Textos sobre Racionais

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Textos de racionais escritos por poetas consagrados, filósofos e outros autores famosos. Conheça estes e outros temas em Poetris.

A Felicidade de uma Raz√£o Perfeita

Creio que estaremos de acordo em que é para proveito do corpo que procuramos os bens exteriores; em que apenas cuidamos do corpo para benefício da alma, e em que na alma há uma parte meramente auxiliar Рa que nos assegura a locomoção e a alimentação Рda qual dispomos tão somente para serviço do elemento essencial. No elemento essencial da alma há uma parte irracional e outra racional; a primeira está ao serviço da segunda; esta não tem qualquer ponto de referência além de si própria, pelo contrário, serve ela de ponto de referência a tudo. Também a razão divina governa tudo quanto existe sem a nada estar sujeita; o mesmo se passa com a nossa razão, que, aliás, provém daquela.
Se estamos de acordo nesse ponto, estaremos necessariamente tamb√©m de acordo em que a nossa felicidade depende exclusivamente de termos em n√≥s uma raz√£o perfeita, pois apenas esta impede em n√≥s o abatimento e resiste √† fortuna; seja qual for a sua situa√ß√£o, ela manter-se-√° imperturb√°vel. O √ļnico bem aut√™ntico √© aquele que nunca se deteriora.
O homem feliz, insisto, √© aquele que nenhuma circunst√Ęncia inferioriza; que permanece no cume sem outro apoio al√©m de si mesmo,

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As Janelas da Memória

A mem√≥ria humana n√£o √© lida globalmente, como a mem√≥ria dos computadores, mas por √°reas espec√≠ficas a que chamo de janelas. Atrav√©s das janelas vemos, reagimos, interpretamos… Quantas vezes tentamos lembrar-nos de algo que n√£o nos vem √† ideia? Nesse caso, a janela permaneceu fechada ou inacess√≠vel.

A janela da mem√≥ria √©, portanto, um territ√≥rio de leitura num determinado momento existencial. Em cada janela pode haver centenas ou milhares de informa√ß√Ķes e experi√™ncias. O maior desafio de uma mulher, e do ser humano em geral, √© abrir o m√°ximo de janelas em cada situa√ß√£o. Se ela abre diversas janelas, poder√° dar respostas inteligentes. Se as fecha, poder√° dar respostas inseguras, med√≠ocres, est√ļpidas, agressivas. Somos mais instintivos e animalescos quando fechamos as janelas, e mais racionais quando as abrimos.

O mundo dos sentimentos possui as chaves para abrir as janelas. O medo, a tens√£o, a ang√ļstia, o p√Ęnico, a raiva e a inveja podem fech√°-las. A tranquilidade, a serenidade, o prazer e a afetividade podem abri-las. A emo√ß√£o pode fazer os intelectuais reagirem como crian√ßas agressivas e as pessoas simples reagirem como elegantes seres humanos. Sob um foco de tens√£o, como perdas e contrariedades, uma mulher serena pode ficar irreconhec√≠vel.

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Civilização Racional

O nosso conhecimento do valor hist√≥rico de certas doutrinas religiosas aumenta o nosso respeito por elas, mas n√£o invalida a nossa posi√ß√£o, segundo a qual devem deixar de ser apresentadas como os motivos para os preceitos da civiliza√ß√£o. Pelo contr√°rio! Esses res√≠duos hist√≥ricos auxiliaram-nos a encarar os ensinamentos religiosos como rel√≠quias neur√≥ticas, por assim dizer, e agora podemos arguir que provavelmente chegou a hora, tal como acontece num tratamento anal√≠tico, de substituir os efeitos da repress√£o pelos resultados da opera√ß√£o racional do intelecto. Podemos prever, mas dificilmente lamentar, que tal processo de remodela√ß√£o n√£o se deter√° na ren√ļncia √† transfigura√ß√£o solene dos preceitos culturais, mas que a sua revis√£o geral resultar√° em que muitos deles sejam eliminados. Desse modo, a nossa tarefa de reconciliar os homens com a civiliza√ß√£o estar√°, at√© um grande ponto, realizada. N√£o precisamos de deplorar a ren√ļncia √† verdade hist√≥rica quando apresentamos fundamentos racionais para os preceitos da civiliza√ß√£o. As verdades contidas nas doutrinas religiosas s√£o, afinal de contas, t√£o deformadas e sistematicamente disfar√ßadas, que a massa da humanidade n√£o pode identific√°-las como verdade. O caso √© semelhante ao que acontece quando dizemos a uma crian√ßa que os rec√©m-nascidos s√£o trazidos pela cegonha. Aqui, tamb√©m estamos a contar a verdade sob uma roupagem simb√≥lica,

