Textos sobre Moral

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Textos de moral escritos por poetas consagrados, filósofos e outros autores famosos. Conheça estes e outros temas em Poetris.

Desprezo e Receio

J√° notei que a maior parte dos homens se sente a√ßulada e indignada quando, em pleno combate moral, recorremos √† ternura e ao afecto. √Č v√™-los feras amansadas e apanhadas de surpresa assim que recorremos √† viol√™ncia ou √† dureza. Ra√ßa detest√°vel! Tal preceito mant√©m-se praticamente inalter√°vel no que respeita ao amor.
Realidade estranha e deplorável, pois, em muitos casos, é igualmente aplicável à amizade; realidade pavorosa, desesperante, mas inevitável, necessária à subsistência das nossas sociedades, dos governos mais democráticos aos mais despóticos. Quando não é refreado nem reprimido, o homem aproveita imediatamente para cometer abusos. Despreza quem o receia e maltrata quem o ama; receia quem o despreza e ama quem o maltrata.

O Homem de Car√°cter

Os homens de car√°cter s√£o a consci√™ncia da sociedade a que pertencem. A medida natural dessa for√ßa √© a resist√™ncia √†s circunst√Ęncias. Os homens impuros julgam a vida pela vers√£o reflectida nas opini√Ķes, nos acontecimentos e nas pessoas. N√£o s√£o capazes de prever a ac√ß√£o at√© que ela se concretize. Todavia, o elemento moral da ac√ß√£o preexistia no autor e a sua qualidade, boa ou m√°, era de f√°cil predi√ß√£o. Tudo na natureza √© bipolar, ou tem um p√≥lo positivo e um p√≥lo negativo. H√° um macho e uma f√™mea, um esp√≠rito e um facto, um norte e um sul. O esp√≠rito √© o positivo, o facto √© o negativo. A vontade √© o norte, a ac√ß√£o √© o p√≥lo sul. O car√°cter pode ser classificado como tendo o seu lugar natural no norte. Distribui as correntes magn√©ticas do sistema. Os esp√≠ritos fracos s√£o atra√≠dos para o p√≥lo sul, ou p√≥lo negativo. S√≥ v√™em na ac√ß√£o o lucro, ou o preju√≠zo que podem encerrar.

Não podem vislumbrar um princípio, a não ser que este se abrigue noutra pessoa. Não desejam ser amáveis mas amados. Os de carácter gostam de ouvir falar dos seus defeitos; aos outros aborrecem as faltas;

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Instinto de Sociabilidade

O instinto de sociabilidade de cada um est√° na propor√ß√£o inversa da sua idade. A criancinha solta gritos de medo e de dor, lamentando ter sido deixada sozinha por alguns minutos. Para jovens rapazes, estar sozinho √© uma grande penit√™ncia. Os adolescentes reunem-se com facilidade: s√≥ os mais nobres e mais dotados de esp√≠rito j√° procuram, √†s vezes, a solid√£o. Contudo, passar um dia inteiro sozinhos ainda lhes √© penoso. Para o homem adulto, todavia, isso √© f√°cil: ele consegue passar bastante tempo sozinho, e tanto mais quanto mais avan√ßa nos anos. O anci√£o, √ļnico sobrevivente de gera√ß√Ķes desaparecidas, encontra na solid√£o o seu elemento pr√≥prio, em parte porque j√° ultrapassou a idade de sentir os prazeres da vida, em parte porque j√° est√° morto para eles. Entretanto, em cada indiv√≠duo, o aumento da inclina√ß√£o para o isolamento e a solid√£o ocorrer√° em conformidade com o seu valor intelectual.
Pois tal tend√™ncia, como dito, n√£o √© puramente natural, produzida directamente pela necessidade, mas, antes, s√≥ um efeito da experi√™ncia vivida e da reflex√£o sobre ela, sobretudo da intelec√ß√£o adquirida a respeito da miser√°vel √≠ndole moral e intelectual da maioria dos homens. O que h√° de pior nesse caso √© o facto de as imperfei√ß√Ķes morais e intelectuais do indiv√≠duo conspirarem entre si e trabalharem de m√£os dadas,

