Textos sobre Gente

273 resultados
Textos de gente escritos por poetas consagrados, filósofos e outros autores famosos. Conheça estes e outros temas em Poetris.

A D√ļvida, a Solid√£o, logo… a Escrita

Na vida, chega um momento – e penso que ele √© fatal – ao qual n√£o √© poss√≠vel escapar, em que tudo √© posto em causa: o casamento, os amigos, sobretudo os amigos do casal. Tudo menos a crian√ßa. A crian√ßa nunca √© posta em d√ļvida. E essa d√ļvida cresce √† sua volta. Essa d√ļvida, est√° s√≥, √© a da solid√£o. Nasce dela, da solid√£o. Podemos j√° nomear a palavra. Creio que h√° muita gente que n√£o poderia suportar o que aqui digo, que fugiria. Talvez seja por essa raz√£o que nem todos os homens s√£o escritores. Sim. Essa √© a diferen√ßa. Essa √© a verdade. Mais nada. A d√ļvida √© escrever. √Č, portanto, tamb√©m, o escritor. E com o escritor todo o mundo escreve. √Č algo que sempre se soube.
Creio tamb√©m que sem esta d√ļvida primeira do gesto em direc√ß√£o √† escrita n√£o existe solid√£o. Nunca ningu√©m escreveu a duas vozes. Foi poss√≠vel cantar a duas vozes, ou fazer m√ļsica tamb√©m, e jogar t√©nis, mas escrever, n√£o. Nunca.

Mediocridade de Espírito

O nosso m√°ximo esfor√ßo de independ√™ncia consiste em opor, por vezes, um pouco de resist√™ncia √†s sugest√Ķes quotidianas. A grande massa humana nenhuma resist√™ncia op√Ķe e segue as cren√ßas, as opini√Ķes e os preconceitos do seu grupo. Ela obedece-lhe sem ter mais consci√™ncia do que a folha seca arrastada pelo vento.
S√≥ numa elite muito restrita se observa a faculdade de possuir, algumas vezes, opini√Ķes pessoais. Todos os progressos da civiliza√ß√£o procedem, evidentemente, desses esp√≠ritos superiores, mas n√£o se pode desejar a sua multiplica√ß√£o sucessiva. Inapta a adaptar-se imediatamente a progressos r√°pidos e profundos em demasia, uma sociedade tornar-se-ia logo an√°rquica. A estabilidade necess√°ria √† sua exist√™ncia √© precisamente estabelecida gra√ßas ao grupo compacto dos esp√≠ritos lentos e med√≠ocres, governados por influ√™ncias de tradi√ß√Ķes e de meio.
√Č, portanto, √ļtil para uma sociedade que ela se componha de uma maioria de homens m√©dios, desejosos de agir como toda a gente, que t√™m por guias as opini√Ķes e as cren√ßas gerais. √Č muito √ļtil tamb√©m que as opini√Ķes gerais sejam pouco tolerantes, pois o medo do ju√≠zo alheio constitui uma das bases mais seguras da nossa moral.
A mediocridade de espírito pode, pois, ser benéfica para um povo,

Continue lendo…

A Violência Oculta

A primeira raz√£o por que a viol√™ncia maior actua de modo silencioso, e das poucas vezes que falamos dela falamos apenas da ponta do icebergue. N√≥s acreditamos que estamos perante fen√≥menos de viol√™ncia apenas quando essa tens√£o assume propor√ß√Ķes vis√≠veis, quando ela surge como espect√°culo medi√°tico. Mas esquecemos que existem formas de viol√™ncia oculta que s√£o grav√≠ssimas. Esquecemos, por exemplo, que todos os dias, no nosso pa√≠s, s√£o sexualmente violentadas crian√ßas. E que, na maior parte das vezes, os agressores n√£o s√£o estranhos. Quem viola essas crian√ßas s√£o principalmente parentes. Quem pratica esse crime √© gente da pr√≥pria casa.

N√≥s temos n√≠veis alt√≠ssimos de viol√™ncia dom√©stica, em particular, de viol√™ncia contra a mulher. Mas esse assunto parece ser preocupa√ß√£o de poucos. Fala-se disso em algumas ONGs, em alguns semin√°rios. A Lei contra a viol√™ncia dom√©stica ainda n√£o foi aprovada na Assembleia da Rep√ļblica.

