Passagens sobre Coerência

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Frases sobre coer√™ncia, poemas sobre coer√™ncia e outras passagens sobre coer√™ncia para ler e compartilhar. Leia as melhores cita√ß√Ķes em Poetris.

A fidelidade é para a vida afectiva o que a coerência é para a vida intelectual Рa simples constatação de um logro.

A coer√™ncia, a convic√ß√£o, a certeza s√£o demonstra√ß√Ķes evidentes – quantas vezes escusadas – de falta de educa√ß√£o. √Č uma falta de cortesia com os outros ser sempre o mesmo √† vista deles; √© ma√ß√°-los, apoquent√°-los com a nossa falta de variedade.

O homem tem preguiça, em geral, de pensar todo o pensável e contenta-se com fragmentos de ideias, recusa-se a uma coerência absoluta. Não leva até ao fim o esforço de entender. E, exactamente porque não o faz, toma, em relação à sua capacidade de inteligência, uma absurda posição de orgulho. Compara o pouco que entendeu com o menos que outros entenderam, jamais com o muito que os mais raros puderam perceber.

Do Contraditório como Terapêutica de Libertação

Recentemente, entre a poeira de algumas campanhas pol√≠ticas, tomou de novo relevo aquele grosseiro h√°bito de polemista que consiste em levar a mal a uma criatura que ela mude de partido, uma ou mais vezes, ou que se contradiga, frequentemente. A gente inferior que usa opini√Ķes continua a empregar esse argumento como se ele fosse depreciativo. Talvez n√£o seja tarde para estabelecer, sobre t√£o delicado assunto do trato intelectual, a verdadeira atitude cient√≠fica.
Se há facto estranho e inexplicável é que uma criatura de inteligência e sensibilidade se mantenha sempre sentado sobre a mesma opinião, sempre coerente consigo próprio. A contínua transformação de tudo dá-se também no nosso corpo, e dá-se no nosso cérebro consequentemente. Como então, senão por doença, cair e reincidir na anormalidade de querer pensar hoje a mesma coisa que se pensou ontem, quando não só o cérebro de hoje já não é o de ontem, mas nem sequer o dia de hoje é o de ontem? Ser coerente é uma doença, um atavismo, talvez; data de antepassados animais em cujo estádio de evolução tal desgraça seria natural.
A coer√™ncia, a convic√ß√£o, a certeza s√£o al√©m disso, demonstra√ß√Ķes evidentes ‚ÄĒ quantas vezes escusadas ‚ÄĒ de falta de educa√ß√£o.

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A Hist√≥ria do Romance n√£o √© ¬ęapenas¬Ľ a hist√≥ria do romance

A discuss√£o sobre um romance √© arriscada e limitada quando parte de um can√īne puramente est√©tico. Porque n√£o √© um can√īne est√©tico a ter em conta: √© um can√īne de vida. Uma obra de arte julga-se em fun√ß√£o do que o autor oretende – n√£o do que pretendemos n√≥s. Se queremos p√ī-la em causa, discutamos a pretens√£o antes do que ela realizou. Assim √© pouco eficaz a discuss√£o do ¬ęnovo romance¬Ľ franc√™s antes de nos perguntarmos porque √© que tomou tal caminho. Porque tal caminho implica uma nega√ß√£o radical (em alguns escritores, pelo menos) dos valores da inteligibilidade, da coer√™ncia, do pr√≥prio homem enfim. A hist√≥ria da ¬ępersonagem¬Ľ, como certos cr√≠ticos, ali√°s, j√° frisaram, tem agora o seu tr√°gico remate na destrui√ß√£o dessa mesma personagem. Mas que a nega√ß√£o de um significado para a presen√ßa do homem no mundo que o rodeia √© uma nega√ß√£o paradoxal, prova-o n√£o apenas o facto de o romancista ordenar a vis√£o do mundo ¬ęnessa¬Ľ perspectiva (e essa √© uma contradi√ß√£o, como o √© o cepticismo absoluto) como o prova ainda a obra de certos romancistas (digamos a de um Butor, na anota√ß√£o de um Merleau-Ponty) para quem o ¬ęobjecto¬Ľ se impregna da presen√ßa do homem.

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Verdade é Coerência

N√£o h√° verdade, nem necessidade absoluta. Chamamos verdadeiro a um conceito, que concorda com o sistema geral de todos os nossos conceitos; verdadeira a uma percep√ß√£o, que n√£o contradiz o sistema das nossas percep√ß√Ķes; verdade √© coer√™ncia. E, no que respeita a todo o sistema, ao conjunto, dado que, fora dele, n√£o existe nada que seja para n√≥s conhecido, n√£o podemos dizer se √© ou n√£o verdadeiro. √Č imagin√°vel que o universo seja, em si, fora de n√≥s, muito diferente daquilo que nos parece, ainda que esta seja uma suposi√ß√£o que carece de todo o sentido racional. E, no que toca √† necessidade, h√° uma necessidade absoluta? Necess√°rio n√£o √© sen√£o aquilo que √©, e enquanto o √©, pois que, noutro sentido mais transcendental, que necessidade absoluta, l√≥gica, independente do facto de que o universo existe, h√° de que haja universo ou qualquer outra coisa?
O relativismo absoluto, que não é mais nem menos do que o ceptcismo, no sentido mais moderno desta denominação, é o triunfo supremo da razão raciocinante.

