Textos sobre Poder

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Textos de poder escritos por poetas consagrados, filósofos e outros autores famosos. Conheça estes e outros temas em Poetris.

A Castração da Personalidade

O homem √© um animal greg√°rio. Pol√≠tico, dizia Arist√≥teles, ou seja, membro da cidade. Mas n√£o s√≥ da cidade – de todas as greis espont√Ęneas ou artificiais, est√°veis ou prec√°rias, onde quer que se encontre. N√£o pode suportar a ideia de estar s√≥, consigo – quer ser unidade e n√£o individualidade. Tem necessidade de se sentir cotovelo com cotovelo, pele com pele, no calor de uma multid√£o, ligado, seguro, uniforme, conforme. Se o le√£o anda s√≥, em n√≥s predomina o instinto ovino, do rebanho – os pr√≥prios individualistas, para afirmar o seu individualismo, congregam-se: sempre segundo a pr√°tica ovina.

O homem, quando s√≥, sente-se incompleto – tem medo. Opor-se √† grei significa separar-se, permanecer s√≥, morrer. Os conceitos do bem e do mal nascem da necessidade de conviv√™ncia. √Č bem o que aproveita ao grupo, mal o que o prejudica ou n√£o beneficia. O rebanho n√£o quer que cada ovelha pense demasiado em si, e como a privilegiada √© a que obt√©m a boa opini√£o das outras, v√™-se for√ßada, ainda que contra os seus gostos e interesses, a agir no sentido do bem supremo do rebanho. H√° que pagar, com a castra√ß√£o da personalidade, a seguran√ßa contra o medo.

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A Felicidade

A felicidade √© um estado permanente que n√£o parece ter sido feito, aqui na terra, para o homem. Na terra, tudo vive num fluxo cont√≠nuo que n√£o permite que coisa alguma assuma uma forma constante. Tudo muda √† nossa volta. N√≥s pr√≥prios tamb√©m mudamos e ningu√©m pode estar certo de amar amanh√£ aquilo que hoje ama. √Č por isso que todos os nossos projectos de felicidade nesta vida s√£o quimeras.
Aproveitemos a alegria do esp√≠rito quando a possu√≠mos; evitemos afast√°-la por nossa culpa, mas n√£o fa√ßamos projectos para a conservar, porque esses projectos s√£o meras loucuras. Vi poucos homens felizes, talvez nenhum; mas vi muitas vezes cora√ß√Ķes contentes e de todos os objectos que me impressionaram foi esse o que mais me satisfez. Creio que se trata de uma consequ√™ncia natural do poder das sensa√ß√Ķes sobre os meus sentimentos. A felicidade n√£o tem sinais exteriores; para a conhecer seria necess√°rio ler no cora√ß√£o do homem feliz; mas a alegria l√™-se nos olhos, no porte, no sotaque, no modo de andar, e parece comunicar-se a quem dela se apercebe.

O Homem de Car√°cter

Os homens de car√°cter s√£o a consci√™ncia da sociedade a que pertencem. A medida natural dessa for√ßa √© a resist√™ncia √†s circunst√Ęncias. Os homens impuros julgam a vida pela vers√£o reflectida nas opini√Ķes, nos acontecimentos e nas pessoas. N√£o s√£o capazes de prever a ac√ß√£o at√© que ela se concretize. Todavia, o elemento moral da ac√ß√£o preexistia no autor e a sua qualidade, boa ou m√°, era de f√°cil predi√ß√£o. Tudo na natureza √© bipolar, ou tem um p√≥lo positivo e um p√≥lo negativo. H√° um macho e uma f√™mea, um esp√≠rito e um facto, um norte e um sul. O esp√≠rito √© o positivo, o facto √© o negativo. A vontade √© o norte, a ac√ß√£o √© o p√≥lo sul. O car√°cter pode ser classificado como tendo o seu lugar natural no norte. Distribui as correntes magn√©ticas do sistema. Os esp√≠ritos fracos s√£o atra√≠dos para o p√≥lo sul, ou p√≥lo negativo. S√≥ v√™em na ac√ß√£o o lucro, ou o preju√≠zo que podem encerrar.

