Textos sobre √öteis

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Textos de √ļteis escritos por poetas consagrados, fil√≥sofos e outros autores famosos. Conhe√ßa estes e outros temas em Poetris.

A Filosofia é Essencial para Compreender a Vida

Bem longe de se assustar ou mesmo de enrubescer com o nome de fil√≥sofo, n√£o existe ningu√©m no mundo que n√£o devesse possuir fortes laivos de filosofia. Ela conv√©m a todos; a sua pr√°tica √© √ļtil em todas as idades, para todos os sexos e para todas as condi√ß√Ķes: ela consola-nos da felicidade do outro, das prefer√™ncias indignas, dos fracassos, do decl√≠nio das nossas for√ßas ou da nossa beleza; arma-nos contra a pobreza, a velhice, a doen√ßa e a morte, contra os tolos e os maus zombeteiros; faz-nos viver sem uma mulher ou faz-nos suportar aquela com quem vivemos!

Simplicidade e Perseverança

O que pensas que foi a vida dos homens que se conseguiram erguer acima do comum? Um combate cont√≠nuo. Se se tratar de um escritor, para escrever, uma luta contra a pregui√ßa (que ele sente tanto como o homem comum): e isto porque o seu g√©nio quer manifestar-se – e ele n√£o obedece apenas ao desejo v√£o de se tornar c√©lebre, mas ao apelo da sua consci√™ncia. Calem-se portanto os que trabalham com frieza: poder-se-√° imaginar o que √© trabalhar sob a influ√™ncia da inspira√ß√£o? Que medo, que hesita√ß√£o sentimos em despertar esse le√£o adormecido, cujos rugidos fazem estremecer todo o nosso ser! Mas, voltando atr√°s: ser firme, simples e verdadeiro – eis o √ļtil ensinamento de todos os momentos.

Retrato de Mónica

M√≥nica √© uma pessoa t√£o extraordin√°ria que consegue simultaneamente: ser boa m√£e de fam√≠lia, ser chiqu√≠ssima, ser dirigente da ¬ęLiga Internacional das Mulheres In√ļteis¬Ľ, ajudar o marido nos neg√≥cios, fazer gin√°stica todas as manh√£s, ser pontual, ter imensos amigos, dar muitos jantares, ir a muitos jantares, n√£o fumar, n√£o envelhecer, gostar de toda a gente, gostar dela, dizer bem de toda a gente, toda a gente dizer bem dela, coleccionar colheres do s√©c. XVII, jogar golfe, deitar-se tarde, levantar-se cedo, comer iogurte, fazer ioga, gostar de pintura abstracta, ser s√≥cia de todas as sociedades musicais, estar sempre divertida, ser um belo exemplo de virtudes, ter muito sucesso e ser muito s√©ria.
Tenho conhecido na vida muitas pessoas parecidas com a Mónica. Mas são só a sua caricatura. Esquecem-se sempre ou do ioga ou da pintura abstracta.
Por trás de tudo isto há um trabalho severo e sem tréguas e uma disciplina rigorosa e constante. Pode-se dizer que Mónica trabalha de sol a sol.
De facto, para conquistar todo o sucesso e todos os gloriosos bens que possui, Mónica teve que renunciar a três coisas: à poesia, ao amor e à santidade.

A poesia é oferecida a cada pessoa só uma vez e o efeito da negação é irreversível.

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Objectivo de Fim de Vida

Ainda sou √ļtil, apesar da idade avan√ßada. O meu c√©rebro n√£o perdeu o vigor. Sinto que absorveu muito e que nunca esteve t√£o bem alimentado. √Č errado pensar que a velhice √© um declive por onde vamos caindo: muito pelo contr√°rio, subimos, e a passos largos, surpreendentes. O trabalho intelectual faz-se t√£o rapidamente como nas crian√ßas o trabalho f√≠sico. N√£o √© que n√£o nos aproximemos do fim da vida, mas fazemo-lo como se fosse um objectivo, e n√£o o derradeiro e fatal baixio onde encalharemos para sempre.

