Textos sobre Fogo

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Textos de fogo escritos por poetas consagrados, filósofos e outros autores famosos. Conheça estes e outros temas em Poetris.

O Papel do Sonho na Vida

Por vezes, o homem √© mais sincero e rico na desordem dos sonhos que na consci√™ncia unit√°ria do raciocinador acordado, mas n√≥s vivemos enquanto negamos o sonho e o tornamos in√ļtil. O g√©nio √© a extradi√ß√£o do sonho, porque enriquece a consci√™ncia com as reservas e as pessoas do inconsciente. Expulsa o selvagem e o delinquente, destila a sagacidade do louco, adopta a crian√ßa e escuta o poeta. N√£o √© autocrata surdo, como o homem vulgar, mas pai de iguais. A conc√≥rdia de se terem almas subterr√Ęneas faz a grandeza do g√©nio, e a sua obra √© a sublima√ß√£o do sonho, desenrolado na vida verdadeira, liberdade concedida aos pensamentos inocentes dos reclusos.
Escolher é próprio do homem, mas escolhe-se com a rejeição e mais com o acolhimento. Vencer não significa apenas destruir, mas incorporar. A razão será tanto mais razoável quanto maior a loucura que assumir em si; o herói será mais forte se transferir para si a energia do pecador, e a fantasia do poeta tornará mais profundos os cálculos do político.
Quando o chefe da alma é o poeta, verdadeiramente poeta, não encarcera a razão, mas condu-la consigo para cima, ao céu em que até o silogismo se torna fogo.

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O Amor é Mais Forte

Os amantes de hoje preferem a droga mais leve, o tabaco mais light ou o caf√© descafeinado. J√° ningu√©m quer ficar pedrado de amor ou sofrer de uma overdose de paix√£o. As emo√ß√Ķes fortes s√£o fracas e as pr√≥prias fraquezas revelam-se mais fortes. Os amantes, esses, s√£o igualmente namorados da monotonia e amigos √≠ntimos da disciplina. O que est√° fora de controlo causa-lhes confus√£o, e afecta-lhes uma certa zona do c√©rebro, mas quase nunca lhes toca o cora√ß√£o. O amor devia ser sonhado e devia faz√™-los voar; em vez disso √© planeado, e quanto muito, f√°-los pensar.
Sobre o amor n√£o se tem controlo. √Č um sentimento que nos domina, que nos sufoca e que nos mata. Depois d√°-nos um pouco vida. No amor queremos viver, mas pouco nos importa morrer e estamos sempre dispostos a ir mais al√©m. Deixamo-nos cair em tenta√ß√£o, e n√£o nos livramos do mal, embora procuremos o bem. No amor tamb√©m se tem f√©, mas n√£o se conhecem ora√ß√Ķes: amamos porque cremos, porque desejamos e porque sabemos que o amor existe. Amamos sem saber se somos amados, e por isso podemos acabar desolados, isolados e deprimidos. Que se lixe! O amor n√£o √© justo,

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A Inconst√Ęncia no Amor e na Amizade

N√£o pretendo justificar aqui a inconst√Ęncia em geral, e menos ainda a que vem s√≥ da ligeireza; mas n√£o √© justo imputar-lhe todas as transforma√ß√Ķes do amor. H√° um encanto e uma vivacidade iniciais no amor que passa insensivelmente, como os frutos; n√£o √© culpa de ningu√©m, √© culpa exclusiva do tempo. No in√≠cio, a figura √© agrad√°vel, os sentimentos relacionam-se, procuramos a do√ßura e o prazer, queremos agradar porque nos agradam, e tentamos demonstrar que sabemos atribuir um valor infinito √†quilo que amamos; mas, com o passar do tempo, deixamos de sentir o que pens√°vamos sentir ainda, o fogo desaparece, o prazer da novidade apaga-se, a beleza, que desempenha um papel t√£o importante no amor, diminui ou deixa de provocar a mesma impress√£o; a designa√ß√£o de amor permanece, mas j√° n√£o se trata das mesmas pessoas nem dos mesmos sentimentos; mant√™m-se os compromissos por honra, por h√°bito e por n√£o termos a certeza da nossa pr√≥pria mudan√ßa.
Que pessoas teriam começado a amar-se, se se vissem como se vêem passados uns anos? E que pessoas se poderiam separar se voltassem a ver-se como se viram a primeira vez? O orgulho, que é quase sempre senhor dos nossos gostos,

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As Janelas da Memória

A mem√≥ria humana n√£o √© lida globalmente, como a mem√≥ria dos computadores, mas por √°reas espec√≠ficas a que chamo de janelas. Atrav√©s das janelas vemos, reagimos, interpretamos… Quantas vezes tentamos lembrar-nos de algo que n√£o nos vem √† ideia? Nesse caso, a janela permaneceu fechada ou inacess√≠vel.

