Textos sobre Tristes

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Textos de tristes escritos por poetas consagrados, filósofos e outros autores famosos. Conheça estes e outros temas em Poetris.

A Felicidade Est√° Fora da Nossa Realidade

O amoroso apaixonado j√° n√£o vive em si, mas no que ama; quanto mais se afasta de si para se fundir no seu amor, mais feliz se sente. Assim, quando a alma sonha em fugir do corpo e renuncia a servir-se normalmente dos seus org√£os, podeis dizer com raz√£o que ele enlouquece. As express√Ķes correntes n√£o querem dizer outra coisa: ¬ęN√£o est√° em si… Volta a ti… Ele voltou a si.¬Ľ E quanto mais perfeito √© o amor, maior a loucura e mais feliz.
Quem ser√°, pois, essa vida no C√©u, √† qual aspiram t√£o ardentemente as almas piedosas? O esp√≠rito, mais forte e vitorioso, absorver√° o corpo; isto ser√° tanto mais f√°cil quanto mais purificado e extenuado tiver sido o corpo durante a vida. Por sua vez, o esp√≠rito ser√° absorvido pela suprema Intelig√™ncia, cujos poderes s√£o infinitos. Assim se encontrar√° fora de si mesmo o homem inteiro e a √ļnica raz√£o da sua felicidade ser√° de n√£o mais se pertencer, mas de submeter-se a este soberano inef√°vel, que tudo atrai a si.
Uma tal felicidade, é certo, só poderá ser perfeita no momento em que as almas, dotadas de imortalidade, retomem os antigos corpos. Mas, como a vida dos piedosos não é mais do que a meditação sobre a eternidade e como que a sombra dela,

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O Meu Génio Vem de Ti

O que me acalma ou o que me agita, o que me torna alegre ou triste, o que refulge no meio da noite, a meu lado, e me alumia mil vezes melhor do que o candeeiro de trabalho, o que me encanta os dias durante os meus passeios solitários, os meus estudos, os meus devaneios, e até as mais enfadonhas tarefas, é a tua imagem, a lembrança de que existes, de que me amas, de que me esperas, de que pensas em mim! Se tenho algum génio, é de ti que me vem.

A Aceitação da Fraude

Uma das li√ß√Ķes mais tristes da hist√≥ria √© a seguinte: Se formos enganados durante muito tempo, temos tend√™ncia a rejeitar qualquer prova de fraude. Deixamos de estar interessados em descobrir a verdade. A fraude apanhou-nos. √Č demasiado doloroso reconhecer, nem que seja para n√≥s mesmos , que fomos levados √† certa. Uma vez que damos a um charlat√£o poder sobre n√≥s mesmos, quase nunca o recuperamos. Por conseguinte, as velhas fraudes t√™m tend√™ncia a persistir, ao mesmo tempo que surgem outras novas.

Felicidade a Longo Prazo

Procuremos manter-nos de boa sa√ļde, n√£o ter quaisquer preconceitos, ter paix√Ķes, p√ī-las ao servi√ßo da nossa felicidade, substituir as nossas paix√Ķes por gostos, conservar preciosamente as nossas ilus√Ķes, ser virtuosos, nunca nos arrependermos, afastar de n√≥s as ideias tristes e nunca permitir ao nosso cora√ß√£o conservar uma centelha de gosto por algu√©m cujo gosto diminua e que deixe de amar-nos. Por pouco que envelhe√ßamos, um dia seremos for√ßados a abrir m√£o do amor, e esse dia deve ser aquele em que o amor j√° n√£o nos fa√ßa felizes. Pensemos, enfim, em cultivar o gosto pelo estudo, esse gosto que faz depender a felicidade apenas de n√≥s pr√≥prios. Ponhamo-nos ao abrigo da ambi√ß√£o e, sobretudo, cuidemos bem de saber o que queremos ser; decidamo-nos sobre o caminho que queremos seguir para passar a nossa vida e procuremos seme√°-lo de flores.

