Textos sobre Cabeça

155 resultados
Textos de cabeça escritos por poetas consagrados, filósofos e outros autores famosos. Conheça estes e outros temas em Poetris.

Da Liberdade

A: Eis uma bateria de canh√Ķes que atira junto aos nossos ouvidos; tendes a liberdade de ouvi-la e de a n√£o ouvir?
B: √Č claro que n√£o posso evitar ouvi-la.
A: Desejaríeis que esse canhão decepasse a vossa cabeça e as da vossa mulher e da vossa filha que estivessem convosco?
B: Que espécie de proposição me fazeis? Eu jamais poderia, no meu são juízo, desejar semelhante coisa. Isso é-me impossível.
A: Muito bem; ouvis necessariamente esse canhão e, também necessariamente, não quereis morrer, vós e a vossa família, de um tiro de canhão; não tendes nem o poder de não o ouvir nem o poder de querer permanecer aqui.
B: Isso é evidente.
A: Em consequência, destes uma trintena de passos a fim de vos colocardes ao abrigo do canhão: tivestes o poder de caminhar comigo estes poucos passos?
B: Nada mais verdadeiro.
A: E se f√īsseis paral√≠tico? N√£o ter√≠eis podido evitar ficar exposto a essa bateria; n√£o ter√≠eis o poder de estar onde agora estais: ter√≠eis ent√£o necessariamente ouvido e recebido um tiro de canh√£o e necessariamente estar√≠eis morto?
B: Nada mais claro.
A: Em que consiste, pois,

Continue lendo…

A Dieta do Génio

Os meios de que J√ļlio C√©sar se serviu para se defender das doen√ßas e das dores de cabe√ßa: grandes caminhadas, um modo de vida simpl√≠ssimo, perman√™ncia constante ao ar livre, fadigas cont√≠nuas ‚ÄĒ estas s√£o, em grandes tra√ßos, as regras de conserva√ß√£o e defesa geral contra a extrema vulnerabilidade dessa m√°quina subtil, e que trabalha a uma alt√≠ssima press√£o, chamada g√©nio.

A Inquietação Moderna

Em direc√ß√£o a oeste, a movimenta√ß√£o moderna torna-se cada vez maior, de modo que, para os Americanos, os habitantes da Europa na sua totalidade se apresentam como seres que gostam do sossego e dele usufruem, quando estes mesmos, no entanto, voam em confus√£o como abelhas e vespas. Esta movimenta√ß√£o torna-se t√£o grande que a cultura superior j√° n√£o pode madurar os seus frutos; √© como se as esta√ß√Ķes do ano se seguissem umas √†s outras demasiado depressa. Por falta de sossego, a nossa civiliza√ß√£o vai dar a uma nova barb√°rie. Em nenhuma √©poca, os activos, ou seja, os irrequietos, foram t√£o considerados. Refor√ßar em grande medida o elemento contemplativo faz parte, por conseguinte, das necess√°rias correc√ß√Ķes que se tem de efectuar no car√°cter da humanidade. No entanto, desde j√°, cada indiv√≠duo, que seja calmo e constante de cora√ß√£o e de cabe√ßa, tem o direito de crer que possui n√£o s√≥ um bom temperamento, mas tamb√©m uma virtude de utilidade geral e que, ao conservar essa atitude, at√© cumpre uma miss√£o superior.

Amar e Ser Livre ao mesmo Tempo

Tudo o que posso dizer √© que estou louco por ti. Tentei escrever uma carta e n√£o consegui. Estou constantemente a escrever-te… Na minha cabe√ßa, e os dias passam, e eu imagino o que pensar√°s. Espero impacientemente por te ver. Falta tanto para ter√ßa-feira! E n√£o s√≥ ter√ßa-feira… Imagino quando poder√°s ficar uma noite… Quando te poderei ter durante mais tempo… Atormenta-me ver-te s√≥ por algumas horas e, depois, ter de abdicar de ti. Quando te vejo, tudo o que queria dizer desaparece… O tempo √© t√£o precioso e as palavras sup√©rfluas… Mas fazes-me t√£o feliz… porque eu consigo falar contigo. Adoro o teu brilhantismo, as tuas prepara√ß√Ķes para o voo, as tuas pernas como um torno, o calor no meio das tuas pernas. Sim, Anais, quero desmascarar-te. Sou demasiado galante contigo. Quero olhar para ti longa e ardentemente, pegar no teu vestido, acariciar-te, examinar-te. Sabes que tenho olhado escassamente para ti? Ainda h√° demasiado sagrado agarrado a ti.

