Textos sobre Leitores

65 resultados
Textos de leitores escritos por poetas consagrados, filósofos e outros autores famosos. Conheça estes e outros temas em Poetris.

O Sensacionismo

Sentir é criar.
Sentir é pensar sem ideias, e por isso sentir é compreender, visto que o Universo não tem ideias.
РMas o que é sentir?
Ter opini√Ķes √© n√£o sentir.
Todas as nossas opini√Ķes s√£o dos outros.
Pensar é querer transmitir aos outros aquilo que se julga que se sente.
Só o que se pensa é que se pode comunicar aos outros. O que se sente não se pode comunicar. Só se pode comunicar o valor do que se sente. Só se pode fazer sentir o que se sente. Não que o leitor sinta a pena comum [?].
Basta que sinta da mesma maneira.
O sentimento abre as portas da pris√£o com que o pensamento fecha a alma.
A lucidez s√≥ deve chegar ao limiar da alma. Nas pr√≥prias antec√Ęmaras √© proibido ser expl√≠cito.
Sentir é compreender. Pensar é errar. Compreender o que outra pessoa pensa é discordar dela. Compreender o que outra pessoa sente é ser ela. Ser outra pessoa é de uma grande utilidade metafísica. Deus é toda a gente.
Ver, ouvir, cheirar, gostar, palpar – s√£o os √ļnicos mandamentos da lei de Deus. Os sentidos s√£o divinos porque s√£o a nossa rela√ß√£o com o Universo,

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A Origem do Medo

A condição psicológica do medo está divorciada de qualquer perigo concreto e real. Surge sob diversas formas: desconforto, preocupação, ansiedade, nervosismo, tensão, temor, fobia, etc. Este tipo de medo psicológico é sempre algo que poderá acontecer e não algo que esteja a acontecer no momento. O leitor está aqui e agora, enquanto a sua mente se encontra no futuro. Este facto gera um hiato de ansiedade. Além disso, se o leitor se identificar com a sua mente e tiver perdido o contacto com o poder e a simplicidade do Agora, esse hiato de ansiedade acompanhá-lo-á constantemente.

A pessoa pode sempre lidar com o momento presente, mas não o consegue fazer com algo que é apenas uma projeção mental Рnão é possível lidar com o futuro.
E enquanto o leitor se identifica com a sua mente, o ego comanda a sua vida. Devido à natureza ilusória que lhe é característica e apesar dos mecanismos de defesa elaborados, o ego torna-se muito vulnerável e inseguro, vendo-se a si próprio constantemente sob ameaça. Este facto, a propósito, é o que acontece, mesmo que por fora o ego pareça muito confiante. Agora lembre-se de que uma emoção é a reação do corpo à mente.

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A Breve Passagem na Vida

Por vezes sentado sozinho na sala, apenas com o cão por companhia, pensava que, contrariamente ao que ele supunha, não eram precisas palavras para entendermos o essencial: que tudo é uma breve passagem e que não há outra eternidade senão a da solidão partilhada.
Ou no amor, ou na camaradagem das grandes batalhas, ou no silêncio de uma sala entre um leitor e um cão. Talvez estivéssemos a ficar parecidos e até nos imitássemos um ao outro.

A Poesia

… Quantas obras de arte… J√° n√£o cabem no mundo… Temos de as pendurar fora dos quartos… Quantos livros… Quantos livrecos… Quem ser√° capaz de os ler?… Se fossem comest√≠veis… Se numa panela de grande calado os fiz√©ssemos em salada, os pic√°ssemos, os alinh√°ssemos… J√° n√£o se pode mais… Estamos at√© ao pesco√ßo… O mundo afoga-se na mar√©… Reverdy dizia-me: ¬ęAvisei o correio para que n√£o me trouxesse mais livros… N√£o poderia abri-los. N√£o tenho espa√ßo. Trepam pelas paredes, temi uma cat√°strofe, ruiriam em cima da minha cabe√ßa¬Ľ… Todos conhecem Eliot… Antes de ser pintor, de dirigir teatros, de escrever luminosas cr√≠ticas, lia os meus versos… Sentia-me lisonjeado… Ningu√©m os compreendia melhor… At√© que um dia come√ßou a ler-me os seus e eu, egoisticamente, corri a protestar: ¬ęN√£o mos leia, n√£o mos leia¬Ľ… Fechei-me no quarto de banho, mas Eliot, atrav√©s da porta, lia-mos… Fiquei muito triste… O poeta Frazer, da Esc√≥cia, estava presente… Increpou-me: ¬ęPorque tratas assim Eliot?¬Ľ… Respondi: ¬ęN√£o quero perder o meu leitor. Cultivei-o. Conhece at√© as rugas da minha poesia… Tem tanto talento… Pode fazer quadros… Pode escrever ensaios… Mas eu quero manter este leitor, conserv√°-lo, reg√°-lo como planta ex√≥tica… Compreendes-me, Frazer?¬Ľ… Porque a verdade, se isto continua,

