Textos sobre Violência

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Textos de violência escritos por poetas consagrados, filósofos e outros autores famosos. Conheça estes e outros temas em Poetris.

Riqueza Ilimitada mas Mortal

Eu n√£o posso, pensando bem, descobrir como √© poss√≠vel a n√≥s, que demos tanta import√Ęncia √† riqueza ilimitada e que, para falar a verdade, a divinizamos, n√£o admitir nas nossas almas os males que crescem com ela. Acompanha, com efeito, a riqueza sem medida e sem cora√ß√£o, ligada a ela, e como se diz marchando no mesmo passo, a prodigalidade, e √† medida que a riqueza abre o acesso √†s cidades e √†s casas ela entra junto e coabita. Depois, com o tempo, segundo os s√°bios, esses seres fazem os seus ninhos nas vidas humanas e rapidamente engendram outros seres, no momento da procria√ß√£o, como a cupidez, o orgulho e a lux√ļria, que n√£o s√£o seus bastardos mas filhos leg√≠timos.
Mas se permitir que esses filhos da riqueza avancem na idade, logo para as almas eles engendrar√£o tiranos inexor√°veis, a viol√™ncia, a ilegalidade e a imprud√™ncia. Pois √© assim necessariamente; os homens n√£o olham mais para o alto e n√£o d√£o import√Ęncia ao renome na posteridade, mas a destrui√ß√£o das vidas (dos homens) completa-se pouco a pouco num tal ciclo e a grandeza das almas fenece, enfraquece e n√£o √© mais assunto de emula√ß√£o, quando se reserva a sua admira√ß√£o √†s partes mortais de si mesmo,

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A Cegueira da Governação

Pr√≠ncipes, Reis, Imperadores, Monarcas do Mundo: vedes a ru√≠na dos vossos Reinos, vedes as afli√ß√Ķes e mis√©rias dos vossos vassalos, vedes as viol√™ncias, vedes as opress√Ķes, vedes os tributos, vedes as pobrezas, vedes as fomes, vedes as guerras, vedes as mortes, vedes os cativeiros, vedes a assola√ß√£o de tudo? Ou o vedes ou o n√£o vedes. Se o vedes como o n√£o remediais? E se o n√£o remediais, como o vedes? Estais cegos. Pr√≠ncipes, Eclesi√°sticos, grandes, maiores, supremos, e v√≥s, √≥ Prelados, que estais em seu lugar: vedes as calamidades universais e particulares da Igreja, vedes os destro√ßos da F√©, vedes o descaimento da Religi√£o, vedes o desprezo das Leis Divinas, vedes o abuso do costumes, vedes os pecados p√ļblicos, vedes os esc√Ęndalos, vedes as simonias, vedes os sacril√©gios, vedes a falta da doutrina s√£, vedes a condena√ß√£o e perda de tantas almas, dentro e fora da Cristandade? Ou o vedes ou n√£o o vedes. Se o vedes, como n√£o o remediais, e se o n√£o remediais, como o vedes? Estais cegos. Ministros da Rep√ļblica, da Justi√ßa, da Guerra, do Estado, do Mar, da Terra: vedes as obriga√ß√Ķes que se descarregam sobre vosso cuidado, vedes o peso que carrega sobre vossas consci√™ncias,

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Os Limites da Amizade

Determinemos, agora, quais s√£o os limites e, por assim dizer, os termos da amizade. Encontro aqui tr√™s opini√Ķes diferentes, das quais n√£o aprovo nenhuma: a primeira deseja que sejamos para os nossos amigos, assim como somos para n√≥s mesmos; a segunda, que a nossa afei√ß√£o por eles seja tal e qual √† que eles t√™m por n√≥s; a terceira, que estimemos os nossos amigos, assim como eles se estimam a si mesmos. N√£o posso concordar com nenhuma destas tr√™s m√°ximas. Porque a primeira, que cada um tenha para com o seu amigo a mesma afei√ß√£o e vontade que tem para si, √© falsa. De facto, quantas coisas fazemos pelos nossos amigos, que jamais far√≠amos para n√≥s! Rogar, suplicar a um homem que se despreza, tratar a outro com aspereza, persegui-lo com viol√™ncia; coisas que em causa pr√≥pria n√£o seriam muito decentes, nos neg√≥cios dos amigos tornam-se muito honrosas. Quantas vezes um homem de bem abandona a defesa dos seus interesses e os sacrifica, em seu pr√≥prio detrimento, para servir os de seu amigo!
A segunda opini√£o √© a que define a amizade por uma correspond√™ncia igual em amor e bons servi√ßos. √Č fazer da amizade uma ideia bem limitada e mesquinha,

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O poder passa de uma nação a outra pela injustiça, pela violência e pela riqueza

O poder passa de uma nação a outra pela injustiça, pela violência e pela riqueza.