A tua carta… Ah, estas moscas! Fazes-me sorrir. E fazes-me adorar-te tamb√©m. √Č verdade, n√£o te dou o devido valor. √Č verdade. Mas eu nunca disse que n√£o me d√°s o devido valor. Acho que deve haver um erro no teu ingl√™s.

Continue lendo…

O Sentimento Religioso é o Mais Inconfessável de Todos

A religi√£o, ou o sentimento religioso, √© o mais inconfess√°vel de todos: n√£o por irracional, mas porque √© da sua mais √≠ntima natureza o sil√™ncio da vida f√≠sica do universo, que s√≥ faz barulho por acaso e n√£o para a gente ouvir. Que mais n√£o fosse, acharia rid√≠cula, e acho, a atitude dos ¬ęlibertos¬Ľ, nascidas da cabe√ßa de J√ļpiter, desirmanados de tudo quanto encarnou as dores e as esperan√ßas de uma humanidade dolorosamente em busca do seu pr√≥prio corpo. Mais que rid√≠cula, criminosa, estulta, digna dos raios divinos, se os houvesse. Neste sentido, me √© respeit√°vel a religi√£o considerada na sua ac√ß√£o interior e na sua simb√≥lica aparente; e, como poeta, n√£o posso deixar de ser sens√≠vel ao paganismo que a Igreja Cat√≥lica n√£o sonha – ou sonha at√© – a que ponto herdou. Quando a religi√£o pretende fixar-se, lutar ligada a interesses materiais que geraram muitas das formas que ela tomou, evidentemente que sou contr√°rio a ela, a aquela, porque sei que n√£o h√° eternidade das formas e das conven√ß√Ķes, mas sim da org√Ęnica simb√≥lica que assume uma ou outra forma, segundo o estado social em que se desenvolve.

Jorge de Sena, carta a sua noiva Mécia Lopes,

Continue lendo…

O Perigo da Leitura Excessiva

Quando lemos, outra pessoa pensa por n√≥s: repetimos apenas o seu processo mental. Ocorre algo semelhante quando o estudante que est√° a aprender a escrever refaz com a pena as linhas tra√ßadas a l√°pis pelo professor. Sendo assim, na leitura, o trabalho de pensar √©-nos subtra√≠do em grande parte. Isso explica o sens√≠vel al√≠vio que experimentamos quando deixamos de nos ocupar com os nossos pensamentos para passar √† leitura. Por√©m, enquanto lemos, a nossa cabe√ßa, na realidade, n√£o passa de uma arena dos pensamentos alheios. E quando estes se v√£o, o que resta? Essa √© a raz√£o pela qual quem l√™ muito e durante quase o dia inteiro, mas repousa nos intervalos, passando o tempo sem pensar, pouco a pouco perde a capacidade de pensar por si mesmo – como algu√©m que sempre cavalga e acaba por desaprender a caminhar. Tal √© a situa√ß√£o de muitos eruditos: √† for√ßa de ler, estupidificaram-se. Pois ler constantemente, retomando a leitura a cada instante livre, paralisa o esp√≠rito mais do que o trabalho manual cont√≠nuo, visto que, na execu√ß√£o deste √ļltimo, √© poss√≠vel entregar-se aos seus pr√≥prios pensamentos.
No entanto, como uma mola que, pela press√£o constante acarretada por meio de um corpo estranho,

Continue lendo…

Em Portugal Há um Julgamento Estranho da Modéstia

Acho que em Portugal há um julgamento estranho da modéstia. Batem-se palmas a quem basicamente diz que não é muito bom a fazer o que faz. E quando alguém diz que tem confiança no que faz, utiliza-se uma palavra pejorativa: arrogante. Eu claramente tenho confiança no que faço, e nesse aspecto não sou modesto. Agora, precisamente porque tenho essa confiança não me passa pela cabeça falar mal de alguém. Não por eu ser um coração maravilhoso, mas porque seria perder tempo precioso para aquilo que tenho de fazer.

Gonçalo M.

