Passagens sobre Deserto

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J√° Sobre o Coche de √Čbano Estrelado

Já sobre o coche de ébano estrelado,
Deu meio giro a Noite escura e feia,
Que profundo silêncio me rodeia
Neste deserto bosque, à luz vedado!

Jaz entre as folhas Zéfiro abafado,
O Tejo adormeceu na lisa areia;
Nem o mavioso rouxinol gorjeia,
Nem pia o mocho, às trevas acostumado.

Só eu velo, só eu, pedindo à Sorte
Que o fio com que est√° mih’alma presa
√Ä vil mat√©ria l√Ęnguida, me corte.

Consola-me este horror, esta tristeza,
Porque a meus olhos se afigura a Morte
No silêncio total da Natureza.

Andei Léguas de Sombra

Andei léguas de sombra
Dentro em meu pensamento.
Floresceu às avessas
Meu ócio com sem-nexo,
E apagaram-se as l√Ęmpadas
Na alcova cambaleante.

Tudo prestes se volve
Um deserto macio
Visto pelo meu tato
Dos veludos da alcova,
N√£o pela minha vista.
H√° um o√°sis no Incerto
E, como uma suspeita
De luz por n√£o-h√°-frinchas,
Passa uma caravana.

Esquece-me de s√ļbito
Como é o espaço, e o tempo
Em vez de horizontal
√Č vertical.

Destino

Aquela voz era intranq√ľila. Trago-a
No ouvido ainda ininterruptamente:
Voz de alma que sofreu, voz de vivente,
Desoladora e trêmula de mágoa.

Era o rio da Vida; a √°gua paciente
Que, arrastando calhaus, de fr√°gua em fr√°gua
Ora beijava a sombra na corrente,
Ora abraçava o Sol com os braços de água.

Deus te leve, √°gua pura e fresca!… A treva
Não te interrompa a marcha transitória,
Porque o Destino ingrato que te leva

Para o vale florido ou o amplo deserto,
√Č o mesmo que me arrasta o passo incerto
Para o despenhadeiro ou para a Glória.

Aquele Claro Sol

Aquele claro sol, que me mostrava
o caminho do céu mais chão, mais certo,
e com seu novo raio, ao longe, e ao perto,
toda a sombra mortal m’afugentava,

deixou a pris√£o triste, em que c√° estava.
Eu fiquei cego, e s√≥, c’o passo incerto,
perdido peregrino no deserto
a que faltou a guia que o levava.

Assi c’o esprito triste, o ju√≠zo escuro,
suas santas pisadas vou buscando
por vales, e por campos, e por montes.

Em toda parte a vejo, e a figuro.
Ela me toma a m√£o e vai guiando,
e meus olhos a seguem, feitos fontes.

A vaidade √© uma doen√ßa espiritual muito grave.¬† √Č significativo que os Padres do Deserto tenham dito que a vaidade √© uma tenta√ß√£o contra a qual devemos lutar toda a vida, porque volta sempre para nos roubar a verdade.

O Amor entre o Trigo

Cheguei ao acampamento dos Hern√°ndez antes do meio-dia, fresco e alegre. A minha cavalgada solit√°ria pelos caminhos desertos, o repouso do sono, tudo isso refulgia na minha taciturna juventude.
A debulha do trigo, da aveia, da cevada, fazia-se ainda com éguas. Nada no mundo é mais alegre que ver rodopiar as éguas, trotando à volta do calcadouro do cereal, sob o grito espicaçante dos cavaleiros. Brilhava um sol esplêndido e o ar era um diamante silvestre que fazia brilhar as montanhas. A debulha é uma festa de ouro. A palha amarela acumula-se em montanhas douradas. Tudo é actividade e bulício, sacos que correm e se enchem, mulheres que cozinham, cavalos que tomam o freio nos dentes, cães que ladram, crianças que a cada momento é preciso livrar, como se fossem frutos da palha, das patas dos cavalos.

Oe Hernández eram uma tribo singular. Os homens, despenteados e por barbear, em mangas de camisa e com revólver à cinta, andavam quase sempre besuntados de óleo, de poeiras, de lama, ou molhados até aos ossos pela chuva. Pais, filhos, sobrinhos, primos, eram todos da mesma catadura. Estavam horas inteiras ocupados debaixo de um motor, em cima de um tecto,

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Ao longo dos tempos, o Pastor Ressuscitado n√£o se cansa de nos procurar, os seus irm√£os perdidos nos desertos do mundo. E com os sinais da Paix√£o – as feridas do seu amor misericordioso – atrai-nos para o seu caminho da vida.

Se ¬ęos desertos exteriores se multiplicam no mundo porque os desertos interiores se tornaram t√£o vastos¬Ľ, precisamos de uma convers√£o ecol√≥gica que seja tamb√©m uma profunda convers√£o interior.

Quanto me fazem pensar os trinta anos de vida oculta de Jesus! Da primeira inf√Ęncia e da adolesc√™ncia em Nazar√© numa fam√≠lia pobre e depois no deserto, em solid√£o e na esteira de grandes mestres como Jo√£o Batista, para jejuar, rezar, fazer sil√™ncio e preparar-se para a tarefa que o esperava, a miss√£o p√ļblica.

Na vida de qualquer cristão há sempre a experiência do deserto, da purificação interior, da noite escura da alma.

Never More

A uma falsa amiga

I

N√£o te perd√īo, n√£o, meu tristes olhos
N√£o mais hei de fitar nos teus, sorrindo:
Jamais minh’alma sobre um mar de escolhos
H√° de chamar por ti no anseio infindo.

