Textos sobre Direção

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Textos de direção escritos por poetas consagrados, filósofos e outros autores famosos. Conheça estes e outros temas em Poetris.

A D√ļvida, a Solid√£o, logo… a Escrita

Na vida, chega um momento – e penso que ele √© fatal – ao qual n√£o √© poss√≠vel escapar, em que tudo √© posto em causa: o casamento, os amigos, sobretudo os amigos do casal. Tudo menos a crian√ßa. A crian√ßa nunca √© posta em d√ļvida. E essa d√ļvida cresce √† sua volta. Essa d√ļvida, est√° s√≥, √© a da solid√£o. Nasce dela, da solid√£o. Podemos j√° nomear a palavra. Creio que h√° muita gente que n√£o poderia suportar o que aqui digo, que fugiria. Talvez seja por essa raz√£o que nem todos os homens s√£o escritores. Sim. Essa √© a diferen√ßa. Essa √© a verdade. Mais nada. A d√ļvida √© escrever. √Č, portanto, tamb√©m, o escritor. E com o escritor todo o mundo escreve. √Č algo que sempre se soube.
Creio tamb√©m que sem esta d√ļvida primeira do gesto em direc√ß√£o √† escrita n√£o existe solid√£o. Nunca ningu√©m escreveu a duas vozes. Foi poss√≠vel cantar a duas vozes, ou fazer m√ļsica tamb√©m, e jogar t√©nis, mas escrever, n√£o. Nunca.

A Instabilidade e Imprevisibilidade do Nosso Comportamento

N√£o deveis estranhar se hoje vedes poltr√£o aquele que ontem vistes t√£o intr√©pido: ou a c√≥lera, ou a necessidade, ou a companhia, ou o vinho, ou o som de uma trombeta, tinham-lhe incutido coragem. N√£o se trata de uma coragem que a raz√£o haja modelado; foram as circunst√Ęncias que lhe deram consist√™ncia; n√£o espanta, pois, que circunst√Ęncias contr√°rias a tenham transformado.
Esta t√£o flex√≠vel varia√ß√£o e estas contradi√ß√Ķes que em n√≥s se v√™em, fizeram com que alguns imaginassem termos duas almas, e que outros supusessem que dois poderes nos acompanham e agitam, cada qual √† sua maneira, um tendendo para o bem, o outro para o mal, j√° que t√£o brutal diversidade n√£o poderia atribuir-se a uma s√≥ entidade.
N√£o somente o vento dos acidentes me agita consoante a direc√ß√£o para que sopra, mas, ademais, eu agito-me e perturbo-me a mim pr√≥prio pela instabilidade da minha postura; e quem, antes do mais, se observar, nunca se achar√° duas vezes no mesmo estado. Confiro √† minha alma ora um rosto ora outro, conforme o lado sobre que a pousar. Se falo de mim de diferentes maneiras √© porque de maneiras diferentes me observo. Toda a sorte de contradi√ß√Ķes se podem encontrar em mim sob algum ponto de vista e sob alguma forma.

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O Outono da Vida

Come√ßa devagarinho. √Č como tudo. A gente andamos na nossa vida, andamos influ√≠dos e est√° claro que n√£o reparamos. De manh√£, temos de pensar no caf√©.
Depois, h√°-de vir o almo√ßo. Est√° claro que nem reparamos numa aragem. Mal uma aragem mais fresca que se mistura com o sol-p√īr. J√° setembro quer acabar e ainda temos a torrina do sol na pele, a hora do calor, (quase cansada, para a cadela invis√≠vel) Anda c√°, Ladina… Tamb√©m est√°s a ficar velha… Arriba, cadela… (voltando ao tom e √† direc√ß√£o inicial) A gente nem d√° f√©. Primeiro, √© umas pontadas nas costas, umas sez√Ķes, umas coisas assim. Primeiro, a gente julga que vai passar, como passavam os esfol√Ķes nas pernas quando √©ramos pequenos e and√°vamos a correr pelas ruas ou quando encontr√°vamos alguma √°rvore a jeito de subir. Come√ßa mesmo devagarinho. Aos poucos, (com ternura, para a cadela) Ah, Ladina… Bochinha, bochinha… Ent√£o, n√£o queres vir? Anda c√°, cadela… (voltando √† direc√ß√£o inicial) E as m√£os come√ßam a tremer um bocadinho. E o trabalho come√ßa a ser mais custoso. E um dia a gente j√° quase que n√£o conhece a nossa cara no espelho no lavat√≥rio. √Č nesse dia, √© nessa hora que come√ßa o outono.