A Verdadeira Divis√£o Humana

Sois v√≥s um daqueles a quem se chama feliz? Pois bem, v√≥s estais tristes todos os dias. Cada dia tem uma grande amargura e um pequeno cuidado. Ontem trem√≠eis pela sa√ļde de algu√©m que vos √© caro, hoje receais pela vossa; amanh√£ ser√° uma inquitea√ß√£o de dinheiro, depois a diatribe de um caluniador ou a infelicidade de um amigo, mais tarde o mau tempo que faz, qualquer coisa que se quebrou ou se perdeu, uma vez um prazer que a vossa consci√™ncia e a coluna vertebral reprovam, outra vez a marcha dos neg√≥cios p√ļblicos. Isto sem contar as penas de cora√ß√£o. E assim sucessivamente. Uma nuvem que se dissipa e outra que se forma logo. Apenas um dia em cem de plena felicidade e cheio de sol. E sois desse pequeno n√ļmero que √© feliz! Quanto aos outros homens, envolve-os a noite estagnante.
Os espíritos reflectidos usam pouco desta locução: os felizes e os infelizes. Neste mundo, evidentemente vestíbulo de outro, não há felizes.
A verdadeira divisão humana é esta: os iluminados e os tenebrosos.
Diminuir o n√ļmero dos tenebrosos e aumentar o dos iluminados, eis o fim. √Č por isso que n√≥s gritamos: ensino, ci√™ncia! Aprender a ler,

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De que Valem a Experiência e o Conhecimento na Velhice?

¬ęEnvelhe√ßo aprendendo sempre¬Ľ – S√≥lon, na sua velhice, repetia muitas vezes este verso. O sentido que esse verso possui permitir-me-ia diz√™-lo tamb√©m na minha; mas √© bem triste o conhecimento que, desde h√° vinte anos, a experi√™ncia me fez adquirir: a ignor√Ęncia ainda √© prefer√≠vel. A adversidade √©, sem d√ļvida, um grande mestre, mas faz pagar caro as suas li√ß√Ķes e muitas vezes o proveito que delas se tira n√£o vale o pre√ßo que custaram. Ali√°s, a oportunidade de nos servirmos desse saber tardio passa antes de o termos adquirido.
A juventude √© o tempo pr√≥prio para se aprender a sabedoria; a velhice √© o tempo pr√≥prio para a praticar. A experi√™ncia instrui sempre, confesso, mas n√£o √© √ļtil sen√£o durante o espa√ßo de tempo que temos √† nossa frente. √Č no momento em que se vai morrer que se deve aprender como se deveria ter vivido?
De que me servem os conhecimentos que t√£o tarde e t√£o dolorosamente adquiri sobre o meu destino e sobre as paix√Ķes alheias de que ele √© o fruto? N√£o aprendi a conhecer os homens sen√£o para melhor sentir a desgra√ßa em que me mergulharam e esse conhecimento, embora me revelasse todas as suas armadilhas,

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Quer-te Muito a Tua Mulherzinha

Recebi ontem à noite o telegrama que mandaste da Foz. Desejo que tivesses encontrado tudo bem na nossa casinha. Espero com ansiedade a primeira cartinha tua que já cá devia estar. Estou a escrever-te sentada a uma janela com o papel em cima dum livro e o tinteiro no chão; é 1 hora e meia, a hora de ir até às galinhas a ver se já havia algum ovo.

Há quanto tempo isso foi! Escreve para cá só até ao dia 23 ou 24 porque dia 26 pela manhã partimos para Vila Viçosa. O carnaval é dia 8 e já vejo que para minha desgraça o vou passar no covil enjaulada como as feras perigosas. Pouca sorte a da pobre Bela! Não posso ainda hoje falar com o advogado nem amanhã que é domingo, de forma que só segunda-feira te poderei dizer qualquer coisa a esse respeito. Há só um comboio dia sim dia não para Lisboa de forma que não estranhes nem te inquietes por alguma pequena demora na correspondência.
A√≠ vai um belo soneto que as saudades tuas me trouxeram ontem; s√≥ quando estou triste sei fazer versos com jeito como esses. Provavelmente n√£o gostas…

