Textos de Sigmund Freud

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Textos de Sigmund Freud. Conheça este e outros autores famosos em Poetris.

Proibir Demasiado Prejudica a Lei

Penso que um excesso de decretos e de interditos prejudica a autoridade da lei. Podemos observ√°-lo: onde existem poucas proibi√ß√Ķes, estas s√£o obedecidas; onde a cada passo se trope√ßa em coisas proibidas, sente-se rapidamente a tenta√ß√£o de as infringir. Al√©m disso, n√£o √© preciso ser-se anarquista para se ver que as leis e os decretos, do ponto de vista da sua origem, n√£o gozam de qualquer car√°cter sagrado ou invulner√°vel. Por vezes s√£o pobres de conte√ļdo, insuficientes, ofensivas do nosso sentido de justi√ßa, ou nisso se tornam com o tempo, e ent√£o, dada a in√©rcia geral dos dirigentes, n√£o resta outro meio de corrigir essas leis caducas sen√£o infringi-las de boa vontade! Para mais, √© prudente, quando se pretende manter o respeito por leis e decretos, n√£o promulgar sen√£o aqueles cuja observa√ß√£o ou infrac√ß√£o possam ser facilmente controladas.

O Delírio pelo Isolamento e pelo Convívio

O eremita volta as costas a este mundo; n√£o quer ter nada a ver com ele. Mas podemos fazer mais do que isso; podemos tentar recri√°-lo, tentar construir um outro em vez dele, no qual os componentes mais insuport√°veis s√£o eliminados e substitu√≠dos por outros que correspondam aos nossos desejos. Quem por desespero ou desafio parte por este carninho, por norma, n√£o chegar√° muito longe; a realidade ser√° demasiado forte para ele. Torna-se louco e normalmente n√£o encontra ningu√©m que o ajude a levar a cabo o seu del√≠rio. Diz-se contudo, que todos n√≥s nos comportamos em alguns aspectos como paran√≥icos, substituindo pela satisfa√ß√£o de um desejo alguns aspectos do mundo que nos s√£o insuport√°veis transportando o nosso del√≠rio para a realidade. Quando um grande n√ļmero de pessoas faz esta tentativa em conjunto e tenta obter a garantia de felicidade e protec√ß√£o do sofrimento atrav√©s de uma transforma√ß√£o ilus√≥ria da realidade, adquire um significado especial. Tamb√©m as religi√Ķes devem ser classificadas como del√≠rios em massa deste g√©nero. Escusado ser√° dizer que ningu√©m que participa num del√≠rio o reconhece como tal.

A Psicologia de Grupo

O indiv√≠duo num grupo est√° sujeito, atrav√©s da influ√™ncia deste, ao que com frequ√™ncia constitui uma profunda altera√ß√£o na sua actividade mental. A sua submiss√£o √† emo√ß√£o torna-se extraordinariamente intensificada, enquanto que a sua capacidade intelectual √© acentuadamente reduzida, com ambos os processos evidentemente dirigindo-se para uma aproxima√ß√£o com os outros indiv√≠duos do grupo; e esse resultado s√≥ pode ser alcan√ßado pela remo√ß√£o daquelas inibi√ß√Ķes aos instintos que s√£o peculiares a cada indiv√≠duo, e pela resigna√ß√£o deste √†quelas express√Ķes de inclina√ß√Ķes que s√£o especialmente suas. Aprendemos que essas consequ√™ncias, ami√ļde importunas, s√£o, at√© certo ponto pelo menos, evitadas por uma ¬ęorganiza√ß√£o¬Ľ superior do grupo, mas isto n√£o contradiz o fato fundamental da psicologia de grupo: as duas teses relativas √† intensifica√ß√£o das emo√ß√Ķes e √† inibi√ß√£o do intelecto nos grupos primitivos.