A janela da mem√≥ria √©, portanto, um territ√≥rio de leitura num determinado momento existencial. Em cada janela pode haver centenas ou milhares de informa√ß√Ķes e experi√™ncias. O maior desafio de uma mulher, e do ser humano em geral, √© abrir o m√°ximo de janelas em cada situa√ß√£o. Se ela abre diversas janelas, poder√° dar respostas inteligentes. Se as fecha, poder√° dar respostas inseguras, med√≠ocres, est√ļpidas, agressivas. Somos mais instintivos e animalescos quando fechamos as janelas, e mais racionais quando as abrimos.

O mundo dos sentimentos possui as chaves para abrir as janelas. O medo, a tens√£o, a ang√ļstia, o p√Ęnico, a raiva e a inveja podem fech√°-las. A tranquilidade, a serenidade, o prazer e a afetividade podem abri-las. A emo√ß√£o pode fazer os intelectuais reagirem como crian√ßas agressivas e as pessoas simples reagirem como elegantes seres humanos. Sob um foco de tens√£o, como perdas e contrariedades, uma mulher serena pode ficar irreconhec√≠vel.

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A Trágica Necessidade de Conquista e de Mudança

Em todos os tempos os homens, por algum pedaço de terra de mais ou de menos, combinaram entre si despojarem-se, queimarem-se, trucidarem-se, esganarem-se uns aos outros; e para fazê-lo mais engenhosamente e com maior segurança, inventaram belas regras às quais se deu o nome de arte militar; ligaram à prática dessas regras a glória, ou a mais sólida reputação; e depois ultrapassaram-se uns aos outros na maneira de se destruirem mutuamente.
Da injusti√ßa dos primeiros homens, como da sua origem comum, veio a guerra, assim como a necessidade em que se acharam de adoptar senhores que fixassem os seus direitos e pretens√Ķes. Se, contente com o que se tinha, se tivesse podido abster-se dos bens dos vizinhos, ter-se-ia para sempre paz e liberdade.
O povo tranquilo nos lares, nas famílias e no seio de uma grande cidade onde nada tem a temer para os seus bens nem para a vida, anseia por fogo e sangue, ocupa-se de guerras, ruínas, braseiros e matanças, suporta impacientemente que os exércitos que mantêm a campanha não tenham recontros, ou se já se encontraram e não sustentem combate, ou se enfrentam e não seja sangrento o combate, e haja menos de dez mil homens no local.

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Trazer a Paix√£o de Volta

Se te encontras numa rela√ß√£o, e parto do princ√≠pio que se l√° est√°s √© porque ainda a queres, a √ļnica via para trazeres a paix√£o de volta ao seio do vosso quotidiano passa por romp√™-lo. Sim, acabar com os h√°bitos, com as rotinas doentias e enfadonhas e com tudo aquilo que est√°, deem conta ou n√£o, a acabar convosco e a consumir-vos lentamente. Daqui a pouco, se √© que j√° n√£o se encontram nesse estado, j√° nem podem olhar um para o outro, ouvir-se, cheirar-se e muito menos tocar-se e, por incr√≠vel que pare√ßa, nada disto significa que o amor tenha desaparecido. O que se escafedeu foi mesmo a paix√£o, a ponte que passa por cima de todas as diferen√ßas, conflitos e afins. Uma noite de sexo ou uma conchinha ao dormir, por exemplo, conseguem salvar a turbul√™ncia de uma semana inteira. √Č a magia dos sentidos.