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√Č Necess√°rio Estar Sempre Embriagado

√Č necess√°rio estar sempre embriagado. Tudo est√° a√≠: √© a √ļnica quest√£o. Para n√£o se sentir o horr√≠vel fardo do Tempo que quebranta os vossos ombros e vos curva em direc√ß√£o √† terra, deveis vos embriagar sem tr√©gua. Mas de qu√™? De vinho, de poesia ou de virtude, como quiserdes. Mas embriagai-vos.

Ver Correr a Esperança

De bru√ßos sobre o lavat√≥rio, abro a torneira, tapo o ralo, fico alguns momentos a ver correr a esperan√ßa, que vai enchendo aos poucos a bacia. Depois fecho a torneira e, retirando a tampa, vejo-a escoar-se em gorgolejos que cada vez s√£o mais humanos e mais fundos. √Č a respira√ß√£o do ralo, que s√≥ ent√£o dou conta de que est√° dentro de mim, por uma dessas distor√ß√Ķes a que √© costume eu ser atreito e que me impede ainda de me ver no pr√≥prio espelho, que, apesar de se encontrar √† minha frente, n√£o consigo deslocar do avesso dos meus olhos.

Os meus sentidos rangem, solid√°rios com os canos, eles que eu gostaria de poder assimilar ao mar, a um c√©u azul, desanuviado, e que jamais me d√£o do esp√≠rito vis√Ķes onde n√£o se encastoem nuvens e rebentem tempestades.

Repito a operação. Mergulho às vezes as mãos na minha esperança, mas retiro-as ao cabo de algum tempo, antes que se transformem em raízes. Destapo uma vez mais o ralo. Assim corre a amizade Рpenso, olhando o redemoinho -, assim correm os afectos, que, depois de encherem a bacia onde a custo nos lavamos sem os fazermos transbordar,

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O Homem de Ideias

N√£o √© l√≠cito dizer que tem ideias aquele que as foi buscar a outro, que envergou um sistema j√° pronto, que n√£o o construiu ele mesmo a pouco e pouco, √† medida que se ia alargando e aprofundando a sua vis√£o do mundo; para ¬ęter ideias¬Ľ √© necess√°rio um trabalho de autoforma√ß√£o, de modela√ß√£o cont√≠nua da alma, uma assimila√ß√£o que n√£o cessa de tudo o que uma determinada personalidade encontra de assimil√°vel no que a cerca, ou passado ou presente; a ideia surge da vida pr√≥pria e n√£o da vida dos outros; o homem que tem individualidade (√© muito dif√≠cil ser indiv√≠duo), ou a busca, pode inserir no seu pensamento fragmentos de pensamento alheio, mas apenas insere aqueles que, como algarismos num n√ļmero, mudam de valor conforme a posi√ß√£o; inventa uma coluna vertebral que s√≥ a ele pertence e caracteriza, depois procura o que se lhe pode adaptar sem desarmonia nem contradi√ß√£o.
Faz como o caracol que se não instala na concha de outro caracol; fabrica-a e aumenta-a ao mesmo ritmo que se fabrica e aumenta o corpo que a enche; os Eremitas são bichos traiçoeiros. Aprender ideias não tem valor senão quando nos serve para formar ideias; se apenas as queremos usar não merecemos nem a confiança nem a consideração de ninguém;

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A Tempestade do Destino

Por vezes o destino √© como uma pequena tempestade de areia que n√£o p√°ra de mudar de direc√ß√£o. Tu mudas de rumo, mas a tempestade de areia vai atr√°s de ti. Voltas a mudar de direc√ß√£o, mas a tempestade persegue-te, seguindo no teu encal√ßo. Isto acontece uma vez e outra e outra, como uma esp√©cie de dan√ßa maldita com a morte ao amanhecer. Porqu√™? Porque esta tempestade n√£o √© uma coisa que tenha surgido do nada, sem nada que ver contigo. Esta tempestade √©s tu. Algo que est√° dentro de ti. Por isso, s√≥ te resta deixares-te levar, mergulhar na tempestade, fechando os olhos e tapando os ouvidos para n√£o deixar entrar a areia e, passo a passo, atravess√°-la de uma ponta a outra. Aqui n√£o h√° lugar para o sol nem para a lua; a orienta√ß√£o e a no√ß√£o de tempo s√£o coisas que n√£o fazem sentido. Existe apenas areia branca e fina, como ossos pulverizados, a rodopiar em direc√ß√£o ao c√©u. √Č uma tempestade de areia assim que deves imaginar.
(…) E n√£o h√° maneira de escapar √† viol√™ncia da tempestade, a essa tempestade metaf√≠sica, simb√≥lica. N√£o te iludas: por mais metaf√≠sica e simb√≥lica que seja, rasgar-te-√° a carne como mil navalhas de barba.