Não podem vislumbrar um princípio, a não ser que este se abrigue noutra pessoa. Não desejam ser amáveis mas amados. Os de carácter gostam de ouvir falar dos seus defeitos; aos outros aborrecem as faltas;

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Convers√£o Mental

Os m√©todos de convers√£o religiosa foram at√© agora considerados mais sob √Ęngulos psicol√≥gicos e metaf√≠sicos que psicol√≥gicos e mecan√≠sticos; contudo, as t√©cnicas empregadas aproximam‚ąíse tanto frequentemente das modernas t√©cnicas pol√≠ticas de lavagem cerebral e controle da mente que cada uma delas lan√ßa luz sobre os mecanismos da outra. √Č conveniente come√ßar com a hist√≥ria melhor documentada de convers√£o religiosa, que tem em comum com a convers√£o pol√≠tica o facto de um indiv√≠duo ou grupo de indiv√≠duos poder adoptar novas cren√ßas ou padr√Ķes de comportamento, em resultado de revela√ß√Ķes surgidas na mente repentinamente e com grande intensidade, muitas vezes depois de per√≠odos de grande tens√£o emocional.

A Memória é o Maior Tormento do Homem

Considera o rebanho que passa ao teu lado pastando: ele não sabe o que é ontem e o que é hoje; ele saltita de lá para cá, come, descansa, digere, saltita de novo; e assim de manhã até a noite, dia após dia; ligado de maneira fugaz por isto, nem melancólico nem enfadado. Ver isto desgosta duramente o homem porque ele vangloria-se da sua humanidade frente ao animal, embora olhe invejoso para a sua felicidade Рpois o homem quer apenas isso, viver como animal, sem melancolia, sem dor; e o que quer entretanto em vão, porque não quer como o animal. O homem pergunta mesmo um dia ao animal: por que não falas sobre a tua felicidade e apenas me observas?
O animal quer tamb√©m responder e falar, isso deve-se ao facto de que sempre se esquece do que queria dizer, mas tamb√©m j√° esqueceu esta resposta e silencia: de tal modo que o homem se admira disso. Todavia, o homem tamb√©m se admira de si mesmo por n√£o poder aprender a esquecer e por sempre se ver novamente preso ao que passou: por mais longe e r√°pido que ele corra, a corrente corre junto. √Č um milagre: o instante em um √°timo est√° a√≠,

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O Livre Arbítrio

Um homem é dotado de livre arbítrio e de três maneiras: em primeiro lugar, era livre quando quis esta vida; agora não pode evidentemente rescindi-la, pois ele não é o que a queria outrora, excepto na medida em que completa a sua vontade de outrora, vivendo.
Em segundo lugar, é livre pelo facto de poder escolher o caminho desta vida e a maneira de o percorrer.
Em terceiro lugar, √© livre pelo facto de na qualidade daquele que vier a ser de novo um dia, ter a vontade de se deixar ir custe o que custar atrav√©s da vida e de chegar assim a ele pr√≥prio e isso por um caminho que pode sem d√ļvida escolher, mas que, em todo o caso, forma um labirinto t√£o complicado que toca nos menores recantos desta vida.
São esses os tês aspectos do livre arbítrio que, por se oferecerem todos ao mesmo tempo formam apenas um e de tal modo que não há lugar para um arbítrio, quer seja livre ou servo.

Da Liberdade

A: Eis uma bateria de canh√Ķes que atira junto aos nossos ouvidos; tendes a liberdade de ouvi-la e de a n√£o ouvir?
B: √Č claro que n√£o posso evitar ouvi-la.
A: Desejaríeis que esse canhão decepasse a vossa cabeça e as da vossa mulher e da vossa filha que estivessem convosco?
B: Que espécie de proposição me fazeis? Eu jamais poderia, no meu são juízo, desejar semelhante coisa. Isso é-me impossível.
A: Muito bem; ouvis necessariamente esse canhão e, também necessariamente, não quereis morrer, vós e a vossa família, de um tiro de canhão; não tendes nem o poder de não o ouvir nem o poder de querer permanecer aqui.
B: Isso é evidente.
A: Em consequência, destes uma trintena de passos a fim de vos colocardes ao abrigo do canhão: tivestes o poder de caminhar comigo estes poucos passos?
B: Nada mais verdadeiro.
A: E se f√īsseis paral√≠tico? N√£o ter√≠eis podido evitar ficar exposto a essa bateria; n√£o ter√≠eis o poder de estar onde agora estais: ter√≠eis ent√£o necessariamente ouvido e recebido um tiro de canh√£o e necessariamente estar√≠eis morto?
B: Nada mais claro.
A: Em que consiste, pois,