Vontade de Mudança

Se achas que a situa√ß√£o da tua vida √© insatisfat√≥ria ou at√© mesmo intoler√°vel, s√≥ te rendendo primeiro conseguir√°s quebrar o padr√£o de resist√™ncia inconsciente que perpetua essa situa√ß√£o. Render-se √© perfeitamente compat√≠vel com tomar provid√™ncias, com iniciar uma mudan√ßa ou alcan√ßar metas. Mas no estado de rendi√ß√£o h√° uma energia totalmente diferente, uma qualidade diferente que corre no que fizeres. Ao renderes-te, ligas-te novamente com a energia da fonte do Ser e, se o que fizeres estiver infuso do Ser, tornar-se-√° numa celebra√ß√£o rejubilante da energia da vida, que te levar√° mais profundamente para dentro do Agora. Atrav√©s da n√£o-resist√™ncia, a qualidade da tua consci√™ncia e, por conseguinte, a qualidade de tudo o que fizeres ou criares, ser√° incomensuravelmente real√ßada. Os resultados tomar√£o ent√£o conta de si pr√≥prios e reflectir√£o essa qualidade. Poder√≠amos chamar-lhe “ac√ß√£o rendida”. N√£o √© o trabalho tal como o conhecemos desde h√° milhares de anos. √Ä medida que mais seres humanos forem despertando, a palavra trabalho desaparecer√° do nosso vocabul√°rio, e talvez se crie uma palavra nova em sua substitui√ß√£o.

√Č a qualidade da tua consci√™ncia desse momento que √© o factor determinante do tipo de futuro que vivenciar√°s, pelo que render-te √© a coisa mais importante que podes fazer para provocar uma mudan√ßa positiva.

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A Recetividade Genuína

A recetividade genuína é uma espécie de inocência preciosa mas não tem de existir à custa de sermos frágeis e vulneráveis. Da mesma maneira, não tem de traçar limites pessoais muito firmes e definidos à custa da sensibilidade e da compaixão.

√Ä medida que cresce a nossa consci√™ncia espiritual acerca da nossa verdadeira natureza, tornamo-nos mais compassivos e gentis porque reconhecemos e estabelecemos uma liga√ß√£o com a pureza e a bondade dos outros a partir da nossa ess√™ncia. Por isso permanecemos recetivos a todas as influ√™ncias positivas e que exprimem a vida. Com o que n√£o √© √ļtil nem ben√©fico para n√≥s, simplesmente escolhemos n√£o nos envolvermos nem prestar aten√ß√£o. √Č assim que conseguimos manter-nos recetivos ao mesmo tempo que preservamos os nossos limites pessoais. A sua consci√™ncia de si opera como um filtro que deixa entrar o que √© √ļtil para a sua evolu√ß√£o e impede a entrada daquilo que n√£o √©. √Č como se fosse uma porta de rede. Deixa passar a brisa refrescante mas n√£o deixa entrar as folhas.

Felicidade Calma

Incita esse teu amigo a animosamente n√£o ligar import√Ęncia a quem o censura por se acolher √† obscuridade da vida privada, por desistir das suas grandezas, por ter preferido a tranquilidade a tudo o mais, apesar de poder ainda avan√ßar na sua carreira. Mostra a essa gente que ele trata diariamente dos pr√≥prios interesses da forma mais √ļtil. Aqueles que pela sua posi√ß√£o elevada suscitam a inveja geral nunca vivem em terreno firme: uns s√£o derrubados, outros caem por si. Esse tipo de felicidade nunca conhece a calma, antes se excita sempre a si mesma. Desperta em cada um ideias de v√°rios tipos, move os homens cada qual em sua direc√ß√£o, lan√ßa uns numa vida de excessos, outros numa vida de lux√ļria, a uns enche-os de orgulho, a outros de moleza, mas a todos igualmente destr√≥i.
Dir√°s tu: H√°, todavia, quem aguente bem uma liberdade desse g√©nero”. Pois h√°, assim como h√° quem aguente bem o vinho. Por isso n√£o existe o m√≠nimo fundamento para te deixares persuadir que algu√©m √© feliz pelo facto de viver rodeado de clientes; os clientes n√£o buscam nele sen√£o o mesmo que buscam num lago: beber at√© fartar e deixar a √°gua suja!

