Passagens de Ana Hatherly

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Frases, pensamentos e outras passagens de Ana Hatherly para ler e compartilhar. Os melhores escritores est√£o em Poetris.

O desejo é sempre uma forma de violação, o fascínio inclemente do não-acessível.

Os Caçadores de Simulacros

O artista, o poeta, o escritor, os que perguntam: todos são caçadores de simulacros, incansáveis calculadores de improbabilidades. Pombas ou abutres, frágeis canários ou escondidos melros, raspam, rasgam, rompem, sempre roendo as suas próprias garras. O invisível que há neles então emerge.

A Humildade

a humildade
o desenfreio em tipo pequeno
antídoto aos dédalos
assoma
assombra
ensombra

oh que embargo
que aspas
que estacion√°rio capricho

Se a coacção existe é preciso combatê-la mas se não existe rapidamente é criada. Na escala dos valores o que não pende depende.

Descobrindo-se, o poeta personifica, representa. Nos melhores momentos descobre o que nem sequer encoberto estava, porque o que ele faz é ver a oblíqua eloquência ou o encanto do que, sem ele, não seria.

Teoricamente, se a percep√ß√£o √© finita toda a ac√ß√£o √© finalmente f√ļtil e devidamente gr√°tis.

A teimosa realidade. Na arqueologia da paisagem a viagem da escrita é abolição oblíqua, delírio provocado, lição de tentativa. Ao fim de tantos anos o desejo faz-se exílio.

Os Livros Estão Sempre Sós

Os livros est√£o sempre s√≥s. Como n√≥s. Sofrem o terr√≠vel impacto do presente. Como n√≥s. T√™m o dom de consolar, divertir, ferir, queimar. Como n√≥s. Calam a sua f√ļria com a sua farsa. Como n√≥s. T√™m fachadas lisas ou n√£o. Como n√≥s. Formosas, delirantes, horrorosas. Como n√≥s. Est√£o ali sendo entretanto. Como n√≥s. No limiar do esquecimento. Como n√≥s. Cheios de submiss√£o ao servi√ßo do imposs√≠vel. Como n√≥s.

Como disse uma velha cantora argentina, com o tempo, a gente se despede lentamente das coisas conhecidas. Por isso o criador não envelhece: constantemente inventa novas imagens de abertura para espaços que não se conhecem.

Ambiguidade e Acção

A Mentira é a recriação de uma Verdade. O mentidor cria ou recria. Ou recreia. A fronteira entre estas duas palavras é ténue e delicada. Mas as fronteiras entre as palavras são todas ténues e delicadas.
Entre a recriação e o recreio assenta todo o jogo. O que não quer dizer que o jogo resulta sempre. Resulte seja o que for ou do que for.
A Ambiguidade é a Arte do Suspenso. Tudo o que está suspenso suspende ou equilibra. Ou instabiliza. Mas tudo é instável ou está suspenso.
Pelo menos ainda.
Ainda é uma questão de tempo. Tudo depende da noção de tempo ou duração ou extensão. A aceleração do tempo pode traduzir-se pela imobilidade pois que a imobilidade pode traduzir-se por um máximo de aceleração ou um mínimo de extensão: aceleração tão grande que já não se veja o movimento ou o espaço ou a duração.
Tudo está sempre a destruir tudo. Ou qualquer coisa. Ou alguém. Mas estamos sempre a destruir tudo ou qualquer coisa. Ou alguém.
Os construtores demolem. No lugar onde estava o sopro, pormos pedras ou palavras: sinónimo de construção. Ou destruição. Ou acção.

Um Homem que Est√°

um homem que est√°
no meio da entreaberta porta
apenas n√£o fechada ainda
ou j√°
est√°
entrando ou saindo dela
j√°
lividamente ou putrefacto
j√°
um homem est√°
na entreaberta
entretanto
porta
apenas n√£o fechada ainda
ou j√°

O Calend√°rio Ardente dos Teus Dias

o calend√°rio ardente dos teus dias
a lista das tuas agonias

como se atreve
como n√£o ousa serenar
serenar-te

no ímpeto fugidio e secreto
o sorriso
a alva gravidade do estilo

O estatuto da realidade: descobrir esse doce exerc√≠cio destrona a asc√©tica parcim√≥nia do pensar racional. Mais do que um mero crep√ļsculo, flex√≠vel ou determinado, o pensamento precisa de ilus√£o e assim a obra de arte abre-se em leque sobre o invent√°rio do mundo.

Entre o fr√≠volo e o tr√°gico: a amargura do pioneiro. Depois de ter sofrido tantas humilha√ß√Ķes por ser de vanguarda, quando chega √† maturidade, o pioneiro v√™ os que vieram depois usufruir do que ele descobriu, ignorando-o. A consci√™ncia do real √© um in√ļtil ox√≠moro que morde.

Pensar o presente conduz necessariamente ao desespero porque a vida não tem outra solução senão perpetuar-se na sua imperfeição.

O escritor foi sempre um fun√Ęmbulo cego e o leitor √© apenas um espectador de passagem.

Keats disse que uma coisa bela é uma alegria eterna. Hoje a beleza é a voz sufocada de uma perdida sabedoria.