A Cultura Portuguesa e o Provincianismo

A cultura portuguesa tem um amor fatal pelo provincianismo. O provincianismo √© a forma mais ¬ęengag√©e¬Ľ de existir socialmente e literariamente. Da√≠ a impossibilidade, ou melhor, o medo de se realizar sequer um realismo a s√©rio, porquanto este exige uma descida ao inferno e n√£o vejo por a√≠ quem se atreva al√©m do purgat√≥rio. Fica-se assim na meia tinta do naturalismo, retratando quadros convencionais de uma sociedade provinciana onde, al√©m da j√° muito conhecida injusti√ßa social (repar√°vel pela economia e n√£o pela literatura), nada se capta que possa sugerir a simples viol√™ncia de se estar no mundo. Provincianismo chama-se ainda √†quela nossa atitude que toma muito a s√©rio ou, ainda, solenemente, tudo o que faz, tornando invi√°vel uma literatura que desmonte eficazmente a engrenagem humana e social pela incomplacente investida de um humor cruel. Houve recentes tentativas queirozianas para denunciar as fraquezas do meio. Conseguiu-se fazer realismo desta vez? Tamb√©m n√£o, porque se fez realismo de empr√©stimo, de segunda m√£o, colhido no ¬ędiz-se diz-se¬Ľ das esquinas. Escreveu-se razoavelmente m√°-l√≠ngua, mas n√£o se agitaram as pessoas e as institui√ß√Ķes de forma a tornar vis√≠vel o lodo depositado no fundo. Isto quanto aos que fazem profiss√£o de f√© de realismo social ou burgu√™s.

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O Saber é uma Forma de Comportamento

O saber √© uma forma de comportamento, uma paix√£o. No fundo, um comportamento il√≠cito; porque, tal como a depend√™ncia do √°lcool, de sexo ou da viol√™ncia, tamb√©m a compuls√£o de saber molda um car√°cter em desequil√≠brio. √Č um erro pensar que o investigador persegue a verdade; de facto, √© ela que o persegue a ele. √Č ele que tem de suport√°-la. A verdade √© verdadeira, o facto √© real, sem se preocuparem com ele: ele √© que sofre da paix√£o, da dipsomania dos factos que define o seu car√°cter, e est√°-se nas tintas para saber se as suas descobertas levar√£o a alguma coisa de total, humano, perfeito ou o que quer que seja. √Č uma natureza contradit√≥ria, sofredora e, ao mesmo tempo, incrivelmente en√©rgica.

O Castigo do Egoísta

Quem não sabe viver com caridade e abraçar a dor dos outros, tem como castigo sentir com violência intolerável a dor própria. A dor só pode suportar-se tornando-a comum e compartilhando-a com os outros que sofrem. O castigo do egoísta está em só disso se aperceber sob a férula (castigo), tentando em vão aprender a caridade, por interesse.

A Violência Oculta

A primeira raz√£o por que a viol√™ncia maior actua de modo silencioso, e das poucas vezes que falamos dela falamos apenas da ponta do icebergue. N√≥s acreditamos que estamos perante fen√≥menos de viol√™ncia apenas quando essa tens√£o assume propor√ß√Ķes vis√≠veis, quando ela surge como espect√°culo medi√°tico. Mas esquecemos que existem formas de viol√™ncia oculta que s√£o grav√≠ssimas. Esquecemos, por exemplo, que todos os dias, no nosso pa√≠s, s√£o sexualmente violentadas crian√ßas. E que, na maior parte das vezes, os agressores n√£o s√£o estranhos. Quem viola essas crian√ßas s√£o principalmente parentes. Quem pratica esse crime √© gente da pr√≥pria casa.