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Depender de Alguém

Depender de alguém, das ideias dos outros ou das filosofias das massas é negar a nossa própria existência, é abdicar totalmente do poder que nos foi concedido à nascença e a mais profunda ingratidão para com a oportunidade que nos foi dada de aqui estar. Como já o disse, cada um de nós é um ser especial e precioso, com responsabilidades pessoais e sociais diferentes de todos os outros. Cada um de nós pode fazer a diferença.
Quantas vezes já deixaste de arriscar porque não to permitiram? Quantas vezes já sonhaste com algo diferente daquilo que te foi imposto ou ensinado e por isso desististe? Quantas vezes foste feliz por depender de algo ou alguém?
Muitas pessoas optam, conscientemente, pela depend√™ncia por acharem que a vida se torna mais f√°cil nesse estado de submiss√£o. Na verdade n√£o lhes √© exigido que lutem por nada, por ningu√©m e, muito menos, por elas. Agora, pergunto eu, que interesse √© que isto tem? Esta gente, apesar de respirar e dar ares da sua gra√ßa, j√° morreu e s√≥ anda aqui a fazer figura de corpo presente, pois as suas vidas j√° n√£o s√£o desafiantes. Ser dependente √© ter medo de assumir o risco das suas paix√Ķes,

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Concebemos apenas √Ātomos em Compara√ß√£o com a Realidade das Coisas

A primeira coisa que se oferece ao homem ao contemplar-se a si pr√≥prio, √© o seu corpo, isto √©, certa parcela de mat√©ria que lhe √© peculiar. Mas, para compreender o que ela representa e a fix√°-la dentro dos seus justos limites, precisa de a comparar a tudo o que se encontra acima ou abaixo dela. Que n√£o se atenha, pois, a olhar para os objetos que o cercam, simplesmente, mas a contemplar a natureza inteira na sua alta e plena majestosidade. Considere esta brilhante luz colocada acima dele como uma l√Ęmpada eterna para iluminar o universo, e que a Terra lhe apare√ßa como um ponto na √≥rbita ampla deste astro e maravilhe-se de ver que essa amplitude n√£o passa de um ponto insignificante na rota dos outros astros que se espalham pelo firmamento. E se nossa vista a√≠ se det√©m, que a nossa imagina√ß√£o n√£o pare; mais rapidamente se cansar√° ela de conceber, que a natureza de revelar . Todo esse mundo vis√≠vel √© apenas um tra√ßo percept√≠vel na amplid√£o da natureza, que nem sequer nos √© dado a conhecer de um modo vago. Por mais que ampliemos as nossas concep√ß√Ķes e as projectemos al√©m de espa√ßos imagin√°veis, concebemos t√£o somente √°tomos em compara√ß√£o com a realidade das coisas.

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O Caminho da Liberdade

Invenc√≠vel ser√°s caso n√£o te empenhes em qualquer pugna da qual de ti n√£o dependa sa√≠res vencedor. (…) Face a um homem entre todos distinguido e honrado, detentor de uma qualquer ins√≠gnia de poder ou considerado por esta ou aquela raz√£o, tem-te nas tuas ideias e n√£o descures de o proclamar feliz. Se, na verdade, a subst√Ęncia do bem reside nas decis√Ķes que dependem de n√≥s, espa√ßo n√£o h√° nem para a inveja, nem para o ci√ļme. Ali√°s, tu pr√≥prio, n√£o ansiar√°s por ser estratega, benem√©rito da p√°tria ou c√īnsul at√©: livre √© o que tu queres ser. Ora s√≥ um caminho h√° para que alcances esse estado de liberdade – o menosprezo pelas decis√Ķes que de n√≥s n√£o dependem.

