Passagens sobre Vozes

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Frases sobre vozes, poemas sobre vozes e outras passagens sobre vozes para ler e compartilhar. Leia as melhores cita√ß√Ķes em Poetris.

Silêncio

Já o silêncio não é de oiro: é de cristal;
redoma de cristal este silêncio imposto.
Que lívido museu! Velado, sepulcral.
Ai de quem se atrever a mostrar bem o rosto!

Um h√°lito de medo embaciando o vidrado
d√°-nos um estranho ar de fantasmas ou fetos.
Na silente armadura, e sobre si fechado,
ninguém sonha sequer sonhar sonhos completos.

Tão mal consegue o luar insinuar-se em nós
que a pr√≥pria voz do mar segue o risco de um disco…
N√£o cessa de tocar; n√£o cessa a sua voz.
Mas j√° ningu√©m pretende exp’rimentar-lhe o risco!

Tu Ensinaste-me a Fazer uma Casa

Tu ensinaste-me a fazer uma casa:
com as m√£os e os beijos.
Eu morei em ti e em ti meus versos procuraram
voz e abrigo.
E em ti guardei meu fogo e meu desejo. Construí
a minha casa.
Porém não sei já das tuas mãos. Os teus lábios perderam-se
entre palavras duras e precisas
que tornaram a tua boca fria
e a minha boca triste como um cemitério de beijos.

Mas recordo a sede unindo as nossas bocas
mordendo o fruto das manh√£s proibidas
quando as nossas m√£os surgiam por detr√°s de tudo
para saudar o vento.

E vejo teu corpo perfumando a erva
e os teus cabelos soltando revoadas de p√°ssaros
que agora se recolhem, quando a noite se move,
nesta casa de versos onde guardo o teu nome.

Disputas Empobrecedoras

As disputas deviam ser regulamentadas e punidas como outros crimes verbais. Que defeitos n√£o suscitam e acumulam em n√≥s, reguladas e governadas como s√£o pela c√≥lera! Come√ßamos por ser inimigos das raz√Ķes e acabamos por o ser dos homens. S√≥ aprendemos a discutir para contraditar, e, √† for√ßa de se contraditar e ser-se contraditado, vem a acontecer que o fruto do discutir √© perder e aniquilar-se a verdade. Assim, Plat√£o, na Rep√ļblica, pro√≠be o seu exerc√≠cio aos esp√≠ritos ineptos e mal formados.
Porque nos havemos de p√īr a caminho, para descobrir a verdade, com quem n√£o tem passo nem andamento que sirvam? N√£o se prejudica o assunto quando o deixamos para procurar o meio de o tratarmos; n√£o falo dos meios escol√°sticos e artificiais, falo dos meios naturais, dum entendimento s√£o. Que suceder√° por fim? Cada um puxa para o seu lado; perdem de vista o essencial, p√Ķem-no de parte na confus√£o do acess√≥rio.
No fim de uma hora de tormenta j√° n√£o sabem o que procuram; um est√° em cima, outro em baixo, outro para o lado. Uns demoram-se com as palavras e com as compara√ß√Ķes; outros n√£o entendem o que se lhes objecta, tanto se entusiasmam: s√≥ pensam neles,

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O Livro

Dos diversos instrumentos do homem, o mais assombroso √©, indubitavelmente, o livro. Os outros s√£o extens√Ķes do seu corpo. O microsc√≥pio e o telesc√≥pio s√£o extens√Ķes da vista; o telefone √© o prolongamento da voz; seguem-se o arado e a espada, extens√Ķes do seu bra√ßo. Mas o livro √© outra coisa: o livro √© uma extens√£o da mem√≥ria e da imagina√ß√£o.
Em ¬ęC√©sar e Cle√≥patra¬Ľ de Shaw, quando se fala da biblioteca de Alexandria, diz-se que ela √© a mem√≥ria da humanidade. O livro √© isso e tamb√©m algo mais: a imagina√ß√£o. Pois o que √© o nosso passado sen√£o uma s√©rie de sonhos? Que diferen√ßa pode haver entre recordar sonhos e recordar o passado? Tal √© a fun√ß√£o que o livro realiza.
(…) Se lemos um livro antigo, √© como se l√™ssemos todo o tempo que transcorreu at√© n√≥s desde o dia em que ele foi escrito. Por isso conv√©m manter o culto do livro. O livro pode estar cheio de coisas erradas, podemos n√£o estar de acordo com as opini√Ķes do autor, mas mesmo assim conserva alguma coisa de sagrado, algo de divino, n√£o para ser objecto de respeito supersticioso, mas para que o abordemos com o desejo de encontrar felicidade,