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O Meu P√ļblico

Quando escrevo, o meu √ļnico p√ļblico sou eu. Depois √© que me ponho √† espera de que sejam tamb√©m os outros. N√£o porque antes os menospreze: simplesmente porque n√£o existem. Mas √© evidente que me interessa que existam depois como p√ļblico pelo desejo natural de me confirmarem a exist√™ncia como escritor. Porque a exist√™ncia como escritor implica a audi√™ncia dos outros. N√£o escolho por√©m o p√ļblico – espero que ele me escolha. Seria duro que me n√£o escolhesse, por todas as implica√ß√Ķes que se adivinham. Mas n√£o √© impeditivo de continuar – excepto se me convencerem (quem se convence?) que n√£o tinha nada a dizer. E no entanto, se n√≥s exprimirmos o tempo que nos exprime, h√° um pacto indissol√ļvel entre o tempo e n√≥s. Assim, o nosso p√ļblico est√° a√≠ sempre, ainda que tenhamos que ser n√≥s a despert√°-lo.

Esse p√ļblico n√£o desperta se n√≥s de facto lhe n√£o falarmos, ou seja, se realmente n√£o houve pacto algum com ele. Todas estas quest√Ķes, por√©m, s√£o sup√©rfluas para a necessidade de escrever. Cumpre-se um destino de artista como outros o de serem santos ou criminosos…
O resto não é connosco Рé com os críticos, os hagiógrafos e os arquivos da polícia.

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Como Nasce o Amor?

Nem eu nem vós sabemos como nasce o amor. Em fisiologia, que é a ciência do homem físico, não se sabe. A psicologia também não diz nada a este respeito. Os romances, que são os mais amplos expositores da matéria, não avançam cousa nenhuma ao que está dito desde Labão e Rachel até á neta do arcediago e o filho de Ricarda.
Dizer que o amor √© a sensualidade, al√©m de grosseira defini√ß√£o, √© falsidade desmentida pela experi√™ncia. H√° um amor que n√£o rasteja nunca no raso estrado das propens√Ķes org√Ęnicas.
Dizer que o amor é uma operação puramente espiritual é um devaneio de visionários, que trazem sempre as mulheres pelas estrelas, ao mesmo tempo que elas, gravitando materialmente para o centro do globo, comem e bebem á maneira dos mortais, e até das divindades do cantor de Aquiles.
Eu conhe√ßo homens, sem fa√≠sca de esp√≠rito, que se abrazam tocados pelo amor como o f√≥sforo em presen√ßa do ar. Eis aqui um fen√≥meno eminentemente importante. Ele, s√≥, sustenta em tese que o amor n√£o tem nada com o corpo nem com o espirito. Eu creio que √© um fluido. √Č pena, por√©m, que eu n√£o saiba o que √© fluido para me dar aqui uns ares pedantescos,

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Dizer Mal dos Outros, Ouvir Falar Mal de Nós