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Símios Aperfeiçoados II

A trag√©dia √© a cristaliza√ß√£o da massa humana, t√£o perigosa como a estagna√ß√£o do esp√≠rito do homem que se torna acad√©mico ou fenece por falta de entusiasmo. Gostava de saber quantas pessoas pensam em macacos durante o correr de um dia? Quantas? O homem-massa, num futuro pr√≥ximo – em rela√ß√Ķes antropol√≥gicas o pr√≥ximo leva geralmente centenas de anos – transformar-se-√° num novo espect√°culo de jardim zool√≥gico. Em vez de jaula e aldeias de s√≠mios, ele ter√° balne√°rios p√ļblicos e campos para habilidades desportivas, com ocasionais jogos nocturnos. Dar√° palmas em del√≠rio ouvindo ainda o som distante da sineta tocada pelo elefante num acto m√°ximo de intelig√™ncia paquid√©rmica. Ter√° circuitos fechados, com pistas perfeitamente cimentadas, para passear o t√©dio da fam√≠lia aos domingos, circular√° repetidamente em metropolitanos convencido de que cada nova paragem √© diferente da anterior.
E estou absolutamente crente que do naufrágio calamitoso apenas se hão-de salvar os que pela porta do cavalo fugirem ao triturar das grandes colectividades humanas, ou os que por força invencível e instintiva se libertarem para uma nova categoria de homem, ou, melhor dizendo, para a sua verdadeira categoria de homem, de homem-pensamento, na linha directa de um Platão, de um Homero, de um Aristófanes,

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A Impossibilidade de Renunciar

Eu decido correr a uma prov√°vel desilus√£o: e uma manh√£ recebo na alma mais uma vergastada – prova real dessa desilus√£o. Era o momento de recuar. Mas eu n√£o recuo. Sei j√°, positivamente sei, que s√≥ h√° ru√≠nas no termo do beco, e continuo a correr para ele at√© que os bra√ßos se me partem de encontro ao muro espesso do beco sem sa√≠da. E voc√™ n√£o imagina, meu querido Fernando, aonde me tem conduzido esta maneira de ser!… H√° na minha vida um bem lamnet√°vel epis√≥dio que s√≥ se explica assim. Aqueles que o conhecem, no momento em que o vivi, chamaram-lhe loucura e disparate inexplic√°vel. Mas n√£o era, n√£o era. √Č que eu, se come√ßo a beber um copo de fel, hei-de for√ßosamente beb√™-lo at√© ao fim. Porque – coisa estranha! – sofro menos esgotando-o at√© √† √ļltima gota, do que lan√ßando-o apenas encetado. Eu sou daqueles que v√£o at√© ao fim. Esta impossibilidade de ren√ļncia, eu acho-a bela artisticamente, hei-de mesmo trat√°-la num dos meus contos, mas na vida √© uma triste coisa. Os actos da minha exist√™ncia √≠ntima, um deles quase tr√°gico, s√£o resultantes directos desse triste fardo. E, coisas que parecem inexplic√°veis, explicam-se assim. Mas ningu√©m as compreende.

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Ideais Fatais

N√£o h√° ideal a que possamos sacrificar-nos, porque de todos eles conhecemos a mentira, n√≥s os que ignoramos em absoluto o que seja a verdade. A sombra terrestre que se alonga por detr√°s dos deuses de m√°rmore basta para nos afastar deles. Ah, com que amplexo o homem se estreitou a si pr√≥prio! P√°tria, justi√ßa, grandeza, piedade, verdade, qual das suas est√°tuas n√£o traz em si os sinais das m√£os humanas para que n√£o desperte a mesma ironia triste que os velhos rostos outrora amados? Compreender n√£o significa necessariamente aceitar todas as loucuras. E, no entanto, quantos sacrif√≠cios, quantos hero√≠smos injustificados dormem em n√≥s…

O Medo de Acabar Só

H√° muitos que n√£o fazem mais do que discutir e bulhar o dia inteiro, e depois surpreendem-se com qualquer mudan√ßa numa situa√ß√£o que consideram segura porque est√°vel. O rancor √© uma boa forma de garantir companhia, o poder de lan√ßar √† cara de algu√©m, todos os dias, o mal que nos fez: isso cria estabilidade. As pessoas pensam: que hei de fazer? Ficar sozinho? Ouve-los falar e parece ser isso o que mais temem: ficarem s√≥s. A solid√£o. O abandono. Palavras tristes ou amea√ßadoras. Terr√≠veis: logo ver√°s o que √© a velhice, se cometeres o erro de ficar solteiro. Assustam-te com isso. Dizem-te: se continuas assim, vais ficar sozinho. √Č horr√≠vel morrer sozinho, como um c√£o, dizem. E parece ser essa a pior desgra√ßa; h√° que morrer, sim, toda a gente tem de morrer, mas acompanhado, e n√£o como um c√£o. Morrer sozinho √© desolador, √© indecente, revela uma falha humana (do ser humano, como diria Francisco: a express√£o comove) que deve ser dissimulada, mantida na sombra.