Portanto, e retomando a nossa conversa, se queres despertar novamente o fogo entre ti e a pessoa com quem estás, não esperes mais pelo trágico e anunciado fim nem por uma eventual iniciativa que o outro possa tomar, agarra tu nas rédeas da tua vida e convida a pessoa para um jantar ou um outro programa qualquer num lugar diferente,

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Navegadores antigos tinham uma frase gloriosa:

Navegadores antigos tinham uma frase gloriosa:
“Navegar √© preciso; viver n√£o √© preciso”.

Quero para mim o espírito [d]esta frase,
transformada a forma para a casar como eu sou:

Viver não é necessário; o que é necessário é criar.
N√£o conto gozar a minha vida; nem em goz√°-la penso.
Só quero torná-la grande,
ainda que para isso tenha de ser o meu corpo e a (minha alma) a lenha desse fogo.

Só quero torná-la de toda a humanidade;
ainda que para isso tenha de a perder como minha.
Cada vez mais assim penso.

Cada vez mais ponho da essência anímica do meu sangue
o propósito impessoal de engrandecer a pátria e contribuir
para a evolução da humanidade.

√Č a forma que em mim tomou o misticismo da nossa Ra√ßa.

A Guerra como Revolta da Técnica

Todos os esfor√ßos para estetizar a pol√≠tica convergem para um ponto. Esse ponto √© a guerra. A guerra e somente a guerra permite dar um objectivo aos grandes movimentos de massa, preservando as rela√ß√Ķes de produ√ß√£o existentes. Eis como o fen√≥meno pode ser formulado do ponto de vista pol√≠tico. Do ponto de vista t√©cnico, a sua formula√ß√£o √© a seguinte: somente a guerra permite mobilizar na sua totalidade os meios t√©cnicos do presente, preservando as actuais rela√ß√Ķes de produ√ß√£o. √Č √≥bvio que a apoteose fascista da guerra n√£o recorre a esse argumento. Mas seria instrutivo lan√ßar os olhos sobre a maneira como ela √© formulada. No seu manifesto sobre a guerra colonial da Eti√≥pia, diz Marinetti: ¬ęH√° vinte e sete anos, n√≥s futuristas contestamos a afirma√ß√£o de que a guerra √© antiest√©tica (…) Por isso, dizemos: (…) a guerra √© bela, porque gra√ßas √†s m√°scaras de g√°s, aos megafones assustadores, aos lan√ßa-chamas e aos tanques, funda a supremacia do homem sobre a m√°quina subjugada. A guerra √© bela, porque inaugura a metaliza√ß√£o on√≠rica do corpo humano. A guerra √© bela, porque enriquece um prado florido com as orqu√≠deas de fogo das metralhadoras. A guerra √© bela, porque conjuga numa sinfonia os tiros de fuzil,

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O Segredo de Salvar-me Pelo Amor

Quem há aí que possa o cálix
De meus l√°bios apartar?
Quem, nesta vida de penas,
Poder√° mudar as cenas
Que ningu√©m p√īde mudar ?

Quem possui na alma o segredo
De salvar-me pelo amor?
Quem me dar√° gota de √°gua
Nesta angustiosa fr√°gua
De um deserto abrasador?

Se alguém existe na terra
Que tanto possa, és tu só!
Tu só, mulher, que eu adoro,
Quando a Deus piedade imploro,
E a ti peço amor e dó.

Se soubesses que tristeza
Enluta meu coração,
Terias nobre vaidade
Em me dar felicidade,
Que eu busquei no mundo em v√£o.

Busquei-a em tudo na terra,
Tudo na terra mentiu!
Essa estrela carinhosa
Que luz √† inf√Ęncia ditosa
Para mim nunca luziu.

Infeliz desde criança
Nem me foi risonha a fé;
Quando a terra nos maltrata,
Caprichosa, acerba e ingrata,
Céu e esperança nada é.

Pois a ventura busquei-a
No vivo anseio do amor,
Era ardente a minha alma;
Conquistei mais de uma palma
À custa de muita dor.

