Cita√ß√Ķes de Edgar Morin

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Frases, pensamentos e outras cita√ß√Ķes de Edgar Morin para ler e compartilhar. Os melhores escritores est√£o em Poetris.

O Amor da Sabedoria Tem Falta de Amor

A sabedoria deve saber que traz em si uma contradição: é louco viver muito sabiamente. Devemos reconhecer que, na loucura que é o amor, há a sabedoria do amor. O amor da sabedoria Рou filosofia Рtem falta de amor. O importante, na vida, é o amor. Com todos os perigos que carrega.
Isto não é suficiente. Se o mal de que sofremos e fazemos sofrer é a incompreensão de outrem, a autojustificação, a mentira de si próprio (self-deception), então a via da ética Рe é aí que introduzirei a sabedoria Рestá no esforço de compreensão e não na condenação Рno auto-exame que comporta a autocrítica e que se esforça por reconhecer a mentira de si próprio.

Assim, a energia, cumprindo de maneira absoluta a atomização do mundo físico, cumpre também a dominação da natureza pelo homem. Todo progresso na manipulação da energia corresponde no mais uma regressão do ser e da existência: o cavalo-vapor expulsa o cavalo-bosta.

O Limite do Conhecimento

N√£o h√° conhecimento ¬ęespelho¬Ľ do mundo objectivo. O conhecimento √© sempre tradu√ß√£o e constru√ß√£o. Resulta da√≠ que todas as observa√ß√Ķes e todas as concep√ß√Ķes devem incluir o conhecimento do observador-conceptualizador. N√£o ao conhecimento sem autoconhecimento.
Todo o conhecimento sup√Ķe ao mesmo tempo separa√ß√£o e comunica√ß√£o. Assim, as possibilidades e os limites do conhecimento relevam do mesmo princ√≠pio: o que permite o nosso conhecimento limita o nosso conhecimento, e o que limita o nosso conhecimento permite o nosso conhecimento.
O conhecimento do conhecimento permite reconhecer as origens da incerteza do conhecimento e os limites da l√≥gica dedutiva-identit√°ria. O aparecimento de contradi√ß√Ķes e de antinomias num desenvolvimento racional assinala-nos os estratos profundos do real.

A Realidade Humana

O conhecimento do conhecimento ensina-nos que apenas conhecemos uma pequena pel√≠cula da realidade. A √ļnica realidade que √© cognosc√≠vel √© co-produzida pelo esp√≠rito humano, com a ajuda do imagin√°rio. O real e o imagin√°rio est√£o entretecidos e formam o complexo dos nossos seres e das nossas vidas. A realidade humana em si mesma √© semi-imagin√°ria. A realidade √© apenas humana, e apenas parcialmente real.

Personalidades Potenciais

Trazemos connosco personalidades potenciais que acontecimentos ou acidentes podem potencializar. Assim, a Revolu√ß√£o fez surgir o g√©nio pol√≠tico ou militar nos jovens destinados a uma carreira med√≠ocre numa √©poca normal; a guerra provoca o advento de her√≥is e de carrascos; a ditadura totalit√°ria transformou seres p√°lidos em monstros. O exerc√≠cio incontrolado do poder pode ¬ętornar o s√°bio louco¬Ľ (Alain) mas pode tornar s√°bio o louco, e dar g√©nio ao med√≠ocre, como no caso de Hitler e Estaline. E tamb√©m as possibilidades de g√©nio ou de dem√™ncia, de crueldade ou de bondade, de santidade ou de monstruosidade, virtuais em todos os seres, podem desenvolver-se em circunst√Ęncias excepcionais.
Inversamente, estas possibilidades nunca chegar√£o √† luz do dia na chamada vida normal: nos nossos dias, C√©sar seria funcion√°rio da CEE, Alexandre teria escrito uma vida de Arist√≥teles para uma colec√ß√£o de divulga√ß√£o, Robespierre seria adjunto de Pierre Mauroy na C√Ęmara de Arras, e Bonaparte seria do s√©quito de Pascua.