Jamais, jamais, nos delicados folhos
Do cora√ß√£o como n’um ramo lindo,
H√° de cantar teu nome entre os abrolhos
A √°ria gentil de meu sonhar j√° findo.

N√£o te perd√īo, n√£o! E em tardes claras,
Cheias de sonhos e delícias raras,
Quando eu passar à hora do Sol posto:

N√£o rias para mim que sofro e penso,
Deixa-me s√≥ neste deserto imenso…
Ah! se eu pudesse nunca ver teu rosto!

As Vozes Da Natureza

As vozes que nos vêm da natureza
Traduzem sempre um m√ļtuo sentimento.
Cantam as frondes pela voz do vento,
Pelo manancial canta a represa.

Pelas estrelas canta o firmamento
Nas suas grandes noites de beleza.
Cada nota a outra nota vive presa,
√Č um pensamento de outro pensamento.

Pelas folhas murmura a voz da estrada,
Pelos salgueiros canta a √°gua parada
E o amigo sol, apenas se levanta,

Jogando o manto de ouro ao céu deserto,
Chama as cigarras todas para perto,
Que é na voz das cigarras que ele canta.

Se me Comovesse o Amor

Se me comovesse o amor como me comove
a morte dos que amei, eu viveria feliz. Observo
as figueiras, a sombra dos muros, o jasmineiro
em que ficou gravada a tua m√£o, e deixo o dia

caminhar por entre veredas, caminhos perto do rio.
Se me comovessem os teus passos entre os outros,
os que se perdem nas ruas, os que abandonam
a casa e seguem o seu destino, eu saberia reconhecer

o sinal que ninguém encontra, o medo que ninguém
comove. Vejo-te regressar do deserto, atravessar
os templos, iluminar as varandas, chegar tarde.

Por isso n√£o me procures, n√£o me encontres,
não me deixes, não me conheças. Dá-me apenas
o pão, a palavra, as coisas possíveis. De longe.

… tamb√©m ela, a Terra precisa de solid√£o, no deserto, pois procura conhecer a si mesma.

Por mais que a alma lide, n√£o rompe a sua solid√£o, e caminha com ela, como formiga num deserto perdido.

O alimento que nos oferece o Senhor é diferente dos outros e talvez não nos pareça tão saboroso como certas vitualhas que nos oferece o mundo.

Sonhamos ent√£o com outros pratos, como os hebreus no deserto, os quais lastimavam as cebolas que comiam no Egito, mas esqueciam que aqueles alimentos eram consumidos na escravid√£o.

Transcendentalismo

(A J. P. Oliveira Martins)

J√° sossega, depois de tanta luta,
Já me descansa em paz o coração.
Caí na conta, enfim, de quanto é vão
O bem que ao Mundo e à Sorte se disputa.

Penetrando, com fronte n√£o enxuta,
No sacr√°rio do templo da Ilus√£o,
Só encontrei, com dor e confusão,
Trevas e p√≥, uma mat√©ria bruta…

N√£o √© no vasto mundo ‚ÄĒ por imenso
Que ele pare√ßa √† nossa mocidade ‚ÄĒ
Que a alma sacia o seu desejo intenso…

Na esfera do invisível, do intangível,
Sobre desertos, v√°cuo, soledade,
V√īa e paira o esp√≠rito impass√≠vel!

No deserto redescobre-se o valor daquilo que √© essencial para viver; assim, s√£o inumer√°veis no mundo contempor√Ęneo os sinais, muitas vezes manifestados de forma impl√≠cita ou negativa, da sede de Deus, do sentido √ļltimo da vida.

(H)Aras E Sara(H)

Nas areias do Saara sei-me potro
corcel bebendo o fogo do deserto.
Nas almofadas dunas t√£o macias
deito-me ao sono sonho cavalgando.

Arrebatado sigo sem miragens
teu trote gracioso nesse o√°sis
de ver nas anchas ancas tanta √°gua
e sei que a minha sede tem abrigo.

Sedento garanh√£o de antiga Ar√°bia
no solo de Israel lua de alfanje
brilha na tenda a estrela de David.

Iluminada alcova ardendo em s√Ęndalo
a sarça da paixão demove intrigas
e rega no seu vinho nossos corpos.

Mestre

Mestre, meu mestre querido,
Coração do meu corpo intelectual e inteiro!
Vida da origem da minha inspiração!
Mestre, que é feito de ti nesta forma de vida?

N√£o cuidaste se morrerias, se viverias, nem de ti nem de nada,
Alma abstracta e visual até aos ossos.
Aten√ß√£o maravilhosa ao mundo exterior sempre m√ļltiplo,
Ref√ļgio das saudades de todos os deuses antigos,
Espírito humano da terra materna,
Flor acima do dil√ļvio da intelig√™ncia subjectiva…

Mestre, meu mestre!
Na ang√ļstia sensacionalista de todos os dias sentidos,
Na m√°goa quotidiana das matem√°ticas de ser,
Eu, escrevo de tudo como um pó de todos os ventos,
Ergo as m√£os para ti, que est√°s longe, t√£o longe de mim!

Meu mestre e meu guia!
A quem nenhuma coisa feriu, nem doeu, nem perturbou,
Seguro como um sol fazendo o seu dia involuntariamente,
Natural como um dia mostrando tudo,
Meu mestre, meu coração não aprendeu a tua serenidade.
Meu coração não aprendeu nada.
Meu coração não é nada,
Meu coração está perdido.

Mestre, só seria como tu se tivesse sido tu.

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