Cita√ß√Ķes sobre Vozes

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Frases sobre vozes, poemas sobre vozes e outras cita√ß√Ķes sobre vozes para ler e compartilhar. Leia as melhores cita√ß√Ķes em Poetris.

Com uma Estrela na Voz

Que voz é esta? De onde vem?
Que fantasmas antigos desperta
quando tudo o mais parece
ferido pela imobilidade de um sono de pedra?

Corres agora atr√°s das vozes
acantonadas nas arcas de Dezembro
e o que buscas é uma centelha de riso,
o fugaz cristal de uma l√°grima,
o aconchego de uma carícia
capaz de vergar a noite ao peso
imaterial de um instante de ternura.

√Č s√≥ isso que buscas, nada mais.
E tudo o que buscas
é uma lança que trespassa a morte
tantas vezes anunciada
no mudo sofrimento dos animais.

E se, buscando, é a luz que encontras,
ergue-a ent√£o como um estandarte
na hora de todos os fingimentos
e continua buscando até descobrires
que a voz que persegues e quase te enlouquece
é a tua própria voz soletrando nos portais
os nomes piedosos e límpidos
de quem chega um dia no rasto de uma estrela.

O Valor da Crónica de Jornal

A cr√≥nica √© como que a conversa √≠ntima, indolente, desleixada, do jornal com os que o l√™em: conta mil coisas, sem sistema, sem nexo, espalha-se livremente pela natureza, pela vida, pela literatura, pela cidade; fala das festas, dos bailes, dos teatros, dos enfeites, fala em tudo baixinho, como quando se faz um ser√£o ao braseiro, ou como no Ver√£o, no campo, quando o ar est√° triste. Ela sabe anedotas, segredos, hist√≥rias de amor, crimes terr√≠veis; espreita, porque n√£o lhe fica mal espreitar. Olha para tudo, umas vezes melancolicamente, como faz a Lua, outras vezes alegre e robustamente, como faz o Sol; a cr√≥nica tem uma doidice jovial, tem um estouvamento delicioso: confunde tudo, tristezas e fac√©cias, enterros e actores ambulantes, um poema moderno e o p√© da imperatriz da China; ela conta tudo o que pode interessar pelo esp√≠rito, pela beleza, pela mocidade; ela n√£o tem opini√Ķes, n√£o sabe do resto do jornal; est√° nas suas colunas contando, rindo, pairando; n√£o tem a voz grossa da pol√≠tica, nem a voz indolente do poeta, nem a voz doutoral do cr√≠tico; tem uma pequena voz serena, leve e clara, com que conta aos seus amigos tudo o que andou ouvindo, perguntando, esmiu√ßando.

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Sinto na Ang√ļstia o Quem me Lembrasse

Sinto na ang√ļstia o quem me lembrasse
e do lembrar a mim como uma ponte
onde de noite já ninguém passasse
viesse a notícia desse outro horizonte

em que o meu grito preso na garganta
dissesse à voz que não ouvi e veio
quanto cansaço inverosímil, quanta
fadiga me enternece como um seio.

Vibr√°til voga vaga pela tarde
que em cigarros distrai o eu estar só
a chama obscura que visível arde
quando arde ao sol o pó.

Ci√ļme

Encontro em ti tudo o que imaginara
na mulher, para ser o meu ideal;
Рnão é só teu olhar, tua voz clara,
e essa express√£o que tens, sentimental!…

Nem essa graça ingênua, hoje tão rara,
de quem n√£o sabe onde se encontra o mal,
ou teu riso feliz, que se compara
ao tinir de uma ta√ßa de cristal…

√Č tudo em ti, tra√ßo por tra√ßo, tudo!
As tuas m√£os s√£o rendas de ternura;
teus carinhos, macios, de veludo.

Por isso mesmo é que é maior a dor,
quando amargo a mais íntima tortura
por n√£o ter sido o teu primeiro amor…

O Essencial é Ter o Vento

O essencial é ter o vento.
Compra-o; compra-o depressa,
A qualquer preço.
Dá por ele um princípio, uma ideia,
Uma d√ļzia ou mesmo d√ļzia e meia
Dos teus melhores amigos, mas compra-o.
Outros, menos sagazes
E mais convencionais,
Te dir√£o que o preciso, o urgente,
√Č ser o jogador mais influente
Dum trust de petróleo ou de carvão.
Eu não: O essencial é ter o vento.
E agora que o Outono se insinua
No cad√°ver das folhas
Que atapeta a rua
E o grande vento afina a voz
Para requiem do Ver√£o,
A baixa é certa.
Compra-o; mas compra-o todo,
De modo Que n√£o fique sopro ou brisa
Nas m√£os de um concorrente
Incompetente.