Por mais diferentes que eles possam ser, os elementos ou indivíduos constituindo um sistemas tem pelo menos uma identidade comum de vinculação à unidade global e de obediência às suas regras organizacionais.

O Intelectual e o Meio

Ser intelectual e fazer parte dos intelectuais s√£o duas coisas que simultaneamente se identificam e op√Ķem. H√° um determinismo de colectividade; assim, os gafanhotos isolados s√£o insectos am√°veis, cada um devotado aos seus pequenos assuntos, tendo cada um o seu comportamento. Mas a partir de uma certa densidade, de resto demasiado fraca, tornam-se uma turba onde as individualidades desaparecem, perdem a sua cor esverdeada em troca de um uniforme e padronizado amarelo-acizentado, adquirem um comportamento estereotipado e transformam-se em impiedosos devoradores, destruindo tudo o que for obst√°culo ao seu frenesim. Da mesma forma, os intelectuais s√£o, isoladamente, simp√°ticos indiv√≠duos, cada um dedicado √† sua obra, mas a sua reuni√£o em sociedade faz deles monstros.

Crueldade e Sofrimento

A crueldade √© constitutiva do universo, √© o pre√ßo a pagar pela grande solidariedade da biosfera, √© inelimin√°vel da vida humana. Nascemos na crueldade do mundo e da vida, a que acrescent√°mos a crueldade do ser humano e a crueldade da sociedade humana. Os rec√©m-nascidos nascem com gritos de dor. Os animais dotados de sistemas nervosos sofrem, talvez os vegetais tamb√©m, mas foram os humanos que adquiriram as maiores aptid√Ķes para o sofrimento ao adquirirem as maiores aptid√Ķes para a frui√ß√£o. A crueldade do mundo √© sentida mais vivamente e mais violentamente pelas criaturas de carne, alma e esp√≠rito, que podem sofrer ao mesmo tempo com o sofrimento carnal, com o sofrimento da alma e com o sofrimento do esp√≠rito, e que, pelo esp√≠rito, podem conceber a crueldade do mundo e horrorizar-se com ela.
A crueldade entre homens, indiv√≠duos, grupos, etnias, religi√Ķes, ra√ßas √© aterradora. O ser humano cont√©m em si um ru√≠do de monstros que liberta em todas as ocasi√Ķes favor√°veis. O √≥dio desencadeia-se por um pequeno nada, por um esquecimento, pela sorte de outrem, por um favor que se julga perdido. O √≥dio abstracto por uma ideia ou uma religi√£o transforma-se em √≥dio concreto por um indiv√≠duo ou um grupo;

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Singularidade(s)

Quem sou eu? A minha singularidade dissolve-se quando a examino e, por fim, fico convencido de que a minha singularidade vem de uma ausência de singularidade. Tenho mesmo em mim algo de mimético que me impele a ser como os outros. Em Itália sinto-me italiano e gostaria que os italianos me sentissem como participante na sua italianidade. Outro dia, ao falar a um auditório da Champanha senti-me champanhizado. Ah sim, gostaria de ser como eles. Adoro ser integrado e, contudo, não sou inteiramente de uns e dos outros. Poderia ser de todo o lado, mas nem por isso me sinto de alguma parte, estou enraizado assim.
Não é o exercício de um talento singular nem a posse de uma admirável verdade que me distinguem. Se me distingo é pelo uso não inibido ou cristalizado de uma máquina cerebral comum e pela minha preocupação permanente em obedecer às regras primeiras desta máquina cognitiva: ligar todo o conhecimento separado, contextualizá-lo, situar todas as verdades parciais no conjunto de que fazem parte.

A inquietude não deve ser negada, mas remetida para novos horizontes e se tornar nosso próprio horizonte.

Dizem-nos que a pol√≠tica ‘deve’ ser simplificadora e manique√≠sta. Sim, claro, em sua concep√ß√£o manipuladora que utiliza as puls√Ķes cegas.