N√≥s temos n√≠veis alt√≠ssimos de viol√™ncia dom√©stica, em particular, de viol√™ncia contra a mulher. Mas esse assunto parece ser preocupa√ß√£o de poucos. Fala-se disso em algumas ONGs, em alguns semin√°rios. A Lei contra a viol√™ncia dom√©stica ainda n√£o foi aprovada na Assembleia da Rep√ļblica.

Existem várias outras formas invisíveis de violência. Existe violência quando os camponeses são expulsos sumariamente das suas terras por gente poderosa e não possuem meios para defender os seus direitos. Existe uma violência contida quando, perante o agente corrupto da autoridade, não nos surge outra saída senão o suborno. Existe, enfim, a violência terrível que é o vivermos com medo.

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O Amor Social

√Č necess√°rio voltar a sentir que precisamos uns dos outros, que temos uma responsabilidade para com os outros e o mundo, que vale a pena sermos bons e honestos. Vivemos j√° muito tempo na degrada√ß√£o moral, baldando-nos √† √©tica, √† bondade, √† f√©, √† honestidade; chegou o momento de reconhecer que esta alegre superficialidade de pouco nos serviu. Uma tal destrui√ß√£o de todo o fundamento da vida social acaba por nos colocar uns contra os outros, na defesa dos pr√≥prios interesses, provoca o despertar de novas formas de viol√™ncia e crueldade e impede o desenvolvimento de uma verdadeira cultura do cuidado do meio ambiente.

O exemplo de Santa Teresa de Lisieux convida-nos a p√īr em pr√°tica o pequeno caminho do amor, a n√£o perder a oportunidade de uma palavra gentil, de um sorriso, de qualquer pequeno gesto que semeie paz e amizade. Uma ecologia integral √© feita tamb√©m de simples gestos quotidianos, pelos quais quebramos a l√≥gica da viol√™ncia, da explora√ß√£o, do ego√≠smo. Pelo contr√°rio, o mundo do consumo exacerbado √©, simultaneamente, o mundo que maltrata a vida em todas as suas formas.

O amor, cheio de pequenos gestos de cuidado m√ļtuo, √© tamb√©m civil e pol√≠tico,

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A Acção Vai Bem sem a Paixão

Fazemos coisas iguais com for√ßas diversas e diferente esfor√ßo de vontade. A ac√ß√£o vai bem sem a paix√£o. Pois quantas pessoas se arriscam diariamente em guerras que n√£o lhes importam, e se sujeitam aos perigos de batalhas cuja perda n√£o lhes perturbar√° o pr√≥ximo sono? Um homem na sua casa, longe desse perigo que n√£o teria ousado encarar, est√° mais interessado no desfecho dessa guerra e tem a alma mais inquieta do que o soldado que p√Ķe nela o seu sangue e a sua vida. Essa impetuosidade e viol√™ncia de desejo mais atrapalha do que auxilia a condu√ß√£o do que empreendemos, enche-nos de acrim√≥nia e suspei√ß√£o contra aqueles com quem tratamos. Nunca conduzimos bem a coisa pela qual somos possu√≠dos e conduzidos.
Quem emprega nisso apenas o seu discernimento e a sua habilidade procede com mais vivacidade: amolda, dobra, difere tudo √† vontade, de acordo com as exig√™ncias das circunst√Ęncias; erra o alvo sem tormento e sem afli√ß√£o, pronto e intacto para uma nova iniciativa; avan√ßa sempre com as r√©deas na m√£o. Naquele que est√° embriagado por essa intensidade violenta e tir√Ęnica vemos necessariamente muita imprud√™ncia e injusti√ßa; a impetuosidade do seu desejo arrebata-o: s√£o movimentos temer√°rios e, se a fortuna n√£o ajudar muito,

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√Č o H√°bito Que Nos Persuade

