Textos sobre Chefes

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Textos de chefes escritos por poetas consagrados, filósofos e outros autores famosos. Conheça estes e outros temas em Poetris.

Neruda e García Lorca em Homenagem a Rubén Dario

Eis o texto do discurso:

Neruda: Senhoras…

Lorca: …e senhores. Existe na lide dos touros uma sorte chamada ¬ętoreio dei alim√≥n¬Ľ, em que dois toureiros furtam o corpo ao touro protegidos pela mesma capa.

Neruda: Federico e eu, ligados por um fio eléctrico, vamos emparelhar e responder a esta recepção tão significativa.

Lorca: √Č costume nestas reuni√Ķes que os poetas mostrem a sua palavra viva, prata ou madeira, e sa√ļdem com a sua voz pr√≥pria os companheiros e amigos.

Neruda: Mas n√≥s vamos colocar entre v√≥s um morto, um comensal vi√ļvo, escuro nas trevas de uma morte maior que as outras mortes, vi√ļvo da vida, da qual foi na sua hora um marido deslumbrante. Vamos esconder-nos sob a sua sombra ardente, vamos repetir-lhe o nome at√© que a sua grande for√ßa salte do esquecimento.

Lorca: N√≥s, depois de enviarmos o nosso abra√ßo com ternura de pinguim ao delicado poeta Amado Villar, vamos lan√ßar um grande nome sobre a toalha, na certeza de que v√£o estalar as ta√ßas, saltar os garfos, buscando o olhar que todos anseiam, e que um golpe de mar h√°-de manchar as toalhas. N√≥s vamos evocar o poeta da Am√©rica e da Espanha: Rub√©n…

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Todo o Génio é um Degenerado

Sendo certo que todo o g√©nio √© um degenerado (nem superior, nem inferior, porque h√° s√≥ degenerados de uma esp√©cie, mau grado a absurda escapat√≥ria dos psiquiatras modern style), cert√≠ssimo √©, sem d√ļvida, que entre os g√©nios, os da intelig√™ncia assumem um relevo m√°ximo de degenera√ß√£o. Um chefe pol√≠tico, um grande general, s√£o, no que g√©nios, degenerados, porque s√£o desvios do tipo normal e originais na sua ac√ß√£o e na sua individualidade. Mas s√£o normais porque s√£o homens de ac√ß√£o, porque vivem no meio da vida, e n√£o se pode fazer isso sem uma certa adapta√ß√£o a ela. O mais revolucion√°rio dos g√©nios pol√≠ticos tem de se adpatar ao que quer destruir para o poder destruir. Tem de mergulhar na vida que quer substituir para poder agir sobre ela.
Não assim na esfera da inteligência e da emoção intelectualizada Рna da filosofia e na da arte, digo. Sobre ser original, o artista, o pensador é um inadaptado às formas normais da vida, por isso que nem age no sentido da actividade normal (porque é original), nem age no que age, age vulgarmente (porque, em lugar de ter uma acção vulgar, orienta a sua vida sobretudo para a sensação e para a inteligência e não para a acção,

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O Homem não está à Altura da sua Obra

Dir-se-ia que a civiliza√ß√£o moderna √© incapaz de produzir uma elite dotada simultaneamente de imagina√ß√£o, de intelig√™ncia e de coragem. Em quase todos os pa√≠ses se verifica uma diminui√ß√£o do calibre intelectual e moral naqueles a quem cabe a responsabiliza√ß√£o da direc√ß√£o dos assuntos pol√≠ticos, econ√≥micos e sociais. As organiza√ß√Ķes financeiras, industriais e comerciais atingiram dimens√Ķes gigantescas. S√£o influenciadas n√£o s√≥ pelas condi√ß√Ķes do pa√≠s em que nasceram, mas tamb√©m pelo estado dos pa√≠ses vizinhos e de todo o mundo. Em todas as na√ß√Ķes produzem-se modifica√ß√Ķes sociais com grande rapidez. Em quase toda a parte se p√Ķe em causa o valor do regime pol√≠tico. As grandes democracias enfrentam problemas tem√≠veis que dizem respeito √† sua pr√≥pria exist√™ncia e cuja solu√ß√£o √© urgente. E apercebemo-nos de que, apesar das grandes esperan√ßas que a humanidade depositou na civiliza√ß√£o moderna, esta civiliza√ß√£o n√£o foi capaz de desenvolver homens suficientemente inteligentes e audaciosos para a dirigirem na via perigosa por que a enveredou. Os seres humanos n√£o cresceram tanto como as institui√ß√Ķes criadas pelo seu c√©rebro. S√£o sobretudo a fraqueza intelectual e moral dos chefes e a sua ignor√Ęncia que p√Ķem em perigo a nossa civiliza√ß√£o.