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√Č Imposs√≠vel Fazer Amor sem um Certo Abandono

Mas √© exactamente isso que √© supreendente em ti: tu gostas de dar prazer. Gostas de fazer do teu corpo um objecto agrad√°vel, gostas de dar prazer com o teu pr√≥prio corpo: √© precisamente isso o que os ocidentais j√° n√£o conseguem fazer. Perderam completamente o sentimento da d√°diva. Mesmo esfor√ßando-se, n√£o conseguem assumir o sexo como uma coisa natural. Al√©m de terem vergonha do seu corpo, muito diferente do corpo das estrelas pornogr√°ficas, tamb√©m n√£o sentem uma verdadeira atrac√ß√£o pelo corpo dos outros. Ora, √© imposs√≠vel fazer amor sem um certo abandono, sem a aceita√ß√£o, pelo menos tempor√°ria, de um certo estado de fraqueza e de depend√™ncia. Tanto a exalta√ß√£o sentimental como a obsess√£o sexual t√™m a mesma origem, resultam ambas do esquecimento parcial do eu; √© algo que n√£o pode acontecer sem que a pessoa perca alguma coisa de si mesma. E n√≥s torn√°mo-nos frios, racionais, extremamente conscientes dos nossos direitos e da nossa exist√™ncia individual; primeiro que tudo, queremos evitar a aliena√ß√£o e a depend√™ncia; al√©m disso, vivemos obcecados com a sa√ļde e com a higiene: e n√£o s√£o essas as condi√ß√Ķes ideais para fazer amor.

A Preguiça como Obstáculo à Liberdade

A pregui√ßa e a cobardia s√£o as causas por que os homens em t√£o grande parte, ap√≥s a natureza os ter h√° muito libertado do controlo alheio, continuem, no entanto, de boa vontade menores durante toda a vida; e tamb√©m por que a outros se torna t√£o f√°cil assumirem-se como seus tutores. √Č t√£o c√≥modo ser menor.
Se eu tiver um livro que tem entendimento por mim, um director espiritual que tem em minha vez consciência moral, um médico que por mim decide da dieta, etc., então não preciso de eu próprio me esforçar. Não me é forçoso pensar, quando posso simplesmente pagar; outros empreenderão por mim essa tarefa aborrecida. Porque a imensa maioria dos homens (inclusive todo o belo sexo) considera a passagem à maioridade difícil e também muito perigosa é que os tutores de boa vontade tomaram a seu cargo a superintendência deles. Depois de, primeiro, terem embrutecido os seus animais domésticos e evitado cuidadosamente que estas criaturas pacíficas ousassem dar um passo para fora da carroça em que as encerraram, mostram-lhes em seguida o perigo que as ameaça, se tentarem andar sozinhas. Ora, este perigo não é assim tão grande, pois aprenderiam por fim muito bem a andar.

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O Campo da Experiência Nunca nos Satisfaz

Sendo todos os princ√≠pios do nosso entendimento apenas aplic√°veis a objectos da experi√™ncia poss√≠vel, toma-se evidente que todo racioc√≠nio racional, que se aplica √†s coisas situadas fora das condi√ß√Ķes da experi√™ncia, ao inv√©s de alcan√ßar a verdade, apenas deve necessariamente chegar a uma apar√™ncia e a uma ilus√£o.
Mas o que caracteriza tal ilus√£o √© que ela √© inevit√°vel (‚Ķ) a tal ponto que, mesmo quando j√° nos apercebemos da sua falsidade, nos n√£o podemos libertar dela. (…) De facto, o campo da experi√™ncia nunca nos satisfaz. (…) A nossa raz√£o, para se satisfazer, deve, pois, necessariamente, tentar ultrapassar os limites da experi√™ncia e, por consequ√™ncia, persuadir-se infalivelmente de que por esse caminho alcan√ßar√° a extens√£o e a integralidade dos seus conhecimentos, coisa que ela n√£o pode encontrar no campo dos fen√≥menos. Mas esta persuas√£o √© uma ilus√£o completa: estando totalmente para al√©m dos limites da nossa experi√™ncia sens√≠vel todos os conceitos e princ√≠pios do entendimento, e n√£o podendo ent√£o ser aplicados a qualquer objecto, a raz√£o ilude-se a si mesma quando atribui um valor objectivo a m√°ximas completamente subjectivas, que, na realidade, apenas admite para sua pr√≥pria satisfa√ß√£o.
(…) Todos os nossos racioc√≠nios que pretendem sair do campo da experi√™ncia s√£o ilus√≥rios e infundamentados.

