Passagens sobre LĂ­ngua

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Todo o paĂ­s escravizado por outro ou outros paĂ­ses, tem na mĂŁo, enquanto souber ou puder conservar a prĂłpria lĂ­ngua, a chave da prisĂŁo onde jaz.

Diga-me com quem andas e dir-te-ei [que lĂ­ngua, a nossa!] quem Ă©s. Pois Ă©: Judas andava com Cristo. Cristo andava com Judas

As Palavras de Amor

Esqueçamos as palavras, as palavras:
As ternas, caprichosas, violentas,
As suaves de mel, as obscenas,
As de febre, as famintas e sedentas.

Deixemos que o silĂȘncio dĂȘ sentido
Ao pulsar do meu sangue no teu ventre:
Que palavra ou discurso poderia
Dizer amar na lĂ­ngua da semente?

Vida Toda Linguagem

Vida toda linguagem,
frase perfeita sempre, talvez verso,
geralmente sem qualquer adjectivo,
coluna sem ornamento, geralmente partida.

Vida toda linguagem,
hĂĄ entretanto um verbo, um verbo sempre, e um nome
aqui, ali, assegurando a perfeição
eterna do perĂ­odo, talvez verso,
talvez interjectivo, verso, verso.
Vida toda linguagem,
feto sugando em lĂ­ngua compassiva
o sangue que criança espalhará — oh metáfora activa!
leite jorrado em fonte adolescente,
sémen de homens maduros, verbo, verbo.
Vida toda linguagem,
bem o conhecem velhos que repetem,
contra negras janelas, cintilantes imagens
que lhes estrelam turvas trajectĂłrias.
Vida toda linguagem —
como todos sabemos
conjugar esses verbos, nomear
esses nomes:
amar, fazer, destruir,
homem, mulher e besta, diabo e anjo
e deus talvez, e nada.
Vida toda linguagem,
vida sempre perfeita,
imperfeitos somente os vocĂĄbulos mortos
com que um homem jovem, nos terraços do inverno, contra
[a chuva,
tenta fazĂȘ-la eterna — como se lhe faltasse
outra, imortal sintaxe
Ă  vida que Ă© perfeita
lĂ­ngua
eterna.

LĂșcia

(Alfred de Musset)

NĂłs estĂĄvamos sĂłs; era de noite;
Ela curvara a fronte, e a mĂŁo formosa,
Na embriaguez da cisma,
TĂȘnue deixava errar sobre o teclado;
Era um murmĂșrio; parecia a nota
De aura longĂ­nqua a resvalar nas balsas
E temendo acordar a ave no bosque;
Em torno respiravam as boninas
Das noites belas as volĂșpias mornas;
Do parque os castanheiros e os carvalhos
Brando embalavam orvalhados ramos;
OuvĂ­amos a noite, entre-fechada,
A rasgada janela
Deixava entrar da primavera os bĂĄlsamos;
A vĂĄrzea estava erma e o vento mudo;
Na embriaguez da cisma a sĂłs estĂĄvamos
E tĂ­nhamos quinze anos!

LĂșcia era loura e pĂĄlida;
Nunca o mais puro azul de um céu profundo
Em olhos mais suaves refletiu-se.
Eu me perdia na beleza dela,
E aquele amor com que eu a amava – e tanto ! –
Era assim de um irmĂŁo o afeto casto,
Tanto pudor nessa criatura havia!

Nem um som despertava em nossos lĂĄbios;
Ela deixou as suas mĂŁos nas minhas;
TĂ­bia sombra dormia-lhe na fronte,

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O Lutador

Buscou no amor o bĂĄlsamo da vida,
NĂŁo encontrou senĂŁo veneno e morte.
Levantou no deserto a roca-forte
Do egoĂ­smo, e a roca em mar foi submergida!

Depois de muita pena e muita lida,
De espantoso caçar de toda sorte,
Venceu o monstro de desmedido porte
– A ululante Quimera espavorida!

Quando morreu, lĂ­nguas de sangue ardente,
Aleluias de fogo acometiam,
Tomavam todo o céu de lado a lado.