As Vantagens de se Ser um Pobre-Diabo

Para aquele que n√£o √© nobre, mas dotado de algum talento, ser um pobre-diabo √© uma verdadeira vantagem e uma recomenda√ß√£o. Pois o que cada um mais procura e aprecia, n√£o apenas na simples conversa√ß√£o, mas sobretudo no servi√ßo p√ļblico, √© a inferioridade do outro. Ora, s√≥ um pobre-diabo est√° convencido e compenetrado em grau suficiente da sua completa, profunda, decisiva, total inferioridade e da sua plena insignific√Ęncia e aus√™ncia de valor, tal como exige o caso. Apenas ele, portanto, inclina-se ami√ļde e por bastante tempo, e apenas a sua rever√™ncia atinge plenos noventa graus; apenas ele suporta tudo e ainda sorri; apenas ele conhece como obras-primas, em p√ļblico, em voz alta ou em grandes caracteres, as in√©pcias liter√°rias dos seus superiores ou dos homens influentes em geral; apenas ele sabe como mendigar; por conseguinte, apenas ele se pode tornar um iniciado, a tempo, portanto, na juventude, naquela verdade oculta que Goethe nos revelou nos seguintes termos:

Sobre a baixeza

Que ninguém se lamente:

Pois ela é a potência,

N√£o importa o que te digam.
Em contrapartida, quem já nasceu com uma fortuna que lhe garanta a existência irá posicionar-se, na maioria das vezes,

Continue lendo…

Tremo Sempre Diante do Amor

Nadia, deves ter visto a falta de jeito com que no √ļltimo momento te pedi o n√ļmero do telefone e este endere√ßo de correio eletr√≥nico para onde te escrevo, e deves ter-te apercebido tamb√©m da peregrina desculpa: os dois sabemos que podes conseguir de mil outras maneiras diferentes 05 livros que fiquei de te emprestar. H√°-os em muitos lados. Toda a gente os tem. Pode at√© acontecer que j√° fa√ßam parte da tua biblioteca h√° anos e que neste momento estejas a olhar as suas lombadas da cadeira onde est√°s sentada enquanto me l√™s; e tamb√©m pode acontecer, na realidade n√£o me admiraria nada, que seja eu quem n√£o os tem nem os teve nunca. Durante o jantar n√£o conseguia tirar os olhos de ti, mas isso j√° tu sabes. Perante isso, apenas posso esperar que o resto dos comensais, especialmente os teus amigos, n√£o se tenham apercebido de at√© que ponto me eram indiferentes as restantes pessoas e conversas. Como viste, tenho j√° um longo caminho percorrido. Sou um homem com passado, como se costuma dizer, embora isso n√£o fa√ßa com que seja mais f√°cil para mim escrever uma carta como esta. Porque isto √© uma carta, n√£o √© verdade?

Continue lendo…

O Dom de Deixar Ir

√Č preciso aprender a viver. A qualidade da nossa exist√™ncia depende de um equil√≠brio fundamental na nossa rela√ß√£o com o mundo: apego e desapego. Nesta vida, a pondera√ß√£o, a propor√ß√£o e a subtileza s√£o sempre melhores que qualquer arrebatamento. Mas o essencial √© aprender que a exist√™ncia √© feita de d√°divas e perdas.

Eis porque quem reza deve pedir e agradecer: tudo √©, na verdade, um dom. Tudo passa… importa pois prepararmo-nos para a perda, ainda que tantas vezes n√£o seja sen√£o tempor√°ria… Alegrias e dores. S√≥ h√° felicidade num cora√ß√£o onde habita a sabedoria e paci√™ncia dos tempos e dos momentos, a paz de quem sabe que s√£o muitos os porqu√™s e para qu√™s que ultrapassam a capacidade humana de compreender.

Na vida, tudo se recebe e tudo se perde.
Amar é um apego natural mas também obriga a que deixemos o outro ser quem é, abrindo mão e permitindo-lhe que parta, ou que fique, sem desejar outra coisa senão que seja radicalmente livre. Aprendendo que há muito mais valor no ato de quem decide ficar do que naquele de quem só está por não poder partir.

