Passagens de Ana Hatherly

68 resultados
Frases, pensamentos e outras passagens de Ana Hatherly para ler e compartilhar. Os melhores escritores est√£o em Poetris.

A Felicidade √© um T√ļnel

o domínio
o erotismo do domínio
do domínio irrisório
mas enorme

submeter
ver tremer
ver o tremor do outro

vencer
o gelo
o desdém
veloz

a felicidade √© um t√ļnel

O Império da Emoção

√Äs vezes penso: os nossos sentimentos s√£o como uma esp√©cie de esparguete em a√ßo, em que cada segmento est√° totalmente imiscu√≠do no todo mas ao mesmo tempo √© distintamente aperceb√≠vel. Outras vezes penso: n√£o, os nossos sentimentos s√£o como uma floresta de esparguete de a√ßo em que cada segmento emerge s√≥ parcialmente distinto. Na ponta de cada uma dessas varas vibra uma forma√ß√£o algo rendilhada, consequ√™ncia dos constantes tremores de cada segmento, e assim, quando algu√©m est√° sob o imp√©rio de funda emo√ß√£o, tudo nele treme e na floresta tudo vibra e essas extremidades rendilhadas formam rapid√≠ssimos desenhos, imiscuindo-se uns nos outros, e o total √© uma combina√ß√£o de vibra√ß√Ķes que se sobrep√Ķem e explicam a confus√£o que se encontra no indiv√≠duo sob o imp√©rio da emo√ß√£o.

N√£o medir a altura do sonho. N√£o medir a dist√Ęncia de um sorriso. Quando a espuma das ondas chega √† areia qualquer coisa de irrevers√≠vel acontece.

Os Tent√°culos da Escrita

Os tent√°culos da escrita. A escrita √© um polvo, um molusco vers√°til. Tem infinitos recursos. Escapa sempre. Abstractiza-se. Disfar√ßa-se, adensa-se, adelga√ßa-se, esconde-se. Impele-se r√°pida. Compreende tudo: ascese, consolo √≠ntimo, entrega; fluxos, refluxos, invas√Ķes, esvaziamentos, obstina√ß√£o feroz. O seu rigor √© m√≠stico. √Č uma infinita demanda. Perscruta o inaudito. Sideral Alice atravessa todas as portas, todos os espelhos. Cruza, descobre, inventa universos. A escrita √© um fragmento do espanto, j√° algu√©m o disse.

A Memória é um Silêncio que Espera

O património do silêncio. Os livros acumulam-se pela casa. Cobrem as paredes, enchem as prateleiras dos armários. Aguardam-nos calados com suas páginas apertadas onde o pó e a humidade se infiltram. Disciplinados, exibem apenas o seu dorso curvo coberto de pele, ou então magro, estreito, de papel. A memória é um silêncio que espera, uma provação da paciência.

Criatividade Cega

Entre o caos e a harmonia. A cegueira pensada é uma aflição mental, uma das formas do isolamento porque a invisibilidade não é obstáculo: é apenas um fenómeno subtilíssimo da ausência. Na criação tudo é potencialmente uma entidade distinta da matéria, uma improbabilidade, porque, como diziam os antigos, diante da luz somos todos cegos.

A civilização consiste em aprendermos a fazer naturalmente tudo o que não é natural.

Esta Noite Morrer√°s

Esta noite morrer√°s.
Quando a lua vier tocar-me o rosto
ter√°s partido do meu leito
e aquele que procurar a marca dos teus passos
encontra urtigas crescendo
por sobre o teu nome.
Esta noite morrer√°s.
Quando a lua vier tocar-me o rosto
ter√°s partido do meu leito
e uma gota de sangue ressequido
é a marca dos teus passos.
No coração do tempo pulsa um maquinismo ínscio
e na casa do tempo a hora é adorno.
Quando a lua vier tocar-me o rosto a tua sombra extinta marca
o fim de um eclipse hor√°rio de uma partida iminente e o tempo
apaga a marca dos teus passos sobre o meu nome.
Constante.
O mar é isso.
A lua vir tocar-me o rosto e encontrar urtigas crescendo
por sobre o teu nome.
O mar é tu morreste.
O mar é ser noite e vir a lua tocar-me o rosto quando tu par-
tiste e no meu leito crescem folhas sangue.
A febre é uma pira incompreensível como a aparição da lua
e a opacidade do mar.
No meu leito a lua vai tocar-me o rosto e a tua ausência é um
prisma,

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O desejo é sempre uma forma de violação, o fascínio inclemente do não-acessível.

Os Caçadores de Simulacros

O artista, o poeta, o escritor, os que perguntam: todos são caçadores de simulacros, incansáveis calculadores de improbabilidades. Pombas ou abutres, frágeis canários ou escondidos melros, raspam, rasgam, rompem, sempre roendo as suas próprias garras. O invisível que há neles então emerge.

A Humildade

a humildade
o desenfreio em tipo pequeno
antídoto aos dédalos
assoma
assombra
ensombra

oh que embargo
que aspas
que estacion√°rio capricho

Se a coacção existe é preciso combatê-la mas se não existe rapidamente é criada. Na escala dos valores o que não pende depende.

Descobrindo-se, o poeta personifica, representa. Nos melhores momentos descobre o que nem sequer encoberto estava, porque o que ele faz é ver a oblíqua eloquência ou o encanto do que, sem ele, não seria.

Teoricamente, se a percep√ß√£o √© finita toda a ac√ß√£o √© finalmente f√ļtil e devidamente gr√°tis.

A teimosa realidade. Na arqueologia da paisagem a viagem da escrita é abolição oblíqua, delírio provocado, lição de tentativa. Ao fim de tantos anos o desejo faz-se exílio.

Os Livros Estão Sempre Sós

Os livros est√£o sempre s√≥s. Como n√≥s. Sofrem o terr√≠vel impacto do presente. Como n√≥s. T√™m o dom de consolar, divertir, ferir, queimar. Como n√≥s. Calam a sua f√ļria com a sua farsa. Como n√≥s. T√™m fachadas lisas ou n√£o. Como n√≥s. Formosas, delirantes, horrorosas. Como n√≥s. Est√£o ali sendo entretanto. Como n√≥s. No limiar do esquecimento. Como n√≥s. Cheios de submiss√£o ao servi√ßo do imposs√≠vel. Como n√≥s.