Uma das formas mais universais de irracionalidade é a atitude tomada por quase toda a gente em relação às conversas maldizentes. Muito poucas pessoas sabem resistir à tentação de dizer mal dos seus conhecimentos e mesmo, se a ocasião se proporciona, dos seus amigos; no entanto, quando sabem que alguma coisa foi dita em seu desabono, enchem-se de espanto e indignação. Certamente nunca lhes ocorreu ao espírito que da mesma forma que dizem mal de não importa quem, alguém possa dizer mal deles. Esta é uma forma atenuada da atitude que, quando exagerada, conduz à mania da perseguição.
Exigimos de toda a gente o mesmo sentimento de amor e de profundo respeito que sentimos por nós próprios. Nunca nos ocorre que não devemos exigir que os outros pensem melhor de nós do que nós pensamos a respeito deles e não nos ocorre porque aos nossos olhos os méritos são grandes e evidentes ao passo que os dos outros, se na realidade existem, só são reconhecidos com certa benevolência. Quando o leitor ouve dizer que alguém disse qualquer coisa desprimorosa a seu respeito, lembra-se logo das noventa e nove vezes que reprimiu o desejo de exprimir, sobre esse alguém, a crítica que considerava justa e merecida,

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Literatura Eterna ou Temporal

Penso eu que a literatura pode responder a interroga√ß√Ķes, pode tentar responder-lhes, pode simplesmente p√ī-las e pode nem sequer p√ī-las. H√° a contar com a variedade dos temperamentos liter√°rios. Coisa dif√≠cil, sei-o por experi√™ncia pr√≥pria, embora deva estar na base de qualquer atitude cr√≠tica. Aceitemos, por√©m, que toda a grande literatura p√Ķe interroga√ß√Ķes, e lhes procura resposta. Pergunto: N√£o poder√° admitir-se que seja antes √†s interroga√ß√Ķes eternas do homem eterno que a literatura procura responder? N√£o envelhecer√° uma obra de arte precisamente na medida em que s√≥ responde √†s inquieta√ß√Ķes de uma √©poca? E n√£o perdurar√° na medida em que, atrav√©s, ou n√£o, de respostas provis√≥rias a interroga√ß√Ķes provis√≥rias, sugere uma resposta eterna a interroga√ß√Ķes eternas, exprime inquieta√ß√Ķes eternas embora de forma pessoal?
Entendamo-nos: H√° quem, no homem, antes considere o homem eterno, e quem antes considere o homem temporal. O leitor compreende que chamo homem eterno ao que, no homem, permanece atrav√©s da diversidade das √©pocas, dos meios, das circunst√Ęncias hist√≥ricas, das modalidades individuais; e que chamo homem temporal ao que nele depende destas coisas. Evidentemente, o homem que atrav√©s da literatura se nos revela √©, ao mesmo tempo, um e outro: o temporal e o eterno. Mas a quest√£o √© esta: Ser√° antes pelo que nos revela do homem temporal que uma obra dura por humana –

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Onde Est√° a Sinceridade ?

Entre as recorda√ß√Ķes que cada um de n√≥s guarda, algumas h√° que s√≥ contamos aos amigos. H√° ainda outras que nem sequer aos amigos confessamos, que s√≥ a n√≥s pr√≥prios dizemos e, mesmo assim, no m√°ximo segredo. Finalmente, h√° coisas que o homem nem sequer se permite confessar a si mesmo. Ao longo da exist√™ncia, toda a pessoa honesta acumulou n√£o poucas destas recorda√ß√Ķes. Diria mesmo que a quantidade √© tanto maior quanto mais honesto o homem. Eu, em todo o caso, n√£o foi h√° muito que me decidi a recordar algumas das minhas antigas aventuras; at√© agora evitava faz√™-lo, ali√°s com um certo desassossego. Por√©m agora, quando as evoco e desejo mesmo anot√°-las, agora vou tirar a prova: ser√° poss√≠vel sermos francos e sinceros, pelo menos com n√≥s pr√≥prios, e dizermo-nos toda a verdade?
Observo, a propósito, que Heine afirma não poderem existir autobiografias exactas e que o homem mente sempre quando fala de si próprio. Em sua opinião, Rousseau enganou-nos à certa nas suas Confessions, e até deliberadamente, por vaidade. Tenho a certeza de que Heine tem razão: compreendo muitíssimo bem que nos possamos acusar de crimes abomináveis apenas por vaidade e também compreendo o que pode ser esse sentimento.

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Sentidos Inconscientes

Nada consola mais o autor de um romance do que descobrir as leituras nas quais n√£o havia pensado e que lhe s√£o sugeridas pelos leitores… N√£o digo que o autor n√£o possa descobrir uma leitura que lhe pare√ßa aberrante, mas em todos os casos deveria calar-se: que os outros a contestem, texto em punho. De resto, a grande maioria dos leitores faz-nos descobrir efeitos de sentidos nos quais n√£o hav√≠amos pensado.

