Passagens de Artur de Azevedo

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Desengano

A pensionista p√°lida que gosta
(Fundada pretens√£o!) que a digam bela,
E do colégio, à tarde, na janela,
Para dar-me um sorriso se recosta;

Que me escreve nas férias, de Bemposta,
Aonde vai visitar a parentela,
Pedindo-me que não me esqueça dela
E dando-me uns beijinhos…, pela posta;

Essa ninfa gentil dos olhos pretos,
Essa beleza de anjo… oh, sorte varia;
Vergonha eterna para os meus bisnetos!

Com um pançudo burguês, uma alimária
Que n√£o a sabe amar, nem faz sonetos,
Vai casar-se amanh√£ na Candel√°ria.

De Martins Pena Foi Bem Triste A Sorte

De Martins Pena foi bem triste a sorte:
Moço, bem moço, quando o seu talento
Desabrochava n’um deslumbramento,
Caiu, ferido pela m√£o da morte!

Era, entretanto, um lutador, um forte,
E, como n√£o merece o esquecimento,
Que a nossa festa, ao menos um momento,
O seu risonho espírito conforte.

Quem o amou e o leu em v√£o procura
O seu nome na placa de uma esquina
Ou sobre a pedra de uma sepultura!

Porém, voltando à brasileira cena,
H√° de brilhar a estrela peregrina
Que se chamou Luiz Carlos Martins Pena!

Sorte

Depois que se casara aquela criatura,
Que a negra traição das pérfidas requinta,
Eu nunca mais a vi, pois, de ouropéis faminta,
De um bem fingido amor quebrara a ardente jura.

Alta noite, porém, vi-a pela ventura,
Numa avenida estreita e lobrega da quinta…
Painel é que se cuida e sem color se pinta,
De alvo femíneo vulto ou madrugada escura.

Maldito quem sentindo o pungitivo açoite
Do desprezo e na sombra a sombra de um afeto
A pular uma grade, um muro n√£o se afoite.

– Prometes ser discreto? – √ď meu amor! prometo…
Se não fosses tão curta, ó bem ditosa noite!
Se fosses mais comprido, ó pálido soneto!

Eterna Dor

J√° te esqueceram todos neste mundo…
Só eu, meu doce amor, só eu me lembro,
Daquela escura noite de setembro
Em que da cova te deixei no fundo.

Desde esse dia um l√°tego iracundo
Açoitando-me está, membro por membro.
Por isso que de ti n√£o me deslembro,
Nem com outra te meço ou te confundo.

Quando, entre os brancos mausoléus, perdido,
Vou chorar minha acerba desventura,
Eu tenho a sensação de haver morrido!

E até, meu doce amor, se me afigura,
Ao beijar o teu t√ļmulo esquecido,
Que beijo a minha própria sepultura!

Velha Anedota

Tertuliano, frívolo peralta,
Que foi um paspalh√£o desde fedelho,
Tipo incapaz de ouvir um bom conselho,
Tipo que, morto, n√£o faria falta;

Lá um dia deixou de andar à malta,
E, indo à casa do pai, honrado velho,
A sós na sala, diante de um espelho,
À própria imagem disse em voz bem alta:

РTertuliano, és um rapaz formoso!
√Čs simp√°tico, √©s rico, √©s talentoso!
Que mais no mundo se te faz preciso? –

Penetrando na sala, o pai sisudo,
Que por tr√°s da cortina ouvira tudo,
Severamente respondeu: – Ju√≠zo. –

Arrufos

N√£o h√° no mundo quem amantes visse
Que se quisessem como nos queremos;
Mas hoje uma questi√ļncula tivemos
Por um caprichosinho, uma tolice.

– Acabemos com isto! ela me disse,
E eu respondi-lhe assim: – Pois acabemos!
– E fiz o que se faz em tais extremos:
Peguei no meu chapéu com fanfarrice,

E, dando um gesto de desdém profundo,
Saí cantarolando. Está bem visto
Que a forma ali contradizia o fundo.

Ela escreveu. Voltei. Nem Jesus Cristo,
Nem minha M√£e, voltando agora ao mundo,
Foram capazes de acabar com isto!

Musa Infeliz

Todo o cuidado nestas rimas ponho;
Musa, peço-te, pois, que me remetas
Versos que tenham r√ļtilas facetas,
E n√£o revelem trovador bisonho.

Meia noite bateu. Sai risonho…
Brilhava – oh, musa, n√£o me comprometas! –
O mais belo de todos os planetas
N’um c√©u que parecia um c√©u de sonho.

O mais belo de todos os prazeres
Gozei, à doce luz dos olhos pretos
Da mais bela de todas as mulheres!

Pobres quartetos! m√≠seros tercetos!…
Musa, musa infeliz, dar-me n√£o queres.
O mais belo de todos os sonetos!…

Miser√°vel

A Carvalho Junior.

O noivo, como noivo, é repugnante:
Material√£o, est√ļpido, chorudo,
Arrotando, a propósito de tudo,
O ser comendador e negociante.

Tem a viuvinha, a noiva interessante,
Todo o arsenal de um poeta guedelhudo:
Alabastro, marfim, coral, veludo,
Azeviche, safira e tutti quanti.

Da misteriosa alcova a porta geme,
O noivo dorme n’um len√ßol envolto…
Entra a viuvinha, a noiva… Oh, c√©u, contem-me!

Ela deita-se… espera… Qual! Revolto,
O leito estala… Ela suspira… freme…,
E o miser√°vel dorme a sono solto!…

Por Decoro

Quando me esperas, palpitando amores,
E os grossos l√°bios √ļmidos me estendes,
E do teu corpo c√°lido desprendes
Desconhecido olor de estranhas flores;

Quando, toda suspiros e fervores,
Nesta pris√£o de m√ļsculos te prendes,
E aos meus beijos de s√°tiro te rendes,
Furtando as rosas as p√ļrpureas cores;

Os olhos teus, inexpressivamente,
Entrefechados, l√Ęnguidos, tranquilos,
Olham, meu doce amor, de tal maneira,

Que, se olhassem assim, publicamente,
Deveria, perdoa-me, cobri-los
Uma discreta folha de parreira.