Civilização Racional

O nosso conhecimento do valor hist√≥rico de certas doutrinas religiosas aumenta o nosso respeito por elas, mas n√£o invalida a nossa posi√ß√£o, segundo a qual devem deixar de ser apresentadas como os motivos para os preceitos da civiliza√ß√£o. Pelo contr√°rio! Esses res√≠duos hist√≥ricos auxiliaram-nos a encarar os ensinamentos religiosos como rel√≠quias neur√≥ticas, por assim dizer, e agora podemos arguir que provavelmente chegou a hora, tal como acontece num tratamento anal√≠tico, de substituir os efeitos da repress√£o pelos resultados da opera√ß√£o racional do intelecto. Podemos prever, mas dificilmente lamentar, que tal processo de remodela√ß√£o n√£o se deter√° na ren√ļncia √† transfigura√ß√£o solene dos preceitos culturais, mas que a sua revis√£o geral resultar√° em que muitos deles sejam eliminados. Desse modo, a nossa tarefa de reconciliar os homens com a civiliza√ß√£o estar√°, at√© um grande ponto, realizada. N√£o precisamos de deplorar a ren√ļncia √† verdade hist√≥rica quando apresentamos fundamentos racionais para os preceitos da civiliza√ß√£o. As verdades contidas nas doutrinas religiosas s√£o, afinal de contas, t√£o deformadas e sistematicamente disfar√ßadas, que a massa da humanidade n√£o pode identific√°-las como verdade. O caso √© semelhante ao que acontece quando dizemos a uma crian√ßa que os rec√©m-nascidos s√£o trazidos pela cegonha. Aqui, tamb√©m estamos a contar a verdade sob uma roupagem simb√≥lica,

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A Eleição Narcísica dos Ideais dos Povos

As pessoas estar√£o sempre prontamente inclinadas a incluir entre os predicados ps√≠quicos de uma cultura os seus ideais, ou seja, as suas estimativas a respeito de que realiza√ß√Ķes s√£o mais elevadas e em rela√ß√£o √†s quais se devem fazer esfor√ßos por atingir. Parece, a princ√≠pio, que esses ideais determinam as realiza√ß√Ķes da unidade cultural; contudo, o curso real dos acontecimentos parece indicar que os ideais baseiam-se nas primeiras realiza√ß√Ķes que foram tornadas poss√≠veis por uma combina√ß√£o entre os dotes internos da cultura e as circunst√Ęncias externas, e que essas primeiras realiza√ß√Ķes s√£o ent√£o erigidas pelo ideal como algo a ser levado avante. A satisfa√ß√£o que o ideal oferece aos participantes da cultura √©, portanto, de natureza narc√≠sica; repousa no seu orgulho pelo que j√° foi alcan√ßado com √™xito. Tornar essa satisfa√ß√£o completa exige uma compara√ß√£o com outras culturas que visaram a realiza√ß√Ķes diferentes e desenvolveram ideais distintos. √Č a partir da intensidade dessas diferen√ßas que toda a cultura reivindica o direito de olhar com desd√©m para o resto. Desse modo, os ideais culturais tornam-se fonte de disc√≥rdia e inimizades entre unidades culturais diferentes, tal como se pode constatar claramente no caso das na√ß√Ķes.

As Nossas Possibilidades de Felicidade

√Č simplesmente o princ√≠pio do prazer que tra√ßa o programa do objectivo da vida. Este princ√≠pio domina a opera√ß√£o do aparelho mental desde o princ√≠pio; n√£o pode haver d√ļvida quanto √† sua efici√™ncia, e no entanto o seu programa est√° em conflito com o mundo inteiro, tanto com o macrocosmo como com o microcosmo. N√£o pode simplesmente ser executado porque toda a constitui√ß√£o das coisas est√° contra ele; poder√≠amos dizer que a inten√ß√£o de que o homem fosse feliz n√£o estava inclu√≠da no esquema da Cria√ß√£o. Aquilo a que se chama felicidade no seu sentido mais restrito vem da satisfa√ß√£o ‚ÄĒ frequentemente instant√Ęnea ‚ÄĒ de necessidades reprimidas que atingiram uma grande intensidade, e que pela sua natureza s√≥ podem ser uma experi√™ncia transit√≥ria. Quando uma condi√ß√£o desejada pelo princ√≠pio do prazer √© protelada, tem como resultado uma sensa√ß√£o de consolo moderado; somos constitu√≠dos de tal forma que conseguirmos ter prazer intenso em contrastes, e muito menos nos pr√≥prios estados intensos. As nossas possibilidades de felicidade s√£o assim limitadas desde o princ√≠pio pela nossa forma√ß√£o. √Č muito mais f√°cil ser infeliz.
O sofrimento tem três procedências: o nosso corpo, que está destinado à decadência e dissolução e nem sequer pode passar sem a ansiedade e a dor como sinais de perigo;

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Proibição Reveladora

N√£o √© preciso proibir aquilo a que nenhuma alma humana aspira. √Č precisamente o modo como est√° formulada a proibi√ß√£o: ¬ęN√£o matar√°s¬Ľ, que √© de molde a dar-nos a certeza de descendermos de uma s√©rie infinitamente longa de gera√ß√Ķes de assassinos, que possu√≠am no sangue, talvez como n√≥s pr√≥prios, a paix√£o de matar.