As Realidades do Sonho

O sonho √© a explos√£o dos s√ļbditos na aus√™ncia do rei. Se o homem fosse um ser √ļnico, n√£o sonharia. Mas cada um de n√≥s √© uma tribo em que somente um chefe tem os privil√©gios da vida iluminada. O chefe √© a pessoa reconhecida pelos semelhantes, o ¬ęmim¬Ľ legal da sociedade e da raz√£o, obrigado a uma concord√Ęncia fixa consigo mesmo. S√≥ ele tem rela√ß√Ķes expressas com o mundo exterior e o √ļnico a reinar nas horas de vig√≠lia. Mas abaixo dele h√° um pequeno povo de cadetes expulsos, de insurrectos punidos, de h√≥spedes indesej√°veis – exilados da zona da consci√™ncia, mas donos do subconsciente, encerrados no subterr√£neo, mas prontos para a evas√£o, vencidos mas n√£o mortos. H√° a crian√ßa que foi renegada pelo jovem, o delinquente imobilizado pela moral e a lei, o louco que todos os dias estende armadilhas √† raz√£o raciocinadora, o poeta que a pr√°tica condenou ao sil√™ncio, o bobo dominado pelas amarguras, o antepassado b√°rbaro que ainda se recorda do machado de pedra e dos festins de Tiestes.
O eu quotidiano e vulgar, o respeit√°vel, o vigilante, o vitorioso, dominou essa tribo de larvas inimigas, de irm√£os renegados e moribundos. E como a alma tem o seu subsolo,

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Personalidade Limitada

H√° pessoas muito competentes no seu of√≠cio mas que nunca se adaptam a certos obst√°culos menores, como a nomes que desconhecem e saem do habitual. Tamb√©m nunca sabem usar uma chave de fendas e n√£o s√£o capazes de conhecer uma marca de carros pelas jantes, por exemplo. Cada indiv√≠duo tem um espa√ßo muito limitado de opera√ß√£o e o seu c√©rebro trabalha num pequeno circuito de observa√ß√Ķes; a sua evolu√ß√£o √© restrita ao que o rodeia e aos factos exteriores mais pr√≥ximos. A educa√ß√£o sem grandes exig√™ncias de comportamento social e intelectual, leva-os a formar uma personalidade mesquinha, √†s vezes ressentida e admiradora de extremos, como da lideran√ßa dum chefe.

Os Tiranos de Génio

Sei perfeitamente que, para se alcançar qualquer finalidade organizadora, é necessário haver quem pense, coordene e, no total, assuma a responsabilidade. Porém, os conduzidos não devem ser constrangidos, mas antes poderem eleger o seu chefe. Um sistema autocrático de coacção degenera, a meu ver, dentro de pouco tempo, pois a violência atrai aqueles que são moralmente inferiores e, em regra, no meu entender, aos tiranos de génio sucedem-se geralmente patifes.

O Bem e o Mal

Em princípio, é justo que se mostre maior afecto por aqueles que mais contribuíram para o enobrecimento dos homens e da vida humana. Se porém indagarmos quais são esses homens vemo-nos perante dificuldades. Nos chefes políticos, e até mesmo nos chefes religiosos, é por vezes bastante duvidoso sabermos se o que fizeram serviu mais para o bem do que para o mal.
Creio pois, muito s√©riamente, que a melhor maneira de servir os homens √© ocup√°-los numa tarefa nobre, mediante a qual eles se enobrecem indirectamente. Isto aplica-se em primeiro lugar aos artistas not√°veis, em segundo lugar aos investigadores. √Č certo que os resultados da investiga√ß√£o n√£o enobrecem nem enriquecem o homem; o que o enobrece s√£o os esfor√ßos que faz pela compreens√£o, o trabalho intelectual produtivo e receptivo.
Seria decerto descabido querer-se ajuizar do valor do Talmude pelos seus resultados intelectuais.