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A (Má-)Emoção Controlada Pela Razão

H√° a ideia de que quando se concede √† raz√£o inteira liberdade ela destr√≥i todas as emo√ß√Ķes profundas. Esta opini√£o parece-me devida a uma concep√ß√£o inteiramente errada da fun√ß√£o da raz√£o na vida humana. N√£o √© objectivo da raz√£o gerar emo√ß√Ķes, embora possa ser parte da sua fun√ß√£o descobrir os meios de impedir que tais emo√ß√Ķes sejam um obst√°culo ao bem-estar. Descobrir os meios de dminuir o √≥dio e a inveja √© sem d√ļvida parte da fun√ß√£o da psicologia racional. Mas √© um erro supor que diminuindo essas paix√Ķes, diminuiremos ao mesmo tempo a intensidade das paix√Ķes que a raz√£o n√£o condena.
No amor apaixonado, na afei√ß√£o dos pais, na amizade, na benevol√™ncia, na devo√ß√£o √†s ci√™ncias ou √†s artes, nada h√° que a raz√£o deseje diminuir. O homem racional, quando sente essas emo√ß√Ķes, ficar√° contente por as sentir e nada deve fazer para diminuir a sua intensidade, pois todas elas fazem parte da verdadeira vida, isto √©, da vida cujo objectivo √© a felicidade, a pr√≥pria e a dos outros. Nada h√° de irracional nas paix√Ķes como paix√Ķes e muitas pessoas irracionais sentem s√≥mente as paix√Ķes mais triviais. Ningu√©m deve recear que ao optar pela raz√£o torne triste a vida.

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Verdade é Coerência

N√£o h√° verdade, nem necessidade absoluta. Chamamos verdadeiro a um conceito, que concorda com o sistema geral de todos os nossos conceitos; verdadeira a uma percep√ß√£o, que n√£o contradiz o sistema das nossas percep√ß√Ķes; verdade √© coer√™ncia. E, no que respeita a todo o sistema, ao conjunto, dado que, fora dele, n√£o existe nada que seja para n√≥s conhecido, n√£o podemos dizer se √© ou n√£o verdadeiro. √Č imagin√°vel que o universo seja, em si, fora de n√≥s, muito diferente daquilo que nos parece, ainda que esta seja uma suposi√ß√£o que carece de todo o sentido racional. E, no que toca √† necessidade, h√° uma necessidade absoluta? Necess√°rio n√£o √© sen√£o aquilo que √©, e enquanto o √©, pois que, noutro sentido mais transcendental, que necessidade absoluta, l√≥gica, independente do facto de que o universo existe, h√° de que haja universo ou qualquer outra coisa?
O relativismo absoluto, que não é mais nem menos do que o ceptcismo, no sentido mais moderno desta denominação, é o triunfo supremo da razão raciocinante.

Desistir de Querer Entender Tudo

H√° momentos em que todas as respostas e explica√ß√Ķes falham. Nesses casos, a vida deixa de fazer sentido. Ou, ent√£o, n√£o sabemos mais o que dizer ou fazer quando algu√©m em afli√ß√£o vem pedir-nos ajuda.
Ao aceitar completamente que n√£o se tem explica√ß√Ķes para tudo, desiste-se da luta para encontrar respostas atrav√©s da mente racional e limitada, e √© nessa altura que uma intelig√™ncia superior pode operar atrav√©s de n√≥s. Ent√£o, at√© mesmo a mente pode beneficiar com essa interven√ß√£o, uma vez que a intelig√™ncia superior aflui para o pensamento e inspira-o.
Por vezes, a entrega significa desistir de querer entender e aprender a conviver bem com o facto de n√£o se saber tudo.