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O Jornal é o Fole Incansável que Assopra a Vaidade Humana

Pelo jornal, e pela reportagem que ser√° a sua fun√ß√£o e a sua for√ßa, tu desenvolver√°s, no teu tempo e na tua terra, todos os males da Vaidade! (…) Como a reportagem hoje se exerce, menos sobre os que influem nos neg√≥cios do Mundo, ou nas direc√ß√Ķes do pensamento , do que, como diz a B√≠blia, sobre toda a ¬ęsorte e condi√ß√Ķes de gente v√£¬Ľ, desde os j√≥queis at√© aos assassinos, a sua indiscriminada publicidade concorre pouco para a documenta√ß√£o da hist√≥ria, e muito, prodigiosamente, escandalosamente, para a propaga√ß√£o das vaidades! O jornal √© com efeito o fole incans√°vel que assopra a vaidade humana, lhe irrita e lhe espalha a chama. De todos os tempos √© ela, a vaidade do homem! J√° sobre ela gemeu o gemebundo Salom√£o, e por ela se perdeu Alcib√≠ades, talvez o maior dos Gregos. Incontestavelmente, por√©m, meu Bento, nunca a vaidade foi, como no nosso danado s√©culo XIX, o motor ofegante do pensamento e da conduta. Nestes estados de civiliza√ß√£o, ruidosos e ocos, tudo deriva da vaidade, tudo tende √† vaidade. E a forma nova da vaidade para o civilizado consiste em ter o seu rico nome impresso no jornal, a sua rica pessoa comentada no jornal!

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O Carácter dos Homens é Pouco Flexível

√Č apenas a experi√™ncia que nos ensina quanto o car√°cter dos homens √© pouco flex√≠vel, e durante muito tempo, como as crian√ßas pensamos poder, atrav√©s de sensatas representa√ß√Ķes, atrav√©s da prece e da amea√ßa, atrav√©s do exemplo, atrav√©s dum apelo √† generosidade, levar os homens a deixarem a sua maneira de ser, a mudarem a sua conduta e a desistirem da sua opini√£o, a aumentar a sua capacidade; o mesmo se passa quanto √† nossa pr√≥pria pessoa. √Č preciso que as experi√™ncias venham ensinar-nos o que queremos, o que podemos: at√© essa altura ignor√°mo-lo, n√£o temos car√°cter; e √© preciso mais do que uma vez que rudes fracassos venham relan√ßar-nos na nossa verdadeira via. – Enfim, aprendemo-lo, e chegamos a ter aquilo que o mundo chama car√°cter, isto √© o car√°cter adquirido. A√≠ existe, portanto, apenas um conhecimento, o mais perfeito poss√≠vel da nossa pr√≥pria individualidade: √© uma no√ß√£o abstracta, e por consequ√™ncia clara das qualidades imut√°veis do nosso car√°cter emp√≠rico, do grau e da direc√ß√£o das nossas for√ßas, tanto espirituais como corporais, em suma, do forte e do fraco em toda a nossa individualidade.