Nada verdadeiramente nos pertence. O sublime do amor está aí,

Continue lendo…

Somos aquilo que Pensamos

Os nossos pensamentos determinam aquilo que somos. A nossa atitude mental √© o factor X que determina o nosso destino. Emerson disse: ¬ęUm homem √© aquilo em que pensa o dia inteiro¬Ľ. Como poderia ser outra coisa qualquer? Estou convencido, sem qualquer sombra de d√ļvida, que o maior problema que temos de enfrentar – na realidade, trata-se praticamente do √ļnico problema que temos de enfrentar – √© a escolha dos pensamentos certos. Se conseguirmos, estaremos no caminho certo para resolver todos os nossos problemas. Marco Aur√©lio, o grande fil√≥sofo que governou o Imp√©rio Romano, resumiu esta quest√£o em onze palavras ‚ÄĒ onze palavras que podem determinar o seu destino: ¬ęA nossa vida √© aquilo que os nossos pensamentos fazem dela¬Ľ.

√Č verdade, se pensarmos em coisas felizes, seremos felizes. Se pensarmos em desgra√ßas, seremos uns desgra√ßados. Se pensarmos em coisas assustadoras, viveremos com medo. Se pensarmos em doen√ßas, ficaremos provavelmente doentes. Se pensarmos em falhar, √© certo que falhamos. Se ficarmos mergulhados em autocomisera√ß√£o, v√£o todos afastar-se de n√≥s e evitar-nos. Norman Vincent Peale afirmou: ¬ęTu n√£o √©s o que pensas que √©s; tu √©s o que tu pensas¬Ľ.

Estarei eu a defender uma típica atitude de Pollyanna (clássico de Eleane H.

Continue lendo…

Em Portugal, Ter Amor às Nossas Coisas Implica Dizer Mal Delas

Em Portugal, ter amor às nossas coisas implica dizer mal delas, já que a maior parte delas não anda bem. Nem uma coisa nem outra constitui novidade. Nem dizer mal delas, nem o facto de elas não andarem bem. Será que se diz mal na esperança de que elas se ponham boas? Também não. As nossas causas são quase sempre perdidas. Porquê então?

Porque o nosso maior bem, como António Vieira contradizia, é nunca estarmos satisfeitos. Nas nossas cabeças perversas e almas amarguradas, onde se acham todas as coisas portuguesas tal e qual achamos que deviam ser, Portugal é o país mais perfeito do mundo. Já isso é uma espécie de país, melhor do que os países reais onde as pessoas estão realmente convencidas que as coisas correm muito bem. Aprendemos a viver com esse país. E alguns conseguiram mesmo viver nele.

Desdenhar o que se tem e elogiar o que têm os outros, mas sem querer trocar, é a principal característica do aristocrático feitio do povo português. Às vezes penso que dizemos tanto mal de Portugal e dos portugueses para que não sejam os estrangeiros a fazê-lo. Monopolizamos a maledicência para nos defendermos; para evitar a concorrência.

Continue lendo…

Pensar Com Cabeça Alheia

Ler significa pensar com cabeça alheia em vez de pensar com a própria. O furor que a maioria dos eruditos sente ao ler constitui uma espécie de fuga vacui do vazio de pensamentos da sua própria cabeça, que faz força para atrair para dentro de si o que lhe é estranho: para terem pensamentos, precisam de aprender nos livros da mesma forma que os corpos inanimados recebem movimento apenas do exterior, enquanto os dotados de pensamento próprio são como os corpos vivos, que se movem por si mesmos.
Em rela√ß√£o √† nossa leitura, a arte de n√£o ler √© extremamente importante. Ela consiste em n√£o aceitar o que o p√ļblico mais amplo sempre l√™, como planfletos pol√≠ticos ou liter√°rios, romances, poesias e similares, que s√≥ fazem rumor naquele momento e at√© atingem muitas edi√ß√Ķes no seu primeiro e √ļltimo ano de vida.
Exigir que um indivíduo conserve na sua mente tudo o que já leu é como querer que ele ainda traga dentro de si tudo o que já comeu na vida.