A Tristeza dos Portugueses

Porque é que os portugueses são tristes? Porque estão perto da verdade. Quem tiver lido alguns livros, deixados por pessoas inteligentes desde o princípio da escrita, sabe que a vida é sempre triste. O homem vive muito sujeito. Está sujeito ao seu tempo, à sua condição e ao seu meio de uma maneira tal que quase nada fica para ele poder fazer como quer. Para se afirmar, como agora se diz, tão mal.
Sobre n√≥s mandam tanto a sa√ļde e o dinheiro que temos, o s√≠tio onde nascemos, o sangue que herd√°mos, os h√°bitos que aprendemos, a ra√ßa, a idade que temos, o feitio, a disposi√ß√£o, a cara e o corpo com que nascemos, as verdades que achamos; mandam tanto em n√≥s estas coisas que nos d√£o que ficamos com pouco mais do que a vontade. A vontade e um cora√ß√£o acordado e est√ļpido, que pede como se tudo pud√©ssemos. Um cora√ß√£o cego e est√ļpido, que n√£o v√™ que n√£o podemos quase nada.
Aí está a razão da nossa tristeza permanente. Cada homem tem o corpo de um homem e o coração de um deus. E na diferença entre aquilo que sentimos e aquilo que acontece, entre o que pede o coração e não pode a vida,

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A Minha Lista dos Grandes Autores

Uma revista espanhola teve a ideia de pedir a uns quantos escritores que elaborassem a sua √°rvore geneal√≥gica liter√°ria, isto √©, a que outros autores consideravam eles como avoengos seus, directos ou indirectos, excluindo-se do inventado parentesco, obviamente, qualquer presun√ß√£o de rela√ß√Ķes ou equival√™ncias de m√©rito que a realidade, pelo menos no meu caso, logo se encarregaria de desmentir. Tamb√©m se pedia que, em brev√≠ssimas palavras, fosse dada a justifica√ß√£o dessa esp√©cie de adop√ß√£o ao contr√°rio, em que era o ¬ędescendente¬Ľ a escolher o ¬ęascendente¬Ľ. A cada escritor consultado foi entregue o desenho de uma √°rvore com onze molduras dispersas pelos diferentes ramos, onde suponho que h√£o-de vir a aparecer os retratos dos autores escolhidos. A minha lista, com a respectiva fundamenta√ß√£o, foi esta: Lu√≠s de Cam√Ķes, porque, como escrevi no ¬ęAno da Morte de Ricardo Reis¬Ľ, todos os caminhos portugueses a ele v√£o dar; Padre Ant√≥nio Vieira, porque a l√≠ngua portuguesa nunca foi mais bela que quando ele a escreveu; Cervantes, porque sem ele a Pen√≠nsula Ib√©rica seria uma casa sem telhado; Montaigne, porque n√£o precisou de Freud para saber quem era; Voltaire, porque perdeu as ilus√Ķes sobre a humanidade e sobreviveu a isso; Raul Brand√£o, porque demonstrou que n√£o √© preciso ser-se g√©nio para escrever um livro genial,

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O Belo Retrato do S√°bio

Voltemos √† feliz esp√©cie dos loucos. Passada a vida alegremente, sem medo ou pressentimento da morte, emigram directamente para os Campo El√≠sios e v√£o deleitar com as suas fac√©cias as almas ociosas e pias. Comparai agora ao destino do louco o de um s√°bio √† vossa escolha. Citai-me um modelo de sabedoria que tenha gasto a sua inf√Ęncia e a juventude no estudo das ci√™ncias e que tenha perdido o mais belo tempo da sua vida em vig√≠lias, cuidados e trabalhos sem fim e que se tenha privado, para o resto da sua vida, de todos os prazeres. Vereis que foi sempre pobre, miser√°vel, triste, t√©trico, severo e duro para consigo mesmo, insuport√°vel e desagrad√°vel para com os outros, p√°lido, magro, servil, envelhecido antes do tempo, calvo antes da velhice, votado a uma morte prematura. Que importa, ali√°s, que morra, se nunca chegou a viver! Tal √© o belo retrato deste s√°bio.