Igualdade não é Liberdade

Todos os homens são iguais em sociedade. Nenhuma sociedade se pode fundamentar noutra coisa que não seja a noção de igualdade. Acima de tudo não pode fundamentar-se no conceito de liberdade. A igualdade é qualquer coisa que quero encontrar na sociedade, ao passo que a liberdade, nomeadamente a liberdade moral de me dispor à subordinação, transporto-a comigo.
A sociedade que me acolhe tem portanto que me dizer: ¬ę√Č teu dever ser igual a todos n√≥s¬Ľ. E n√£o pode acrescentar mais que isto: ¬ęDesejamos que tu, com toda a convic√ß√£o, de tua livre e racional vontade, renuncies aos teus privil√©gios¬Ľ.
O nosso √ļnico passe de m√°gica consiste no facto de prescindirmos da nossa exist√™ncia para podermos existir.
A mais elevada finalidade da sociedade é consequência das vantagens que assegura a cada um. Cada um sacrifica racionalmente a essa consequência uma grande quantidade de coisas. A sociedade, portanto, muito mais. Por causa da dita consequência, a vantagem pontual de cada membro da sociedade anda perto de se reduzir a nada.

O Homem é o Animal Menos Preparado

A capacidade do homem para o pensamento abstracto, que parece faltar √† maioria dos outros mam√≠feros, conferiu-lhe sem d√ļvida o seu actual dom√≠nio sobre a superf√≠cie da Terra ‚Äď um dom√≠nio disputado apenas por centenas de milhares de tipos de insectos e organismos microsc√≥picos. Este pensamento abstracto √© o respons√°vel pela sua sensa√ß√£o de superioridade e pelo que, sob esta sensa√ß√£o, corresponde a uma certa medida de realidade, pelo menos dentro de estreitos limites. Mas o que √© frequentemente subestimado √© o facto de que a capacidade de desempenhar um acto n√£o √©, de forma alguma, sin√≥nima de seu exerc√≠cio salubre. √Č f√°cil observar que a maior parte do pensamento do homem √© est√ļpida, sem sentido e injuriosa para ele. Na realidade, de todos os animais, ele parece o menos preparado para tirar conclus√Ķes apropriadas nas quest√Ķes que afectam mais desesperadamente o seu bem-estar.
Tente imaginar um rato, no universo das ideias dos ratos, chegando a no√ß√Ķes t√£o ocas de plausibilidade como, por exemplo, o Swedenborgianismo, a homeopatia ou a telepatia mental. O instinto natural do homem, de facto, nunca se dirige para o que √© s√≥lido e verdadeiro; prefere tudo que √© especioso e falso. Se uma grande na√ß√£o moderna se confrontar com dois problemas antag√≥nicos ‚Äď um deles baseado em argumentos prov√°veis e racionais,

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Ser Independente da Opini√£o P√ļblica

Ser independente da opini√£o p√ļblica √© a primeira condi√ß√£o formal para realizar qualquer coisa grandiosa ou racional, tanto na vida como na ci√™ncia. Com o tempo, este feito ser√° seguramente reconhecido pela opini√£o p√ļblica, que na altura conveniente o transformar√° em mais um dos seus preconceitos.

O Engodo da Felicidade como Recompensa

Toda essa ideia de uma felicidade como recompensa Рque outra coisa seria, portanto, senão uma ilusão moral: um título de crédito com o qual se compra de ti, homem empírico, os teus prazeres sensíveis de agora, mas que só é pagável quando tu mesmo não precisas mais do pagamento. Pensa sempre nessa felicidade como um todo de prazeres que são análogos aos prazeres sacrificados agora. Ousa, apenas, dominar-te agora; ousa o primeiro passo de criança em direcção à virtude: o segundo já se tornará mais fácil para ti. Se continuares a progredir, notarás com espanto que aquela felicidade que esperavas como recompensa do teu sacrifício, mesmo para ti não tem mais nenhum valor. Foi intencionalmente que se colocou a felicidade num ponto do tempo em que tens de ser suficientemente homem para te envergonhares dela. Envergonhar, digo eu, pois, se nunca chegas a sentir-te mais sublime do que aquele ideal sensível de felicidade, seria melhor que a razão jamais te tivesse falado.
√Č exig√™ncia da raz√£o n√£o precisar mais de nenhuma felicidade como recompensa, t√£o certo quanto √© exig√™ncia tornar-se mais conforme √† raz√£o, mais aut√≥nomo, mais livre. Pois, se a felicidade ainda pode recompensar-nos – a n√£o ser que se interprete o conceito de felicidade contrariamente a todo o uso da linguagem -,

