Textos sobre Portugueses

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Textos de portugueses escritos por poetas consagrados, filósofos e outros autores famosos. Conheça estes e outros temas em Poetris.

Um Povo Errado

Uma volta que teve por polos Mafra e o Estoril. Um passeio à roda da nossa história e do nosso mundo do capital. Mais uma tentativa para compreender como foi possível no passado português construir um convento daqueles, e é possível construir no presente português um paraíso destes. Decididamente, fomos, somos e seremos um povo errado. Um povo que não encontra nem o seu destino, nem os seus homens. E lá estava, depois do estendal de mármore e do morro de luxo, a prová-lo, o singelo monumento erguido no sítio onde foram lançadas as cinzas de Gomes Freire enforcado.

Se Queres Ser Feliz Abdica da Inteligência

Os tolos s√£o felizes; eu se fosse casado eliminava os tolos da minha casa. Cada cidad√£o, que me fosse apresentado, n√£o poderia s√™-lo, sem exibir o diploma de s√≥cio da academia real das ci√™ncias. Olha, crian√ßa, decora estas duas verdades que o Balzac n√£o menciona na ¬ęFisiologia do Casamento¬Ľ. Um erudito, ao p√© da tua mulher, fala-lhe na civiliza√ß√£o grega, na decad√™ncia do imp√©rio romano, em economia politica, em direito publico, e at√© em qu√≠mica aplicada ao extracto do esp√≠rito de rosas. Confessa que tudo isto o maior mal que pode fazer √† tua mulher √© adormec√™-la. O tolo n√£o √© assim. Como ignora e desdenha a ci√™ncia, dispara √† queima roupa na tua pobre mulher quantos galanteios importou de Paris, que s√£o originais em Portugal, porque s√£o ditos num idioma que n√£o √© franc√™s nem portugu√™s.

Tua mulher, se tem a infelicidade de não ter em ti um marido doce e meigo, começa a comparar-te com o tolo, que a lisonjeia, e acha que o tolo tem muito juízo. Concedido juízo ao tolo, concede-se-lhe razão; concedida a razão, concede-se-lhe tudo. Ora aí tens porque eu antes queria ao pé de minha mulher o padre José Agostinho de Macedo,

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Cada Português que se Preza

√Č escusado. Cada portugu√™s que se preza √© uma muralha de sufici√™ncia contra a qual se quebram todas as vagas da inquieta√ß√£o. Conhece tudo, previu tudo, tem solu√ß√Ķes para tudo. E quando algu√©m se apresenta carregado de d√ļvidas, tolhido de perplexidades, vira-lhe as costas ou tapa os ouvidos. Um m√≠nimo de aten√ß√£o ao interlocutor seria j√° uma prova de fraqueza, uma confiss√£o de falibilidade. Quanto mais apertado o seu horizonte intelectual, mais porfia na vulgaridade das certezas que proclama. N√£o √† maneira humilde e cabe√ßuda dos que se limitam a transmitir sem an√°lise um saber ancestral, mas como um presumido doutor, impante de mediocridade.

O País é Pequeno e a Gente que nele Vive também não é Grande

Em tempos disse que Portugal estava culturalmente morto. Talvez o tenha dito em determinado momento, mas tamb√©m o diria hoje porque Portugal n√£o tem ideias de futuro, nenhuma ideia do futuro portugu√™s, nem uma ideia que seja sua, e vai navegando ao sabor da corrente. A cultura, apesar de tudo, tem sobrevivido e √© aquilo que pode dar do pa√≠s uma imagem aberta e positiva em todos os aspectos, seja no cinema, na literatura ou na arte – temos grandes pintores que andam espalhados pelo mundo. Mas o Almeida Garrett definiu-nos de uma vez para sempre e de uma maneira que se tem de reconhecer que √© uma radiografia de corpo inteiro: ¬ęO pa√≠s √© pequeno e a gente que nele vive tamb√©m n√£o √© grande.¬Ľ √Č tremenda esta defini√ß√£o, mas se tivermos ocasi√£o de verificar, desde o tempo do Almeida Garrett e, projectando para tr√°s, efectivamente o pa√≠s √© pequeno (…), mas o que est√° em causa n√£o √© o tamanho f√≠sico do pa√≠s mas a dimens√£o espiritual e mental dos seus habitantes.

O que é Portugal?