Conhecimento sem Paixão seria Castrar a Inteligência

Como investigadores do conhecimento, n√£o sejamos ingratos com os que mudaram por completo os pontos de vista do esp√≠rito humano; na apar√™ncia foi uma revolu√ß√£o in√ļtil, sacr√≠lega; mas j√° de si o querer ver de modo diverso dos outros, n√£o √© pouca disciplina e prepara√ß√£o do entendimento para a sua futura ¬ęobjectividade¬Ľ, entendendo por esta palavra n√£o a ¬ęcontempla√ß√£o desinteressada¬Ľ, que √© um absurdo, sen√£o a faculdade de dominar o pr√≥ e o contra, servindo-se de um e de outro para a interpreta√ß√£o dos fen√≥menos e das paix√Ķes. Acautelemo-nos pois, oh senhores fil√≥sofos!
Desta confabula√ß√£o das ideias antigas acerca de um ¬ęassunto do conheciemnto puro, sem vontade, sem dor, sem tempo¬Ľ, defendamo-nos das mo√ß√Ķes contradit√≥rias ¬ęraz√£o pura¬Ľ, ¬ęespiritualidade absoluta¬Ľ, ¬ęconhecimento subsistente¬Ľ que seria um ver subsistente em si pr√≥prio e sem √≥rg√£o visual, ou um olho sem direc√ß√£o, sem faculdades activas e interpretativas? Pois o mesmo sucede com o conhecimento: uma vista, e se √© dirigida pela vontade, veremos melhor, teremos mais olhos, ser√° mais completa a nossa ¬ęobjectividade¬Ľ. Mas eliminar a vontade, suprimir inteiramente as paix√Ķes – supondo que isso fosse poss√≠vel – seria castrar a intelig√™ncia.

Neruda e García Lorca em Homenagem a Rubén Dario

Eis o texto do discurso:

Neruda: Senhoras…

Lorca: …e senhores. Existe na lide dos touros uma sorte chamada ¬ętoreio dei alim√≥n¬Ľ, em que dois toureiros furtam o corpo ao touro protegidos pela mesma capa.

Neruda: Federico e eu, ligados por um fio eléctrico, vamos emparelhar e responder a esta recepção tão significativa.

Lorca: √Č costume nestas reuni√Ķes que os poetas mostrem a sua palavra viva, prata ou madeira, e sa√ļdem com a sua voz pr√≥pria os companheiros e amigos.

Neruda: Mas n√≥s vamos colocar entre v√≥s um morto, um comensal vi√ļvo, escuro nas trevas de uma morte maior que as outras mortes, vi√ļvo da vida, da qual foi na sua hora um marido deslumbrante. Vamos esconder-nos sob a sua sombra ardente, vamos repetir-lhe o nome at√© que a sua grande for√ßa salte do esquecimento.

Lorca: N√≥s, depois de enviarmos o nosso abra√ßo com ternura de pinguim ao delicado poeta Amado Villar, vamos lan√ßar um grande nome sobre a toalha, na certeza de que v√£o estalar as ta√ßas, saltar os garfos, buscando o olhar que todos anseiam, e que um golpe de mar h√°-de manchar as toalhas. N√≥s vamos evocar o poeta da Am√©rica e da Espanha: Rub√©n…

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Trabalho e Descanso na Justa Medida

A mente n√£o se deve manter sempre na mesma inten√ß√£o ou tens√£o, antes deve dar-se tamb√©m √† divers√£o. S√≥crates n√£o se envergonhava de brincar com as crian√ßas, Cat√£o aliviava com vinho o seu √Ęnimo fatigado dos cuidados p√ļblicos e Cipi√£o dan√ßava com aquele corpo triunfante e militar (…) O nosso esp√≠rito deve relaxar: ficar√° melhor e mais apto ap√≥s um descanso. Tal como n√£o devemos for√ßar um terreno agr√≠cola f√©rtil com uma produtividade ininterrupta que depressa o esgotaria, tamb√©m o esfor√ßo constante esvaziar√° o nosso vigor mental, enquanto um curto per√≠odo de repouso restaurar√° o nosso poder. O esfor√ßo continuado leva a um tipo de torpor mental e letargia. Nem os desejos dos homens devem encaminhar-se t√£o depressa nesta direc√ß√£o se o desporto e o jogo os envolvem numa esp√©cie de prazer natural; embora uma repetida pr√°tica destrua toda a gravidade e for√ßa do nosso esp√≠rito. Afinal, o sono tamb√©m √© essencial para nos restaurar, mas se o prolong√°ssemos constantemente, dia e noite, seria a morte.

O Mal da Nossa Literatura

O mal da nossa literatura é não ser bastante forte para enfrentar o desafio dos casos solitários. Há momentos históricos em que a solidão pode passar por desinteresse da sociedade de que se participa. Atravessamos um desses momentos e a crise explica que ninguém queira expor-se ao risco de atraiçoar um pacto com uma literatura empenhada numa só direcção. Esquece-se todavia que ser-se solitário é, na mais íntegra acepção, a forma mais fecunda de se ser solidário. Na grande solidão de Kafka formou-se um processo que envolvia o problema da liberdade intrínseca de cada um.