quando a ternura for a √ļnica regra da manh√£

um dia, quando a ternura for a √ļnica regra da manh√£,
acordarei entre os teus braços. a tua pele será talvez demasiado bela.
e a luz compreenderá a impossível compreensão do amor.
um dia, quando a chuva secar na memória, quando o inverno for
t√£o distante, quando o frio responder devagar com a voz arrastada
de um velho, estarei contigo e cantar√£o p√°ssaros no parapeito da
nossa janela. sim, cantar√£o p√°ssaros, haver√° flores, mas nada disso
será culpa minha, porque eu acordarei nos teus braços e não direi
nem uma palavra, nem o princípio de uma palavra, para não estragar
a perfeição da felicidade.

Saudades Trágico-Marítimas

Chora no ritmo do meu sangue, o Mar.
Na praia, de bruços,
fico sonhando, fico-me escutando
o que em mim sonha e lembra e chora alguém;
e oiço nesta alma minha
um longínquo rumor de ladainha,
e soluços,
de al√©m…

Chora no ritmo do meu sangue, o Mar.

São meus Avós rezando,
que andaram navegando e que se foram,
olhando todos os céus;
s√£o eles que em mim choram
seu fundo e longo adeus,
e rezam na √Ęnsia crua dos naufr√°gios;
choram de longe em mim, e eu oiço-os bem,
choram ao longe em mim sinas, press√°gios,
de al√©m, de al√©m…

Chora no ritmo do meu sangue, o Mar.

Naufraguei cem vezes j√°…
Uma, foi na nau S. Bento,
e vi morrer, no tr√°gico tormento,
Dona Leonor de S√°:
vi-a nua, na praia √°spera e feia,
com os olhos implorando
– olhos de esposa e m√£e –
e vi-a, seus cabelos desatando,
cavar a sua cova e enterrar-se na areia.
– E sozinho me fui pela praia al√©m…

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Manh√£ de Inverno

Coroada de névoas, surge a aurora
Por detr√°s das montanhas do oriente;
Vê-se um resto de sono e de preguiça,
Nos olhos da fant√°stica indolente.

Névoas enchem de um lado e de outro os morros
Tristes como sinceras sepulturas,
Essas que têm por simples ornamento
Puras capelas, l√°grimas mais puras.

A custo rompe o sol; a custo invade
O espaço todo branco; e a luz brilhante
Fulge através do espesso nevoeiro,
Como através de um véu fulge o diamante.

Vento frio, mas brando, agita as folhas
Das laranjeiras √ļmidas da chuva;
Erma de flores, curva a planta o colo,
E o ch√£o recebe o pranto da vi√ļva.

Gelo n√£o cobre o dorso das montanhas,
Nem enche as folhas trêmulas a neve;
Galhardo moço, o inverno deste clima
Na verde palma a sua história escreve.

Pouco a pouco, dissipam-se no espaço
As névoas da manhã; já pelos montes
V√£o subindo as que encheram todo o vale;
J√° se v√£o descobrindo os horizontes.

Sobe de todo o pano; eis aparece
Da natureza o esplêndido cenário;

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Provençal

Em um solar de algum dia
Cheiinho de alma e valia,
Foi ali
Que ao gosto de olhos a vi

Como dantes inda vasto
Agora
N√£o tinha pombas nem mel.
E à opulência de outrora,
Esmoronado e j√° gasto,
Pedia m√£os de alvenel.

Foi ali
Que ao gosto de olhos a vi.

O seu chapéu, que trazia
Do calor contra as ardências,
Era o que a pena daria
Num certo sabor e arrimo
Com jeitos de circunferências
A morrer todas no cimo.

Davam-lhe franco nos ombros
As pontas do lenço branco:
E sem que ninguém as ouça,
Eram palavras da moça
Com a voz alta de chamar;

Palavras feitas em gesto,
Igualzinho e manifesto,
Como um relance de olhar.

E bela, fechada em gosto,
Fazia o seu rosto dela
A gente mestre de amar.

Foi num solar de algum dia,
Cheiinho de alma e valia,
Que eu disse de mim para ela
Por este falar assim:

Vem, meu amor!

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Cam√Ķes III

Quando, torcendo a chave misteriosa
Que os cancelos fechava do Oriente,
O Gama abriu a nova terra ardente
Aos olhos da companha valorosa,

Talvez uma vis√£o resplandecente
Lhe amostrou no futuro a sonorosa
Tuba. que cantaria a ação famosa
Aos ouvidos da própria e estranha gente.