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A Soberania da Alma

A alma sabe que as verdadeiras riquezas não se encontram onde nós as amontoamos: é a alma que nós devemos encher, não o cofre! Àquela devemos nós conceder o domínio sobre tudo, atribuir a posse da natureza inteira de modo a que os seus limites coincidam com o oriente e o ocaso, a que a alma, identicamente aos deuses, tudo possua, olhando soberanamente do alto os ricos e as suas riquezas Рesses ricos a quem menos alegria proporciona o que têm do que tristeza lhes dá o que aos outros pertence! Quando se eleva a tais alturas, a alma passa a cuidar do corpo (esse mal necessário!), não como amigo fiel, mas apenas como tutor, sem se submeter à vontade de quem está sob sua tutela.
Ningu√©m pode simultaneamente ser livre e escravo do corpo: para j√° n√£o falar de outras tiranias que o excessivo cuidado com ele nos imp√Ķe, a soberania do corpo tem exig√™ncias que s√£o aut√™nticos caprichos. A alma desprende-se dele ora com serenidade, ora de firme prop√≥sito – busca a sua sa√≠da sem se importar com a sorte dessa pobre coisa que para a√≠ fica! N√≥s n√£o ligamos import√Ęncia aos p√™los da barba ou aos cabelos que acab√°mos de cortar;

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O Amor é Inevitável

(O Amor) √Č inevit√°vel, faz parte da combust√£o da natureza, √© for√ßa, mar, elemento, √°gua, fogo, destrui√ß√£o, √© atmosfera, respira-se, quando se morre abandona-se, o amor deixa, fica isolado, √© um elemento, come-se, bebe-se, sustenta p√£o, p√£o di√°rio para rico e pobre, p√£o que ilumina o forno do amassador, aparece nas condi√ß√Ķes mais estranhas, bicho que nasce, copula dentro de si mesmo, paira, espermatoz√≥ide e √≥vulo, as duas coisas ao mesmo tempo, amor √© assim outro elemento fundamental da natureza, as pessoas vivem tanto com o amor, ou t√£o alheias do amor, que nem notam, raro percebem que o amor existe, raro percebem que respiram, que a √°gua est√°, √© indispens√°vel, ningu√©m pode viver alheio aos elementos, ao amor.

O Acto Poético

O acto po√©tico √© o empenho total do ser para a sua revela√ß√£o. Este fogo do conhecimento, que √© tamb√©m fogo de amor, em que o poeta se exalta e consome, √© a sua moral. E n√£o h√° outra. Nesse mergulho do homem nas suas √°guas mais silenciadas, o que vem √† tona √© tanto uma singularidade como uma pluralidade. Mas, curiosamente, o esp√≠rito humano atenta mais facilmente nas diferen√ßas do que nas semelhan√ßas, esquecendo-se, e √© Goethe quem o lembra, que o particular e o universal coincidem, e assim a palavra do poeta, t√£o fiel ao homem, acaba por ser palavra de esc√Ęndalo no seio do pr√≥prio homem. Na verdade, ele nega onde outros afirmam, desoculta o que outros escondem, ousa amar o que outros nem sequer s√£o capazes de imaginar. Palavra de afli√ß√£o mesmo quando luminosa, de desejo apesar de serena, rumorosa at√© quando nos diz o sil√™ncio, pois esse ser sedento de ser, que √© o poeta, tem a nostalgia da unidade, e o que procura √© uma reconcilia√ß√£o, uma suprema harmonia entre luz e sombra, presen√ßa e aus√™ncia, plenitude e car√™ncia.

A Moral Pura é Impossível

A nossa moral √© a cristaliza√ß√£o de um movimento interior completamente diferente dela! Nada do que dizemos faz sentido. Pensa numa frase qualquer, ocorre-me, por exemplo, esta: ¬ęNuma pris√£o deve imperar o arrependimento!¬Ľ √Č uma frase que se pode pronunciar com a melhor das consci√™ncias, mas ningu√©m a toma √† letra, sen√£o est√°vamos a pedir o fogo do inferno para os encarcerados! Como √© que a entendemos ent√£o? H√° com certeza muito poucos que saibam o que √© o arrependimento, mas todos dizem onde ele deve imperar. Ou ent√£o pensa em algo de exaltante: como √© que isso se mistura com a moral? Quando √© que estivemos com o rosto t√£o mergulhado no p√≥ que isso nos fa√ßa sentir a bem-aventuran√ßa do arrebatamento? Ou ent√£o toma √† letra uma express√£o como ¬ęser assaltado por um pensamento¬Ľ: no momento em que sentisses no corpo um tal contacto j√° estarias no limiar da loucura! Cada palavra quer ent√£o ser lida na sua literalidade para n√£o degenerar em mentira, mas n√£o podemos tomar nenhuma √† letra, sob pena de o mundo se transformar num manic√≥mio! H√° uma qualquer grande embriaguez que se eleva da√≠ sob a forma de uma obscura recorda√ß√£o, e de vez em quando imaginamos que todas as nossas experi√™ncias s√£o partes soltas e destru√≠das de uma antiga totalidade que um dia se foi completando de maneira errada.