Como Manipular um P√ļblico

Segundo uma lei conhecida, os homens, considerados colectivamente, s√£o mais est√ļpidos do que tomados individualmente. Numa conversa a dois, conv√©m que respeitemos o parceiro, mas essa regra de conduta j√° n√£o √© t√£o indispens√°vel num debate p√ļblico em que se trata de dispor as massas a nosso favor.

H√° uns anos, um pol√≠tico pagou a figurantes para o aplaudirem numa concentra√ß√£o. Como bom profissional, compreendera que uma claque, embora n√£o melhore o discurso, predisp√Ķe melhor os espectadores a descobrirem os seus m√©ritos. O mimetismo √© a mola principal para mover as massas no sentido do entusiasmo, do respeito ou do √≥dio. Mesmo perante um pequeno p√ļblico de trinta pessoas, h√° sempre algo de religioso que prov√©m da coagula√ß√£o dos sentimentos individuais em express√£o colectiva. No meio de um grupo, √© necess√°ria uma certa energia para pensar contra a maioria e coragem para exprimir abertamente essa opini√£o.
Os manipuladores de opinião ou, para utilizar uma palavra mais delicada, os comunicadores, sabem que, para conduzir mentalmente uma assembleia numa determinada direcção, é necessário começar por agir sobre os seus líderes. A primeira tarefa consiste em determinar quem são, apesar de eles próprios não o saberem. Um manipulador não tarda a distinguir o punhado de indivíduos em que pode apoiar-se para influenciar os outros.

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A Espontaneidade

O homem produz tudo o que sai da sua natureza. Concorre com a sua actividade; fornece a for√ßa bruta que produz o resultado. Mas a direc√ß√£o dessa for√ßa n√£o lhe pertence. D√° a mat√©ria: a forma, por√©m, vem doutra parte. O verdadeiro autor das obras espont√Ęneas √© a natureza humana, ou, se se quiser, a causa superior da natureza. Neste ponto torna-se indiferente atribuir a causalidade a Deus ou ao Homem. O Espont√Ęneo √© √† uma humano e divino. Est√° nisto a concilia√ß√£o de opini√Ķes, antes incompletas do que contradit√≥rias, que, segundo dizem respeito a uma ou outra face do fen√≥meno, t√™m igualmente uma parte de verdade.

O Grito

Corria pela rua acima quando a s√ļbita explos√£o dum grito o fez parar instantaneamente. Todo o seu corpo estremeceu. O que ele desde sempre receara acabara de ocorrer: algures, nesse momento, uma caneta come√ßara a deslizar sobre uma folha de papel, dando assim corpo √†quele grito que de h√° muito, como as esculturas no interior da pedra, se mantinha na expectativa desse simples gesto dum escritor para atingir a realidade. Tapou os ouvidos com as m√£os. O grito mais n√£o era que um sinal, mas o que esse sinal lhe transmitia deixava-o aterrado. Acabara de ser posta a funcionar uma engrenagem que a partir de agora nada nem ningu√©m, e muito menos ele, iria alguma vez poder travar, um mecanismo de que ele pr√≥prio iria inapelavelmente ser a maior v√≠tima. Mais tarde ou mais cedo isso teria de se dar, mas agora que, sem qualquer aviso pr√©vio, se soubera propulsado para outra dimens√£o da sua vida, como se os fios que a governavam tivessem repentinamente mudado de m√£os, o facto de h√° longo tempo o pressentir n√£o o impediu de olhar √† sua volta com estranheza, uma estranheza que antes de mais nascia de tudo √† primeira vista ter ficado como estava,

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Arriscar Tem a Ver com Confiança

Arriscar tem a ver com confian√ßa. Uma pessoa sem confian√ßa vai tentar repetir, fazer igual aos outros, n√£o cometer erros, que √© uma ideia muito valorizada. Mas o erro est√° ligado √† descoberta. √Č fundamental n√£o ter medo nenhum do erro. O que √© o erro? Eu tinha previsto ir numa determinada direc√ß√£o e n√£o fui, errei. O erro √© encontrar alguma coisa, algo que se cruza com o novo, o criativo.

Gonçalo M.

