço de ausência    meu castigo
meu p√Ęntano de rosas afogadas.

Por ti me reconheço e contradigo
ch√£o das palavras m√°goa joio e trigo
apenas por ternura levedadas.

Retrato do Herói

Herói é quem num muro branco inscreve
O fogo da palavra que o liberta:
Sangue do homem novo que diz povo
e morre devagar    de morte certa.

Homem é quem anónimo por leve
lhe ser o nome próprio traz aberta
a alma à fome    fechado o corpo ao breve
instante em que a den√ļncia fica alerta.

Herói é quem morrendo perfilado
Não é santo    nem mártir    nem soldado
Mas apenas¬†¬†¬† por √ļltimo¬†¬†¬† indefeso.

Homem é quem tombando apavorado
d√° o sangue ao futuro e fica ileso
pois lutando apagado morre aceso.

Caminharemos de Olhos Deslumbrados

Caminharemos de olhos deslumbrados
E braços estendidos
E nos l√°bios incertos levaremos
O gosto a sol e a sangue dos sentidos.

Onde estivermos, h√°-de estar o vento
Cortado de perfumes e gemidos.
Onde vivermos, h√°-de ser o templo
Dos nossos jovens dentes devorando
Os frutos proibidos.

No ritual do ver√£o descobriremos
O segredo dos deuses interditos
E marcados na testa exaltaremos
Estátuas de heróis castrados e malditos.

√ď deus do sangue! deus de miseric√≥rdia!
√ď deus das virgens loucas
Dos amantes com cio,
Imp√Ķe-nos sobre o ventre as tuas m√£os de rosas,
Unge os nossos cabelos com o teu desvario!

Desce-nos sobre o corpo como um falus irado,
Fustiga-nos os membros como um l√°tego doido,
Numa chuva de fogo torna-nos sagrados,
Imola-nos os sexos a um arcanjo loiro.

Persegue-nos, estonteia-nos, degola-nos, castiga-nos,
Arranca-nos os olhos, violenta-nos as bocas,
Atapeta de flores a estrada que seguimos
E carrega de aromas a brisa que nos toca.

Nus e ensanguentados dançaremos a glória
Dos nossos esponsais eternos com o estio
E coroados de apupos teremos a vitória
De nos rirmos do mundo num leito vazio.

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Namorados da Cidade

Namorados de Lisboa
à beira-Tejo assentados
a dormir na Madragoa.
Namorados de Lisboa
num mirante deslumbrados
à beira-verde acordados
namorados de Lisboa!

Ao domingo uma cerveja
uma pevide salgada
uma boca que se beija
e que nos sabe a cereja
a miséria adocicada
à beira-parque plantada:
namorados de Lisboa!
Sempre sempre apaixonados
mesmo que a tristeza doa
namorados de Lisboa!
Namorados de Lisboa
na cadeira de um cinema
onde as mãos andam à toa
à procura de um poema.
Namorados de Lisboa
que o mistério não desvenda
até que o escuro se acenda.

Namorados de Lisboa
a apertar num v√£o de escada
o prazer que nos magoa
e depois n√£o sabe a nada.
Namorados de Lisboa
a morar num v√£o de escada
namorados de Lisboa!
Sempre sempre apaixonados
Mesmo que a tristeza doa
namorados de Lisboa!

Retrato do Povo de Lisboa

√Č da torre mais alta do meu pranto
que eu canto este meu sangue este meu povo.
Dessa torre maior em que apenas sou grande
por me cantar de novo.

Cantar como quem despe a ganga da tristeza
e p√Ķe a nu a esp√°dua da saudade
chama que nasce e cresce e morre acesa
em plena liberdade.

√Č da voz do meu povo uma crian√ßa
seminua nas docas de Lisboa
que eu ganho a minha voz
caldo verde sem esperança
laranja de humildade
amarga lança
até que a voz me doa.

Mas nunca se dói só quem a cantar magoa
dói-me o Tejo vazio dói-me a miséria
apunhalada na garganta.
Dói-me o sangue vencido a nódoa negra
punhada no meu canto.

Estrela da Tarde

Era a tarde mais longa de todas as tardes que me acontecia
Eu esperava por ti, tu n√£o vinhas, tardavas e eu entardecia
Era tarde, t√£o tarde, que a boca tardando-lhe o beijo morria.
Quando à boca da noite surgiste na tarde qual rosa tardia
Quando nós nos olhámos, tardámos no beijo que a boca pedia
E na tarde fic√°mos, unidos, ardendo na luz que morria
Em nós dois nessa tarde em que tanto tardaste o sol amanhecia
Era tarde de mais para haver outra noite, para haver outro dia.
Meu amor, meu amor
Minha estrela da tarde
Que o luar te amanheça
E o meu corpo te guarde.
Meu amor, meu amor
Eu n√£o tenho a certeza
Se tu és a alegria
Ou se és a tristeza.
Meu amor, meu amor
Eu n√£o tenho a certeza!

Foi a noite mais bela de todas as noites que me adormeceram
Dos nocturnos silêncios que à noite de aromas e beijos se encheram
Foi a noite em que os nossos dois corpos cansados n√£o adormeceram
E da estrada mais linda da noite uma festa de fogo fizeram.