Que √©, ou quem √©, Portugal? Uma Cultura? Uma Hist√≥ria? Um Adormecido Inquieto? Por que √© que, quando se fala de Portugal, sempre h√£o-de ser invocadas a sua hist√≥ria e a sua cultura? Se estivermos a falar de outro pa√≠s, a hist√≥ria e a cultura dele s√≥ ser√£o chamadas √† conversa se forem esses os temas em debate. Talvez que esta necessidade de apelarmos constantemente para a hist√≥ria e para a cultura portuguesas provenha de um certo car√°cter inconclusivo (n√£o no sentido que sempre ser√° o de um qualquer processo cont√≠nuo, mas no sentido de uma permanente ¬ęsuspens√£o¬Ľ) que ambas parecem apresentar. Da hist√≥ria de Portugal sempre nos d√° vontade de perguntar: porqu√™? Da cultura portuguesa: para qu√™? De Portugal, ele pr√≥prio: para quando? Ou: at√© quando? Se estas interroga√ß√Ķes n√£o s√£o gratuitas, se, pelo contr√°rio, exprimem, como creio, um sentimento de perplexidade nacional, ent√£o os nossos problemas s√£o muito s√©rios.

Somos Cidadãos Sem Laços de Cidadania

√Č escusado. Em nenhuma √°rea do comportamento social conseguimos encontrar um denominador comum que nos torne a conviv√™ncia harmoniosa. Procedemos em todos os planos da vida colectiva como figadais advers√°rios. Guerreamo-nos na pol√≠tica, na literatura, no com√©rcio e na ind√ļstria. Onde est√£o dois portugueses est√£o dois concorrentes hostis √† Presid√™ncia da Rep√ļblica, √† chefia dum partido, √† ger√™ncia dum banco, ao comando de uma corpora√ß√£o de bombeiros. N√£o somos capazes de reconhecer no vizinho o talento que nos falta, as virtudes de que carecemos. Diante de cada sucesso alheio ficamos transtornados. E vingamo-nos na s√°tira, na mordacidade, na maledic√™ncia. Nas cidades ou nas aldeias, por f√°s e por nefas, n√£o h√° ningu√©m sem alcunha, a todos √© colado um rabo-leva pejorativo. Quem quiser conhecer a natureza do nosso relacionamento, leia as pol√©micas que trav√°mos ao longo dos tempos. S√£o reveladoras. A celebrada carta de E√ßa a Camilo ou a tamb√©m conhecida deste ao conselheiro Forjaz de Sampaio d√£o a medida exacta da verrina em que nos comprazemos no trato di√°rio. Gregariamente, somos um somat√≥rio de cidad√£os sem la√ßos de cidadania.

O Provincianismo Português (II)

Se fosse preciso usar de uma s√≥ palavra para com ela definir o estado presente da mentalidade portuguesa, a palavra seria “provincianismo”. Como todas as defini√ß√Ķes simples esta, que √© muito simples, precisa, depois de feita, de uma explica√ß√£o complexa. Darei essa explica√ß√£o em dois tempos: direi, primeiro, a que se aplica, isto √©, o que deveras se entende por mentalidade de qualquer pa√≠s, e portanto de Portugal; direi, depois, em que modo se aplica a essa mentalidade.
Por mentalidade de qualquer pa√≠s entende-se, sem d√ļvida, a mentalidade das tr√™s camadas, organicamente distintas, que constituem a sua vida mental ‚ÄĒ a camada baixa, a que √© uso chamar povo; a camada m√©dia, a que n√£o √© uso chamar nada, excepto, neste caso por engano, burguesia; e a camada alta, que vulgarmente se designa por escol, ou, traduzindo para estrangeiro, para melhor compreens√£o, por elite.
O que caracteriza a primeira camada mental é, aqui e em toda a parte, a incapacidade de reflectir. O povo, saiba ou não saiba ler, é incapaz de criticar o que lê ou lhe dizem. As suas ideias não são actos críticos, mas actos de fé ou de descrença, o que não implica, aliás,