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A Necessidade da Filosofia

A filosofia n√£o brota por ser √ļtil, mas t√£o-pouco pela ac√ß√£o irracional de um desejo veemente. √Č constitutivamente necess√°ria ao intelectual. Porqu√™? A sua nota radical era buscar o todo como um tal todo, capturar o Universo, ca√ßar o Unic√≥rnio. Mas porqu√™ esse profundo anseio? Por que n√£o nos contentamos com o que, sem filosofar, achamos no mundo, com o que j√° √© e a√≠ est√° patente diante de n√≥s? Por esta simples raz√£o: tudo o que √© e est√° a√≠, quanto nos √© dado, presente, patente, √© por sua ess√™ncia um mero bocado, peda√ßo, fragmento, coto. E n√£o podemos v√™-lo sem prever e verificar que est√° a menos a por√ß√£o que falta. Em todo o ser que √© dado, em todo o dado do mundo encontramos a sua essencial linha de fractura, o seu car√°cter de parte e s√≥ parte – vemos a ferida da sua mutila√ß√£o ontol√≥gica, grita-nos a sua dor de amputado, a sua nostalgia do bocado que lhe falta para ser completo, o seu divino descontentamento. H√° doze anos, quando eu falava em Buenos Aires, definia o descontentamento ¬ęcomo um amar sem amado e uma como dor que sentimos em membros que n√£o temos¬Ľ. √Č o achar de menos o que n√£o somos,

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A Inutilidade dos Sindicatos

A sindica√ß√£o, sa√≠da da liberdade como o monop√≥lio espont√Ęneo, √© igualmente inimiga dela, e sobretudo das vantagens dela; √©-o com menos brutalidade e evid√™ncia e, por isso mesmo, com mais seguran√ßa. Um sindicato ou associa√ß√£o de classe ‚ÄĒ comercial, industrial, ou de outra qualquer esp√©cie ‚ÄĒ nasce aparentemente de uma congrega√ß√£o livre dos indiv√≠duos que comp√Ķem essa classe; como, por√©m, quem n√£o entrar para esse sindicato fica sujeito a desvantagens de diversa ordem, a sindica√ß√£o √© realmente obrigat√≥ria. Uma vez constitu√≠do o sindicato, passam a dominar nele ‚ÄĒ parte m√≠nima que se substitui ao todo ‚ÄĒ n√£o os profissionais (comerciantes, industriais, ou o que quer que sejam), mais h√°beis e representativos, mas os indiv√≠duos simplesmente mais aptos e competentes para a vida sindical, isto √©, para a pol√≠tica eleitoral dessas agremia√ß√Ķes. Todo o sindicato √©, social e profissionalmente, um mito.
Mais incisivamente ainda: nenhuma associa√ß√£o de classe √© uma associa√ß√£o de classe. No caso especial da sindica√ß√£o na ind√ļstria e no com√©rcio, o resultado √© desaparecerem todas as vantagens da concorr√™ncia livre, sem se adquirir qualquer esp√©cie de coordena√ß√£o √ļtil ou ben√©fica. O car√°ter natural do reg√≠men livre atenua-se, porque surge em meio dele este elemento estranho e essencialmente oposto √† liberdade.

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A Nossa Falsa Verdade

Uma vez que em boa verdade os homens apenas se interessam pela sua opinião própria, qualquer indivíduo que queira apresentar uma dada opinião trata de olhar para um lado e para o outro à procura de meios que lhe permitam dar força à posição, sua ou alheia, que defende.
As pessoas servem-se da verdade quando ela lhes √© √ļtil, mas recorrem com ret√≥rica paix√£o √† falsidade logo que se lhes depara o momento em que a podem usar para produzir a ilus√£o de um meio-argumento e dar assim, com uma manobra de divers√£o, a apar√™ncia de unificar aquilo que se apresenta como fragment√°rio.
A princ√≠pio, quando me apercebia de tais situa√ß√Ķes, ficava incomodado, depois passei a ficar perturbado, mas tudo isso suscita-me hoje um prazer malicioso. E prometi a mim mesmo que nunca mais volto a p√īr a descoberto esse tipo de procedimentos.

Tipos de Amizade

Tr√™s tipos de amizade s√£o vantajosos e tr√™s tipos de amizade s√£o nocivos. A amizade com um homem que fala sem rodeios, a amizade com um homem sincero, a amizade com um homem de grande saber, esses tr√™s tipos de amizade s√£o √ļteis. A amizade com um homem acostumado a enganar por uma falsa apar√™ncia de honestidade, a amizade com um homem h√°bil para adular, a amizade com um homem que fala bonito, esses tr√™s tipos de amizade s√£o nocivos.