Existem várias outras formas invisíveis de violência. Existe violência quando os camponeses são expulsos sumariamente das suas terras por gente poderosa e não possuem meios para defender os seus direitos. Existe uma violência contida quando, perante o agente corrupto da autoridade, não nos surge outra saída senão o suborno. Existe, enfim, a violência terrível que é o vivermos com medo.

Continue lendo…

Os Descrentes

Nunca encontrei um descrente, apenas desvairados inquietos… √© assim que √© melhor trat√°-los. S√£o pessoas diferentes, n√£o se percebe bem o que s√£o: tanto os grandes como os pequenos, os ignorantes como os cultos, mesmo a gente da classe mais simples, tudo neles √© desvario. Porque passam a vida a ler e a interpretar e depois, fartos da do√ßura livresca, continuam perplexos e n√£o conseguem resolver nada.
H√° quem se disperse, de maneira que n√£o consegue atentar em si mesmo. H√° quem seja rijo como pedra, mas no seu cora√ß√£o vagueiam sonhos. H√° tamb√©m o insens√≠vel e f√ļtil que s√≥ quer gozar e ironizar. H√° quem s√≥ tire dos livros florinhas, e mesmo elas consoante a sua opini√£o, e h√° nele desvario e falta de perspic√°cia. E digo mais: h√° muito t√©dio.
O homem pequeno é necessitado, não tem pão, não tem com que sustentar os filhos, dorme na palha áspera, mas tem o coração leve e alegre; é pecador e malcriado, mas mantém na mesma o coração alegre. E o homem grande farta-se de comer e beber, senta-se num montão de ouro, mas tem sempre a mágoa no coração. Há quem domine as ciências mas não se livre do tédio.

Continue lendo…

Ninguém Sabe Coisa Alguma

Porque n√≥s n√£o sabemos, pois n√£o? Toda a gente sabe. O que faz as coisas acontecerem da maneira que acontecem? O que est√° subjacente √° anarquia da sequ√™ncia dos acontecimentos, √†s incertezas, √†s contrariedades, √† desuni√£o, √†s irregularidades chocantes que definem os assuntos humanos? Ningu√©m sabe, professora Roux. ¬ęToda a gente sabe¬Ľ √© a invoca√ß√£o do lugar-comum e o inimigo da banaliza√ß√£o da experi√™ncia, e o que se torna t√£o insuport√°vel √© a solenidade e a no√ß√£o da autoridade que as pessoas sentem quando exprimem o lugar-comum. O que n√≥s sabemos √© que, de um modo que n√£o tem nada de lugar-comum, ningu√©m sabe coisa nenhuma. N√£o podemos saber nada. Mesmo as coisas que sabemos, n√£o as sabemos. Inten√ß√£o? Motivo? Consequ√™ncia? Significado? √Č espantosa a quantidade de coisas que n√£o sabemos. E mais espantoso ainda √© o que passa por saber.

O Outono da Vida

Come√ßa devagarinho. √Č como tudo. A gente andamos na nossa vida, andamos influ√≠dos e est√° claro que n√£o reparamos. De manh√£, temos de pensar no caf√©.
Depois, h√°-de vir o almo√ßo. Est√° claro que nem reparamos numa aragem. Mal uma aragem mais fresca que se mistura com o sol-p√īr. J√° setembro quer acabar e ainda temos a torrina do sol na pele, a hora do calor, (quase cansada, para a cadela invis√≠vel) Anda c√°, Ladina… Tamb√©m est√°s a ficar velha… Arriba, cadela… (voltando ao tom e √† direc√ß√£o inicial) A gente nem d√° f√©. Primeiro, √© umas pontadas nas costas, umas sez√Ķes, umas coisas assim. Primeiro, a gente julga que vai passar, como passavam os esfol√Ķes nas pernas quando √©ramos pequenos e and√°vamos a correr pelas ruas ou quando encontr√°vamos alguma √°rvore a jeito de subir. Come√ßa mesmo devagarinho. Aos poucos, (com ternura, para a cadela) Ah, Ladina… Bochinha, bochinha… Ent√£o, n√£o queres vir? Anda c√°, cadela… (voltando √† direc√ß√£o inicial) E as m√£os come√ßam a tremer um bocadinho. E o trabalho come√ßa a ser mais custoso. E um dia a gente j√° quase que n√£o conhece a nossa cara no espelho no lavat√≥rio. √Č nesse dia, √© nessa hora que come√ßa o outono.