Afirmação da Verdade

Se queres convencer alguém da tua verdade, não a expliques ou demonstres Рafirma-a. E ela será tanto mais convincente quanto mais força puseres na afirmação. A afirmação é compacta, a demonstração é cheia de buracos. Uma pedra não tem intervalos para os ratos se intervalarem nela. Se queres ser chefe e dominador e senhor, berra o teu sim ou o teu não e deixa aos fracos o talvez. E terás ocupado o baldio das almas humanas em que elas não sabem que semear. E serás histórico, se fores grande, mesmo no crime. Porque o homem é míope de sua natureza e só vê acima do tamanho do boi.

A Necessidade dos Chefes

De todos os h√°bitos a que nos entregamos, um reina sobre todos os outros no que se refere a malef√≠cios quanto ao mundo futuro. √ä o h√°bito de ter chefes. O medo das responsabilidades, o gosto de se encostar aos outros, o jeito mais f√°cil de n√£o ter que decidir os caminhos fizeram que a cada instante lancemos os olhos √† nossa volta em busca do sinal que nos sirva de guia. Quando surge uma dificuldade de car√°cter colectivo, a primeira ideia √© a de que devia surgir um homem que tomasse sobre os seus ombros o √°spero mart√≠rio de ser chefe. Pois bem: pode ser que isto tenha trazido grandes benef√≠cios em outras crises da Hist√≥ria; nem vale por outro lado a pena saber o que teria sido a dita Hist√≥ria se outras se tivessem apresentado as circunst√Ęncias. Mas, na presente, a verdadeira salva√ß√£o s√≥ vir√° no dia em que cada homem se convencer de que tem que ser ele o seu chefe. Ou, dentro dele, Deus.

Os Mesmos Erros

Mesmo um exame superficial da hist√≥ria revela que n√≥s, seres humanos, temos uma triste tend√™ncia para cometer os mesmos erros repetidas vezes. Temos medo dos desconhecidos ou de qualquer pessoa que seja um pouco diferente de n√≥s. Quando ficamos assustados, come√ßamos a ser agressivos para as pessoas que nos rodeiam. Temos bot√Ķes de f√°cil acesso que, quando carregamos neles, libertam emo√ß√Ķes poderosas. Podemos ser manipulados at√© extremos de insensatez por pol√≠ticos espertos. D√™em-nos o tipo de chefe certo e, tal como o mais sugestion√°vel paciente do terapeuta pela hipnose, faremos de bom grado quase tudo o que ele quer – mesmo coisas que sabemos serem erradas.

A Ira n√£o Escolhe Idade nem Estatuto Social

A ira n√£o escolhe idade nem estatuto social. Algumas pessoas, gra√ßas √† sua indig√™ncia, n√£o conhecem a lux√ļria; outros, porque t√™m uma vida movimentada e errante, escapam √† pregui√ßa; aqueles que t√™m modos rudes e uma vida r√ļstica desconhecem as pris√Ķes, as fraudes e todos os males da cidade: mas ningu√©m est√° livre da ira, t√£o poderosa entre os Gregos como entre os b√°rbaros, t√£o funesta entre aqueles que temem as leis como entre aqueles que se regem pela lei da for√ßa. Assim, se outras afec√ß√Ķes atacam os indiv√≠duos, a ira √© a √ļnica afec√ß√£o que, por vezes, se apodera de um povo inteiro. Nunca um povo inteiro ardeu de amor por uma mulher, nem uma cidade inteira depositou toda a sua esperan√ßa no dinheiro e no lucro; a ambi√ß√£o apossa-se de indiv√≠duos, a imodera√ß√£o n√£o √© um mal p√ļblico.
Por vezes, uma multid√£o inteira √© conduzida √† ira: homens e mulheres, velhos e novos, os principais cidad√£os e o vulgo s√£o un√Ęnimes, e toda a multid√£o agitada por algumas palavras sobrep√Ķe-se ao pr√≥prio agitador: corre a pegar em armas e tochas e declara guerra ao seu vizinho e f√°-la contra os seus concidad√£os; casas inteiras s√£o queimadas com toda a fam√≠lia e aquele cuja eloqu√™ncia lhe granjeara muitos benef√≠cios √© eliminado pela ira que as suas palavras geraram;

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O Homem Congrega Todas as Espécies de Animais