√Č Mais Simples e Mais √ötil Adaptar-se Aos Outros

Supondo que s√≥ existiam hoje dois homens na terra que a possuissem sozinhos, e a dividam entre si, estou convencido de que nascer√° logo entre eles algum motivo de disc√≥rdia, nem que seja pelos limites. √Äs vezes √© mais simples e mais √ļtil adaptar-se aos outros do que fazer os outros se adaptarem a n√≥s.
(…) H√° uma coisa que nunca se viu sob o c√©u e segundo todas as apar√™ncias, nunca se ver√°: √© uma cidade pequena que n√£o esteja dividida em partidos; onde as fam√≠lias sejam unidas e os primos se vejam com confian√ßa; onde um casamento n√£o gere guerra civil; onde a querela dos partidos n√£o desperte a todo o momento, por fraude, incenso e p√£o bento, prociss√Ķes e enterros; de onde se baniram os linguarudos, a mentira e a maledic√™ncia: onde se vejam falar juntos o juiz e o presidente da c√Ęmara, os eleitores e os assessores; onde o de√£o viva bem com o c√≥nego, onde os c√≥negos n√£o desdenhem os capel√£es e estes suportem os padres-mestres.
Os provincianos e os tolos est√£o sempre prontos a se zangarem e a pensarem que se est√° a zombar deles, ou a desprez√°-los; nunca se deve arriscar uma brincadeira,

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O Ponto mais Alto da Moral Consiste na Gratid√£o

O ponto mais alto da moral consiste na gratid√£o. E esta verdade proclam√°-la-√£o todas as cidades, todos os povos, mesmo os oriundos das regi√Ķes b√°rbaras, neste ponto est√£o de acordo os bons e os maus. Haver√° quem aprecie sobre¬≠tudo o prazer, outros haver√° que julguem prefer√≠vel o esfor√ßo activo; uns consideram a dor como o sumo mal, para outros a dor n√£o ser√° sequer um mal; alguns inclui¬≠r√£o a riqueza no sumo bem, outros dir√£o que a riqueza foi inventada para o mal da humanidade e que o homem mais rico √© aquele a quem a fortuna nada encontra para dar; no meio desta diversidade de posi√ß√Ķes uma coisa h√° que todos afirmar√£o, como soe dizer-se, a uma s√≥ voz: que devemos gratid√£o √†queles que nos favorecem. Neste ponto toda esta multid√£o de opini√Ķes se mostra de acordo, mesmo quando por vezes pagamos favores com inj√ļrias; e a pri¬≠meira causa de ingratid√£o √© n√£o podermos ser suficiente¬≠mente gratos. A insensatez chegou ao ponto de se tornar perigos√≠ssimo fazer um grande benef√≠cio a algu√©m; como se considera uma vergonha n√£o pagar o benef√≠cio, julga-se prefer√≠vel n√£o existir ningu√©m que no-lo fa√ßa! Goza em paz o que de mim recebeste; n√£o to reclamo,

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H√° que P√īr Pedra sobre Pedra

Nunca pensei em ser governo, nunca o quis mesmo, mas interessei-me sempre muito pelos neg√≥cios p√ļblicos, pelos neg√≥cios do Pa√≠s. E a√≠ tem um exemplo, anterior √† minha entrada no Governo, que lhe pode dar uma ideia do ritmo da minha ac√ß√£o, da tal marcha vagarosa de que me acusam…
(…) √Č que me fui habilitando, lentamente, sem precipita√ß√Ķes, quase sem dar por isso, liberto de qualquer ambi√ß√£o de ordem pessoal. E assim, quando a minha interven√ß√£o na m√°quina do Estado p√īde ser √ļtil, ela foi aproveitada, talvez, como n√£o seria se eu tivesse improvisado uma cultura. Pois com a marcha do Pa√≠s o mesmo acontece. H√° que p√īr pedra sobre pedra, mas desinteressadamente, sem pensar na gl√≥ria pr√≥pria e sem pensar at√©, excessivamente, na ab√≥bada, na finalidade. A √Ęnsia de chegar ao fim, de fazer muitas coisas ao mesmo tempo leva, √†s vezes, ao fim, mas ao fim de tudo…