Continue lendo…

O Prazer em Perspectiva: a Esperança

A esperan√ßa √© filha do desejo, mas n√£o √© o desejo. Constitui uma aptid√£o mental, que nos fez crer na realiza√ß√£o de um desejo. Podemos desejar uma coisa sem que a esperemos. Toda gente deseja a fortuna, muito poucos a esperam. Os s√°bios desejam descobrir a causa primitiva dos fen√īmenos; eles n√£o t√™m nenhuma esperan√ßa de consegui-lo. O desejo aproxima-se algumas vezes da esperan√ßa, a ponto de confundir-se com ela. Na roleta, eu desejo e espero ganhar.
A esperan√ßa √© uma forma de prazer em expectativa que, na sua atual fase de espera, constitui uma satisfa√ß√£o freq√ľentemente maior do que o contentamento produzido pela sua realiza√ß√£o. A raz√£o √© evidente. O prazer realizado limita-se em quantidade e em dura√ß√£o, ao passo que nada limita a grandeza do sonho criado pela esperan√ßa. A for√ßa e o encanto da esperan√ßa consistem em conter todas as possibilidades de prazer. Ela constitui uma esp√©cie de vara m√°gica que transforma tudo. Os reformadores nunca fizeram mais do que substituir uma esperan√ßa por outra.

A Estranheza dá Crédito

O verdadeiro campo e assunto da impostura s√£o as coisas desconhecidas. Isso porque em primeiro lugar a pr√≥pria estranheza d√° cr√©dito; e depois, n√£o estando sujeitas √†s nossas reflex√Ķes habituais, elas tiram-nos os meios de as combater. Por causa disso, diz Plat√£o, √© muito mais f√°cil satisfazer ao falar da natureza dos deuses do que da natureza dos homens, porque a ignor√Ęncia dos ouvintes abre um belo e amplo caminho e toda a liberdade para o manejo de uma mat√©ria secreta.
Advém daí que nada é aceite tão firmemente como aquilo que menos se sabe, nem há pessoas tão seguras como as que nos contam fábulas, como alquimistas, prognotiscadores, astrólogos, quiromantes, médicos, toda a gente dessa espécie (Horácio). A eles eu acrescentaria de bom grado, se ousasse, um bando de pessoas, intérpretes e controladores habituais dos desígnios de Deus, que têm a pretensão de descobrir as causas de cada acontecimento e de ver nos segredos da vontade divina os incompreensíveis motivos das suas obras; e, embora a variedade e a disparidade contínua dos factos os lance de um canto para o outro e do ocidente para o oriente, não deixam entretanto de persistir no que é seu e com o mesmo lápis pintar o preto e o branco.

Continue lendo…

A Força do Preconceito

Nós em teoria compreendemos as pessoas, mas na prática não as suportamos, pensei, na maior parte das vezes só a contragosto lidamos com elas, e tratamo-las sempre de acordo com o nosso próprio ponto de vista. Não deveríamos no entanto considerar e tratar as pessoas apenas segundo o nosso ponto de vista, mas sim considerá-las e tratá-las segundo todos os pontos de vista, pensei, lidar com elas de uma maneira que pudéssemos dizer que lidámos com elas sem o mínimo preconceito, por assim dizer, mas isso não é possível porque, na realidade, alimentamos sempre preconceitos para com toda a gente.