√Č preciso n√£o nos conhecermos mal: somos aut√≥mato, tanto quanto esp√≠rito, donde resulta que o instrumento pelo qual se faz a persuas√£o n√£o √© unicamente a demonstra√ß√£o. Qu√£o poucas s√£o as coisas demonstradas! As provas n√£o convencem sen√£o o esp√≠rito. O h√°bito d√°-nos provas mais fortes e mais cr√≠veis; inclina o aut√≥mato, que arrasta o esp√≠rito, sem que ele o saiba. Quem demonstrou que amanh√£ ser√° dia, e que morremos? E que existir√° de mais cr√≠vel? √Č, portanto, o h√°bito que nos persuade; √© ele que faz tantos crist√£os, que faz os maometanos, os pag√£os, os artes√£os, os soldados, etc.
Enfim, √© preciso recorrer a ele depois de o esp√≠rito ter visto onde est√° a verdade, para nos dessedentar e nos impregnar dessa cren√ßa que nos escapa a todo o momento; pois ter as provas sempre presentes √© por demais penoso. √Č mister adquirir uma cren√ßa mais f√°cil – a do h√°bito -, que, sem viol√™ncia, sem artif√≠cio, sem argumento, nos faz crer nas coisas e predisp√Ķe todas as nossas faculdades para essa cren√ßa, de sorte que a nossa alma nela mergulhe naturalmente.N√£o basta crer pela for√ßa da convic√ß√£o, quando o aut√≥mato est√° predisposto a crer o contr√°rio. √Č preciso fazer com que as nossas duas partes creiam: o esp√≠rito,

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Política de Interesse

Em Portugal n√£o h√° ci√™ncia de governar nem h√° ci√™ncia de organizar oposi√ß√£o. Falta igualmente a aptid√£o, e o engenho, e o bom senso, e a moralidade, nestes dois factos que constituem o movimento pol√≠tico das na√ß√Ķes.
A ciência de governar é neste país uma habilidade, uma rotina de acaso, diversamente influenciada pela paixão, pela inveja, pela intriga, pela vaidade, pela frivolidade e pelo interesse.
A pol√≠tica √© uma arma, em todos os pontos revolta pelas vontades contradit√≥rias; ali dominam as m√°s paix√Ķes; ali luta-se pela avidez do ganho ou pelo gozo da vaidade; ali h√° a posterga√ß√£o dos princ√≠pios e o desprezo dos sentimentos; ali h√° a abdica√ß√£o de tudo o que o homem tem na alma de nobre, de generoso, de grande, de racional e de justo; em volta daquela arena enxameiam os aventureiros inteligentes, os grandes vaidosos, os especuladores √°speros; h√° a tristeza e a mis√©ria; dentro h√° a corrup√ß√£o, o patrono, o privil√©gio. A refrega √© dura; combate-se, atrai√ßoa-se, brada-se, foge-se, destr√≥i-se, corrompe-se. Todos os desperd√≠cios, todas as viol√™ncias, todas as indignidades se entrechocam ali com dor e com raiva.
√Ä escalada sobem todos os homens inteligentes, nervosos, ambiciosos (…) todos querem penetrar na arena,

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√Čs Linda

√Čs linda. E nem sabes quantos peda√ßos de beleza tive de juntar para chegar a esta conclus√£o. Para te construir, tive de misturar a conspira√ß√£o das searas com a tristeza do choupo, a inquieta√ß√£o da cotovia com o cheiro lavado do vento do ocidente. E a firmeza repartida dos livros, com a alegria explosiva dos mios√≥tis e a luz escura das violetas. Juntei depois um pouco de ansiedade das estrelas, a paci√™ncia das casas √† beira da fal√©sia, a espuma da terra, o respirar do sul, as perguntas de gesso que se fazem √† lua. Acrescentei-lhe a can√ß√£o das margens e pequenos peda√ßos da ang√ļstia do olhar. N√£o esqueci a intimidade do frio nem a dor branca que habita o cora√ß√£o dos muros. Por fim, deitei na tua pele o sono dos alperces, aos teus m√ļsculos prometi a viol√™ncia das cascatas, no teu sexo acordei a mem√≥ria do universo.
A tua beleza est√° no meu desejo, nos meus olhos, na minha desigual maneira de te amar. √Čs linda, repito. Mas tenta n√£o encarar o que te digo como um elogio.

Todos os Fins S√£o Neutralizados

Todos os fins são neutralizados, e os juízos de valor viram-se uns contra os outros:
Dizemos bom aquele que só escuta o seu coração, mas também aquele que só escuta o seu dever;
Dizemos que é bom o indulgente, o pacífico, mas também dizemos que é bom o valente, o inflexível, o rígido;
Dizemos bom aquele que não pratica a violência contra si próprio, mas também dizemos bom o herói, que triunfa de si mesmo;
Dizemos bom o amigo da verdade absoluta, mas também dizemos bom o homem piedoso, que tudo transfigura;
Dizemos bom aquele que é altaneiro, mas também dizemos bom o homem piedoso;
Dizemos bom o homem distinto, o aristocrata, mas também dizemos bom aquele que não é, nem desdenhoso, nem arrogante;
Dizemos bom o homem cordato, que evita conflitos, mas também dizemos bom o que deseja a luta e a vitória;
Dizemos bom aquele que quer ser sempre o primeiro, mas também dizemos bom aquele que não deseja sobrepor-se a ninguém.