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Ser Português, Ainda

Para ser portugu√™s, ainda, vive-se entre letras de poemas e esperan√ßas, cantigas e promessas, de passados esquecidos e futuros desejados, sem presente, sem pensamento, sem Portugal. Para ser portugu√™s, ainda, aprende-se a existir no gume da tristeza, como um equilibrista num andaime de navalhas levantadas, numa obra que se vai construindo sob uma arquitectura de demoli√ß√£o. T√≠nhamos direito a um Portugal inteiro, com povo e com a terra, mas o povo enlouqueceu e a terra foi arrasada e tudo o que era p√°tria, doce e atrevida, se afasta √† medida que olhamos para ela, tal √© a √Ęnsia de apagamento e de perdi√ß√£o. Restam-nos sons e riscos. Portugal encolheu-se. Escondeu-se nos poetas e cantores. Recolheu-se nas vozes fundas de onde nasceu. Portugal abrigou-se em portugueses e portuguesas nos quais uma ideia de Portugal nunca se perdeu.

Para se ser português, ainda, é preciso estreitar os olhos e molhar a garganta com vinho tinto para poder gritar que isto assim não é Portugal, não é país, não é nada. Torna-se cada vez mais difícil que o povo e a terra e a ideia se possam alguma vez reunir.
√Č preciso defender violentamente as institui√ß√Ķes: a Universidade, o Parlamento,

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Uma Discuss√£o nesta Santa Terra Portuguesa Acaba sempre aos Berros

N√£o h√° maneira. Por mais boa vontade que tenham todos, uma discuss√£o nesta santa terra portuguesa acaba sempre aos berros e aos insultos. Ningu√©m √© capaz de expor as suas raz√Ķes sem a convic√ß√£o de que diz a √ļltima palavra. E a desgra√ßa √© que a esta presun√ß√£o do esp√≠rito se junta ainda a nossa velha tend√™ncia apost√≥lica, que onde sente um n√°ufrago tem de o salvar. O resultado √© tornar-se imposs√≠vel qualquer colabora√ß√£o nas ideias, o alargamento da cultura e de gosto, e dar-se uma tr√°gica concentra√ß√£o de tudo na mesquinhez do individual.

O Amor Português não é um Fenómeno Ternurento

Do carinho e do mimo, toda a gente sabe tudo o que h√° a saber ‚ÄĒ e mais um bocado. Do amor, ningu√©m sabe nada. Ou pensa-se que se sabe, o que √© um bocado menos do que nada. O mais que se pode fazer √© procurar saber quem se ama, sem querer saber que coisa √© o amor que se tem, ou de que s√≠tio vem o amor que se faz.

Do amor √© bom falar, pelo menos naqueles intervalos em que n√£o √© t√£o bom amar. Todos os pa√≠ses h√£o-de ter a sua pr√≥pria cultura amorosa. A portuguesa √© excepcional. Nas culturas mais parecidas com a nossa, √© muito maior a diferen√ßa que se faz entre o amor e a paix√£o. Faz-se de conta que o amor √© uma coisa ‚ÄĒ mais tranquila e pura e duradoura ‚ÄĒ e a paix√£o √© outra ‚ÄĒ mais do√≠da e complicada e ef√©mera. Em Portugal, por√©m, n√£o gostamos de dizer que nos ¬ęenamoramos¬Ľ, e o ¬ęenamoramento¬Ľ e outras palavras que contenham a palavra ¬ęamor¬Ľ s√£o-nos sempre um pouco estranhas. Quando n√≥s nos perdemos de amores por algu√©m, dizemos (e nitidamente sentimos) que nos apaixonamos. Aqui, sabe-se l√° por que atavismos atl√Ęnticos,

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Mensagem aos Portugueses

O que quero de todos os portugueses √© o seguinte: sejam curiosos; e que a organiza√ß√£o em sociedade possa ser de tal maneira que eles possam satisfazer essa curiosidade completamente. E n√£o para ganhar dinheiro, n√£o para fazer figura, nem para ganhar cargo, mas para ser plenamente aquilo que √©. Alguma coisa que ele sinta que o est√° desenvolvendo na mensagem √ļnica que tem que dar do mundo, de maneira que a minha mensagem para qualquer aluno de qualquer escola √©: fa√ßa favor de cuidar da sua mensagem e n√£o da minha. A minha foi, √© s√≥ para dizer ¬ęcuide da sua¬Ľ, porque essa √© que tem import√Ęncia. E a mensagem ser√° vossa na medida em que for o mais diferente poss√≠vel da minha, ou de qualquer outra. Sen√£o, para qu√™ duplicados no mundo? N√£o √© preciso. Para isso √© que inventaram os carimbos. Eu n√£o sou um carimbo de ningu√©m.