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Ainda estava em tempo: poderia, ainda, encostar a sua face a dele, dizer-lhe, em voz alta, as palavras que lhe afloravam aos l√°bios.

O autor aos seus versos

Chorosos versos meus desentoados,
Sem arte, sem beleza e sem brandura,
Urdidos pela m√£o da Desventura,
Pela baça Tristeza envenenados:

Vede a luz, n√£o busqueis, desesperados,
No mudo esquecimento a sepultura;
Se os ditosos vos lerem sem ternura,
Ler-vos-ão com ternura os desgraçados:

Não vos inspire, ó versos, cobardia
Da s√°tira mordaz o furor louco,
Da maldizente voz e tirania:

Desculpa tendes, se valeis t√£o pouco,
Que n√£o pode cantar com melodia
Um peito de gemer cansado e rouco.

Num Leque

Na gaze loura d’este leque adeja
N√£o sei que aroma m√≠stico e encantado…
Doce morena! Abençoado seja
O doce aroma de teu leque amado!

Quando o entreabres, a sorrir, na Igreja,
O templo inteiro fica embalsamado…
At√© minh’alma carinhosa o beija,
Como a toalha de um altar sagrado.

E enquanto o aroma inebriante voa,
Unido aos hinos que, no coro, entoa
A voz de um órgão soluçando dores,

Só me parece que o choroso canto
Sobe da gaze de teu leque santo,
Cheio de luz e de perfume e flores!

Cantar de Amigo

O claro p√£o
que repartimos
dá-nos um título:
companheiros.

A indagação
que aprofundamos
faz de nós, artesãos,
camaradas.

O olhar sem visgo,
a voz precisa,
o gesto mundo,
eis-nos: amigos.

Quantos, que marcham pela vida
como quem carrega uma estrada,
ter√£o amigo, companheiro e camarada?

Soneto 568 Nazaretado

Uns dizem que de índia tinha cara;
a outros parecia um rapazelho.
Famoso mesmo foi o seu joelho,
além da voz, que mais se aveludara.

Veludo, mas cortante, coisa rara:
quer fosse a Lindonéia nosso espelho
ou fosse o Carcar√° bord√£o vermelho,
o fato é que, no mapa, a nata é Nara.

Da Bossa Nova é musa mais bem-quista.
Tropicalista diva, brilha quieta.
Rebelde mais serena n√£o se avista.

Foi ídolo, na luta, do poeta,
ao mesmo tempo olímpica e humanista,
pois Nara é nata, é nota, é gata, é neta.

Quatro Sonetos De Meditação РIII

O efêmero. Ora, um pássaro no vale
Cantou por um momento, outrora, mas
O vale escuta ainda envolto em paz
Para que a voz do p√°ssaro n√£o cale.

E uma fonte futura, hoje prim√°ria
No seio da montanha, irromper√°
Fatal, da pedra ardente, e levar√°
À voz a melodia necessária.

O efêmero. E mais tarde, quando antigas
Se fizerem as flores, e as cantigas
A uma nova emoção morrerem, cedo

Quem conhecer o vale e o seu segredo
Nem sequer pensar√° na fonte, a s√≥s…
Porém o vale há de escutar a voz.