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O Bem Moral

N√£o quero deixar passar o ensejo de indicar a diferen√ßa entre o bem em geral e o bem moral. Ambas as no√ß√Ķes t√™m algo de comum e mesmo indissoci√°vel: nada pode ser considerado um bem se n√£o tiver uma parcela de bem moral, e o bem moral √© indiscutivelmente um bem. Qual √© ent√£o a distin√ß√£o entre as duas categorias? O bem moral √© o bem absoluto, no qual se realiza totalmente a felicidade, e gra√ßas ao contacto dele todas as outras coisas se podem tornar formas de bem. Exemplificando: h√° coisas que em si nem s√£o boas nem s√£o m√°s, tais como o servi√ßo militar, a carreira diplom√°tica, a jurisprud√™ncia. Se estas tarefas forem realizadas conformemente ao bem moral, come√ßam a tornar-se bens e passam, de indiferentes, para a categoria do bem. O bem, em geral, depende de estar ou n√£o associado ao bem moral; o bem moral √© em si mesmo o bem; o bem em geral est√° dependente do bem moral, enquanto o bem moral depende apenas de si. Tudo quanto √© simplesmente um bem poderia ter sido um mal; o bem moral, pelo contr√°rio, nunca poderia deixar de ter sido um bem.

Pretensos Graus de Verdade

Uma das frequentes conclus√Ķes falsas √© esta: como algu√©m √© verdadeiro e sincero para connosco, pois diz a verdade. Assim, a crian√ßa acredita nos ju√≠zos dos pais, o crist√£o nas afirma√ß√Ķes do fundador da Igreja. Do mesmo modo, n√£o se quer admitir que tudo aquilo, que os homens, com sacrif√≠cio da felicidade e da vida, defenderam em s√©culos anteriores, nada mais era do que erros: talvez se diga que tenham sido graus da verdade. Mas, no fundo, acha-se que se algu√©m acreditou honestamente em alguma coisa e combateu e morreu pela sua cren√ßa, seria, contudo, por de mais injusto se, efectivamente, apenas um erro o tivesse inspirado. Um caso assim parece contradizer a eterna justi√ßa; por isso, o cora√ß√£o das pessoas sens√≠veis decreta constantemente contra a sua cabe√ßa a seguinte norma: entre ac√ß√Ķes morais e ju√≠zos intelectuais tem de haver um nexo necess√°rio. Infelizmente, n√£o √© assim, pois n√£o h√° justi√ßa eterna.

Liberdade e Constrangimento S√£o Dois Aspectos da Mesma Necessidade

Liberdade e constrangimento s√£o dois aspectos da mesma necessidade, que √© ser aquele e n√£o um outro. Livre de ser aquele, n√£o livre de ser um outro. (…) N√£o h√° quem o n√£o saiba. Os que reclamam a liberdade reclamam a moral interior, para que nem assim o homem deixe de ser governado. O gendarme – dizem eles de si para si – est√° no interior. E os que solicitam a coac√ß√£o afirmam-te que ela √© liberdade de esp√≠rito. Tu, na tua casa, tens a liberdade de atravessar as antec√Ęmaras, de medir a passos largos as salas, uma por uma, de empurrar as portas, de subir ou descer as escadas. E a tua liberdade cresce √† medida que aumentam as paredes e as peias e os ferrolhos. E disp√Ķes de um n√ļmero tanto maior de actos poss√≠veis onde escolher aquele que h√°s-de praticar, quantas mais obriga√ß√Ķes te imp√īs a dura√ß√£o das tuas pedras. E, na sala comum, onde assentas arraiais no meio da desordem, deixas de dispor de liberdade, passa a haver dissolu√ß√£o.
E, afinal de contas, todos sonham com uma e a mesma cidade. Mas um reclama para o homem, tal como ele é, o direito de agir.