E disse: “Se j√° noutra, antiga idade,
Tróia bastou aos homens, ora quero
Mostrar que é mais humana a humanidade.

Pois não serás herói de um canto fero,
Mas vencer√°s o tempo e a imensidade
Na voz de outro moderno e brando Homero”.

Abaixo el-rei Sebasti√£o

√Č preciso enterrar el-rei Sebasti√£o
é preciso dizer a toda a gente
que o Desejado j√° n√£o pode vir.
√Č preciso quebrar na ideia e na can√ß√£o
a guitarra fant√°stica e doente
que alguém trouxe de Alcácer Quibir.

Eu digo que est√° morto.
Deixai em paz el-rei Sebasti√£o
deixai-o no desastre e na loucura.
Sem precisarmos de sair o porto
temos aqui à mão
a terra da aventura.

Vós que trazeis por dentro
de cada gesto
uma cansada humilhação
deixai falar na vossa voz a voz do vento
cantai em tom de grito e de protesto
matai dentro de vós el-rei Sebastião.

Quem vai tocar a rebate
os sinos de Portugal?
Poeta: é tempo de um punhal
por dentro da canção.
Que é preciso bater em quem nos bate
é preciso enterrar el-rei Sebastião.

A Tua Import√Ęncia na Tua Vida

√Č fundamental reconheceres a tua import√Ęncia na tua vida. Por algum motivo nasceste, aprendeste a respirar e tiveste direito a um nome, nome esse que, em conjunto com as tuas caracter√≠sticas, te identificar√° eternamente como um ser individual, √ļnico e livre. Haver√° algo mais especial e precioso que isso? Estou em crer que n√£o; ainda assim, encontro muitas pessoas a quererem ser outras e outras ainda a querer acabar com elas pr√≥prias na esperan√ßa de, imediatamente, poderem vir a ser outro algu√©m. √Č o teu caso? Se for deve ser uma chatice, mas, tamb√©m, se n√£o te d√°s qualquer import√Ęncia, que import√Ęncia te darei eu? J√° calculaste o perigo em que incorres por pensar desta maneira? Em menos de nada, estar√°s sozinho ou rodeado de gente como tu, ausente e que meteu f√©rias no inferno para sempre. Bom, mas alegrem-se os cora√ß√Ķes porque acredito que n√£o lerias estas linhas iniciais se nada estivesse a borbulhar a√≠ dentro, se n√£o existisse, pelo menos, uma fugaz esperan√ßa e uma enorme vontade de mudar. Est√° atento, o passado s√≥ influencia o presente se mantiveres o mesmo comportamento, por isso liberta-te dessa dor por uns instantes e l√™ em voz alta a pr√≥xima frase tantas vezes quantas achares necess√°rio.

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A Insustent√°vel Leveza do Ser

Eis que ao despedir-vos, esse teu amigo te diz que ele n√£o √© esse teu amigo mas sim um seu irm√£o g√©meo. Imediatamente uma altera√ß√£o profunda se instalou nas vossas rela√ß√Ķes. Mas se te perguntares em qu√™, n√£o √© f√°cil responderes. Naturalmente dirias que esse teu amigo n√£o era ele, que era outra pessoa. Mas outra em qu√™? O corpo √© igual nos m√≠nimos pormenores, igual a face e os gestos e a voz e os olhos. Iguais as ideias, os sentimentos, as recorda√ß√Ķes, o todo integral da sua vida e do que ele √©. Se percorreres todos os pormenores, encontr√°-los-√°s em hip√≥tese absolutamente iguais. Come√ßa onde quiseres, examina cada min√ļcia que constitui o teu amigo, progride at√© ao mais extremo limite e verificar√°s que nada escapa a uma integral igualdade. Mas se isto √© assim, deveria ser-te indiferente seres amigo deste como eras amigo do outro. Pois se uma pessoa √© aquilo que ela nos √©, se uma pessoa √© aquilo que a manifesta, se aquilo que nos define √© aquilo que somos e se esse algu√©m que encontr√°mos em nada difere, em hip√≥tese, do algu√©m que esper√°vamos encontrar, nenhuma raz√£o havia para que as rela√ß√Ķes com ele se perurbassem.

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Neruda e García Lorca em Homenagem a Rubén Dario

Eis o texto do discurso:

Neruda: Senhoras…

Lorca: …e senhores. Existe na lide dos touros uma sorte chamada ¬ętoreio dei alim√≥n¬Ľ, em que dois toureiros furtam o corpo ao touro protegidos pela mesma capa.