Tu Dás-me Objectivos, Direcção e Felicidade

Eu estava √† procura na ci√™ncia da satisfa√ß√£o que o esfor√ßo da pesquisa e o momento da descoberta oferecem; eu nunca fui daquelas pessoas que n√£o aguentam o pensamento de terem desperdi√ßado a sua vida antes de terem conseguido escrever o seu nome na rocha pelo meio das ondas. Mas quando penso como √© que eu seria se n√£o te tivesse encontrado ‚Äď sem ambi√ß√£o, sem saber desfrutar os pequenos prazeres da vida, sem qualquer fasc√≠nio pela magia do ouro, e ao mesmo tempo dotado de uma intelig√™ncia moderada e sem quaisquer meios materiais ‚Äď iria sentir-me muito miser√°vel e entraria em decl√≠nio. Tu d√°s-me n√£o apenas objectivos e direc√ß√£o, mas tamb√©m tanta felicidade, que nunca poderia sentir-me insatisfeito com o presente infortunado que vivo neste momento; tu d√°s-me esperan√ßa e a certeza do sucesso. Eu sabia-o mesmo antes de tu me amares e sei-o agora que tu me amas, e √© gra√ßas a ti que me tornei um homem auto-confiante e corajoso.

Carta de Amor

Eu sabia que seria apenas depois de te teres ido embora que iria perceber a completa extensão da minha felicidade e, alas! o grau da minha perda também. Ainda não a consegui ultrapassar, e se não tivesse à minha frente aquela caixinha pequena com a tua doce fotografia, pensaria que tudo não teria passado de um sonho do qual não quereria acordar. Contudo os meus amigos dizem que é verdade, e eu próprio consigo-me lembrar de detalhes ainda mais charmosos, ainda mais misteriosamente encantadores do que qualquer fantasia sonhadora poderia criar. Tem que ser verdade. Martha é minha, a rapariga doce da qual todos falam com admiração, que apesar de toda a minha resistência cativou o meu coração logo no primeiro encontro, a rapariga que eu receava cortejar e que veio para mim com elevada confiança, que fortaleceu a minha confiança em mim próprio e me deu esperanças e energia para trabalhar, na altura que eu mais precisava.

Quando tu voltares, querida rapariga, já terei vencido a timidez e estranheza que até agora me inibiu perante a tua presença. Iremos sentar-nos de novo sozinhos naquele pequeno quarto agradável, vais-te sentar naquela poltrona castanha , eu estarei a teus pés no banquinho redondo,

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Sociedade Cara e Primitiva

Podemos dizer sem contempla√ß√Ķes √† sociedade que aquilo a que ela chama a sua moral custa mais sacrif√≠cios do que o que vale, e que os seus modos de proceder s√£o falhos tanto de sinceridade como de sabedoria.
(…) Dir-se-ia que basta um grande n√ļmero, que milh√Ķes de homens se encontrem reunidos, para que todas as aquisi√ß√Ķes morais dos indiv√≠duos que os comp√Ķem se desvane√ßam por completo e n√£o restem j√° em seu lugar sen√£o as atitudes ps√≠quicas mais primitivas, mais antigas, mais brutais.

A Força Tardia mas Eficaz do Intelecto

Sejam quais forem os sentimentos e os interesses humanos, o intelecto √©, tamb√©m ele, uma for√ßa. Esta n√£o consegue prevalecer imediatamente, mas por fim os seus efeitos revelam-se ainda mais perempt√≥rios. A verdade que mais fere acaba sempre por ser notada e por se impor, assim que os interesses que lesa e as emo√ß√Ķes que suscita tenham esgotado a sua virul√™ncia.