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Virtudes Inconscientes

Todas as qualidades pessoais de que um homem tem consci√™ncia – sobretudo quando sup√Ķe que os que o rodeiam as v√™em, que saltam aos olhos dos outros -, est√£o submetidas a leis da evolu√ß√£o completamente diferentes daquelas que regem as qualidades que ele conhece mal ou n√£o conhece, as qualidades que a sua finura dissimula ao observador mais subtil e que parecem entrincheirar-se atr√°s da cortina do nada. Assim como a delicada gravura que esculpe a escama da serpente: seria um erro ver nela ou uma arma ou um ornamento, porque s√≥ √© poss√≠vel descobri-la ao microsc√≥pio, por consequ√™ncia com um olho cuja pot√™ncia √© devida a tais artif√≠cios que os animais para os quais ela teria por sua vez servido de arma ou de ornamento n√£o possuem semelhante!
As nossas qualidade morais visíveis e, nomeadamente, aquelas que nós acreditamos serem tais, seguem o seu caminho; e as do mesmo nome que se não vêem, que não podem portanto servir-nos de arma ou de ornamento, seguem assim o seu caminho, provavelmente completamente diferente, decoradas de linhas, de finuras e de esculturas que poderiam talvez dar prazer a um deus munido com um microscópio divino. Eis por exemplo o nosso zelo,

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O Princípio da Simpatia e Antipatia

O princípio da simpatia e antipatia tende ao máximo a pecar por severidade excessiva. Tende ele a aplicar castigo em muitos casos em que é injusto fazê-lo, e, em casos em que se justifica uma punição, a aplicar severidade maior do que a merecida. Não existe acto algum imaginável, por mais trivial e por menos censurável que seja, que o princípio da simpatia e antipatia não encontre algum motivo para punir. Quer se trate de diferenças de gosto, quer se trate de diferenças de opinião, sempre se encontra motivo para punir. Não existe nenhum desacordo, por mais trivial que seja, que a perseverança não consiga transformar num incidente sério. Cada qual se torna, aos olhos do seu semelhante, um inimigo e, se a lei o permitir, um criminoso. Este é um dos aspectos sob os quais a espécie humana se distingue Рpara seu desabono Рdos animais.
Por princ√≠pio de simpatia e antipatia entendo o princ√≠pio que aprova ou desaprova certas ac√ß√Ķes, n√£o na medida em que estas tendem a aumentar ou a diminuir a felicidade da parte interessada, mas simplesmente pelo facto de que algu√©m se sente disposto a aprov√°-las ou reprov√°-las.Os partid√°rios deste princ√≠pio mant√™m que a aprova√ß√£o ou a reprova√ß√£o constituem uma raz√£o suficiente em si mesma,

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O Intelectual e o Político

A miss√£o do chamado ¬ęintelectual¬Ľ √©, de certo modo, oposta √† do pol√≠tico. A obra intelectual aspira, frequentemente em v√£o, a aclarar um pouco as coisas, enquanto a do pol√≠tico s√≥i, pelo contr√°rio, consistir em confundi-las mais do que j√° estavam. Ser da esquerda √©, como ser da direita, uma das infinitas maneiras que o homem pode escolher para ser um imbecil: ambas, com efeito, s√£o formas da hemiplegia moral.

A Falta de Cultura √Čtica da Nossa Civiliza√ß√£o

Creio que o exagero da atitude puramente intelectual, orientando, muitas vezes, a nossa educa√ß√£o, em ordem exclusiva ao real e √† pr√°tica, contribuiu para p√īr em perigo os valores √©ticos. N√£o penso propriamente nos perigos que o progresso t√©cnico trouxe directamente aos homens, mas antes no excesso e confus√£o de considera√ß√Ķes humanas rec√≠procas, assentes num pensamento essencialmente orientado pelos interesses pr√°ticos que vem embotando as rela√ß√Ķes humanas.
O aperfei√ßoamento moral e est√©tico √© um objectivo a que a arte, mais do que a ci√™ncia, deve dedicar os seus esfor√ßos. √Č certo que a compreens√£o do pr√≥ximo √© de grande import√Ęncia. Essa compreens√£o, por√©m, s√≥ pode ser fecunda quando acompanhada do sentimento de que √© preciso saber compartilhar a alegria e a dor. Cultivar estes importantes motores de ac√ß√£o √© o que compete √† religi√£o, depois de libertada da supersti√ß√£o. Nesse sentido, a religi√£o toma um papel importante na educa√ß√£o, papel este que s√≥ em casos raros e pouco sistematicamente se tem tomado em considera√ß√£o.
O terr√≠vel problema magno da situa√ß√£o pol√≠tica mundial √© devido em grande parte √†quela falta da nossa civiliza√ß√£o. Sem ¬ęcultura √©tica¬Ľ , n√£o h√° salva√ß√£o para os homens.