Os Dias Zangados S√£o Dias de Amor

Raios partam os dias zangados. Nada há que se possa fazer para fugir deles. Esperam por nós, como credores ajudados por juros injustificáveis, para nos cortarem a fatia do nosso coração que lhes cabe.
Não são como os dias tristes, que não conseguem habituar-se a uma realidade qualquer, que se revelou, sem querer, desiludindo-nos de uma ilusão que nós próprios inventámos, para mais facilmente podermos acreditar, falsamente, nela. Mas assemelham-se para mais bem nos poderem magoar. Depois. Quase ao mesmo tempo. Bem.
Quem não tem um dia zangado, em que ninguém ou nada corresponde ao que esperávamos? A felicidade é a excepção e o engano. Resulta mais de um esquecimento do que de uma lembrança.
Pouco h√° de certo neste mundo. S√£o muitos os pobres, mas n√£o s√£o poucos os ricos. As pessoas do sexo masculino n√£o se entendem nem com as pessoas do sexo masculino, nem com as do sexo feminino. As pessoas, sejam de que sexo e sexualidade forem, compreendem-se mal. D√£o-se mal, por muito bem que se d√™em. As mais apaixonadas umas pelas outras s√£o as que menos bem aceitam as diferen√ßas, as incompreens√Ķes, os dias zangados e as noites zangadas que apenas servem para nos relembrar que todos n√≥s nascemos e morremos sozinhos.

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A Cantiga do Optimismo

N√£o embarquem na cantiga do optimismo. Sempre que poss√≠vel, vejam as coisas pelo lado ruim. Desejem o melhor, mas n√£o deixem nunca de esperar o pior. E saibam que dois ter√ßos das conquistas do Homem se fizeram, mais do que pelo optimismo dos seus autores, em resultado do pessimismo dos vizinhos daqueles. Os comp√™ndios ir√£o contra v√≥s. Dir-vos-√£o que s√£o c√≠nicos, escapistas, pobres cultores da ideia de supremacia do mal sobre o bem, tristes conformistas destinados ao imobilismo e mais nada. N√£o acreditem. Se h√° uma coisa capaz de mover montanhas, √© ter ao lado um sacana a dizer ¬ęN√£o consegues, p√°, d√™s as voltas que deres n√£o consegues¬Ľ – e, ali√°s, n√≥s pr√≥prios concordarmos com ele. Em todo o caso, o mal exerce efectivamente supremacia sobre o bem. Voc√™s sabem que as crian√ßas choram antes de rir – e que. muito antes de aprenderem o potencial sedutor de um sorriso, j√° conhecem as virtudes chantag√≠sticas de uma boa gritaria.

N√£o pensem que o m√©todo √© meu. Insinuou-o Voltaire, no seu Candide, √† revelia dos optimistas taralhoucos que vieram antes e depois dele, como Leibniz ou Godwin. Gramsci tratou da exegese. O verdadeiro segredo? O verdadeiro m√©todo? ¬ę√Č preciso atrair violentamente a aten√ß√£o para o presente do modo como ele √©.

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O Mundo dos Solteiros

Agora a s√©rio: voc√™ conhece algum solteiro verdadeiramente satisfeito com a sua condi√ß√£o de solteiro? Eu n√£o. Conhe√ßo v√°rios solteiros que se dizem satisfeitos com a sua condi√ß√£o de solteiros, mas que de bom grado imediatamente se casariam. N√£o se casam por in√©rcia, por cobardia, muitas vezes por falta de sorte – mas √© por uma vida a dois que suspiram. √Č da natureza humana. Uma coisa √© estar entre casamentos. Outra √© ser solteiro. E o solteiro cool √© uma constru√ß√£o t√£o artificial como o da gordinha ¬ęmuito¬Ľ simp√°tica. Voc√™ conhece alguma gordinha ¬ęmuito¬Ľ simp√°tica em que essa t√£o √≥bvia simpatia n√£o seja excessiva, provavelmente fabricada – e mensageira sobretudo de uma profunda solid√£o? Eu n√£o.