A Avaliação de uma Civilização

Quando j√° se viveu por muito tempo numa civiliza√ß√£o espec√≠fica e com frequ√™ncia se tentou descobrir quais foram as suas origens e ao longo de que caminho ela se desenvolveu, fica-se √†s vezes tentado a voltar o olhar para outra dire√ß√£o e indagar qual o destino que a espera e quais as transforma√ß√Ķes que est√° fadada a experimentar. Logo, por√©m, se descobre que, desde o in√≠cio, o valor de uma indaga√ß√£o desse tipo √© diminu√≠do por diversos fatores, sobretudo pelo facto de apenas poucas pessoas poderem abranger a actividade humana em toda a sua amplitude. A maioria das pessoas foi obrigada a restringir-se a somente um ou a alguns dos seus campos. Entretanto, quanto menos um homem conhece a respeito do passado e do presente, mais inseguro ter√° de mostrar-se o seu ju√≠zo sobre o futuro. E h√° ainda uma outra dificuldade: a de que precisamente num ju√≠zo desse tipo as expectativas subjectivas do indiv√≠duo desempenham um papel dif√≠cil de avaliar, mostrando ser dependentes de factores puramente pessoais de sua pr√≥pria experi√™ncia, do maior ou menor optimismo da sua atitude para com a vida, tal como lhe foi ditada pelo seu temperamento ou pelo seu sucesso ou fracasso. Finalmente, faz-se sentir o facto curioso de que,

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Civilização de Hipócritas

Existem infinitamente mais homens que aceitam a civiliza√ß√£o como hip√≥critas do que homens verdadeiramente e realmente civilizados, e √© l√≠cito at√© perguntarmo-nos se um certo grau de hipocrisia n√£o ser√° necess√°rio √† manuten√ß√£o e √† conserva√ß√£o da civiliza√ß√£o, dado o reduzido n√ļmero de homens nos quais a tend√™ncia para a vida civilizada se tornou uma propriedade org√Ęnica.

Quando Chega uma Carta Tua

Quando chega uma carta tua todas as divaga√ß√Ķes acabam, e acordo para a vida. Todos os problemas estranhos deixam de ter import√Ęncia, os misteriosos quadros de doen√ßas se desvanecem, e acabam-se as teorias vazias ¬ęde acordo com o estado presente da ci√™ncia¬Ľ, como elas s√£o chamadas. Ent√£o o mundo fica t√£o acolhedor, t√£o alegre, t√£o f√°cil de compreender. A minha doce querida n√£o √© uma ilus√£o, ela n√£o tem que ser comprovada por testes qu√≠micos; de facto ela pode ser observada a olho n√ļ. Ainda bem que ela n√£o tem nada a ver com doen√ßas ‚Äď e espero que continue ‚Äď excepto por ter sido suficientemente imprudente para tomar um m√©dico para amante. Oh Marty, √© muito mais gratificante ser um ser humano em vez de um armaz√©m de certas experi√™ncias mon√≥tonas. Mas ningu√©m se pode permitir a ser um ser humano por uma hora a n√£o ser que tenha sido uma m√°quina ou um armaz√©m por onze horas. E aqui cheg√°mos, onde come√ß√°mos.

Desigualdades Irremedi√°veis

Quem na sua própria juventude provou as misérias da pobreza, experimentou a insensibilidade e o orgulho dos ricos, encontra-se certamente ao abrigo da suspeita de incompreensão e de falta de boa vontade ante os esforços tentados para combater a desigualdade das riquezas e tudo quanto dela decorre. Na verdade, se esta luta invocar o princípio abstracto, e baseado na justiça, da igualdade de todos os homens entre si, será demasiado fácil objectar que a natureza foi a primeira, através da soberana desigualdade das capacidades físicas e mentais repartidas pelos seres humanos, a cometer injustiças contra as quais não há remédio.

Insensibilidade Experiente

Envolve-me lentamente uma carapa√ßa de insensibilidade; verifico-o sem me queixar. √Č tamb√©m um desfecho natural, um modo de come√ßar a tornar-me anorg√Ęnico. A isto costuma chamar-se, segundo creio, a serenidade da idade. √Č algo que sem d√ļvida deve estar ligado a uma viragem decisiva nas rela√ß√Ķes entre as duas puls√Ķes cuja exist√™ncia supus. A transforma√ß√£o que a acompanha n√£o √© talvez excessivamente forte; permanece cheio de interesse tudo quanto tinha outrora, mas h√° um certo eco que falta; eu, que n√£o sou m√ļsico, represento-me esta diferen√ßa como uma quest√£o de usar ou n√£o o pedal. A press√£o sens√≠vel e incessante de uma enorme quantidade de sensa√ß√Ķes importunas deve ter apressado este estado prematuro, esta disposi√ß√£o a sentir tudo sub specie aeternitatis.