H√° t√£o diversas esp√©cies de homens como h√° diversas esp√©cies de animais, e os homens s√£o, em rela√ß√£o aos outros homens, o que as diferentes esp√©cies de animais s√£o entre si e em rela√ß√£o umas √†s outras. Quantos homens n√£o vivem do sangue e da vida dos inocentes, uns como tigres, sempre ferozes e sempre cru√©is, outros como le√Ķes, mantendo alguma apar√™ncia de generosidade, outros como ursos grosseiros e √°vidos, outros como lobos arrebatadores e impiedosos, outros ainda como raposas, que vivem de habilidades e cujo of√≠cio √© enganar!
Quantos homens n√£o se parecem com os c√£es! Destroem a sua esp√©cie; ca√ßam para o prazer de quem os alimenta; uns andam sempre atr√°s do dono; outros guardam-lhes a casa. H√° lebr√©us de trela que vivem do seu m√©rito, que se destinam √† guerra e possuem uma coragem cheia de nobreza, mas h√° tamb√©m dogues irasc√≠veis, cuja √ļnica qualidade √© a f√ļria; h√° c√£es mais ou menos in√ļteis, que ladram frequentemente e por vezes mordem, e h√° at√© c√£es de jardineiro. H√° macacos e macacas que agradam pelas suas maneiras, que t√™m esp√≠rito e que fazem sempre mal. H√° pav√Ķes que s√≥ t√™m beleza, que desagradam pelo seu canto e que destroem os lugares que habitam.

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O Verdadeiro e o Falso Ci√ļme

O ci√ļme √© uma esp√©cie de temor, que se relaciona com o desejo de conservarmos a posse de algum bem; e n√£o prov√©m tanto da for√ßa das raz√Ķes que levam a julgar que podemos perd√™-lo, como da grande estima que temos por ele, a qual nos leva a examinar at√© os menores motivos de suspeita e a tom√°-los por raz√Ķes muito dignas de considera√ß√£o.
E como devemos empenhar-nos mais em conservar os bens que s√£o muito grandes do que os que s√£o menores, em algumas ocasi√Ķes essa paix√£o pode ser justa e honesta. Assim, por exemplo, um chefe de ex√©rcito que defende uma pra√ßa de grande import√£ncia tem o direito de ser zeloso dela, isto √©, de suspeitar de todos os meios pelos quais ela poderia ser assaltada de surpresa; e uma mulher honesta n√£o √© censurada por ser zelosa de sua honra, isto √©, por n√£o apenas abster-se de agir mal como tamb√©m evitar at√© os menores motivos de maledic√™ncia.
Mas zombamos de um avarento quando ele é ciumento do seu tesouro, isto é, quando o devora com os olhos e nunca quer afastar-se dele, com medo que ele lhe seja furtado; pois o dinheiro não vale o trabalho de ser guardado com tanto cuidado.

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A Intensidade de um Sentimento

Creio que a intensidade de um sentimento tem que ver com o n√ļmero de elementos a que se aplica. Penso assim que ele varia na raz√£o inversa do n√ļmero desses elementos. Quanto maior for o n√ļmero de filhos, menor √© a alegria ou o desgosto que cada um provoca ao pai. O m√°ximo de sentir diz respeito a todos e divide-se portanto por cada um. Se um indiv√≠duo √© o chefe de um povo, transfere para a colectividade a sua capacidade de sentir. Assim ele √© praticamente insens√≠vel perante a sorte de cada um. A famosa insensibilidade de um chefe tem que ver com isso. O mesmo para o autodom√≠nio que se refere a um indiv√≠duo particular. Julgo que na realidade se trata de uma distribui√ß√£o do seu sentir por v√°rios elementos dos quais por exemplo os filhos (ou ele pr√≥prio) s√£o apenas uma frac√ß√£o. O resto dessa frac√ß√£o pode ir para os seus neg√≥cios, o seu partido pol√≠tico, os seus amigos ou amantes, o seu clube. E ent√£o o admit√°vel autodom√≠nio tem apenas que ver com uma parcela do sentir. E com essa parcela j√° se pode ser forte e aguentar. Isto, se se n√£o trata apenas, como julgo j√° ter dito,