Senhora Minha, Se A Fortuna Imiga

Senhora minha, se a Fortuna imiga,
que em minha fim com todo o Céu conspira,
os olhos meus de ver os vossos tira,
porque em mais graves casos me persiga;

comigo levo esta alma, que se obriga,
na mor pressa de mar, de fogo, de ira,
a dar vos a memória, que suspira,
só por fazer convosco eterna liga.

Nest’alma, onde a Fortuna pode pouco,
t√£o viva vos terei, que frio e fome
vos n√£o possam tirar, nem v√£os perigos.

Antes co som da voz, trémulo e rouco,
bradando por vós, só com vosso nome
farei fugir os ventos e os imigos.

√ď Virgens!

√ď virgens que passaes, ao sol-poente,
Pelas estradas ermas, a cantar!
Eu quero ouvir uma canção ardente
Que me transporte ao meu perdido lar…

Cantae-me, n’essa voz omnipotente,
O sol que tomba, aureolando o mar,
A fartura da seara reluzente,
O vinho, a graça, a formozura, o luar!

Cantae! cantae as limpidas cantigas!
Das ruinas do meu lar desatterrae
Todas aquellas illuz√Ķes antigas

Que eu vi morrer n’um sonho, como um ai…
√ď suaves e frescas raparigas;
Adormecei-me n’essa voz… Cantae!

Os Grandes Forjam-se na Adversidade

Todo o ambiente √© favor√°vel ao forte; de um modo ou de outro ele o ajuda a cumprir a miss√£o que se imp√īs e a conseguir ir porventura mais al√©m das barreiras marcadas. A derrota deve mais atribuir-se √† invalidez do impulso interior do que aos obst√°culos que lhe ponham diante, mais √† alma incapaz de se bater com vigor e tenazmente do que √†s resist√™ncias, √†s invejas e √†s dificuldades que o mundo possa levantar perante H√©rcules que luta.
O mal que se v√™ √© aguilh√£o para o bem que se deseja; e quanto mais duro, quanto mais agressivo, se bate em peito de a√ßo, tanto mais valioso auxiliar num caminho de progresso; o querer se apura, a vis√£o do futuro nos surge mais intensa a cada golpe novo; o contentamente e a mansa quietude s√£o estufa para homens; por a√≠ se habituaram a ser escravos de outros homens, ou da cega Natureza; e eu quero a terra povoada de rijos cora√ß√Ķes que seguem os calmos pensamentos e a mais nada se curvam.
Mais custa quebrar rochar do que escavar a terra; mais sólido, porém, o edifício que nela se firmou. A grandeza da obra é quase sempre devida à dificuldade que se encontra nos meios a empregar,

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Confiss√£o

Meus l√°bios, meus olhos (a flor e o veludo…)
Minha ideia turva, minha voz sonora,
Meu corpo vestido, meu sonho desnudo…
Senhor confessor! Sabeis tudo ‚ÄĒ tudo!
Quanto o vulgo, ingénuo, ao saudar-me, ignora!

Sabeis que em meus beijos a fome dormira
Antes que da orgia a f√© despertasse…
Sabeis que sem oiro o mundo é mentira
E, como do fruto que Deus proibira,
Um luar tombou, manchando-me a face.

P√°ssaro, cativo da noite infinita!
√Āguia de asa in√ļtil, pela noite presa!
√ď cruz dos poetas! √≥ noite infinita!
√ď palavra eterna! minha √ļnica escrita!
Beleza! Beleza! Beleza! Beleza!

Eis as minhas mãos! Quem pode prendê-las?
S√£o fr√°geis, mas nelas h√° dedos inteiros.
Senhor confessor! Quem n√£o conta estrelas?
Meus dedos, um dia, contaram estrelas…
Quem conta as estrelas n√£o conta dinheiros!

XXXIII

Quando adivinha que vou vê-Ia, e à escada
Ouve-me a voz e o meu andar conhece,
Fica p√°lida, assusta-se, estremece,
E n√£o sei por que foge envergonhada.