Ser Distinto

A eleg√Ęncia distinta (…) √© dif√≠cil de imitar, porque, no fundo, ela √© negativa e pressup√Ķe uma pr√°tica longa e constante. Pois a pessoa n√£o deve, por exemplo, representar na sua atitude qualquer coisa que indique dignidade, j√° que dessa maneira se cai facilmente num car√°cter formal e orgulhoso; antes se deve, simplesmente, evitar o que √© indigno, o que √© vulgar; a pessoa nunca se deve esquecer, deve prestar sempre aten√ß√£o a si e aos outros, n√£o perdoar nada a si pr√≥pria, n√£o fazer aos outros nem de mais, nem de menos, n√£o parecer comovida com nada, n√£o se impressionar com nada, nunca se apressar demasiado, saber dominar-se em qualquer momento e, assim, manter um equil√≠brio exterior, por muito forte que seja interiormente o temporal.
O homem nobre pode, em certos momentos, desleixar-se; o homem distinto nunca. Este é como um homem muito bem vestido: não se enconstará em lado nenhum e toda a gente evitará roçar nele. Ele distingue-se dos outros e, todavia, não deve ficar sozinho; pois, tal como em todas as artes e, portanto, também nesta, o mais difícil deve, finalmente, ser executado com facilidade: por isso, a pessoa distinta, apesar de todo o isolamento,

Continue lendo…

O Mundo dos Solteiros

Agora a s√©rio: voc√™ conhece algum solteiro verdadeiramente satisfeito com a sua condi√ß√£o de solteiro? Eu n√£o. Conhe√ßo v√°rios solteiros que se dizem satisfeitos com a sua condi√ß√£o de solteiros, mas que de bom grado imediatamente se casariam. N√£o se casam por in√©rcia, por cobardia, muitas vezes por falta de sorte – mas √© por uma vida a dois que suspiram. √Č da natureza humana. Uma coisa √© estar entre casamentos. Outra √© ser solteiro. E o solteiro cool √© uma constru√ß√£o t√£o artificial como o da gordinha ¬ęmuito¬Ľ simp√°tica. Voc√™ conhece alguma gordinha ¬ęmuito¬Ľ simp√°tica em que essa t√£o √≥bvia simpatia n√£o seja excessiva, provavelmente fabricada – e mensageira sobretudo de uma profunda solid√£o? Eu n√£o.

(…) √Č um mundo sombrio, o mundo dos solteiros – um mundo de ansiedades, de cinismo, de ressentimento, de ego√≠smo. Se os solteiros solit√°rios s√£o tristes, ali√°s, os solteiros greg√°rios s√£o-no ainda mais. Voc√™ j√° foi a algum jantar em que os presentes fossem maioritariamente solteiros? Eu j√°. E, sempre que fui, voltei deprimido. Ia deprimido – e deprimido voltei. √ćamos deprimidos – e deprimidos volt√°mos. Todos. Fizemos o que pudemos, claro: troc√°mos palavras, troc√°mos solidariedades, troc√°mos mimos. No fim, nada.

Continue lendo…

N√£o h√° Dicas para Namorar e Casar

Nunca me ensinaram as coisas realmente √ļteis: como √© que um rapaz arranja uma noiva, que tipo de anel deve comprar, se pode continuar a sair para os copos com os amigos, se √© preciso pedir primeiro aos pais, se tem de usar anel tamb√©m. Palavra que fui um rapaz que estudou muito e nunca me souberam ensinar isto. Ensinaram-me tudo e mais alguma coisa sobre o sexo e a reprodu√ß√£o, sobre o prazer e a sedu√ß√£o, mas quanto ao namorar e casar, nada. E agora, como √© que eu fa√ßo?

Passei a pente fino as melhores livrarias de Lisboa e n√£o encontrei uma √ļnica obra que me elucidasse. Se quisesse fazer cozinha macrobi√≥tica, descobrir o ¬ęponto G¬Ľ da minha companheira para ajud√°-la a atingir um orgasmo mais recompensador, montar um aqu√°rio, criar m√≠scaros ou construir um tanque Sherman em casa, sim, existe toda uma vasta bibliografia. Para casar, nem um folheto. Nem um ¬ęd√©pliant¬Ľ. Nada. Nem um autocolante. Para apanhar SIDA sei exactamente o que devo fazer. Para apanhar a minha noiva n√£o fa√ßo a mais pequena ideia.