O Político Português

Para o bom portugu√™s, meus Senhores, a carreira verdadeiramente ideal √© aquela que n√£o exija prepara√ß√£o e em que se n√£o fa√ßa nada sob a apar√™ncia de que se faz alguma coisa. (Porque em suma ele envergonha-se de o chamarem pregui√ßoso). Ora desde os tempos em que Spencer, um pouco irreverentemente, √© verdade, vinha declarar que, ¬ęexigindo-se uma longa aprendizagem para se fazerem sapatos, n√£o era precisa nem pequena nem grande para se fazerem leis¬Ľ, o caminho, h√£o-de concordar, estava naturalmente tra√ßado. Demais aquele velho Arist√≥teles, que foi fil√≥sofo na antiga Gr√©cia, escreveu ingenuamente um dia que a pol√≠tica era a dific√≠lima arte de os indiv√≠duos governarem os povos. J√° l√° v√£o s√©culos por√©m. O tempo tudo altera; alterou tamb√©m a ideia: hoje √© a mais f√°cil arte de os povos governarem os indiv√≠duos.

Reinventar o Mistério

Cada vez acredito mais nisso: pode efectivamente haver bom sexo sem pecado. Mas n√£o pode, nunca p√īde, nem nunca poder√° haver bom sexo sem mist√©rio. Se muitos casais perdem o desejo ao fim de alguns anos, √© porque o mist√©rio desapareceu. Se outros tantos o mant√™m latejante ao fim de v√°rias d√©cadas, √© porque encontraram uma forma de reinventar o mist√©rio. Feitas as contas, tem de haver sempre alguma espontaneidade – at√© alguma pressa, alguma urg√™ncia. E o melhor, apesar de tudo, √© que o sexo seja muitas vezes bom e todas as restantes apenas assim-assim. No exacto instante em que for perfeito perder√° dois ter√ßos do interesse, se n√£o o interesse todo. Da pr√≥xima j√° n√£o poder√° ser melhor.

√Č claro: quatro quintos dos portugueses discordar√£o aberta e ostensivamente disto. Nos estudos sociol√≥gicos e nas conversas de caf√©, nas telenovelas e nas reportagens ¬ędo social¬Ľ, n√£o encontro outra coisa sen√£o atletas sexuais – e nenhum atleta sexual alguma vez poder√° ser surpreendido a aceitar que a sua √ļltima sess√£o foi apenas assim-assim (e muito menos que a pr√≥xima poder√° ser assim-assim tamb√©m).

A Nossa Crise Mental

Que pensa da nossa crise? Dos seus aspectos Рpolítico, moral e intelectual?
A nossa crise prov√©m, essencialmente, do excesso de civiliza√ß√£o dos inciviliz√°veis. Esta frase, como todas que envolvem uma contradi√ß√£o, n√£o envolve contradi√ß√£o nenhuma. Eu explico. Todo o povo se comp√Ķe de uma aristocracia e de ele mesmo. Como o povo √© um, esta aristocracia e este ele mesmo t√™m uma subst√Ęncia id√™ntica; manifestam-se, por√©m, diferentemente. A aristocracia manifesta-se como indiv√≠duos, incluindo alguns indiv√≠duos amadores; o povo revela-se como todo ele um indiv√≠duo s√≥. S√≥ colectivamente √© que o povo n√£o √© colectivo.
O povo portugu√™s √©, essencialmente, cosmopolita. Nunca um verdadeiro portugu√™s foi portugu√™s: foi sempre tudo. Ora ser tudo em um indiv√≠duo √© ser tudo; ser tudo em uma colectividade √© cada um dos indiv√≠duos n√£o ser nada. Quando a atmosfera da civiliza√ß√£o √© cosmopolita, como na Renascen√ßa, o portugu√™s pode ser portugu√™s, pode portanto ser indiv√≠duo, pode portanto ter aristocracia. Quando a atmosfera da civiliza√ß√£o n√£o √© cosmopolita ‚ÄĒ como no tempo entre o fim da Renascen√ßa e o princ√≠pio, em que estamos, de uma Renascen√ßa nova ‚ÄĒ o portugu√™s deixa de poder respirar individualmente. Passa a ser s√≥ portugueses. Passa a n√£o poder ter aristocracia.