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O Homem é o Animal Menos Preparado

A capacidade do homem para o pensamento abstracto, que parece faltar √† maioria dos outros mam√≠feros, conferiu-lhe sem d√ļvida o seu actual dom√≠nio sobre a superf√≠cie da Terra ‚Äď um dom√≠nio disputado apenas por centenas de milhares de tipos de insectos e organismos microsc√≥picos. Este pensamento abstracto √© o respons√°vel pela sua sensa√ß√£o de superioridade e pelo que, sob esta sensa√ß√£o, corresponde a uma certa medida de realidade, pelo menos dentro de estreitos limites. Mas o que √© frequentemente subestimado √© o facto de que a capacidade de desempenhar um acto n√£o √©, de forma alguma, sin√≥nima de seu exerc√≠cio salubre. √Č f√°cil observar que a maior parte do pensamento do homem √© est√ļpida, sem sentido e injuriosa para ele. Na realidade, de todos os animais, ele parece o menos preparado para tirar conclus√Ķes apropriadas nas quest√Ķes que afectam mais desesperadamente o seu bem-estar.
Tente imaginar um rato, no universo das ideias dos ratos, chegando a no√ß√Ķes t√£o ocas de plausibilidade como, por exemplo, o Swedenborgianismo, a homeopatia ou a telepatia mental. O instinto natural do homem, de facto, nunca se dirige para o que √© s√≥lido e verdadeiro; prefere tudo que √© especioso e falso. Se uma grande na√ß√£o moderna se confrontar com dois problemas antag√≥nicos ‚Äď um deles baseado em argumentos prov√°veis e racionais,

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A Vida Oblíqua

S√≥ agora pressenti o obl√≠quo da vida. Antes s√≥ via atrav√©s de cortes retos e paralelos. N√£o percebia o sonso tra√ßo enviesado. Agora adivinho que a vida √© outra. Que viver n√£o √© s√≥ desenrolar sentimentos grossos ‚ÄĒ √© algo mais sortil√©gico e mais gr√°cil, sem por isso perder o seu fino vigor animal. Sobre essa vida insolitamente enviesada tenho posto minha pata que pesa, fazendo assim com que a exist√™ncia fene√ßa no que tem de obl√≠quo e fortuito e no entanto ao mesmo tempo sutilmente fatal. Compreendi a fatalidade do acaso e n√£o existe nisso contradi√ß√£o.

A vida oblíqua é muito íntima. Não digo mais sobre essa intimidade para não ferir o pensar-sentir com palavras secas. Para deixar esse oblíquo na sua independência desenvolta.
E conheço também um modo de vida que é suave orgulho, graça de movimentos, frustração leve e contínua, de uma habilidade de esquivança que vem de longo caminho antigo. Como sinal de revolta apenas uma ironia sem peso e excêntrica. Tem um lado da vida que é como no inverno tomar café num terraço dentro da friagem e aconchegada na lã.
Conheço um modo de vida que é sombra leve desfraldada ao vento e balançando leve no chão: vida que é sombra flutuante,

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Antes do fogo vêm o vapor da fornalha e a fumaça: assim, antes do sangue, vêm as ofensas

Antes do fogo vêm o vapor da fornalha e a fumaça: assim, antes do sangue, vêm as ofensas.