Acreditei que Podia Dar-te um Céu para Brincares

Filho. Gostava que houvesse uma aragem qualquer que me explicasse esse teu sorriso e outra que te explicasse, sem te magoar, o meu silêncio. Gostava de aprender o trejeito dos teus lábios, a maneira dos teus olhos, e to lembrar quando tivesses a minha idade. Fui um dia a tua inocência. E dela ficou-me a grande inocência de acreditar.
Acreditei que podia dar-te um céu para brincares e que a vida seria o que nós quiséssemos. Assim. Bastaria querermos, esforçarmo-nos muito, trabalharmos, e teríamos então o que desejássemos. Não digo coisas majestosas, roupas bonitas ou charretes, mas comida, comida gostosa e bem temperada, e um cavalo de cartão novo, se por acaso esquecesses o teu no quintal numa noite de chuva. Acreditei que a felicidade dos teus olhos a sorrir podia voltar aos olhos da tua mãe, aos meus e perdurar intocada nos teus. Acreditei em tantas coisas. Sabes, aproximo-me da vila e o que me espera é morrer um pouco mais. Preferia que não o soubesses, mas infelizmente nem isso posso esconder-te, porque um dia, quando te contarem a história da tua vida, dir-te-ão que numa noite de estrelas, o teu pai foi à vila e levou uma sova;

Continue lendo…

Só o Presente é Verdadeiro e Real

Um ponto importante da sabedoria de vida consiste na propor√ß√£o correcta com a qual dedicamos a nossa aten√ß√£o em parte ao presente, em parte ao futuro, para que um n√£o estrague o outro. Muitos vivem em demasia no presente: s√£o os levianos; outros vivem em demasia no futuro: s√£o os medrosos e os preocupados. √Č raro algu√©m manter com exactid√£o a justa medida. Aqueles que, por interm√©dio de esfor√ßos e esperan√ßas, vivem apenas no futuro e olham sempre para a frente, indo impacientes ao encontro das coisas que h√£o-de vir, como se estas fossem portadoras da felicidade verdadeira, deixando entrementes de observar e desfrutar o presente, s√£o, apesar dos seus ares petualentes, compar√°veis √†queles asnos da It√°lia, cujos passos s√£o apressados por um feixe de feno que, preso por um bast√£o, pende diante da sua cabe√ßa. Desse modo, os asnos v√™em sempre o feixe de feno bem pr√≥ximo, diante de si, e esperam sempre alcan√ß√°-lo.
Tais indivíduos enganam-se a si mesmos em relação a toda a sua existência, na medida em que vivem ad interim [interinamente], até morrer. Portanto, em vez de estarmos sempre e exclusivamente ocupados com planos e cuidados para o futuro, ou de nos entregarmos à nostalgia do passado,

Continue lendo…

Nenhum Amor é Menos Ridículo que Outro

Temos, pois, que ao amor corresponde o am√°vel, e que este √© inexplic√°vel. Concebe-se a coisa, mas dela n√£o se pode dar raz√£o; assim tamb√©m √© que de maneira incompreens√≠vel o amor se apodera da sua presa. Se, de tempos a tempos, os homens ca√≠ssem por terra e morressem subitamente, ou entrassem em convuls√Ķes violentas mas inexplic√°veis, quem √© que n√£o sofreria a ang√ļstia? No entanto, √© assim que o amor interv√©m na vida, com a diferen√ßa de que ningu√©m receia por isso, visto que os amantes encaram tal acontecimento como se esperassem a suprema felicidade. Ningu√©m receia por isso, toda a gente ri afinal, porque o tr√°gico e o c√≥mico est√£o em perp√©tua correspond√™ncia. Conversais hoje com um homem; parece-vos que ele se encontra em estado normal; mas amanh√£ ouvi-lo-eis falar uma linguagem metaf√≥rica, v√™-lo-eis exprimir-se com gestos muito singulares: √© sabido, est√° apaixonado. Se o amor tivesse por express√£o equivalente ¬ęamar qualquer pessoa, a primeira que se encontra¬Ľ, compreender-se-ia a impossibilidade de apresentar melhor defini√ß√£o; mas j√° que a f√≥rmula √© muito diferente, ¬ęamar uma s√≥ pessoa, a √ļnica no mundo¬Ľ, parece que tal acto de diferencia√ß√£o deve provir de motivos profundos.
Sim, deve necessariamente implicar uma dial√©tica de raz√Ķes,

Continue lendo…

Como é que se Esquece Alguém que se Ama?