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O Sucesso para um Grande Amor

Estou contente porque a minha querida n√£o tem ainda o afecto exclusivo e √ļnico que h√°-de sentir um dia por um homem, apesar de todas as suas teorias que h√°-de ver voar, voar para t√£o longe ainda!… E no entanto, elas s√£o t√£o verdadeiras! Ainda assim, minha querida J√ļlia, uma das coisas melhores da nossa vida de t√£o prosaico s√©culo, √© o amor, o grande e discutido amor, o nosso encanto e o nosso mist√©rio; as nossas p√©talas de rosa e a nossa coroa de espinhos. O amor √ļnico, doce e sentimental da nossa alma de portugueses, o amor de que fala J√ļlio Dantas, ¬ęuma ternura casta, uma ternura s√£¬Ľ de que ¬ęo peito que o sente √© um sacr√°rio estrela¬≠do¬Ľ, como diz Junqueiro; o amor que √© a raz√£o √ļnica da vida que se vive e da alma que se tem; a paix√£o delicada que d√° beijos ao luar e alma a tudo, desde o olhar ao sorriso, ‚ÄĒ √© ainda uma coisa nobre, bela e digna! Digna de si, do seu sentir, do seu grande cora√ß√£o, ao mesmo tempo violento e calmo. Esse amor que ¬ęem sendo triste, canta, e em sendo alegre, chora¬Ľ, esse amor h√°-de senti-lo um dia,

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O Belíssimo Sonho do Preguiçoso Português

Quem se importa por√©m com isso? Trabalhar o menos poss√≠vel sob a tutela do Estado que lhe garanta o suficiente √† vida ‚ÄĒ, eis o sonho, o bel√≠ssimo sonho do pregui√ßoso portugu√™s!
Do pregui√ßoso portugu√™s, n√£o digo bem, do pregui√ßoso latino; porque em todos os pa√≠ses desta fam√≠lia se est√£o notando, em flagrante oposi√ß√£o aos anglo-sax√≥nios, as mesmas tend√™ncias as quais, no que particularmente respeita √† Fran√ßa, n√£o h√° muito vi afirmadas num livro dum escritor daquela nacionalidade que v√≥s talvez conhe√ßais ‚ÄĒ Gustave Le Bon.
Eu quero admitir, meus senhores, que sobre n√≥s influi o clima, a ra√ßa, as tradi√ß√Ķes, o passado, em tanto quanto a geografia e a hist√≥ria podem influir no car√°cter dum povo. N√£o podemos ent√£o transformar-nos completamente, e ut√≥pico mesmo me parece o desejo dum dos homens a quem o ensino secund√°rio em Fran√ßa mais deve, Demolins, expresso na sua obra sobre as causas da superioridade anglo-sax√≥nica: ‚ÄĒ inglesa, se assim me posso exprimir, as sociedades latinas.
Mas sem essa conversão completa, sem mudarmos mesmo grande parte das nossas ideias, sem irmos de encontro a algumas das nossas tendências, e pormos de lado alguns dos nossos sentimentos, nós podíamos, parece-me a mim,

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Um Século de Discursos sem Resultados

O eterno ¬ędeficit¬Ľ; o mist√©rio tenebroso das contas e da d√≠vida p√ļblica; o espectro da bancarrota; a quebra da moeda; o ¬ędeficit¬Ľ da balan√ßa comercial; a insufici√™ncia econ√≥mica; a mis√©ria agr√≠cola; a irriga√ß√£o do Alentejo; o repovoamento florestal; as estradas; os portos; o analfabetismo; o abandono das popula√ß√Ķes rurais; a pesca; a marinha mercante ; a administra√ß√£o colonial; a instru√ß√£o e rearmamento do Ex√©rcito; a reconstru√ß√£o da marinha de guerra; a viciosa educa√ß√£o da gente portuguesa; a emigra√ß√£o; o quadro das nossas rela√ß√Ķes internacionais; a quest√£o religiosa ‚ÄĒ tudo isto absorveu literalmente um s√©culo de discursos, toneladas de artigos e n√£o deu um passo, salvo sempre o respeito pelos esfor√ßos honestos e realiza√ß√Ķes parciais √ļteis, entre as quais se destacam o fomento das comunica√ß√Ķes e a ocupa√ß√£o colonial.