Porque √© que o Minist√©rio da Juventude, em vez de esbanjar fortunas com iniciativas patetas (como aquela piroseira fascist√≥ide dos Descobrimentos) e an√ļncios rid√≠culos (como aqueles ¬ęYa meu,

Continue lendo…

O Amor entre o Trigo

Cheguei ao acampamento dos Hern√°ndez antes do meio-dia, fresco e alegre. A minha cavalgada solit√°ria pelos caminhos desertos, o repouso do sono, tudo isso refulgia na minha taciturna juventude.
A debulha do trigo, da aveia, da cevada, fazia-se ainda com éguas. Nada no mundo é mais alegre que ver rodopiar as éguas, trotando à volta do calcadouro do cereal, sob o grito espicaçante dos cavaleiros. Brilhava um sol esplêndido e o ar era um diamante silvestre que fazia brilhar as montanhas. A debulha é uma festa de ouro. A palha amarela acumula-se em montanhas douradas. Tudo é actividade e bulício, sacos que correm e se enchem, mulheres que cozinham, cavalos que tomam o freio nos dentes, cães que ladram, crianças que a cada momento é preciso livrar, como se fossem frutos da palha, das patas dos cavalos.

Oe Hernández eram uma tribo singular. Os homens, despenteados e por barbear, em mangas de camisa e com revólver à cinta, andavam quase sempre besuntados de óleo, de poeiras, de lama, ou molhados até aos ossos pela chuva. Pais, filhos, sobrinhos, primos, eram todos da mesma catadura. Estavam horas inteiras ocupados debaixo de um motor, em cima de um tecto,

Continue lendo…

A Conversa Nunca é Imparcial

√Č espantoso qu√£o f√°cil e rapidamente a homogeneidade ou a heterogeneidade de esp√≠rito e de √Ęnimo entre os homens se faz manifesta na conversa√ß√£o: ela torna-se sens√≠vel √† menor situa√ß√£o. Entre duas pessoas de natureza substancialmente heterog√©nea, que conversam sobre os assuntos mais estranhos e indiferentes, cada frase de uma desagradar√° mais ou menos √† outra, em muitos casos irritar√°. Naturezas homog√©neas, pelo contr√°rio, sentem de imediato, em tudo, uma certa concord√Ęncia, que, tratando-se de grande homogeneidade, logo converge para a harmonia perfeita, para o un√≠ssono.
A partir disso, explica-se, em primeiro lugar, porque os tipos ordin√°rios s√£o t√£o soci√°veis e em qualquer lugar encontram boa companhia com tanta facilidade – gente estimada, am√°vel e honesta. Com os indiv√≠duos incomuns acontece o contr√°rio, e tanto mais quanto mais distintos forem, de tal maneira que, de tempos em tempos, no seu isolamento, podem alegrar-se por terem descoberto em algu√©m, uma fibra, por menor que seja, homog√©nea √† sua! De facto, cada um s√≥ pode ser para outrem o que este √© para ele. Esp√≠ritos verdadeiramente eminentes fazem o seu ninho nas alturas, como as √°guias, solit√°rios. Em segundo lugar, isso explica por que os indiv√≠duos de disposi√ß√£o igual se re√ļnem de imediato,

Continue lendo…

A Independência da Solidão

O que me importa unicamente √© o que tenho de fazer, n√£o o que pensam os outros. Esta regra, igualmente √°rdua na vida imediata como na intelectual, pode servir para a distin√ß√£o total entre a grandeza e a baixeza. E √© tanto mais dura quanto sempre se encontrar√£o pessoas que acreditam saber melhor do que tu qual √© o teu dever. √Č f√°cil viver no mundo de conformidade com a opini√£o das gentes; √© f√°cil viver de acordo consigo pr√≥prio na solid√£o; mas o grande homem √© aquele que, no meio da turba, mant√©m, com perfeita serenidade, a independ√™ncia da solid√£o.

O Amor a Dois

O amor a dois só funciona se as individualidades se amarem a elas próprias em primeiro lugar.

E quem pensar o contrário ou é infeliz ou tem os dias contados para ser solteiro outra vez.

Existem três tipos de relacionamento a dois:

1 – Cada um dos dois vive primeiro para o outro e s√≥ depois para si mesmo, ou seja, o que interessa s√£o as vontades do parceiro e nunca as suas, o que torna as coisas esquisitas, pois nenhum vive a sua verdade nem se respeita em momento algum, porque vivem ambos com medo de se perder. Deve ser enfadonho e, muitas vezes, confuso. √Č do g√©nero, eu quero uma coisa que n√£o vou ter para dar ao outro, no entanto vou receber algo parecido com aquilo que queria mas n√£o √© bem a mesma coisa, o que √© normal, pois mais ningu√©m al√©m de n√≥s sabe o que nos sabe melhor e quando nos sabe bem.