A Tempestade do Destino

Por vezes o destino √© como uma pequena tempestade de areia que n√£o p√°ra de mudar de direc√ß√£o. Tu mudas de rumo, mas a tempestade de areia vai atr√°s de ti. Voltas a mudar de direc√ß√£o, mas a tempestade persegue-te, seguindo no teu encal√ßo. Isto acontece uma vez e outra e outra, como uma esp√©cie de dan√ßa maldita com a morte ao amanhecer. Porqu√™? Porque esta tempestade n√£o √© uma coisa que tenha surgido do nada, sem nada que ver contigo. Esta tempestade √©s tu. Algo que est√° dentro de ti. Por isso, s√≥ te resta deixares-te levar, mergulhar na tempestade, fechando os olhos e tapando os ouvidos para n√£o deixar entrar a areia e, passo a passo, atravess√°-la de uma ponta a outra. Aqui n√£o h√° lugar para o sol nem para a lua; a orienta√ß√£o e a no√ß√£o de tempo s√£o coisas que n√£o fazem sentido. Existe apenas areia branca e fina, como ossos pulverizados, a rodopiar em direc√ß√£o ao c√©u. √Č uma tempestade de areia assim que deves imaginar.
(…) E n√£o h√° maneira de escapar √† viol√™ncia da tempestade, a essa tempestade metaf√≠sica, simb√≥lica. N√£o te iludas: por mais metaf√≠sica e simb√≥lica que seja, rasgar-te-√° a carne como mil navalhas de barba.

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O que Sempre Soube das Mulheres

Tratam-nos mal, mas querem que as tratemos bem. Apaixonam-se por serial-killers e depois queixam-se de que nem um postalinho. Escrevem que se desunham. Fingem acreditar nas nossas mentiras desde que tenhamos graça a pregá-las. Aceitam-nos e toleram-nos porque se acham superiores. São superiores. Não têm o gene da violência, embora seja melhor não as provocarmos. Perdoam facilmente, mas nunca esquecem. Bebem cicuta ao pequeno-almoço e destilam mel ao jantar. Têm uma capacidade de entrega que até dói. São óptimas mães até que os filhos fazem 10 anos, depois perdem o norte. Pelam-se por jogos eróticos, mas com o sexo já depende. Têm dias. Têm noites. Conseguem ser tão calculistas e maldosas como qualquer homem, só que com muito mais nível. Inventaram o telemóvel ao volante. São corajosas e quando se lhes mete uma coisa na cabeça levam tudo à frente. Fazem-se de parvas porque o seguro morreu de velho e estão muito escaldadas. Fazem-se de inocentes e (milagre!) por esse acto de vontade tornam-semesmo inocentes. Nunca perdem a capacidade de se deslumbrarem. Riem quando estão tristes, choram quando estão felizes. Não compreendem nada. Compreendem tudo. Sabem que o corpo é passageiro. Sabem que na viagem há que tratar bem o passageiro e que o amor é um bom fio condutor.

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Reformar é não Ter Emenda Possível

Todo o dia, em toda a sua desola√ß√£o de nuvens leves e mornas, foi ocupado pelas informa√ß√Ķes de que havia revolu√ß√£o. Estas not√≠cias, falsas ou certas, enchem-me sempre de um desconforto especial, misto de desd√©m e de n√°usea f√≠sica. D√≥i-me na intelig√™ncia que algu√©m julgue que altera alguma coisa agitando-se. A viol√™ncia, seja qual for, foi sempre para mim uma forma esbugalhada de estupidez humana. Depois, todos os revolucion√°rios s√£o est√ļpidos, como, em grau menor, porque menos inc√≥modo, o s√£o todos os reformadores.
Revolucionário ou reformador Рo erro é o mesmo. Impotente para dominar e reformar a sua própria atitude para com a vida, que é tudo, ou o seu próprio ser, que é quase tudo, o homem foge para querer modificar os outros e o mundo externo. Todo o revolucionário, todo o reformador, é um evadido. Combater é não ser capaz de combater-se. Reformar é não ter emenda possível.
O homem de sensibilidade justa e recta razão, se se acha preocupado com o mal e a injustiça do mundo, busca naturalmente emendá-la, primeiro, naquilo em que ela mais perto se manifesta; e encontrará isso em seu próprio ser. Levar-lhe-á essa obra toda a vida.
Tudo para nós está em nosso conceito do mundo;