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A cidade é um chão de palavras pisadas

A cidade é um chão de palavras pisadas
a palavra criança a palavra segredo.
A cidade é um céu de palavras paradas
a palavra dist√Ęncia e a palavra medo.

A cidade é um saco um pulmão que respira
pela palavra √°gua pela palavra brisa
A cidade é um poro um corpo que transpira
pela palavra sangue pela palavra ira.

A cidade tem praças de palavras abertas
como est√°tuas mandadas apear.
A cidade tem ruas de palavras desertas
como jardins mandados arrancar.

A palavra sarcasmo é uma rosa rubra.
A palavra silêncio é uma rosa chá.
Não há céu de palavras que a cidade não cubra
n√£o h√° rua de sons que a palavra n√£o corra
à procura da sombra de uma luz que não há.

Ecce Homo

Desbaratamos deuses, procurando
Um que nos satisfaça ou justifique.
Desbaratamos esperança, imaginando
Uma causa maior que nos explique.

Pensando nos secamos e perdemos
Esta força selvagem e secreta,
Esta semente agreste que trazemos
E gera heróis e homens e poetas.

Pois deuses somos nós. Deuses do fogo
Malhando-nos a carne, até que em brasa
Nossos sexos furiosos se confundam,

Nossos corpos pensantes se entrelacem
E sangue, raiva, desespero ou asa,
Os filhos que tivermos forem nossos.

Meu Camarada e Amigo

Revejo tudo e redigo
meu camarada e amigo.
Meu irm√£o suando p√£o
sem casa mas com raz√£o.
Revejo e redigo
meu camarada e amigo

As can√ß√Ķes que trago prenhas
de ternura pelos outros
saem das minhas entranhas
como um rebanho de potros.
Tudo vai roendo a erva
daninha que me entrelaça:
canção não pode ser serva
homem não pode ser caça
e a poesia tem de ser
como um cavalo que passa.

√Č por dentro desta selva
desta raiva   deste grito
desta toada que vem
dos pulm√Ķes do infinito
que em todos vejo ninguém
revejo tudo e redigo:
Meu camarada e amigo.

Sei bem as mós que moendo
pouco a pouco trituraram
os ossos que est√£o doendo
àqueles que não falaram.

Calculo até os moinhos
puxados a ódio e sal
que a par dos monstros marinhos
v√£o movendo Portugal
‚ÄĒ mas um poeta s√≥ fala
por sofrimento total!

Por isso calo e sobejo
eu que só tenho o que fiz
dando tudo mas à toa:
Amigos no Alentejo
alguns que est√£o em Paris
muitos que s√£o de Lisboa.

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Cantiga de Amigo

Nem um poema nem um verso nem um canto
tudo raso de ausência tudo liso de espanto
e nem Cam√Ķes Virg√≠lio Shelley Dante
– o meu amigo est√° longe
e a dist√Ęncia √© bastante.

Nem um som nem um grito nem um ai
tudo calado todos sem m√£e nem pai
Ah n√£o Cam√Ķes Virg√≠lio Shelley Dante!

– o meu amigo est√° longe
e a tristeza é bastante.

Nada a não ser este silêncio tenso
que faz do amor sozinho o amor imenso.
Calai Cam√Ķes Virg√≠lio Shelley Dante:
o meu amigo est√° longe
e a saudade é bastante!

Auto-Retrato

Poeta é certo mas de cetineta
fulgurante de mais para alguns olhos
bom artes√£o na arte da proveta
narciso de lombardas e repolhos.

Cozido à portuguesa mais as carnes
suculentas da auto-import√Ęncia
com toicinho e talento ambas partes
do meu caldo entornado na inf√Ęncia.

Nos olhos uma folha de hortel√£
que é verde como a esperança que amanhã
amanheça de vez a desventura.

Poeta de combate disparate
palavr√£o de mach√£o no escaparate
porém morrendo aos poucos de ternura.

Soneto

Fecham-se os dedos donde corre a esperança,
Toldam-se os olhos donde corre a vida.
Porquê esperar, porquê, se não se alcança
Mais do que a ang√ļstia que nos √© devida?

Antes aproveitar a nossa herança
De inten√ß√Ķes e palavras proibidas.
Antes rirmos do anjo, cuja lança
Nos expulsa da terra prometida.

Antes sofrer a raiva e o sarcasmo,
Antes o olhar que peca, a m√£o que rouba,
O gesto que estrangula, a voz que grita.

Antes viver do que morrer no pasmo
Do nada que nos surge e nos devora,
Do monstro que invent√°mos e nos fita.

Epígrafe

De palavras n√£o sei. Apenas tento
desvendar o seu lento movimento
quando passam ao longo do que invento
como pre-feitos blocos de cimento.

De palavras n√£o sei. Apenas quero
retomar-lhes o peso a consistência
e com elas erguer a fogo e ferro
um palácio de força e resistência.

De palavras n√£o sei. Por isso canto
em cada uma apenas outro tanto
do que sinto por dentro quando as digo.

Palavra que me lavra. Alfaia escrava.
De mim próprio matéria bruta e brava
– express√£o da multid√£o que est√° comigo.