A Moral Pura

A moral pura √© √ļnica e universal: n√£o sofreu altera√ß√Ķes ao longo dos tempos, nem altera√ß√Ķes nem melhorias. N√£o depende de factores hist√≥ricos, econ√≥micos, sociol√≥gicos ou culturais, ou seja, n√£o depende do que quer que seja. N√£o √© determin√°vel mas determinante. N√£o √© condicionada, √© condicionante. Para ser mais claro, √© um absoluto. Uma moral observ√°vel √© sempre, na pr√°tica, o resultado da mistura, em propor√ß√Ķes vari√°veis, de elementos de moral pura e elementos de origem mais obscura, quase sempre religiosa. Quanto maior √© a propor√ß√£o de elementos de moral pura, tanto mais longa e feliz ser√° a exist√™ncia de uma sociedade que suporte essa moral. Se fosse poss√≠vel imaginar uma sociedade que se regesse pelos princ√≠pios puros da moral universal, ent√£o essa sociedade duraria o que dura o mundo.

Uma Revolução Mental e Moral nos Portugueses

As ideias que, no modo de ver do Governo, devem constituir as bases do futuro estatuto constitucional n√£o s√£o s√≥ para ser aceites pela nossa intelig√™ncia, mas para ser sentidas, vividas, executadas. Passadas para uma Constitui√ß√£o, n√£o vamos julgar ter encontrado o rem√©dio de todos os males pol√≠ticos. Mortas, enterradas em textos de lei, podem ser inofensivas ‚ÄĒ o que √© j√° uma vantagem, porque outras o n√£o s√£o ‚ÄĒ mas n√£o ser√£o eficazes. As leis, verdadeiramente, fazem-nas os homens que as executam, e acabam por ser na pr√°tica, por debaixo do v√©u da sua pureza abstracta, o espelho dos nossos defeitos de entendimento e dos nossos desvios de vontade.
√Č este o motivo por que, sempre que olho para o futuro, para a consolida√ß√£o e prosseguimento do que se h√° feito em favor da ordem, da disciplina, da economia e do progresso do Pa√≠s, eu vejo nitidamente n√£o se estar construindo nada de s√≥lido fora de uma revolu√ß√£o mental e moral nos portugueses de hoje, e de uma cuidadosa prepara√ß√£o das gera√ß√Ķes de amanh√£. Eu pergunto se na alma dos que dizem acompanhar-nos h√° o amor da P√°tria at√© ao sacrif√≠cio, o desejo de bem servir, a vontade de obedecer ‚ÄĒ √ļnica escola para aprender a mandar ‚ÄĒ,

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A Superação do Animal

A fera que h√° em n√≥s precisa que se lhe minta; a moral √© mentira for√ßada, para que n√£o sejamos dilacerados por ela. Sem os erros, que se encontram nas suposi√ß√Ķes da moral, o homem teria permanecido animal. Assim, por√©m, tomou-se por algo de mais elevado e imp√īs-se leis mais severas. Tem, por isso, um √≥dio contra os est√°dios que permaneceram mais pr√≥ximos da animalidade: donde se h√°-de explicar o antigo desprezo pelo escravo, como por um n√£o-homem, como por uma coisa.

O Homem – Uma Fera Domesticada

√Č preciso ler hist√≥rias de crimes e descri√ß√Ķes de situa√ß√Ķes an√°rquicas para saber do que o homem √© realmente capaz no que diz respeito √† moral. Esses milhares de indiv√≠duos que, diante dos nossos olhos, empurram-se desordenadamente uns aos outros no tr√Ęnsito pacif√≠co devem ser vistos como tigres e lobos, cujos dentes s√£o protegidos por fortes focinheiras.