(…) √Č um mundo sombrio, o mundo dos solteiros – um mundo de ansiedades, de cinismo, de ressentimento, de ego√≠smo. Se os solteiros solit√°rios s√£o tristes, ali√°s, os solteiros greg√°rios s√£o-no ainda mais. Voc√™ j√° foi a algum jantar em que os presentes fossem maioritariamente solteiros? Eu j√°. E, sempre que fui, voltei deprimido. Ia deprimido – e deprimido voltei. √ćamos deprimidos – e deprimidos volt√°mos. Todos. Fizemos o que pudemos, claro: troc√°mos palavras, troc√°mos solidariedades, troc√°mos mimos. No fim, nada.

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Dói-me a Vida aos Poucos

Estou num daqueles dias em que nunca tive futuro. H√° s√≥ um presente im√≥vel com um muro de ang√ļstia em torno. A margem de l√° do rio nunca, enquanto √© a de l√°, √© a de c√°, e √© esta a raz√£o intima de todo o meu sofrimento. H√° barcos para muitos portos, mas nenhum para a vida n√£o doer, nem h√° desembarque onde se esque√ßa. Tudo isto aconteceu h√° muito tempo, mas a minha m√°goa √© mais antiga.
Em dias da alma como hoje eu sinto bem, em toda a consciência do meu corpo, que sou a criança triste em quem a vida bateu. Puseram-me a um canto de onde se ouve brincar. Sinto nas mãos o brinquedo partido que me deram por uma ironia de lata. Hoje, dia catorze de Março, às nove horas e dez da noite, a minha vida sabe a valer isto.
No jardim que entrevejo pelas janelas caladas do meu sequestro, atiraram com todos os balouços para cima dos ramos de onde pendem; estão enrolados muito alto, e assim nem a ideia de mim fugido pode, na minha imaginação, ter balouços para esquecer a hora.
Pouco mais ou menos isto, mas sem estilo,

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N√£o Penses

N√£o penses. Que raio de mania essa de estares sempre a querer pensar. Pensar √© trocar uma flor por um silogismo, um vivo por um morto. Pensar √© n√£o ver. Olha apenas, v√™. Est√° um dia enorme de sol. Talvez que de noite, acabou-se, como diz o fil√≥sofo da ave de Minerva. Mas n√£o agora. H√° alegria bastante para se n√£o pensar, que √© coisa sempre triste. Olha, escuta. Nas passagens de n√≠vel, havia um aviso de ¬ępare, escute, olhe¬Ľ com vistas ao atropelo dos comboios. √Č o aviso que devia haver nestes dias magn√≠ficos de sol. Olha a luz. Escuta a alegria dos p√°ssaros. N√£o penses, que √© sacril√©gio.

Indiferença em Política

Um dos piores sintomas de desorganização social, que num povo livre se pode manifestar, é a indiferença da parte dos governados para o que diz respeito aos homens e às cousas do governo, porque, num povo livre, esses homens e essas cousas são os símbolos da actividade, das energias, da vida social, são os depositários da vontade e da soberania nacional.
Que um povo de escravos folgue indiferente ou durma o sono solto enquanto em cima se forjam as algemas servis, enquanto sobre o seu mesmo peito, como em bigorna insensível se bate a espada que lho há-de trespassar, é triste, mas compreende-se porque esse sono é o da abjecção e da ignomínia.
Mas quando √© livre esse povo, quando a paz lhe √© ainda convalescen√ßa para as feridas ganhadas em defesa dessa liberdade, quando come√ßa a ter consci√™ncia de si e da sua soberania… que ent√£o, como tomado de vertigem, desvie os olhos do norte que tanto lhe custara a avistar e deixe correr indiferente a sabor do vento e da onda o navio que tanto risco lhe dera a lan√ßar do porto; para esse povo √© como de morte este sintoma, porque √© o olvido da ideia que h√° pouco ainda lhe custara tanto suor tinto com tanto sangue,

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