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O Criador de Opini√£o

O papel de criador e director de movimentos de opini√Ķes pertence aos homens de Estado em todas as quest√Ķes que interessam a vida exterior de um pa√≠s. A sua tarefa √© extremamente penosa. Eles devem possuir, com efeito, uma mentalidade bastante desenvolvida para que a l√≥gica racional lhes sirva de guia, devendo, no entanto, actuar nos homens por influ√™ncias afectivas e m√≠sticas, estranhas √† raz√£o, √ļnicas, por√©m, capazes de acarret√°-los.
Esses grandes elementos morais, que cumpre saber manejar, ser√£o durante muito tempo ainda os mais possantes factores aptos a dirigir os povos. Eles n√£o criam os navios e os canh√Ķes, mas, como se exprimiu o almirante Togo, ¬ęs√£o a alma dos navios e dos canh√Ķes¬Ľ. As influ√™ncias irracionais, que provocam os movimentos de opini√Ķes, incessantemente mudam, conforme a luz vari√°vel que banha as coisas. Deve-se saber adivinh√°-las, quando se as quer dominar e n√£o esquecer que uma opini√£o qualquer universalmente aceite constituir√° sempre, para a multid√£o, uma verdade.

Da Existência de Deus

Os argumentos relativos ao problema da exist√™ncia de Deus t√™m sido viciados, quando positivos, pela circunst√Ęncia de frequentemente se querer demonstrar, n√£o a simples exist√™ncia de Deus, sen√£o a exist√™ncia de determinado Deus, isto √©, dum Deus com determinados atributos. Demonstrar que o universo √© efeito de uma causa √© uma coisa; demonstrar que o universo √© efeito de uma causa inteligente √© outra coisa; demonstrar que o universo √© efeito de uma causa inteligente e infinita √© outra coisa ainda; demonstrar que o universo √© efeito de uma causa inteligente, infinita e ben√©vola outra coisa mais. Importa, pois, ao discutirmos o problema da exist√™ncia de Deus, nos esclare√ßamos primeiro a n√≥s mesmos sobre, primeiro, o que entendemos por Deus; segundo, at√© onde √© poss√≠vel uma demonstra√ß√£o.
O conceito de Deus, reduzido √† sua abstra√ß√£o definidora, √© o conceito de um criador inteligente do mundo. O ser interior ou exterior a esse mundo, o ser infinitamente inteligente ou n√£o ‚ÄĒ s√£o conceitos atribut√°rios. Com maior for√ßa o s√£o os conceitos de bondade, e outros assim, que, como j√° notamos t√™m andado misturados com os fundamentais na discuss√£o deste problema.
Demonstrar a existência de Deus é, pois, demonstrar, (1) que o universo aparente tem uma causa que não está nesse universo aparente como aparente (2) que essa causa é inteligente,

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O Que é a Religião ?

De in√≠cio, portanto, em vez de perguntar o que √© religi√£o, eu preferiria indagar o que caracteriza as aspira√ß√Ķes de uma pessoa que me d√° a impress√£o de ser religiosa: uma pessoa religiosamente esclarecida parece-me ser aquela que, tanto quanto lhe foi poss√≠vel, libertou-se dos grilh√Ķes, dos seus desejos ego√≠stas e est√° preocupada com pensamentos, sentimentos e aspira√ß√Ķes a que se apega em raz√£o do seu valor suprapessoal. Parece-me que o que importa √© a for√ßa desse conte√ļdo suprapessoal, e a profundidade da convic√ß√£o na superioridade do seu significado, quer se fa√ßa ou n√£o alguma tentativa de unir esse conte√ļdo com um Ser divino, pois, de outro modo, n√£o poder√≠amos considerar Buda e Espinoza como personalidades religiosas. Assim, uma pessoa religiosa √© devota no sentido de n√£o ter nenhuma d√ļvida quanto ao valor e emin√™ncia dos objectivos e metas suprapessoais que n√£o exigem nem admitem fundamenta√ß√£o racional. Eles existem, t√£o necess√°ria e corriqueiramente quanto ela pr√≥pria.

