Cita√ß√Ķes de Ana Hatherly

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Frases, pensamentos e outras cita√ß√Ķes de Ana Hatherly para ler e compartilhar. Os melhores escritores est√£o em Poetris.

A Invenção da Resposta

a invenção da resposta

outrora
em riste
o passo mítico espantoso condensava
da santidade
o insurrecto pudor
o gelo do rubor
a pressa cerrada

agora
em triste
vacuidade
o desafio que expande
cede
degola
o desgarrado nexo do rasgo

Esta Gente / Essa Gente

O que é preciso é gente
gente com dente
gente que tenha dente
que mostre o dente

Gente que n√£o seja decente
nem docente
nem docemente
nem delicodocemente

Gente com mente
com s√£ mente
que sinta que n√£o mente
que sinta o dente s√£o e a mente

Gente que enterre o dente
que fira de unha e dente
e mostre o dente potente
ao prepotente

O que é preciso é gente
que atire fora com essa gente

Essa gente dominada por essa gente
n√£o sente como a gente
n√£o quer
ser dominada por gente

NENHUMA!

A gente
só é dominada por essa gente
quando não sabe que é gente

A ideia de que o mundo √© o reino da loucura √© uma convic√ß√£o muito arreigada. O louco, como out-sider, marginal supremo, √© √ļtil e portanto necess√°rio. As qualidades do outro fazem parte da lista dos crimes essenciais.

A Essência do Progresso

РLá porque vivemos em erectos edifícios não quer dizer que não vivamos afinal em cavernas. De resto cada homem vive mergulhado na penumbra da caverna que ele próprio é. E somos todos primitivos porque como o futuro está constantemente a cumprir-se, para os que vierem depois de nós seremos sempre velhos, depois antigos e depois primitivos. A essência do progresso consiste no eterno insistir sobre um mesmo esquema.
РMas que progresso é esse que se baseia na eterna repetição de si próprio?
РA descoberta gradual da permanência do esquema.

O Poeta é um Guardador

o poeta é um guardador

guarda a diferença
guarda da indiferença

no incerto
guarda a certeza da voz

Quanto √ďdio

quanto ódio
diz
quanto ódio
n√£o sabes
tens
dentro de ti

o deferente tapete da palavra
a rede bélica
os rasgos secund√°rios

TUDO

engendra
articula
atavia
a sala da tua fala

A Memória

A mem√≥ria √© essa claridade fict√≠cia das sobreposi√ß√Ķes que se anulam. O significado √© essa esp√©cie de mapa das interpreta√ß√Ķes que se cruzam como cicatrizes de sucessivas pancadas. Os nossos sentimentos. A intensidade do sentir √© intoler√°vel. Do sentir ao sentido do sentido ao significado: o que resta √© impacto que substitui impacto ‚ÄĒ eis a inven√ß√£o.

Tempo e Experiência

A noção de experiência é complexa. Todo o espaço é de vidro Рum vidro que não parte por fora mas parte por dentro. Estamos sempre a esbarrar com invisíveis barreiras. O que ele revela não é precisamente o que queremos saber. E se tivermos os olhos abertos até ao fim: vemos o quê? Como o espaço, o tempo não revela nada de especial. Só percursos. Folhas de uma agenda descartável. A curva da vida de que fala Homero revela que a nossa existência é uma rápida passagem pelo mundo em efeito Doppler.

Saber

saber
é saber saber-te
sabermo-nos unir

unirmo-nos
é conhecermo-nos
sabermos ser

por fim sermos
é sabermos
sabermo-nos

conhecermos
a surda √°spide

A fraqueza absoluta é a espécie de ilusão permitida pela simulação do controlo de não agir.

A observação do Outro: a diferença é o que nos une e separa. Quando o eu descobre o outro começa a guerrilha sem fim. O nó que se faz-desfaz. A escolha: o gelo da solidão ou a horrível queimadura da vida.

Quantas vezes n√£o √© atrav√©s dos actos aparentemente mais in√ļteis ou sup√©rfluos que o homem descobre a sua for√ßa?

O amor ama as coisas difíceis, por isso quem ama vive num permanente estado de impaciência.

O Isolamento do Criador

Há uma sensação de infidelidade na comunicação. Essa verificação faz com que o criador esteja sempre insatisfeito, dominado pelo desejo de fazer cada vez melhor, porque há um fracasso imanente em toda a criação. Essa verificação pode levar a uma tentativa interminável ou ao isolamento pelo silêncio. Mas para o criador o isolamento é a sua oficina.

Um Calculador de Improbabilidades

O poeta é
um calculador de improbabilidades limita
a informação quantitativa fornecendo
reforçada informação estésica.
√Č uma m√°quina eta-er√≥tica em que as discrep√Ęncias
s√£o a fulgur√Ęncia da m√°quina.
A crueldade elegante da m√°quina resulta da
competição pirotécnica da circulação íntima
e fulgurante do seu maquinismo erótico.
A psicologia do maquinal sabe que basta
que se crie um pólo positivo para que o pólo
negativo surja
ou vice-versa
e as evolu√ß√Ķes telecin√©ticas pela for√ßa
das cat√°strofes desenvolvem suas faculdades
latentes ou absorvem-nas como a esponja absorve
as √°guas vari√°veis dos humores
que transforma em polaridade.
O maquinal eta-erótico está em astrogação
curso hipnótico dos polímeros.
Digo com precisão fenomenológica: o maquinal
circula em sua hiperesfera da maneira mais
excêntrica.
Digo e garanto:
o maquinal absolutamente absorve suas √°guas
variáveis e isso é o seu amplexo.
O maquinal eta-erótico é tu-eu.
O maquinal tu-eu
cuja tarefa árdua não é
definir a verdade est√° no meio da profus√£o
dos objectos
e considera o consumo a verdade deslocada
deslocação de grande tonelagem
laboriosa alfaiataria de eros
constante moribunda
e esse opróbrio dispersivo e vexável
indifere a vida esponjosa.

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O homem invisível é uma metáfora de todas as coisas impossíveis com que sonhamos: a felicidade, o amor, o saber que nos escapa. Entre o próximo e o longínquo está o prazer que se experimenta num instante supremo mas essa plenitude está fora do nosso campo visual.