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Alimentar o Amor

Come√ßar √© f√°cil. Acabar √© mais f√°cil ainda. Chega-se sempre √† primeira frase, ao primeiro n√ļmero da revista, ao primeiro m√™s de amor. Cada come√ßo √© uma mudan√ßa e o cora√ß√£o humano vicia-se em mudar. Vicia-se na novidade do arranque, do in√≠cio, da inaugura√ß√£o, da primeira linha na p√°gina branca, da luz e do barulho das portas a abrir.
Começar é fácil. Acabar é mais fácil ainda. Por isso respeito cada vez menos estas actividades. Aprendi que o mais natural é criar e o mais difícil de tudo é continuar. A actividade que eu mais amo e respeito é a actividade de manter.
Em Portugal quase tudo se resume a come√ßos e a encerramentos. Arranca-se com qualquer coisa, de qualquer maneira, com todo o aparato. √Ä m√≠nima comich√£o aparece uma ¬ęiniciativa¬Ľ, que depois n√£o tem prosseguimento ou perseveran√ßa e cai no esquecimento. Nem damos pela morte.
√Č por isso que eu hoje respeito mais os continuadores que os criadores. Criadores n√£o nos faltam. Chefes n√£o nos faltam. Faltam-nos continuadores. Faltam-nos tenentes. Her√≥is n√£o nos faltam. Faltam-nos guardi√Ķes.

√Č como no amor. A manuten√ß√£o do amor exige um cuidado maior. Qualquer palerma se apaixona, mas √© preciso paci√™ncia para fazer perdurar uma paix√£o.

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A Influência dos Livros e dos Jornais

Os jornais e os livros exercem no nascimento e na propaga√ß√£o das opini√Ķes uma influ√™ncia imensa, conquanto inferior √† dos discursos. Os livros actuam muito menos que os jornais, pois a multid√£o n√£o os l√™. Alguns foram, contudo, bastante poderosos pela sua influ√™ncia sugestiva para provocar a morte de milhares de homens. Tais s√£o as obras de Rousseau, verdadeira b√≠blia dos chefes do Terror, ou A Cabana do Pai Tom√°s, que contribuiu muito para a sanguinolenta guerra de secess√£o na Am√©rica do Norte. Outras obras como Robinson Crus√≥e e os romances de J√ļlio Verne exerceram grande influ√™ncia nas opini√Ķes da juventude e determinaram muitas carreiras.
Essa for√ßa dos livros era, sobretudo, consider√°vel quando se lia pouco. A leitura da B√≠blia no tempo de Cromwel criou na Inglaterra um n√ļmero avultado de fan√°ticos. Sabe-se que na √©poca em que foi escrito Dom Quixote, os romances de cavalaria exerciam uma ac√ß√£o t√£o perniciosa em todos os c√©rebros que os soberanos espanh√≥is vedaram, finalmente, a venda desses livros.
Hoje, a influ√™ncia dos jornais √© muito superior √† for√ßa dos livros. S√£o em n√ļmero incalcul√°vel as pessoas que t√™m unicamente a opini√£o do jornal que elas l√™em.

Português Sentimental e com Horror à Disciplina

Excessivamente sentimental, com horror √† disciplina, individualista sem dar por isso, falho de esp√≠rito de continuidade e de tenacidade na ac√ß√£o. A pr√≥pria facilidade de compreens√£o, diminuindo-lhe a necessidade de esfor√ßo, leva-o a estudar todos os assuntos pela rama, a confiar demasiado na espontaneidade e brilho da sua intelig√™ncia. Mas quando enquadrado, convenientemente dirigido, o portugu√™s d√° tudo quanto se quer…
O nosso grande problema √© o da forma√ß√£o das elites que eduquem e dirijam a Na√ß√£o. A sua fraqueza ou defici√™ncia √© a mais grave crise nacional. S√≥ as gera√ß√Ķes em marcha, se devidamente aproveitadas, nos fornecer√£o os dirigentes – governantes, t√©cnicos, professores, sacerdotes, chefes do trabalho, oper√°rios especializados – indispens√°veis √† nossa completa renova√ß√£o. Considero at√© mais urgente a constitui√ß√£o de vastas elites do que ensinar toda a gente a ler. √Č que os grandes problemas nacioanis t√™m de ser resolvidos, n√£o pelo povo, mas pelas elites enquadrando as massas.