Como é que se esquece alguém que se ama? Como é que se esquece alguém que nos faz falta e que nos custa mais lembrar que viver? Quando alguém se vai embora de repente como é que se faz para ficar? Quando alguém morre, quando alguém se separa Рcomo é que se faz quando a pessoa de quem se precisa já lá não está?
As pessoas t√™m de morrer; os amores de acabar. As pessoas t√™m de partir, os s√≠tios t√™m de ficar longe uns dos outros, os tempos t√™m de mudar Sim, mas como se faz? Como se esquece? Devagar. √Č preciso esquecer devagar. Se uma pessoa tenta esquecer-se de repente, a outra pode ficar-lhe para sempre. Podem p√īr-se processos e ac√ß√Ķes de despejo a quem se tem no cora√ß√£o, fazer os maiores escarc√©us, entrar nas maiores peixeiradas, mas n√£o se podem despejar de repente. Elas n√£o saem de l√°. Est√ļpidas! √Č preciso aguentar. J√° ningu√©m est√° para isso, mas √© preciso aguentar. A primeira parte de qualquer cura √© aceitar-se que se est√° doente. √Č preciso paci√™ncia. O pior √© que vivemos tempos imediatos em que j√° ningu√©m aguenta nada. Ningu√©m aguenta a dor. De cabe√ßa ou do cora√ß√£o.

Continue lendo…

Os Pensamentos Intraduzíveis

√Č sabido que comboios completos de pensamento atravessam instantaneamente as nossas cabe√ßas, na forma de certos sentimentos, sem tradu√ß√£o para a linguagem humana, menos ainda para uma linguagem liter√°ria… porque muitos dos nossos sentimentos, quando traduzidos numa linguagem simples, parecem completamente sem sentido. Essa √© a raz√£o pela qual eles nunca chegam a entrar no mundo, no entanto toda a gente os tem.

Pense por si Próprio

Do que voc√™ precisa, acima de tudo, √© de se n√£o lembrar do que eu lhe disse; nunca pense por mim, pense sempre por voc√™; fique certo de que mais valem todos os erros se forem cometidos segundo o que pensou e decidiu do que todos os acertos, se eles foram meus, n√£o s√£o seus. Se o criador o tivesse querido juntar muito a mim n√£o ter√≠amos talvez dois corpos distintos ou duas cabe√ßas tamb√©m distintas. Os meus conselhos devem servir para que voc√™ se lhes oponha. √Č poss√≠vel que depois da oposi√ß√£o, venha a pensar o mesmo que eu; mas, nessa altura. j√° o pensamento lhe pertence. S√£o meus disc√≠pulos, se alguns tenho, os que est√£o contra mim; porque esses guardaram no fundo da alma a for√ßa que verdadeiramente me anima e que mais desejaria transmitir-lhes: a de se n√£o conformarem.

Saber Zangar-se

O que me parece √© que as pessoas, em geral, como que deixaram de saber zangar-se. Deixaram de saber zangar-se com aquilo que consideram errado ‚Äď e, pior ainda, deixaram de saber diz√™-lo na cara umas das outras. A n√£o ser, naturalmente, que haja uma agenda.

Ainda nos zangamos muito, √© verdade. Mas zangamo-nos mal. Com a maior das facilidades nos zangamos contra inimigos abstractos, como ¬ęo Governo¬Ľ, ¬ęo capitalismo selvagem¬Ľ ou mesmo apenas ¬ęa crise¬Ľ. Com a maior das facilidades nos zangamos com aqueles que entendemos como nossos subordinados, no trabalho e na vida em geral (afinal, os nossos ¬ęsuperiores¬Ľ acabam de p√īr-nos a pata em cima. algu√©m vai ter de pagar a conta). Com aqueles que est√£o, de alguma forma, em ascendente sobre n√≥s, j√° n√£o nos zangamos: amuamos, que √© a forma mais cobarde de nos zangarmos. Aos nossos iguais simplesmente n√£o dizemos nada: engolimos e tornamos a engolir, convencendo-nos de que do outro lado est√°, afinal, um pobre diabo, t√£o pobre que nem sequer merece uma zanga ‚Äď e, quando enfim nos zangamos, √© para dar-lhe um tiro na cabe√ßa, como todos os dias nos mostram os jornais.

A impress√£o com que eu fico √© que tudo isto vem dessa mania das social skills e do team building e dos demais chav√Ķes moderninhos que os gurus dos livros de Economia nos enfiaram pela garganta abaixo,

Continue lendo…