Nesse sentido, a religi√£o √© o antiqu√≠ssimo esfor√ßo da humanidade para atingir uma clara e completa consci√™ncia desses valores e metas e refor√ßar e ampliar incessantemente o seu efeito. Quando concebemos a religi√£o e a ci√™ncia segundo estas defini√ß√Ķes, um conflito entre elas parece imposs√≠vel.

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O Mundo é a Minha Representação

O mundo é a minha representação. Esta proposição é uma verdade para todo o ser vivo e pensante, embora só no homem chegue a transformar-se em conhecimento abstracto e reflectido. A partir do momento em que é capaz de o levar a este estado, pode dizer-se que nasceu nele o espírito filosófico. Possui então a inteira certeza de não conhecer nem um sol nem uma terra; mas apenas olhos que vêem este sol, mãos que tocam esta terra; numa palavra, ele sabe que o mundo que o cerca existe apenas como representação, na sua relação com um ser que percebe, que é o próprio homem.
Se existe uma verdade que se possa afirmar √† priori √© bem esta, pois ela exprime o modo de toda a experi√™ncia poss√≠vel e imagin√°vel, conceito muito mais geral mesmo que os de tempo, espa√ßo e causalidade que o implicam. Com efeito, cada um destes conceitos, nos quais reconhecemos formas diversas do princ√≠pio de raz√£o, apenas √© aplic√°vel a uma ordem determinada de representa√ß√Ķes; a distin√ß√£o entre sujeito e objecto √©, pelo contr√°rio, o modo comum a todas, o √ļnico sob o qual se pode conceber uma qualquer representa√ß√£o, abstracta ou intuitiva, racional ou emp√≠rica.

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O Homem é um Animal Afectivo ou Sentimental, não Racional

Na maior parte das hist√≥rias da filosofia que conhe√ßo, os sistemas s√£o-nos apresentados, como tendo origem uns nos outros, e os seus autores, os fil√≥sofos, aparecem apenas como meros pretextos. A biografia √≠ntima dos fil√≥sofos, e dos homens que filosofaram, ocupa um lugar secund√°rio. E, sem d√ļvida, √© ela, essa biografia √≠ntima a que mais coisas nos explica.
Cumpre-nos dizer, antes de mais, que a filosofia se inclina mais para a poesia do que para a ciência. Quantos sistemas filosóficos se forjaram, como suprema harmonização dos resultados finais das ciências particulares, num período qualquer, tendo tido muito menos consistência e menos vida do que aqueles outros que representavam o anseio integral do espírito do seu autor.
(…) A filosofia corresponde √† necessidade de formarmos uma concep√ß√£o unit√°ria e total do mundo e da vida e, como consequ√™ncia desse conceito, um sentimento que gere uma atitude √≠ntima, e at√© uma ac√ß√£o. Mas resulta que esse sentimento, em vez de ser consequ√™ncia daquele conceito, √© a sua causa. A nossa filosofia, isto √©, a nossa maneira de compreender ou de n√£o compreender o mundo e a vida, brota do nosso sentimento respeitante √† pr√≥pria vida. E esta, como tudo o que √© afectivo,

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As Realidades da Alma

√Č certo que o homem fala a si mesmo; n√£o h√° um √ļnico ser racional que o n√£o tenha experimentado. Pode-se at√© dizer que o mist√©rio do Verbo nunca √© mais magn√≠fico do que quando, no interior do homem, vai do pensamento √† consci√™ncia, e volta da consci√™ncia ao pensamento. (…) Diz, fala, exclama cada um consigo mesmo, sem que seja quebrado o sil√™ncio exterior. H√° um grande tumulto; tudo fala em n√≥s, excepto a boca. As realidades da alma, por n√£o serem vis√≠veis e palp√°veis, nem por isso deixam de ser tamb√©m realidades.

A Crença é Baseada no Desejo

A influ√™ncia dos nossos desejos sobre as nossas cren√ßas √© do conhecimento e da observa√ß√£o de todos, mas a natureza dessa influ√™ncia √©, em geral, muito mal interpretada. √Č costume supor que a massa das nossas cren√ßas prov√©m de alguma base racional e que o desejo √© apenas uma for√ßa perturbadora ocasional. Exactamente o oposto se aproximaria mais da verdade: a grande massa de cren√ßas pela qual somos amparados na nossa vida di√°ria √© apenas projec√ß√£o do desejo, corrigida aqui e ali, em pontos isolados, pelo rude choque dos factos.