A Ilusão da Consistência da Obra do Escritor

O homem n√£o √© permanentemente igual a si mesmo. A velha concep√ß√£o dos car√°cteres rectil√≠neos e das mentalidades cristalizadas em sistemas imut√°veis abriu fal√™ncia. Tudo muda, no espa√ßo e no tempo. Para um organismo vivo, existir – mesmo no ponto de vista som√°tico – √© transformar-se. Quando come√ßamos cedo e envelhecemos na actividade das letras, n√£o h√° um n√≥s apenas um escritor; h√°, ou houve, escritores sucessivos, m√ļltiplos e diversos, representando estados de evolu√ß√£o da mesma mentalidade incessantemente renovada. Ao chegar a altura da vida em que a estabiliza√ß√£o se opera, olhamos para tr√°s, e muitas das nossas pr√≥prias obras parecem-nos escritas por um estranho, t√£o longe se encontram j√°, n√£o apenas dos nossos processos liter√°rios, mas do nosso esp√≠rito, das nossas tend√™ncias, da nossa orienta√ß√£o, dos nossos pontos de vista √©ticos e est√©ticos.
Nesse exame retrospectivo, por vezes doloroso, se de algumas coisas temos de louvar-nos Рobras a que a nossa mocidade comunicou a chama viva do entusiasmo e da paixão -, de outras somos forçados a reconhecer a pobreza da concepção, os vícios da linguagem, as carências da técnica, e tantas vezes (poenitet me!) as audácias, as incoerências, as injustiças, as demasias, a licença de certas pinturas de costumes e o erro de certas atitudes morais.

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√Č Actuando que Devemos Abandonar

Eu odeio, no fundo, toda a moral que diz: ¬ęN√£o fa√ßas isto, n√£o fa√ßas aquilo. Renuncia. Domina-te…¬Ľ. Gosto, pelo contr√°rio, da moral que me leva a fazer uma coisa, a refaz√™-la, a pensar nela de manh√£ √† noite, a sonhar com ela durante a noite, e a n√£o ter jamais outra preocupa√ß√£o que n√£o seja faz√™-la bem, t√£o bem quanto for capaz entre todos os homens. A viver assim despojamo-nos, uma a uma, de todas as preocupa√ß√Ķes que n√£o t√™m nada a ver com esta vida: v√™-se sem √≥dio nem repugn√Ęncia desaparecer hoje isto, amanh√£ aquilo, folhas amarelas que o menor sopro um pouco vivo solta da √°rvore; ou mesmo nem sequer se d√° por isso, de tal modo o objectivo absorve o olhar, de tal modo o olhar se obstina em ver para diante, n√£o se desviando nunca, nem para a direita nem para a esquerda, nem para cima nem para baixo. ¬ę√Č a nossa actividade que deve determinar o que temos de abandonar; √© actuando que deixaremos¬Ľ, eis o que amo, eis o meu pr√≥prio placitum! Mas eu n√£o quero trabalhar para me empobrecer mantendo os olhos abertos, n√£o quero essas virtudes negativas que t√™m por ess√™ncia a nega√ß√£o e a ren√ļncia.

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A Única Qualidade Específica do Homem

Esfor√ßa-te por que n√£o te suceda o mesmo que a mim: come√ßar os estudos na velhice. E esfor√ßa-te tanto mais quanto enveredaste por um estudo que dificilmente chegar√°s a dominar mesmo na velhice. ¬ęAt√© que ponto poderei progredir?¬Ľ – perguntas-me. At√© ao ponto onde chegarem os teus esfor√ßos. De que est√°s √† espera? O saber n√£o se obt√©m por obra do acaso. O dinheiro pode cair-te em sorte, as honras serem-te oferecidas, os favores e os altos cargos poder√£o talvez acumular-se sobre ti: a virtude, essa, n√£o vir√° ter contigo! N√£o √© sem custo, sem grandes esfor√ßos, que chegamos a conhec√™-la; mas vale bem a pena o esfor√ßo, porquanto de uma s√≥ vez se obt√™m todos os bens poss√≠veis. De facto, o √ļnico bem √© aquele que √© conforme √† moral; nos valores aceites pela opini√£o comum n√£o encontrar√°s a m√≠nima parcela de verdade ou de certeza.
(…) Cada coisa √© avaliada por uma qualidade espec√≠fica. O valor da videira est√° na sua produtividade, o do vinho no seu sabor, o do veado na sua rapidez; o que nos interessa nas bestas de carga √© a sua for√ßa, pois elas apenas servem para isso mesmo: transportar carga. Num c√£o a primeira qualidade √© o faro,