O Inimigo é Mais Útil que o Amigo

A tua atitude emerge do que costumas dizer: ¬ęAinda sou capaz de utilizar quem √© por mim. Mas prefiro, por comodidade, mandar o meu advers√°rio para o outro campo e abster-me de agir sobre ele, a n√£o ser pela guerra¬Ľ.
Ao proceder assim, n√£o fazes mais que endurecer e forjar o teu advers√°rio.
E eu c√° digo que amigo e inimigo s√£o palavras da tua lavra. √Č certo que especificam qualquer coisa, como definir o que se passar√° se vos encontrardes num campo de batalha, mas um homem n√£o se rege s√≥ por uma palavra. Sei de inimigos que est√£o mais perto de mim ou que me s√£o mais √ļteis ou que me respeitam mais do que os amigos. As minhas faculdades de ac√ß√£o sobre o homem n√£o est√£o ligadas √† sua posi√ß√£o verbal. Direi mesmo que actuo melhor sobre o meu inimigo do que sobre o amigo: quem caminha na mesma direc√ß√£o que eu, oferece-me menos oportunidades de encontro e de troca do que aquele que vem contra mim, disposto a n√£o deixar escapar a m√≠nima palavra ou gestos meus, que lhe podem sair caros.

Como Vemos os Outros

N√≥s temos em toda a vida, especialmente na esfera da comunica√ß√£o espiritual, o h√°bito errado de emprestarmos √†s outras pessoas muito daquilo que nos √© pr√≥prio, como se tivesse de ser mesmo assim. Mas como elas, al√©m disso, nos mostram tamb√©m o que t√™m de si pr√≥prias, da√≠ resultam, dado que n√≥s procuramos criar uma unidade com as duas partes, aut√™nticos monstros, semelhantes √†queles que, numa casa com muitos cantos, a luz de uma lanterna produz com uma parte de sombras e uma parte de objectos reais. N√£o h√° nenhuma opera√ß√£o mais √ļtil mas, ao mesmo tempo, mais dif√≠cil que deduzir da imagem do outro aquilo que inconscientemente lhe foi emprestado. No entanto, s√≥ assim fazemos dos outros verdadeiras pessoas – ou, dito de uma forma mais breve: o homem julga compreender os homens quando acrescenta a uma suposta e ilimitada analogia com o seu pr√≥prio eu ainda alguma coisa que √© contr√°ria a esse eu. √Č a experi√™ncia que leva cada um a poder lidar com pessoas que tem de imaginar, na sua ess√™ncia, diferentes de si mesmo.

Os Convencidos da Vida

Todos os dias os encontro. Evito-os. Às vezes sou obrigado a escutá-los, a dialogar com eles. Já não me confrangem. Contam-me vitórias. Querem vencer, querem, convencidos, convencer. Vençam lá, à vontade. Sobretudo, vençam sem me chatear.
Mas também os aturo por escrito. No livro, no jornal. Romancistas, poetas, ensaístas, críticos (de cinema, meu Deus, de cinema!). Será que voltaram os polígrafos? Voltaram, pois, e em força.
Convencidos da vida há-os, afinal, por toda a parte, em todos (e por todos) os meios. Eles estão convictos da sua excelência, da excelência das suas obras e manobras (as obras justificam as manobras), de que podem ser, se ainda não são, os melhores, os mais em vista.
Praticam, uns com os outros, nada de genuinamente indecente: apenas um espelhismo lisonjeador. Além de espectadores, o convencido precisa de irmãos-em-convencimento. Isolado, através de quem poderia continuar a convencer-se, a propagar-se?
(…) No corre-que-corre, o convencido da vida n√£o √© um vaidoso √† toa. Ele √© o vaidoso que quer extrair da sua vaidade, que nunca √© gratuita, todo o rendimento poss√≠vel. Nos neg√≥cios, na pol√≠tica, no jornalismo, nas letras, nas artes. √Č t√£o capaz de aceitar uma condecora√ß√£o como de rejeit√°-la.