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Abandonar a Zona de Conforto

Ningu√©m adquire confian√ßa na rotina. √Č imposs√≠vel. √Č mais do mesmo, todos os dias para o resto das suas vidas. √Č uma esp√©cie de piloto autom√°tico programado para embater, a qualquer momento, na montanha mais alta e √© uma agoniante e pasmacenta viagem √† ingratid√£o e ao pior dos h√°bitos da ra√ßa humana: a pregui√ßa. Viv√™-la √© morrer todos os dias. A rotina, essa resigna√ß√£o perante a putrefa√ß√£o, √©, portanto, para os desistentes, para os ingratos e fracos de esp√≠rito. Na verdade, por que motivo querer√£o eles confiar em si mesmos se j√° pereceram? N√£o faz sentido, certo? Deixai-os estar, ap√°ticos como eles gostam, pois ainda que deambulem de um lado para o outro, a verdade √© que n√£o passam de voltas e viravoltas dentro das suas pr√≥prias urnas.

Toquei-te? De alguma forma te pareci violento nestas √ļltimas linhas?
Se sim, fant√°stico; mas n√£o, esta forma de me expressar nada tem a ver com agressividade ou viol√™ncia. √Č apenas dizer, letrinha a letrinha, o que penso e sinto a este respeito e a isso chama-se ser assertivo.

A Origem do Medo

A condição psicológica do medo está divorciada de qualquer perigo concreto e real. Surge sob diversas formas: desconforto, preocupação, ansiedade, nervosismo, tensão, temor, fobia, etc. Este tipo de medo psicológico é sempre algo que poderá acontecer e não algo que esteja a acontecer no momento. O leitor está aqui e agora, enquanto a sua mente se encontra no futuro. Este facto gera um hiato de ansiedade. Além disso, se o leitor se identificar com a sua mente e tiver perdido o contacto com o poder e a simplicidade do Agora, esse hiato de ansiedade acompanhá-lo-á constantemente.

A pessoa pode sempre lidar com o momento presente, mas não o consegue fazer com algo que é apenas uma projeção mental Рnão é possível lidar com o futuro.
E enquanto o leitor se identifica com a sua mente, o ego comanda a sua vida. Devido à natureza ilusória que lhe é característica e apesar dos mecanismos de defesa elaborados, o ego torna-se muito vulnerável e inseguro, vendo-se a si próprio constantemente sob ameaça. Este facto, a propósito, é o que acontece, mesmo que por fora o ego pareça muito confiante. Agora lembre-se de que uma emoção é a reação do corpo à mente.

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O Domínio da Ira

Querer extinguir inteiramente a cólera é pretensão louca dos estóicos. A cólera deve ser limitada e confinada, tanto na extensão como no tempo. Diremos em primeiro lugar como a inclinação natural e o hábito adquirido para se encolerizar podem ser temperados e acalmados. Diremos, em segundo lugar, como os movimentos particulares da cólera podem ser reprimidos, ou pelo menos refreados, para que não façam mal. Diremos, em terceiro lugar, como suscitar ou apaziguar a cólera nas outras pessoas.
Quanto ao primeiro ponto. N√£o h√° outro caminho sen√£o o de meditar e ruminar muito bem os efeitos da c√≥lera, de ver quanto ela perturba a vida humana. E a melhor ocasi√£o de fazer isso, ser√° depois de o acesso ter passado, reflectindo sobre as desvantagens da c√≥lera. S√©neca disse muito bem que ¬ęa c√≥lera √© como uma ru√≠na que se quebra contra o que derruba¬Ľ. (…) Deve o homem cuidar de temperar a c√≥lera mais pelo desd√©m do que pelo temor, para que assim possa estar acima da inj√ļria e n√£o abaixo dela: o que ser√° coisa f√°cil, para quem quiser obedecer a esta lei.
Quanto ao segundo ponto. Há três causas e motivos principais da cólera. Primeiro, ser demasiado sensível ao toque,

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