A Vida Acontece Agora

Identificar-se com a mente √© ser aprisionado no tempo: a compuls√£o de viver quase exclusivamente das recorda√ß√Ķes e por antecipa√ß√£o. Esta situa√ß√£o gera uma preocupa√ß√£o intermin√°vel com o passado e com o futuro e uma falta de vontade de dignificar e reconhecer o momento presente e permitir que este seja. A compuls√£o nasce porque o passado lhe d√° uma identidade e o futuro cont√©m a promessa de salva√ß√£o, de realiza√ß√£o sob qualquer forma. Ambos s√£o ilus√Ķes.

Quanto mais a pessoa se concentra no tempo (passado e futuro), mais sente falta do Agora, a coisa mais preciosa que existe. Porque √© o Agora a coisa mais preciosa que existe? Primeiro, porque √© a √ļnica. √Č tudo o que existe. O presente eterno √© o espa√ßo no √Ęmbito do qual a sua vida se desenrola, o √ļnico fator que permanece constante. A vida acontece agora. Nunca houve uma altura em que a sua vida n√£o fosse no agora, nem nunca haver√°.
Em segundo lugar, o Agora √© o √ļnico ponto que pode levar o leitor al√©m dos limites circunscritos da mente. √Č o seu √ļnico ponto de acesso ao mundo eterno e sem forma do Ser.

Alguma vez o leitor experienciou,

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A Aprendizagem da Apreciação da Poesia

Pode-se dizer que toda a poesia parte das emo√ß√Ķes experimentadas pelos seres humanos nas rela√ß√Ķes consigo pr√≥prios, uns com os outros, com entes divinos e com o mundo √† sua volta; por isso, ocupa-se tamb√©m do pensamento e da ac√ß√£o que a emo√ß√£o provoca, e de que a emo√ß√£o resulta. Todavia, por mais primitiva que seja a fase de express√£o e de aprecia√ß√£o, a fun√ß√£o da poesia nunca pode ser unicamente despertar estas mesmas emo√ß√Ķes no audit√≥rio do poeta.
Na poesia mais primitiva, ou na frui√ß√£o mais rudimentar da poesia, a aten√ß√£o do ouvinte dirige-se para o assunto; o efeito da arte po√©tica sente-se sem o ouvinte estar totalmente c√īnscio desta arte. Com o desenvolvimento da consci√™ncia da linguagem h√° outra fase em que o ouvinte, que pode nessa altura ter-se transformado no leitor, est√° consciente de um duplo interesse numa hist√≥ria por si pr√≥pria e no modo como √© contada: isto √©, torna-se consciente do estilo. Ent√£o podemos sentir deleite na discrimina√ß√£o entre os modos como diferentes poetas tratar√£o o mesmo assunto; uma aprecia√ß√£o que n√£o √© simplesmente de melhor ou pior, mas de diferen√ßas entre estilos que s√£o igualmente admirados. Numa terceira fase de desenvolvimento, o assunto pode recuar para √ļltimo plano: em vez de ser o prop√≥sito do poema,

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Idiotia e Felicidade

Como pode ser-se idiota e, ao mesmo tempo, feliz, pergunta-me um leitor? Pois explico j√°. A idiotia e a felicidade s√£o ideias muito vagas, dif√≠ceis de cingir em conceitos de circula√ß√£o universal, digamos. Mas, pensando melhor, acho que certa idiotia √© suscept√≠vel de conferir ao idiota seu propriet√°rio (ou seu prisioneiro) uma esp√©cie de seguran√ßa em si pr√≥prio que o levar√°, em determinados momentos, julgo eu, a uma beatitude muito pr√≥xima do que se pode chamar estado de felicidade.Assim sendo, n√£o vejo incompatibilidade entre o ser-se idiota e o ser-se feliz. Bem sei que h√° v√°rias maneiras de se chegar a idiota. Uma delas foi experimentada comigo. Uma parente minha queria por for√ßa reconverter-me ao Catolicismo e, deste modo, passava a vida a dizer-me: ¬ęAlexandre, n√£o penses. Se come√ßas a pensar estragas tudo. A cren√ßa em Deus, se, em vez de pensares, reaprenderes a rezar, vem por si. √Č uma gra√ßa, sabias? V√°, reza comigo.¬Ľ E ensinava-me ora√ß√Ķes que eu, muitas vezes de m√£os postas, repetia aplicadamente. Acabei por n√£o me casar com ela.
Não quero dizer, com isto, que não acredite na chamada (creio eu) revelação. Se revelação não existisse, como poderia um poeta do tomo de Paul Claudel entrar um dia em Notre-Dame e sentir-se,