Neruda: Federico e eu, ligados por um fio eléctrico, vamos emparelhar e responder a esta recepção tão significativa.

Lorca: √Č costume nestas reuni√Ķes que os poetas mostrem a sua palavra viva, prata ou madeira, e sa√ļdem com a sua voz pr√≥pria os companheiros e amigos.

Neruda: Mas n√≥s vamos colocar entre v√≥s um morto, um comensal vi√ļvo, escuro nas trevas de uma morte maior que as outras mortes, vi√ļvo da vida, da qual foi na sua hora um marido deslumbrante. Vamos esconder-nos sob a sua sombra ardente, vamos repetir-lhe o nome at√© que a sua grande for√ßa salte do esquecimento.

Lorca: N√≥s, depois de enviarmos o nosso abra√ßo com ternura de pinguim ao delicado poeta Amado Villar, vamos lan√ßar um grande nome sobre a toalha, na certeza de que v√£o estalar as ta√ßas, saltar os garfos, buscando o olhar que todos anseiam, e que um golpe de mar h√°-de manchar as toalhas. N√≥s vamos evocar o poeta da Am√©rica e da Espanha: Rub√©n…

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A vida revela-se ao mundo como uma alegria. H√° alegria no jogo eternamente variado dos seus matizes, na m√ļsica das suas vozes, na dan√ßa dos seus movimentos. A morte n√£o pode ser verdade enquanto n√£o desaparecer a alegria do cora√ß√£o do ser humano.

O Despotismo do Homem Vulgar

A hist√≥ria europ√©ia parece, pela primeira vez, entregue √† decis√£o do homem vulgar como tal. Ou dito em voz activa: o homem vulgar, antes dirigido, resolveu governar o mundo. Esta resolu√ß√£o de avan√ßar para o primeiro plano social produziu-se nele, automaticamente, mal chegou a amadurecer o novo tipo de homem que ele representa. Se, atendendo aos defeitos da vida p√ļblica, estuda-se a estrutura psicol√≥gica deste novo tipo de homem-massa, encontra-se o seguinte: 1¬ļ, uma impress√£o nativa e radical de que a vida √© f√°cil, abastada, sem limita√ß√Ķes tr√°gicas; portanto, cada indiv√≠duo m√©dio encontra em si mesmo uma sensa√ß√£o de dom√≠nio e triunfo que, 2¬ļ, convida-o a afirmar-se a si mesmo tal qual √©, a considerar bom e completo o seu haver moral e intelectual. Este contentamento consigo mesmo leva-o a fechar-se em si mesmo para toda a inst√Ęncia exterior, a n√£o ouvir, a n√£o p√īr em tela de ju√≠zo as suas opini√Ķes e a n√£o contar com os demais. A sua sensa√ß√£o √≠ntima de dom√≠nio incita-o constantemente a exercer predom√≠nio. Actuar√°, pois, como se somente ele e os seus cong√©neres existissem no mundo; portanto, 3¬ļ, intervir√° em tudo impondo a sua vulgar opini√£o, sem considera√ß√Ķes, contempla√ß√Ķes, tr√Ęmites nem reservas; quer dizer,

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A Esmola De Dulce

Ao Alfredo A.

E todo o dia eu vou como um perdido
De dor, por entre a dolorosa estrada,
Pedir a Dulce, a minha bem amada,
A esmola dum carinho apetecido.

E ela fita-me, o olhar enlanguescido,
E eu balbucio trêmula balada:
– Senhora, dai-me u’a esmola – e estertorada
A minha voz soluça num gemido.

Morre-me a voz, e eu gemo o √ļltimo harpejo,
Estendo à Dulce a mão, a fé perdida,
E dos l√°bios de Dulce cai um beijo.

Depois, como este beijo me consola!
Bendita seja a Dulce! A minha vida
Estava unicamente nessa esmola.

LXXIV

Sombrio bosque, sítio destinado
À habitação de um infeliz amante,
Onde chorando a m√°goa penetrante
Possa desafogar o seu cuidado;

Tudo quieto est√°, tudo calado;
N√£o h√° fera, que grite; ave, que cante;
Se acaso saber√°s, que tens diante
Fido, aquele pastor desesperado!

Escuta o caso seu: mas n√£o se atreve
A erguer a voz; aqui te deixa escrito
No tronco desta faia em cifra breve:

Mudou-se aquele bem; hoje é delito
Lembrar-me de Marfisa; era mui leve:
N√£o h√° mais, que atender; tudo est√° dito.