Regras Básicas de Avaliação do Amante

Para avaliar o amor da vossa amante, lembrai-vos:
1¬ļ – De que, quanto mais prazer f√≠sico entrou na base do vosso amor, no que noutros tempos determinou a intimidade, tanto mais ele est√° sujeito √† infidelidade. Isto aplica-se sobretudo aos amores cuja cristaliza√ß√£o foi favorecida pelo fogo da juventude, aos dezasseis anos.
2¬ļ – De que o amor de duas pessoas que amam n√£o √© quase nunca o mesmo. O amor-paix√£o tem as suas fases durante as quais, e sucessivamente, um dos dois ama mais que o outro. Muitas vezes a simples galanteria ou o amor de vaidade responde ao amor-paix√£o, e √© sobretudo a mulher que ama com exalta√ß√£o. Qualquer que seja o amor sentido por um dos dois amantes, a partir do momento em que sente c√≠umes, exige do outro que preencha as condi√ß√Ķes do amor-paix√£o; a vaidade simula nele todas as necessidades de um cora√ß√£o terno.
Finalmente, nada aborrece tanto o amor-gosto como a existência do amor-paixão no outro ou outra.
Muitas vezes um homem de espírito, ao fazer a corte a uma mulher, não consegue senão fazê-la pensar no amor e enternecer-lhe a alma. Ela recebe bem este homem que lhe dá um tal prazer.

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No Mundo n√£o Tem Boa Sorte Sen√£o quem Tem por Boa a que Tem

Uma cousa sabei de mim: que queria antes o bem do mal, que o mal do bem; porque muito mais se sente o porvir, que o passado; e a morte, até matar, mata. Não sei se sereis marca de voar tão alto; porque, para tomar a palha a esta matéria, são necessárias asas de nebri. Mas vós sois homem de prol, e desculpa-me a conta em que vos tenho. E a que de mim vos sei dar, é que:

Esperança me despede,
tristeza n√£o me falece,
e tudo o mais m’aborrece.
J√° que mais n√£o mereceu
minha estrela,
só a tristeza conheço,
pois que para mim nasceu
e eu para ela.

No mundo n√£o tem boa sorte sen√£o quem tem por boa a que tem. E daqui me vem contentar-me, de triste. Mas olhai de que maneira:

Vivo assi ao revés,
tomando por certa vida
certa morte,
com que folgo, em que me pês,
pois minha sorte é servida
de tal sorte.

Uma cousa sabei: que o mal, ainda que às vezes o vejais louvar, não há quem o louve com a boca que o não taxe com o coração:

Ajudai-me a sofrer
vida t√£o sem sofrimento,

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Vou Voltar para Mim Mesma

Minha vida √© um grande desastre. √Č um desencontro cruel, √© uma casa vazia. Mas tem um cachorro dentro latindo. E eu ‚ÄĒ s√≥ me resta latir para Deus. Vou voltar para mim mesma. √Č l√° que eu encontro uma menina morta sem pec√ļlio. Mas uma noite vou √† Sec√ß√£o de Cadastro e ponho fogo em tudo e nas identidades das pessoas sem pec√ļlio. E s√≥ ent√£o fico t√£o aut√≥noma que s√≥ pararei de escrever depois de morrer. Mas √© in√ļtil, o lago azul da eternidade n√£o pega fogo. Eu √© que me incineraria at√© meus ossos. Virarei n√ļmero e p√≥. Que assim seja. Am√©n. Mas protesto. Protesto √† toa como um c√£o na eternidade da Se√ß√£o de Cadastro.

O Amor n√£o Rende Juros

137
√Č verdade ¬ęque um baixo amor os fortes enfraquece¬Ľ
mas também o grande amor torna ridículos os grandes,
pois o amor √©, em energia material sobre o mundo, um roubo ‚ÄĒ apesar de, em sensa√ß√Ķes, ser magn√≠fico. 0 amor ser√° √ļtil internamente,
mas externamente n√£o carrega um tijolo.
Disso nunca tive d√ļvidas.

138
A vida, √© certo, n√£o ser√° um s√≠tio excepcional para as paix√Ķes.
Nos países humanos, o amor mistura-se muito
com palavras equívocas.
0 fogo que existe numa lareira, por exemplo,
é um fogo servil, cultural, educado.
Uma coisa vermelha, mas mansa,
que nos obedece.
Só é natureza, o fogo na lareira,
quando, vingando-se, provoca um incêndio.
E o amor assim funciona. Mas é preferível o contrário.

139
√Č desarranjo de estrat√©gias e planos,
surpresa ritmada, uma ilegalidade exaltante que n√£o prejudica
os vizinhos.
Mas atenção, de novo: o amor não faz bem aos países,
n√£o desenvolve as suas ind√ļstrias, nem a economia.
Disso nunca tive d√ļvidas. E por isso √© prefer√≠vel n√£o.

140
No entanto, qual é o país que pode impedir que o amor
entre?

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