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Desaprender

H√° uma altura em que, depois de se saber tudo, tem de se desaprender. Sucede assim com o escrever. Com o escrever do escritor, entenda-se. Eu, provavelmente poeta, estou a aprender a… desaprender. E para qu√™ e como se desaprende? Para deixar de ronronar, para que o leitor, quando o nosso produto lhe chega √†s m√£os, n√£o exclame, satisfeito ou enfastiado: ¬ę- C√° est√° ele!¬Ľ.
Na verdura dos seus anos, a preocupação do escritor parece ser a da originalidade. Ser-se original é mostrar-se que se é diferente. E as pessoas gostam das primeiras piruetas que um sujeito dá. E o sujeito gosta de que as pessoas vejam nele um talento.
Aten√ß√£o, v√™m a√≠ as receitas, as ideias feitas, os passes de m√£o, os clich√©s, os lugares selectos ou, mais comezinhamente, os lugares comuns. O escritor est√° instalado. Rev√™-se na sua obra. Come√ßa a abalan√ßar-se a voos mais altos, a mergulhos mais fundos. √Č a intelectualidade que o chama ao seu seio, o p√ļblico que o p√Ķe, vertical, nas suas prateleiras. Arrumado.
Quase sem dar por isso, o escritor acomodou-se e tornou-se c√≥modo, quando propendia, nos seus verdes anos, a incomodar-se e a tornar-se inc√≥modo. Organiza ¬ędossiers¬Ľ com os recortes das cr√≠ticas que lhe fizeram ao longo da sua carreira (nome,

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Besta Célere

H√° quem lhe chame, por brincadeira, besta c√©lere para caracterizar a qualidade mediana (tomada por m√©dia) desse produto cultural (agora √© tudo cultural!) e, ao mesmo tempo, a rapidez com que ele se esgota em sucessivas edi√ß√Ķes. O best-seller √© um produto perfeita (ou eficazmente) projectado em termos de ¬ęmarketing¬Ľ editorial e livreiro. √Č para se vender – muito e depressa – que o best-seller √© constru√≠do com os olhos postos num leitor-tipo que vai encontrar nele aquilo que exactamente esperava. Nem mais, nem menos. Os exemplos, abundant√≠ssimos, nem vale a pena enumer√°-los. Conv√©m n√£o confundir, pelo menos em todos os casos, best-seller com ¬ętopes¬Ľ de venda. Embora seja cabe√ßa de lista, o best-seller tem, em rela√ß√£o aos livros ¬ęnormais¬Ľ, uma caracter√≠stica que logo o diferencia: foi feito propositadamente para ser um campe√£o de vendas. A sua raz√£o de ser √© essa e s√≥ essa. E aqui poderia dizer-se, recuperando o lugar-comum para um sentido s√©rio, que ¬ęo resto √© literatura¬Ľ.
Estou a pensar em bestas c√©leres como Love Story ou O Aeroporto. N√£o estou a pensar em ¬ętopes¬Ľ de venda como O Nome da Rosa ou Mem√≥rias de Adriano. estes √ļltimos s√£o boa, excelente literatura que, por raz√Ķes pontuais e,

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Todo o Leitor é Leitor de si Mesmo

Na realidade, todo leitor é, quando lê, o leitor de si mesmo. A obra não passa de uma espécie de instrumento óptico oferecido ao leitor a fim de lhe ser possível discernir o que, sem ela, não teria certamente visto em si mesmo.