Pensamos de Mais e Sentimos de Menos

Queremos todos ajudar-nos uns aos outros. Os seres humanos são assim. Queremos viver a felicidade dos outros e não a sua infelicidade. Não queremos odiar nem desprezar ninguém. Neste mundo há lugar para toda a gente. E a boa terra é rica e pode prover às necessidades de todos.
O caminho da vida pode ser livre e belo, mas desvi√°mo-nos do caminho. A cupidez envenenou a alma humana, ergueu no mundo barreiras de √≥dio, fez-nos marchar a passo de ganso para a desgra√ßa e a carnificina. Descobrimos a velocidade, mas prendemo-nos demasiado a ela. A m√°quina que produz a abund√Ęncia empobreceu-nos. A nossa ci√™ncia tornou-nos c√≠nicos; a nossa intelig√™ncia, cru√©is e impiedosos. Pensamos de mais e sentimos de menos. Precisamos mais de humanidade que de m√°quinas. Se temos necessidade de intelig√™ncia, temos ainda mais necessidade de bondade e do√ßura. Sem estas qualidades, a vida ser√° violenta e tudo estar√° perdido.
O avi√£o e a r√°dio aproximaram-nos. A pr√≥pria natureza destes inventos √© um apelo √† fraternidade universal, √† uni√£o de todos. Neste momento, a minha voz alcan√ßa milh√Ķes de pessoas atrav√©s do mundo, milh√Ķes de homens sem esperan√ßa, de mulheres, de crian√ßas, v√≠timas dum sistema que leva os homens a torturar e a prender pessoas inocentes.

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A Capacidade de Adaptação dos Portugueses

Os observadores estrangeiros maravilham-se de que Portugal resista √† crise pol√≠tica e econ√≥mica com tal poder de adapta√ß√£o. H√° nos Portugueses uma sinceridade para com o imediato que desconcerta o panorama que transcende o imediato. O infinito √© o que eu situo – dizem. E assim vivem. Protegidos talvez por essa condi√ß√£o de afecto pelas coisas, pelos seus pr√≥prios delitos, que n√£o consideram dram√°ticos, s√≥ ao jeito das necessidades. De resto ‚ÄĒ quem se apresenta a salvar-nos que n√£o esteja suspeitamente indignado? Os que muito se formalizam muito escondem; os que acusam demasiado privam-se de ser leais consigo pr√≥prios. O pa√≠s n√£o precisa de quem diga o que est√° errado; precisa de quem saiba o que est√° certo.

O Homem n√£o Foge da Dor

Não é verdade que o homem procure o prazer e fuja da dor. São de tomar em conta os preconceitos contra os quais invisto. O prazer e a dor são consequências, fenómenos concomitantes. O que o homem quer, o que a menor partícula de um organismo vivo quer, é o aumento de poder: é em consequência do esforço em consegui-lo que o prazer e a dor se efectivam; é por causa dessa mesma vontade que a resistência a ela é procurada, o que indica a busca de alguma coisa que manifeste oposição.
A dor, sendo entrave √† vontade de poder do homem, √© portanto um acontecimento normal – a componente normal de qualquer fen√≥meno org√Ęnico. E o homem n√£o procura evit√°-la, pois tem necessidade dela, j√° que qualquer vit√≥ria implica uma resist√™ncia vencida.
Tome-se como exemplo o mais simples dos casos, o da nutrição de um organismo primário; quando o protoplasma estende os pseudópodes para encontrar resistências, não é impulsionado pela fome, mas pela vontade de poder; acima de tudo, ele intenta vencer, apropriar-se do vencido, incorporá-lo a si. O que se designa por nutrição é pois um fenómeno consecutivo, uma aplicação da vontade original de devir mais forte.

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Sonhos sem Ilus√Ķes

Saber n√£o ter ilus√Ķes √© absolutamente necess√°rio para se poder ter sonhos. Atingir√°s assim o ponto supremo da absten√ß√£o sonhadora, onde os sentimentos se mesclam, os sentimentos se extravasam, as ideias se interpenetram. Assim como as cores e os sons sabem uns a outros, os √≥dios sabem a amores, e as coisas concretas a abstractas, e as abstractas a concretas. Quebram-se os la√ßos que, ao mesmo tempo que ligavam tudo, separavam tudo, isolando cada elemento. Tudo se funde e confunde.