O Português

Prefere ser um rico desconhecido, a ser um her√≥i pobre. √Č melhor do que parece. O homem portugu√™s √© dissimulado, e fez da inveja um discurso do bom senso e dos direitos humanos.
Mas √© tamb√©m um homem de paix√Ķes moderadas pela sensibilidade, o que faz dele um grande civilizado.
Gosta das mulheres, o que explica o estado de dependência em que as pretende manter. A dependência é uma motivação erótica.
√Č inovador mas tem pouco car√°cter, como √© pr√≥prio dos superiormente inteligentes, tanto cientistas, como fil√≥sofos e criadores em geral.
Mente muito, e a verdade que se arroga √© uma culpa inibida. Vemos que ele se mant√©m num estado primitivo quando defende a sua √°rea de partido, de seita e de fam√≠lia, √† custa de corrup√ß√Ķes e de crimes, se for preciso.
Gosta do poder mas não da notoriedade. Não tem o sentido da eternidade, mas sim o prazer da liberdade imediata. Não é democrata; excepto se isso intimidar os seus adversários.
Não tem génio, tem habilidade.
√Č imaginativo mas n√£o pensador.
√Č culto mas n√£o experiente.
N√£o gosta da lei, porque ela desvaloriza a sua pr√≥pria iniciativa. √Č m√≠stico com a f√°bula e viril com a desgra√ßa.

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O Amor em Portugal

Mesmo que Dom Pedro n√£o tenha arrancado e comido o cora√ß√£o do carrasco de Dona In√™s, J√ļlio Dantas continua a ter raz√£o: √© realmente diferente o amor em Portugal. Basta pensar no inc√≥modo fon√©tico de dizer ¬ęEu amo-o¬Ľ ou ¬ęEu amo-a¬Ľ. Em Portugal aqueles que amam preferem dizer que est√£o apaixonados, o que n√£o √© a mesma coisa, ou ent√£o embara√ßam seriamente os eleitos com as vers√Ķes estrangeiras: ¬ęI love you¬Ľ ou ¬ęJe t’aime¬Ľ. As perguntas ¬ęAmas-me?¬Ľ ou ¬ęSer√° que me amas?¬Ľ est√£o vedadas pelo bom gosto, sen√£o pelo bom senso. Por isso diz-se antes ¬ęGostas mesmo de mim?¬Ľ, o que tamb√©m n√£o √© a mesma coisa.

O mesmo pudor aflige a palavra amante, a qual, ao contr√°rio do que acontece nas demais l√≠nguas indo-europeias, n√£o tem em Portugal o sentido simples e bonito de ¬ęaquele que ama, ou √© amado¬Ľ. Diz-se que n√£o sei-quem √© amante de outro, e entende-se logo, maliciosamente, o biscate por fora, o concubinato indecente, a pouca vergonha, o treco-lareco machista da cervejaria, ou o opr√≥bio galin√°ceo das reuni√Ķes de ¬ętupperwares¬Ľ e de costura.
Amoroso não significa cheio de amor, mas sim qualquer vago conceito a leste de levemente simpático, porreiro, ou giríssimo.

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O Grande Mito Nacional

Há uma espécie de propaganda com que se pode levantar o moral de uma nação Рa construção ou renovação e a difusão consequente e multímoda de um grande mito nacional. De instinto, a humanidade odeia a verdade, porque sabe, com o mesmo instinto, que não há verdade, ou que a verdade é inatingível. O mundo conduz-se por mentiras; quem quiser despertá-lo ou conduzi-lo terá que mentir-lhe delirantemente, e fá-lo-á com tanto mais êxito quanto mais mentir a si mesmo e se compenetrar da verdade da mentira que criou. Temos, felizmente, o mito sebastianista, com raízes profundas no passado e na alma portuguesa. Nosso trabalho é pois mais fácil; não temos que criar um mito, senão que renová-lo. Comecemos por nos embebedar desse sonho, por o integrar em nós, por o incarnar. Feito isso, por cada um de nós independentemente e a sós consigo, o sonho se derramará sem esforço em tudo que dissermos ou escrevermos, e a atmosfera estará criada, em que todos os outros, como nós, o respirem. Então se dará na alma da nação o fenómeno imprevisível de onde nascerão as Novas Descobertas, a Criação do Mundo Novo, o Quinto Império. Terá regressado El-Rei D. Sebastião.