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Direito não é Lógica

A vida do direito n√£o tem sido a l√≥gica; tem sido a experi√™ncia. As necessidades sentidas em cada √©poca, a moral e as teorias pol√≠ticas dominantes, as intui√ß√Ķes da pol√≠tica p√ļblica expressas ou inconscientes, mesmo os preconceitos que os ju√≠zes partilham com os seus concidad√£os t√™m contado mais do que o silogismo na determina√ß√£o das leis pelas quais os homens devem ser regidos. O direito incorpora a hist√≥ria do desenvolvimento duma na√ß√£o ao longo de muitos s√©culos e n√£o pode ser tratado como se contivesse apenas os axiomas e as regras dum livro de matem√°tica. Para sabermos o que ele √© temos de saber o que ele foi e o que ele tem tend√™ncia a ser no futuro.

A Charrua do Mal

Foram os esp√≠ritos fortes e os esp√≠ritos malignos, os mais fortes e os mais malignos, que obrigaram a natureza a fazer mais progressos: reacenderam constantemente as paix√Ķes que adormecidas – todas as sociedades policiadas as adormecem -, despertaram constantemente o esp√≠rito de compara√ß√£o e de contradi√ß√£o, o gosto pelo novo, pelo arriscado, pelo inexperimentado; obrigaram o homem a opor incessantemente as opini√Ķes √†s opini√Ķes, os ideais aos ideais.
As mais das vezes pelas armas, derrubando os marcos fronteiri√ßos, violando as cren√ßas, mas fundando tamb√©m novas religi√Ķes, criando novas morais! Esta ¬ęmaldade¬Ľ que se encontra em todos os professores do novo, em todos os pregadores de coisas novas, √© a mesma ¬ęmaldade¬Ľ que desacredita o conquistador, se bem que ela se exprime mais subtilmente e n√£o mobilize imediatamente o m√ļsculo; – o que faz de resto com que desacredite com menos for√ßa! – O novo, de qualquer maneira, √© o mal, pois √© aquilo que quer conquistar, derrubar os marcos fronteiri√ßos, abater as antigas cren√ßas; s√≥ o antigo √© o bem! Os homens de bem em todas as √©pocas, s√£o aqueles que implantam profundamente as velhas ideias para lhes dar fruto, s√£o os cultivadores do esp√≠rito. Mas todos os terrenos acabam por se esgotar,

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A Crença só se Mantém pela Ritualização

Uma verdade racional √© impessoal e os factos que a sustentam ficam estabelecidos para sempre. Sendo, ao contr√°rio, pessoais e baseadas em concep√ß√Ķes sentimentais ou m√≠sticas, as cren√ßas s√£o submetidas a todos os factores suscept√≠veis de impressionar a sensibilidade. Deveriam, portanto, ao que parece, modificar-se incessantemente.
As suas partes essenciais mantêm-se, contudo, mas cumpre que sejam constantemente alentadas. Qualquer que seja a sua força no momento do seu triunfo, uma crença que não é continuamente defendida logo se desagrega. A história está repleta de destroços de crenças que, por essa razão, tiveram apenas uma existência efémera. A codificação das crenças em dogmas constitui um elemento de duração que não poderia bastar. A escrita unicamente modera a acção destruidora do tempo.
Uma cren√ßa qualquer, religiosa, pol√≠tica, moral ou social mant√©m-se sobretudo pelo cont√°gio mental e por sugest√Ķes repetidas. Imagens, est√°tuas, rel√≠quias, peregrina√ß√Ķes, cerim√īnias, cantos, m√ļsica, pr√©dicas, etc., s√£o os elementos necess√°rios desse cont√°gio e dessas sugest√Ķes.
Confinado num deserto, privado de qualquer símbolo, o crente mais convicto veria rapidamente a sua fé declinar. Se, entretanto, anacoretas e missionários a conservam, é porque incessantemente relêem os seus livros religiosos e, sobretudo, se sujeitam a uma multidão de ritos e de preces.

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