Retrato de Mónica

M√≥nica √© uma pessoa t√£o extraordin√°ria que consegue simultaneamente: ser boa m√£e de fam√≠lia, ser chiqu√≠ssima, ser dirigente da ¬ęLiga Internacional das Mulheres In√ļteis¬Ľ, ajudar o marido nos neg√≥cios, fazer gin√°stica todas as manh√£s, ser pontual, ter imensos amigos, dar muitos jantares, ir a muitos jantares, n√£o fumar, n√£o envelhecer, gostar de toda a gente, gostar dela, dizer bem de toda a gente, toda a gente dizer bem dela, coleccionar colheres do s√©c. XVII, jogar golfe, deitar-se tarde, levantar-se cedo, comer iogurte, fazer ioga, gostar de pintura abstracta, ser s√≥cia de todas as sociedades musicais, estar sempre divertida, ser um belo exemplo de virtudes, ter muito sucesso e ser muito s√©ria.
Tenho conhecido na vida muitas pessoas parecidas com a Mónica. Mas são só a sua caricatura. Esquecem-se sempre ou do ioga ou da pintura abstracta.
Por trás de tudo isto há um trabalho severo e sem tréguas e uma disciplina rigorosa e constante. Pode-se dizer que Mónica trabalha de sol a sol.
De facto, para conquistar todo o sucesso e todos os gloriosos bens que possui, Mónica teve que renunciar a três coisas: à poesia, ao amor e à santidade.

A poesia é oferecida a cada pessoa só uma vez e o efeito da negação é irreversível.

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O Encanto da Vida

Todas as noites acordado at√© desoras, √† espera da √ļltima cena de pancadaria num jogo de futebol, do √ļltimo insulto num debate parlamentar, do √ļltimo discurso demag√≥gico num com√≠cio eleitoral, da √ļltima pirueta dum cabotino entrevistado, da √ļltima farsa no palco internacional. Crucifica√ß√Ķes masoquistas, que a prud√™ncia desaconselha e a imprud√™ncia imp√Ķe. Vou deste mundo farto de o conhecer e faminto de o descobrir.

Mas n√£o h√° perspic√°cia, nem const√Ęncia de aten√ß√£o capazes de lhe prefigurar os imprevistos. O que acontece hoje excede sempre o que sucedeu ontem. A viol√™ncia, o facciosismo, a ambi√ß√£o de poder, a crueldade e o exibicionismo n√£o t√™m limites. Felizmente que a abnega√ß√£o, a generosidade e o altru√≠smo tamb√©m n√£o. E o encanto da vida √© precisamente esse: nenhum excesso nela ser previs√≠vel. Nem no mal nem no bem. E n√£o me canso de o verificar, de surpresa em surpresa, √† luz dos acontecimentos.

Quando julgo que estou devidamente informado sobre o amor, sobre o ódio, sobre a santidade, sobre a perfídia, sobre as virtudes e os defeitos humanos, acabo por concluir que soletro ainda o á-bê-cê da realidade. Cabeçudo como sou, teimo na aprendizagem. Hoje fizeram-me a revelação surpreendente de que um avarento meu conhecido,

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As Coisas Humanas São Efémeras E Sem Valor

Pensa de cont√≠nuo em quantos m√©dicos morreram, eles que tinham tanta vez carregado o sobrolho √† cabeceira dos seus doentes; quantos astr√≥logos que julgaram maravilhar os outros predizendo-lhes a morte; quantos fil√≥sofos ap√≥s uma infinidade de √°speras disputas sobre a morte e a imortalidade; quantos pr√≠ncipes depois de terem dado a morte a tanta gente; quantos tiranos que, como se fossem imortais, abusaram, com uma arrog√Ęncia nunca vista, do poder, a ponto de atentarem contra a vida humana. Quantas cidades, se assim podemos dizer, morreram de raiz: Heliqu√©, Pompeia, Herculano, e outras que n√£o t√™m conto! Enumera agora, um ap√≥s outro todos aqueles que conheceste. Este, depois de prestar os √ļltimos servi√ßos √†quele, foi posto de p√©s juntos no leito f√ļnebre por um terceiro a quem tamb√©m chegou a sua vez.
E em t√£o pouco espa√ßo de tempo! Em suma, as coisas humanas √© consider√°-las como ef√©meras e sem valor: ontem, um pouco de greda; amanh√£, m√ļmia e um punhado de cinzas. Esta min√ļscula dura√ß√£o vive-a a tom com a natureza e chega ao fim com a alma contente: como a azeitona madurinha que tombasse aben√ßoando a terra que a criou e dando gra√ßas √† √°rvore que a deixou crescer.