Arrependimento Imoral

O homem a quem o arrependimento, ap√≥s o pecado, imp√Ķe grandes exig√™ncias morais, exp√Ķe-se √† acusa√ß√£o de ter tornado a sua tarefa demasiado f√°cil. N√£o praticou o que √© essencial na moral, a ren√ļncia; com efeito, o comportamento
moral ao longo da vida é exigido em função dos interesses práticos da humanidade. O homem citado recorda-nos os bárbaros das grandes ondas migradoras, que matavam e depois faziam penitência, e para os quais fazer penitência acabou por se tornar uma técnica facilitadora do assassínio.

Civilização e Religião Condicionam-se Uma à Outra

Quando a civiliza√ß√£o formulou o mandamento de que o homem n√£o deve matar o pr√≥ximo a quem odeia, que se acha no seu caminho ou cuja propriedade cobi√ßa, isso foi claramente efetuado no interesse comunal do homem, que, de outro modo, n√£o seria pratic√°vel, pois o assassino atrairia para si a vingan√ßa dos parentes do morto e a inveja de outros, que, dentro de si mesmos, se sentem t√£o inclinados quanto ele a tais actos de viol√™ncia. Assim, n√£o desfrutaria da sua vingan√ßa ou do seu roubo por muito tempo, mas teria toda a possibilidade de ele pr√≥prio em breve ser morto. Mesmo que se protegesse contra os seus inimigos isolados atrav√©s de uma for√ßa ou cautela extraordin√°rias, estaria fadado a sucumbir a uma combina√ß√£o de homens mais fracos. Se uma combina√ß√£o desse tipo n√£o se efectuasse, o homic√≠dio continuaria a ser praticado de modo infind√°vel e o resultado final seria que os homens se exterminariam mutuamente. Chegar√≠amos, entre os indiv√≠duos, ao mesmo estado de coisas que ainda persiste entre fam√≠lias na C√≥rsega, embora, em outros lugares, apenas entre na√ß√Ķes. A inseguran√ßa da vida, que constitui um perigo igual para todos, une hoje os homens numa sociedade que pro√≠be ao indiv√≠duo matar,

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O Falso Conforto da Religi√£o

O homem comum entende como sendo a sua religi√£o um sistema de doutrinas e promessas que, por um lado lhe explica os enigmas deste mundo com uma perfei√ß√£o invej√°vel, e que por outro lhe garante que uma Provid√™ncia atenta cuidar√° da sua exist√™ncia e o compensar√°, numa futura exist√™ncia, por qualquer falha nesta vida. O homem comum s√≥ consegue imaginar essa Provid√™ncia sob a figura de um pai extremamente elevado, pois s√≥ algu√©m assim conseguiria compreender as necessidades dos filhos dos homens ou enternecer-se com as suas ora√ß√Ķes e aplacar-se com os sinais dos seus remorsos. Tudo isto √© t√£o manifestamente infantil, t√£o incongruente com a realidade, que para aquele que manifeste uma atitude amistosa para com a humanidade √© penoso pensar que a grande maioria dos mortais nunca ser√° capaz de estar acima desta vis√£o de vida.
√Č ainda mais humilhante descobrir como √© grande o n√ļmero de pessoas, hoje em dia, que n√£o podem deixar de perceber que essa religi√£o √© insustent√°vel, e, no entanto, tentam defend√™-la sucessivamente, numa s√©rie de lament√°veis actos retr√≥gados. Gostar√≠amos de pertencer ao n√ļmero dos crentes, para podermos advertir os fil√≥sofos que tentam preservar o Deus da religi√£o substituindo-o por um princ√≠pio impessoal,

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A Import√Ęncia da Autoridade

√Č in√ļtil alongar-me demoradamente sobre a import√Ęncia da autoridade. S√£o muito poucas as pessoas civilizadas capazes de uma exist√™ncia perfeitamente aut√≥noma ou t√£o-s√≥ de ju√≠zo independente. N√£o nos √© poss√≠vel representar em toda a sua amplitude a necessidade de autoridade e a fraqueza interior dos seres humanos.