O Homem não está à Altura da sua Obra

Dir-se-ia que a civiliza√ß√£o moderna √© incapaz de produzir uma elite dotada simultaneamente de imagina√ß√£o, de intelig√™ncia e de coragem. Em quase todos os pa√≠ses se verifica uma diminui√ß√£o do calibre intelectual e moral naqueles a quem cabe a responsabiliza√ß√£o da direc√ß√£o dos assuntos pol√≠ticos, econ√≥micos e sociais. As organiza√ß√Ķes financeiras, industriais e comerciais atingiram dimens√Ķes gigantescas. S√£o influenciadas n√£o s√≥ pelas condi√ß√Ķes do pa√≠s em que nasceram, mas tamb√©m pelo estado dos pa√≠ses vizinhos e de todo o mundo. Em todas as na√ß√Ķes produzem-se modifica√ß√Ķes sociais com grande rapidez. Em quase toda a parte se p√Ķe em causa o valor do regime pol√≠tico. As grandes democracias enfrentam problemas tem√≠veis que dizem respeito √† sua pr√≥pria exist√™ncia e cuja solu√ß√£o √© urgente. E apercebemo-nos de que, apesar das grandes esperan√ßas que a humanidade depositou na civiliza√ß√£o moderna, esta civiliza√ß√£o n√£o foi capaz de desenvolver homens suficientemente inteligentes e audaciosos para a dirigirem na via perigosa por que a enveredou. Os seres humanos n√£o cresceram tanto como as institui√ß√Ķes criadas pelo seu c√©rebro. S√£o sobretudo a fraqueza intelectual e moral dos chefes e a sua ignor√Ęncia que p√Ķem em perigo a nossa civiliza√ß√£o.

Não Te Leves Tão a Sério

Em todas as palestras que dou, reservo alguns minutos para este tema e, se poss√≠vel, logo no in√≠cio da conversa. Fa√ßo-o porque quero que a soma de todas as pessoas que me ouvem possam, rapidamente, ser um grupo. O objetivo √© aproxim√°-las da minha energia e desconstruir padr√Ķes. Muitas vezes, em certos indiv√≠duos, denoto uma forte resist√™ncia ao abra√ßo de um desconhecido, ao vibrar com uma m√ļsica que pede saltos e explos√Ķes de alegria e ao riso.
E porque √© que isto acontece? Porque est√£o a levar os padr√Ķes que gerem as suas vidas demasiado a s√©rio.

– ¬ęEu n√£o toco assim numa pessoa que n√£o conhe√ßo¬Ľ; ¬ęAi que vergonha, p√īr-me aqui aos saltos¬Ľ; ¬ęAlguma vez na vida, vou achar gra√ßa ao que ele disse? Convencido¬Ľ.
Estes exemplos são de gente real. De gente que se acha superior, mais educada e mais engraçada. Mas serão? Ou será esta gente de uma extrema insegurança? E estes exemplos de alguém que se sente ameaçado, com medo que lhe caia a máscara e extremamente vulnerável?

Aprendi que o palco, o microfone e as centenas de olhos na minha dire√ß√£o j√° me d√£o um status mais do que suficiente para criar a ilus√£o de que sou mais do que o meu p√ļblico.

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A Diferença entre Ficção e Crença

Não há nada mais livre do que a imaginação humana; embora não possa ultrapassar o stock primitivo de ideias fornecidas pelos sentidos externos e internos, ela tem poder ilimitado para misturar, combinar, separar e dividir estas ideias em todas as variedades da ficção e da fantasia imaginativa e novelesca. Ela pode inventar uma série de eventos com toda a aparência de realidade, pode atribuir-lhes um tempo e um lugar particulares, concebê-los como existentes e des­crevê-los com todos os pormenores que correspondem a um facto histórico, no qual ela acredita com a máxima certeza. Em que consiste, pois, a diferença entre tal ficção e a crença?
Ela não se localiza sim­plesmente numa ideia particular anexada a uma concepção que obtém o nosso assentimento, e que não se encontra em nenhuma ficção conhecida. Pois, como o espírito tem autoridade sobre todas as suas ideias, poderia voluntariamente anexar esta ideia particular a uma ficção e, por conseguinte, seria capaz de acreditar no que lhe agradasse, embora se opondo a tudo que encontramos na experiência diária. Po­demos, quando pensamos, juntar a cabeça de um homem ao corpo de um cavalo, mas não está em nosso poder acreditar que semelhante animal tenha alguma vez existido.

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