O Papel do Sonho na Vida

Por vezes, o homem √© mais sincero e rico na desordem dos sonhos que na consci√™ncia unit√°ria do raciocinador acordado, mas n√≥s vivemos enquanto negamos o sonho e o tornamos in√ļtil. O g√©nio √© a extradi√ß√£o do sonho, porque enriquece a consci√™ncia com as reservas e as pessoas do inconsciente. Expulsa o selvagem e o delinquente, destila a sagacidade do louco, adopta a crian√ßa e escuta o poeta. N√£o √© autocrata surdo, como o homem vulgar, mas pai de iguais. A conc√≥rdia de se terem almas subterr√Ęneas faz a grandeza do g√©nio, e a sua obra √© a sublima√ß√£o do sonho, desenrolado na vida verdadeira, liberdade concedida aos pensamentos inocentes dos reclusos.
Escolher é próprio do homem, mas escolhe-se com a rejeição e mais com o acolhimento. Vencer não significa apenas destruir, mas incorporar. A razão será tanto mais razoável quanto maior a loucura que assumir em si; o herói será mais forte se transferir para si a energia do pecador, e a fantasia do poeta tornará mais profundos os cálculos do político.
Quando o chefe da alma é o poeta, verdadeiramente poeta, não encarcera a razão, mas condu-la consigo para cima, ao céu em que até o silogismo se torna fogo.

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A Doença da Disciplina

Das fei√ß√Ķes de alma que caracterizam o povo portugu√™s, a mais irritante √©, sem d√ļvida, o seu excesso de disciplina. Somos o povo disciplinado por excel√™ncia. Levamos a disciplina social √†quele ponto de excesso em que cousa nenhuma, por boa que seja ‚ÄĒ e eu n√£o creio que a disciplina seja boa ‚ÄĒ por for√ßa que h√°-de ser prejudicial.
Tão regrada, regular e organizada é a vida social portuguesa que mais parece que somos um exército de que uma nação de gente com existências individuais. Nunca o português tem uma acção sua, quebrando com o meio, virando as costas aos vizinhos. Age sempre em grupo, sente sempre em grupo, pensa sempre em grupo. Está sempre à espera dos outros para tudo. E quando, por um milagre de desnacionalização temporária, pratica a traição à Pátria de ter um gesto, um pensamento, ou um sentimento independente, a sua audácia nunca é completa, porque não tira os olhos dos outros, nem a sua atenção da sua crítica.
Parecemo-nos muito com os alem√£es. Como eles, agimos sempre em grupo, e cada um do grupo porque os outros agem.
Por isso aqui, como na Alemanha, nunca é possível determinar responsabilidades; elas são sempre da sexta pessoa num caso onde só agiram cinco.

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Dificuldade de Prever o Comportamento de qualquer Pessoa, o Nosso Inclusivamente

Sendo vari√°vel o nosso ‚Äúeu‚ÄĚ, que √© dependente das circunst√Ęncias, um homem jamais deve supor que conhece outro. Pode somente afirmar que, n√£o variando as circunst√Ęncias, o procedimento do indiv√≠duo observado n√£o mudar√°. O chefe de escrit√≥rio que j√° redige h√° vinte anos relat√≥rios honestos, continuar√° sem d√ļvida a redigi-los com a mesma honestidade, mas cumpre n√£o o afirmar em demasia. Se surgirem novas circunst√Ęncias, se uma paix√£o forte lhe invadir a mente, se um perigo lhe amea√ßar o lar, o insignificante burocrata poder√° tornar-se um celerado ou um her√≥i.
As grandes oscila√ß√Ķes da personalidade observam-se quase exclusivamente na esfera dos sentimentos. Na da intelig√™ncia, elas s√£o muito fracas. Um imbecil permanecer√° sempre imbecil.
As poss√≠veis varia√ß√Ķes da personalidade, que impedem de conhecermos a fundo os nossos semelhantes, tamb√©m obstam a que cada qual se conhe√ßa a si pr√≥prio. O ad√°gio ‚ÄúNosce te ipsum‚ÄĚ dos antigos fil√≥sofos constitui um conselho irrealiz√°vel. O ‚Äúeu‚ÄĚ exteriorizado representa habitualmente uma personalidade de empr√©stimo, mentirosa. Assim √©, n√£o s√≥ porque atribu√≠mos a n√≥s mesmos muitas qualidades e n√£o reconhecemos absolutamente os nossos defeitos, como tamb√©m porque o nosso ‚Äúeu‚ÄĚ cont√©m uma pequena por√ß√£o de elementos conscientes, conhec√≠veis em rigor, e, em grande parte,

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