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A Leitura √© a Mais Nobre das Distrac√ß√Ķes

Se o gosto pelos livros aumenta com a intelig√™ncia, os perigos, como vimos, diminuem com ela. Um esp√≠rito original sabe subordinar a leitura √† actividade pessoal. Ela √© para ele apenas a mais nobre das distra√ß√Ķes, sobretudo a mais enobrecedora, pois, s√≥ a leitura e o saber conferem ¬ęas boas maneiras¬Ľ do esp√≠rito. O poder da nossa sensibilidade e da nossa intelig√™ncia, s√≥ o podemos desenvolver dentro de n√≥s pr√≥prios, nas profundezas da nossa vida espiritual. Mas √© nesse contacto com os outros esp√≠ritos que a leitura √©, que se faz a educa√ß√£o das “maneiras” do esp√≠rito. Os letrados permanecem, apesar de tudo, como as pessoas not√°veis da intelig√™ncia, e ignorar um determinado livro, uma determinada particularidade da ci√™ncia liter√°ria, ser√° sempre, mesmo num homem de g√©nio, uma marca de grosseria intelectual. A distin√ß√£o e a nobreza consistem na ordem do pensamento tamb√©m, numa esp√©cie de franco-ma√ßonaria de costumes, e numa heran√ßa de tradi√ß√Ķes.

O Poder do Acaso

O acaso √© um poder maligno, no qual se deve confiar o menos poss√≠vel. De todos os doadores, ele √© o √ļnico que, ao dar, mostra ao mesmo tempo e com clareza que n√£o temos direito nenhum aos seus bens, os quais devemos agradecer n√£o ao nosso m√©rito, mas t√£o-s√≥ √† sua bondade e gra√ßa, que nos permitem at√© nutrir a esperan√ßa alegre de receber, no futuro e com humildade, muitos outros bens imerecidos. Eis o acaso: mestre da arte r√©gia de tornar claro o quanto, em oposi√ß√£o ao seu favor e √† sua gra√ßa, todo o m√©rito √© impotente e sem valor.

Que Todos os Dias Sejam Dias de Amor

Jo√£o Brand√£o pergunta, prop√Ķe e decreta:
Se h√° o Dia dos Namorados, por que n√£o haver o Dia dos Amorosos, o Dia dos Amadores, o Dia dos Amantes? Com todo o fogo desta √ļltima palavra, que circula entre o carnal e o sublime?
E o Dia dos Amantes Exemplares e o Dia dos Amantes Plat√īnicos, que tamb√©m s√£o exemplares √† sua maneira, e dizem at√© que mais?
Por que não instituir, ó psicólogos, ó sociólogos, ó lojistas e publicitários, o Dia do Amor?
O Dia de Fazê-lo, o Dia de Agradecer-lhe, o de Meditá-lo em tudo que encerra de mistério e grandeza, o Dia de Amá-lo? Pois o Amor se desperdiça ou é incompreendido até por aqueles que amam e não sabem, pobrezinhos, como é essencial amar o Amor.
E mais o Dia do Amor Tranq√ľilo, t√£o raro e vestido de linho alvo, o Dia do Amor Violento, o Dia do Amor Que N√£o Ousava Dizer o Seu Nome Mas Agora Ousa, na arrebenta√ß√£o geral do s√©culo?
Amor Complicado pede o seu Dia, n√£o para tornar-se pedestre, mas para requintar em sua complica√ß√£o cheia de v√īos fora do hor√°rio e da visibilidade. Amor √† Primeira Vista,

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