Volta depois. À porta, alvoroçada,
Sorrindo, em fogo as faces, aparece:
E talvez entendendo a muda prece
De meus olhos, adianta-se apressada.

Corre, delira, multiplica os passos;
E o ch√£o, sob os seus passos murmurando,
Segue-a de um hino, de um rumor de festa

E ah! que desejo de a tomar nos braços,
O movimento r√°pido sustando
Das duas asas que a paix√£o lhe empresta.

Soneto

Fecham-se os dedos donde corre a esperança,
Toldam-se os olhos donde corre a vida.
Porquê esperar, porquê, se não se alcança
Mais do que a ang√ļstia que nos √© devida?

Antes aproveitar a nossa herança
De inten√ß√Ķes e palavras proibidas.
Antes rirmos do anjo, cuja lança
Nos expulsa da terra prometida.

Antes sofrer a raiva e o sarcasmo,
Antes o olhar que peca, a m√£o que rouba,
O gesto que estrangula, a voz que grita.

Antes viver do que morrer no pasmo
Do nada que nos surge e nos devora,
Do monstro que invent√°mos e nos fita.

Espírito Imortal

Espírito imortal que me fecundas
Com a chama dos viris entusiasmos,
Que transformas em gl√°dios os sarcasmos
Para punir as multid√Ķes profundas!

√ď alma que transbordas, que me inundas
De brilhos, de ecos, de emo√ß√Ķes, de pasmos
E fazes acordar de atros marasmos
Minh’alma, em t√©dios por charnecas fundas.

Força genial e sacrossanta e augusta,
Divino Alerta para o Esquecimento,
Voz companheira, carinhosa e justa.

Tens minha M√£o, num doce movimento,
Sobre essa Mão angélica e robusta,
Espírito imortal do Sentimento!

Já não Vivi, Só Penso

Já não vivo, só penso. E o pensamento
é uma teia confusa, complicada,
uma renda subtil feita de nada:
de nuvens, de crep√ļsculos, de vento.

Tudo é silêncio. O arco-íris é cinzento,
e eu cada vez mais vaga, mais alheada.
Percorro o céu e a terra aqui sentada,
sem uma voz, um olhar, um movimento.

Terei morrido j√° sem o saber?
Seria bom mas n√£o, n√£o pode ser,
ainda me sinto presa por mil laços,

ainda sinto na pele o sol e a lua,
ouço a chuva cair na minha rua,
e a vida ainda me aperta nos seus braços.

Pensamos de Mais e Sentimos de Menos

Queremos todos ajudar-nos uns aos outros. Os seres humanos são assim. Queremos viver a felicidade dos outros e não a sua infelicidade. Não queremos odiar nem desprezar ninguém. Neste mundo há lugar para toda a gente. E a boa terra é rica e pode prover às necessidades de todos.
O caminho da vida pode ser livre e belo, mas desvi√°mo-nos do caminho. A cupidez envenenou a alma humana, ergueu no mundo barreiras de √≥dio, fez-nos marchar a passo de ganso para a desgra√ßa e a carnificina. Descobrimos a velocidade, mas prendemo-nos demasiado a ela. A m√°quina que produz a abund√Ęncia empobreceu-nos. A nossa ci√™ncia tornou-nos c√≠nicos; a nossa intelig√™ncia, cru√©is e impiedosos. Pensamos de mais e sentimos de menos. Precisamos mais de humanidade que de m√°quinas. Se temos necessidade de intelig√™ncia, temos ainda mais necessidade de bondade e do√ßura. Sem estas qualidades, a vida ser√° violenta e tudo estar√° perdido.
O avi√£o e a r√°dio aproximaram-nos. A pr√≥pria natureza destes inventos √© um apelo √† fraternidade universal, √† uni√£o de todos. Neste momento, a minha voz alcan√ßa milh√Ķes de pessoas atrav√©s do mundo, milh√Ķes de homens sem esperan√ßa, de mulheres, de crian√ßas, v√≠timas dum sistema que leva os homens a torturar e a prender pessoas inocentes.

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