Citação de

O Poema √© uma √Ārvore de um S√≥ Fruto

Creio que nenhum de v√≥s h√°-de estranhar que eu diga que o poeta √© aquele que perdeu a palavra antes de a poder dizer; dito de outro modo. Ele √© o que fala ou escreve antes de conhecer o enunciado do que vai dizer. O grito, o sil√™ncio, a aridez da n√£o inspira√ß√£o determinam inicialmente a cria√ß√£o po√©tica; o poema nunca √© real, nunca se efectiva numa conclus√£o, ou num objectivo determinado. O poema nasce de um grito, de um assombro, de uma ruptura, da noite do nada e da disponibilidade da linguagem relacional; √© sempre a transposi√ß√£o de um referente real ou imagin√°rio para uma linguagem de equival√™ncia, mas necessariamente, livremente, distanciada da refer√™ncia. Esta linguagem √© a ¬ęcoer√™ncia da incoer√™ncia¬Ľ, ¬ęuma linguagem na linguagem¬Ľ, mantendo embora a voz mesma do existente ausente que √© o poeta, no ¬ęfingimento¬Ľ, na fic√ß√£o, na heteron√≠mia do poema. Longe de ser um astro fixo, o poema suspende o enunciado para fluir numa rela√ß√£o metam√≥rfica de palavras, de imagens, de sons e de rela√ß√Ķes que s√£o todos os elementos consonantes do poema; o poema √©, assim, um √©brio fluir de chamas, de estrelas, de possibilidades, de vibra√ß√Ķes, de sil√™ncios de uma respira√ß√£o errante em que a verdade nos escapa no mist√©rio da sua nostalgia, na utopia da sua liberdade, na sua fuga de afirma√ß√£o exemplar ou categ√≥rica; um poema √© a reserva de um n√£o diz√≠vel que o liberta da afirma√ß√£o na dial√©ctica do ¬ęn√£o¬Ľ e do ¬ęsim¬Ľ at√© √† aboli√ß√£o do terrorismo mental, da racionalidade tecnocr√°tica que asfixia a criatividade dos poss√≠veis inesgot√°veis do ser humano; o poema √© o canto escrito que transcende o escrito e reflui para a origem do seu sil√™ncio, mantendo a voz do sujeito na ignor√Ęncia aberta, no fogo da sua sede, no fluir livre da linguagem e da conflu√™ncia cosmog√≥nica. O poema √© uma √°rvore de um s√≥ fruto que floresce numa ruptura ou numa perda inicial que se ramifica e fluidifica entre a √°gua e o fogo, entre o grito irrevog√°vel e a melodia de um homem que se encontra na sua perda sem caminho, na plenitude do deserto, na plenitude de uma palavra nua, √† luz de uma l√Ęmpada sem morada na noite do mundo.