A Repulsa do Poder pelo Homem de Letras

A repulsa dos poderes constitu√≠dos pelo homem de letras e pelo homem de pensamento (pois tanto a express√£o racionalista do fil√≥sofo e do soci√≥logo como a apreens√£o intuitiva do real a que procede o ficcionista surgem como amea√ßa aos sistemas de imposi√ß√£o de ideias ou de coerciva persuas√£o), esse afastamento do intelectual inconformista, transformado assim, com raras excep√ß√Ķes (que nalguns casos j√° beiram o limite da assimila√ß√£o) em outsider, representa uma destrui√ß√£o de valores culturais, que se traduz n√£o poucas vezes em atraso de gera√ß√Ķes.

Evidentemente, tal relegamento do escritor para zonas de sombra acicata-o por vezes, levando-o a produ√ß√Ķes vertebradas, que s√£o aut√™nticos gritos da intelig√™ncia rebelde e onde n√£o raro se derrama o melhor da capacidade imaginativa, tensa e exasperada, de per√≠odos em que se obscurece a comunica√ß√£o normal entre os homens e em que a ac√ß√£o do livro, reduzida embora em extens√£o, ganha uma acutilante qualidade cr√≠tica e concentra a dignidade de minorias advertidas culturalmente e firmes no seu esp√≠rito de resist√™ncia. Mas o saldo n√£o deixa de ser negativo quando se considera n√£o j√° tudo aquilo que o escritor suporta e sofre, mas – e sobretudo – o muito que a camada dos leitores perde pela falta de conv√≠vio efectivo com aqueles que s√£o n√£o,

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Abordar um Texto Poético

Abordar um texto po√©tico, qualquer que seja o grau de profundidade ou amplitude da leitura, pressup√Ķe, e ouso dizer que pressupor√° sempre, uma certa incomodidade de esp√≠rito, como se uma consci√™ncia paralela observasse com ironia a inanidade relativa de um trabalho de desoculta√ß√£o que, estando obrigado a organizar, no complexo sistema capilar do poema, um itiner√°rio cont√≠nuo e uma univocidade coerente, ao mesmo tempo se obriga a abandonar as mil e uma probabilidades oferecidas pelos outros itiner√°rios, apesar de estar ciente de antem√£o de que s√≥ depois de os ter percorrido a todos, a esses e √†quele que escolheu, √© que acederia ao significado √ļltimo do texto, podendo suceder que a leitura alegadamente totalizadora assim obtida viesse s√≥ a servir para acrescentar √† rede sangu√≠nea do poema uma ramifica√ß√£o nova, e impor portanto a necessidade de uma nova leitura. Todos carpimos a sorte de S√≠sifo, condenado a empurrar pela montanha acima uma sempiterna pedra que sempiternamente rolar√° para o vale, mas talvez que o pior castigo do desafortunado homem seja o de saber que n√£o vir√° a tocar nem a uma s√≥ das pedras ao redor, in√ļmeras, que esperam o esfor√ßo que as arrancaria √† imobilidade.
N√£o perguntamos ao sonhador por que est√° sonhando,

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Versos Curtos e Compridos

Como poeta actuante, combati o meu pr√≥prio ensimesmamento. Por isso, o debate entre o real e o subjectivo se decidiu dentro do meu pr√≥prio ser. Sem pretens√Ķes de aconselhar ningu√©m, os resultados podem auxiliar as minhas experi√™ncias Vejamo-los de relance.
√Č natural que a minha poesia esteja exposta tanto √† opini√£o da cr√≠tica elevada como submetida √† paix√£o do libelo. Isto faz parte do jogo. Sobre este aspecto da discuss√£o n√£o tenho voz, mas tenho voto. Para a cr√≠tica essencial, o meu voto s√£o os meus livros, a minha poesia inteira. Para o libelo inamistoso, tenho tamb√©m direito de voto ‚ÄĒ e este tamb√©m √© constitu√≠do pela minha pr√≥pria e constante cria√ß√£o.
Se soa a vaidade o que digo, pode ser que tenham razão. No meu caso, trata-se da vaidade do artesão que exerceu um oficio por muitos anos com amor indelével.
Mas há uma coisa com que estou satisfeito: de uma maneira ou outra, fiz respeitar, pelo menos na minha pátria, o ofício de poeta, a profissão da poesia.

Na época em que comecei a escrever, o poeta era de dois géneros. Uns, eram poetas grandes senhores que se faziam respeitar pelo seu dinheiro,

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