E longamente, indefinidamente,
Como um coro de ventos sacudiam
Seu grande coração transverberado!

A lĂ­ngua das mulheres Ă© a sua espada e tĂȘm o cuidado de a nĂŁo deixarem enferrujar.

Escreve claro quem concebe ou imagina claro; com vigor, quem com vigor pensa, por ser a lĂ­ngua um vestido transparente do pensamento.

Os meus escritores de referĂȘncia sĂŁo Montaigne, Cervantes, o padre AntĂłnio Vieira, Gogol e Kafka. O padre AntĂłnio Vieira era um jesuĂ­ta do sĂ©culo XVII. Nunca se escreveu na lĂ­ngua portuguesa com tanta beleza como ele o fez.

Excesso de VolĂșpia

A volĂșpia carnal Ă© uma experiĂȘncia dos sentidos, anĂĄloga ao simples olhar ou Ă  simples sensação com que um belo fruto enche a lĂ­ngua. É uma grande experiĂȘncia sem fim que nos Ă© dada; um conhecimento do mundo, a plenitude e o esplendor de todo o saber. O mal nĂŁo Ă© que nĂłs a aceitemos; o mal consiste em quase todos abusarem dessa experiĂȘncia, malbaratando-a, fazendo dela um mero estĂ­mulo para os momentos cansados da sua existĂȘncia.

Nossa LĂ­ngua

para o poeta Antoniel Campos*

O doce som de mel que sai da boca
na lĂ­ngua da saudade e do crepĂșsculo
vem adoçando o mar de conchas ocas
em mansa voz domando tons maiĂșsculos.

É bela fiandeira em sua roca
tecendo a fala forte com seu mĂșsculo
na hora que Ă© preciso sai da toca
como fera que sabe o tomo e o opĂșsculo.

Dizer e maldizer do mel ao fel
Ă© fado de cantigas tĂŁo antigas
desde CamÔes, Bandeira a Antoniel,
este jovem poeta que se abriga

na lĂ­ngua portuguesa em verso e fala
nau de calado ao mar que nĂŁo se cala.

* “filiu brasilis, mater portucale,
Que em outra lĂ­ngua a minha lĂ­ngua cale.”

O Jardim

Consideremos o jardim, mundo de pequenas coisas,
calhaus, pétalas, folhas, dedos, línguas, sementes.
SequĂȘncias de convergĂȘncias e divergĂȘncias,
ordem e dispersĂ”es, transparĂȘncia de estruturas,
pausas de areia e de ĂĄgua, fĂĄbulas minĂșsculas.

Geometria que respira errante e ritmada,
varandas verdes, direcçÔes de primavera,
ramos em que se regressa ao espaço azul,
curvas vagarosas, pulsaçÔes de uma ordem
composta pelo vento em sinuosas palmas.

Um murmĂșrio de omissĂ”es, um cĂąntico do Ăłcio.
Eu vou contigo, voz silenciosa, voz serena.
Sou uma pequena folha na felicidade do ar.
Durmo desperto, sigo estes meandros volĂșveis.
É aqui, Ă© aqui que se renova a luz.

Nos dias atuais todos nĂłs falamos, se nĂŁo a mesma lĂ­ngua, uma espĂ©cie de linguagem universal. Nao existe um Ășnico centro e o tempo perdeu sua coerĂȘncia. Leste e Oeste, passado e futuro se misturam dentro de nĂłs. Diferentes tempos e espaços se combinam aqui, agora, tudo de uma vez sĂł.

Se Portugal teve valor na histĂłria do mundo, nĂŁo foi no esforço da uniformização, igual a tantos outros. NĂŁo foi na imposição de uma lĂ­ngua, de uma religiĂŁo, de uma raça. A glĂłria do impĂ©rio portuguĂȘs nĂŁo foi o facto de ter sido portuguĂȘs contra as nacionalidades que subjugou. Foi ter sido capaz de ser portuguĂȘs sem deixar de ser outras coisas. No mĂĄximo, foi ter sido portuguĂȘs por ter sido tudo menos portuguĂȘs. Ou quase tudo.