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A Má Consciência

РLevanta-se sempre muito cedo, sr. Spinell Рdisse a mulher do sr. Kloterjahn. Por acaso, já o vi sair duas ou três vezes de casa às sete e meia da manhã.
РMuito cedo? Oh, é preciso distinguir! Se me levanto cedo é porque, no fundo, gosto de dormir até tarde.
РExplique-nos como é isso, sr. Spinell
A senhora conselheira Spatz também desejava ser elucidada.
– Ora… se algu√©m tem o costume de se levantar cedo, parece-me, em todo o caso, que n√£o precisa de ser t√£o matinal. A consic√™ncia, minha senhora, que coisa p√©ssima que √© a consci√™ncia! Eu e os meus semelhantes andamos toda a vida √†s turras com ela, e temos um trabalh√£o para a enganarmos de vez em quando e procurar-lhe umas satisfa√ß√Ķezinhas estultas. Somos criaturas in√ļteis, eu e os meus semelhantes; fora algumas breves horas satisfat√≥rias, arrastamo-nos na certeza da nossa inutilidade, at√© ficarmos a sangrar e doentes. Odiamos o que √© √ļtil, sabendo-o vulgar e feio, e defendemos esta verdade como se defendem as verdades absolutamente necess√°rias. E, contudo, estamos t√£o corro√≠dos pela nossa m√° consci√™ncia que n√£o achamos em n√≥s um ponto s√£o.
Além disso, a maneira como vivemos interiormente,

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A Base e o Progresso da Civilização

Os homens mais felizes e mais √ļteis s√£o feitos de um conjunto harmonioso de actividades intelectuais e morais. E √© a qualidade destas actividades e a igualdade do seu desenvolvimento que que conferem a este tipo a sua superioridade sobre os outros. Mas a sua intensidade determina o n√≠vel social de um dado indiv√≠duo e faz dele um comerciante ou um director de banco, um pequeno m√©dico ou um professor c√©lebre, um presidente de uma junta de freguesia ou um presidente dos Estados Unidos. O desenvolvimento de seres humanos completos dever ser o objectivo dos nossos esfor√ßos. S√≥ neles pode assentar uma civiliza√ß√£o s√≥lida.
Existe ainda uma classe de homens que, apesar de tão desarmónicos como os criminosos e os loucos, são indispensáveis à sociedade moderna. São os génios. Estes indivíduos caracterizam-se pelo crescimento monstruoso de uma das actividades psicológicas. Um grande artista, um grande cientista, um grande filósofo é geralmente um homem comum em que uma função se hipertrofiou. Pode também ser comparado a um tumor que se tivesse desenvolvido num organismo normal. Estes seres não equilibrados são, em geral, infelizes. Mas produzem grandes obras, das quais toda a sociedade beneficia. A sua desarmonia gera o progresso da civilização.

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A Sociedade é um Sistema de Egoísmos Maleáveis

A sociedade √© um sistema de ego√≠smos male√°veis, de concorr√™ncias intermitentes. Como homem √©, ao mesmo tempo, um ente individual e um ente social. Como indiv√≠duo, distingue-se de todos os outros homens; e, porque se distingue, op√Ķe-se-lhes. Como soci√°vel, parece-se com todos os outros homens; e, porque se parece, agrega-se-lhes. A vida social do homem divide-se, pois, em duas partes: uma parte individual, em que √© concorrente dos outros, e tem que estar na defensiva e na ofensiva perante eles; e uma parte social, em que √© semelhante dos outros, e tem t√£o-somente que ser-lhes √ļtil e agrad√°vel. Para estar na defensiva ou na ofensiva, tem ele que ver claramente o que os outros realmente s√£o e o que realmente fazem, e n√£o o que deveriam ser ou o que seria bom que fizessem. Para lhes ser √ļtil ou agrad√°vel, tem que consultar simplesmente a sua mera natureza de homens.
A exacerba√ß√£o, em qualquer homem, de um ou o outro destes elementos leva √† ru√≠na integral desse homem, e, portanto, √† pr√≥pria frustra√ß√£o do intuito do elemento predominante, que, como √© parte do homem, cai com a queda dele. Um indiv√≠duo que conduza a sua vida em linhas de uma moral alt√≠ssima e pura acabar√° por ser ultrajado por toda a gente –

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