2 – As duas pessoas vivem em fun√ß√£o da mesma. Pior ainda. √Č que se no exemplo acima ainda existe alguma energia, embora desfasada, a ser trocada de um para o outro, aqui nem isso.

Continue lendo…

O Dom Milagroso de um Grande Amor

Na vida de toda a gente h√° bra√ßados floridos dessas tolices sem import√Ęncia. S√≥ a raros eleitos √© dado o milagroso dom de um grande amor. Eu teria muita pena que o destino n√£o me trouxesse esse grande amor que foi o meu grande sonho pela vida fora. Devo agradecer ao destino o favor de ter ouvido a minha voz. P√īr finalmente, no meu caminho, a linda alma nova, ardente e carinhosa que √© todo o meu ampa¬≠ro, toda a minha riqueza, toda a minha felicidade neste mundo. A morte pode vir quando quiser: trago as m√£os cheias de rosas e o cora√ß√£o em festa: posso partir contente.

Os H√°bitos Embutidos

J√° me n√£o entendo com essa gente dos comboios suburbanos; esses homens que homens se julgam e que, no entanto, como as formigas, est√£o reduzidos, por uma press√£o que n√£o sentem, aos h√°bitos que lhes criam. Quando ociosos, em que ocupam eles os seus absurdos e insignificantes domingos?
Certa vez, na R√ļssia, ouvi tocar Mozart numa f√°brica. Escrevi a esse respeito. Recebi duzentas cartas insultuosas. N√£o quero mal aos que preferem um reles caf√©-concerto. Nenhuma outra harmonia eles conhecem. Mas abomino o dono do caf√©-concerto. N√£o gosto que degradem os homens.

Os Comunistas

… Passaram bastantes anos desde que ingressei no Partido… Estou contente… Os comunistas constituem uma boa fam√≠lia… T√™m a pele curtida e o cora√ß√£o valoroso… Por todo o lado recebem pauladas… Pauladas exclusivamente para eles… Vivam os espiritistas, os mon√°rquicos, os aberrantes, os criminosos de v√°rios graus… Viva a filosofia com fumo mas sem esqueletos… Viva o c√£o que ladra e que morde, vivam os astr√≥logos libidinosos, viva a pornografia, viva o cinismo, viva o camar√£o, viva toda a gente menos os comunistas… Vivam os cintos de castidade, vivam os conservadores que n√£o lavam os p√©s ideol√≥gicos h√° quinhentos anos… Vivam os piolhos das popula√ß√Ķes miser√°veis, viva a for√ßa comum gratuita, viva o anarco-capitalismo, viva Rilke, viva Andr√© Gide com o seu coribantismo, viva qualquer misticismo… Tudo est√° bem… Todos s√£o her√≥icos… Todos os jornais devem publicar-se… Todos devem publicar-se, menos os comunistas… Todos os pol√≠ticos devem entrar em S√£o Domingos sem algemas… Todos devem festejar a morte do sanguin√°rio Trujillo, menos os que mais duramente o combateram… Viva o Carnaval, os derradeiros dias do Carnaval… H√° disfarces para todos… Disfarces de idealistas crist√£os, disfarces de extrema-esquerda, disfarces de damas beneficentes e de matronas caritativas… Mas, cuidado, n√£o deixem entrar os comunistas…

Continue lendo…

Leitor e Autor, num Mundo √° Parte

Ler um livro √© desinteressar-se a gente deste mundo comum e objectivo para viver noutro mundo. A janela iluminada noite adentro isola o leitor da realidade da rua, que √© o sumidouro da vida subjectiva. √Ārvores ramalham. De vez em quando passam passos. L√° no alto estrelas teimosas namoram inutilmente a janela iluminada. O homem, prisioneiro do c√≠rculo claro da l√£mpada, apenas ligado a este mundo pela fatalidade vegetativa do seu corpo, est√° suspenso no ponto ideal de uma outra dimens√£o, al√©m do tempo e do espa√ßo. No tapete voador s√≥ h√° lugar para dois passageiros: leitor e autor.