A Fidelidade

As pessoas realmente frívolas são as que só amam uma vez na vida. O que elas chamam lealdade ou fidelidade, chamo eu letargia do hábito ou falta de imaginação. A fidelidade representa na vida emocional o mesmo que a coerência na vida do intelecto, apenas uma confissão de impotência. A fidelidade! Tenho de a analisar um destes dias. Está intimamente associada à paixão da propriedade. Há muitas coisas que atiraríamos fora se não receássemos que outros as apanhassem.

O Nascimento de um Poema

Escreve-se um poema devido √† suspeita de que enquanto o escrevemos algo vai acontecer, uma coisa formid√°vel, algo que nos transformar√°, que transformar√° tudo. Como na inf√Ęncia, quando se fica √† porta de um quarto obscuro e vazio. Fica-se durante um minuto uma brisa levanta-se nos confins da obscuridade: um redemoinho no ar, uma luz, uma ilumina√ß√£o talvez? Estamos prontos para o assentimento. Outro minuto, cinco, dez, ali, diante do an√ļncio suspenso e amea√ßador: n√£o acontece nada. Poder-se-ia esperar um dia inteiro, dias seguidos. As vezes p√°ra-se no meio de um jardim ou de um parque ou de uma avenida deserta. S√£o variantes do quarto. Acontece o mesmo, quero dizer: n√£o acontece na¬¨da. A suspeita apenas de que nos aguarda uma esp√©cie de gra√ßa reticente, um dom reticente. Ou contempla-se um rosto, algu√©m que se ama, um ser imediato; ou ent√£o um rosto desconhecido, defendido. Pensamos: √© uma vida nova, uma for√ßa nova e profunda, √© uma paisagem misteriosa, profunda e nova que se relaciona intimamente connosco: vai revelar-se. E a outra pessoa olha para n√≥s perdida nas perspectivas inquietas da nossa contempla√ß√£o. E recome√ßa-se. O mesmo, sempre. Nada. Por isso surpreendeu-me a, diga¬¨mos, coer√™ncia vertical do volume, e o seu comprimento de onda,

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As raz√Ķes da honra n√£o t√™m coer√™ncia. Mas os povos n√£o podem prescindir da honra, pagaremos caro termos acreditado em n√≥s em vez de nela.

O verdadeiro humor √© isento de justi√ßa e de oportunidade. A s√°tira, que os Portugueses naturalmente adoram, √© simplesmente uma forma de cr√≠tica ‚Äď tem uma coer√™ncia chata.

Todo o Mal Provém não da Privação mas do Supérfluo

Ser feliz √©, afinal, n√£o esperar muito da felicidade, ser feliz √© ser simples, desambicioso, √© saber dosear as aspira√ß√Ķes at√© √†quela medida que p√Ķe o que se deseja ao nosso alcance. Pegando de novo em Tolstoi, que vem sendo em mim um padr√£o tutelar, lembremos de novo um dos seus her√≥is, o pr√≠ncipe Pedro Bezoukhov (do romance ‘Guerra e Paz’). As circunst√Ęncias fizeram-no conviver no cativeiro com um s√≠mbolo da sabedoria popular, um tal Karataiev. Pois esse companheirismo desinteressado e genu√≠no, esse encontro com a vida crua mas desmistificadora, n√£o s√≥ modificaram o pr√≠ncipe Pedro como lhe revelaram o que ele precisava de saber para atingir o que n√≥s, pobres humanos, debalde perseguimos: a coer√™ncia, a pacifica√ß√£o interior, que s√£o correctivos da desventura.
Tolstoi salienta-nos que Pedro, ap√≥s essa viv√™ncia, apreendera, n√£o pela raz√£o mas por todo o seu ser, que o homem nasceu para a felicidade e que todo o mal prov√©m n√£o da priva√ß√£o mas do sup√©rfluo, e que, enfim, n√£o h√° grandeza onde n√£o haja verdade e desapego pelo ef√©mero. Isto, ali√°s, nos √© repetido por outra figura de Tolstoi, a princesa Maria, ao acautelar-nos com esta s√≠ntese desoladora: ¬ęTodos lutam, sofrem e se angustiam,

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Se te é indiferente matar uma criança ou uma mosca, podes dizer com verdade que estão mortos todos os valores. Mas nesse caso e em coerência com essa verdade, deve ser-te indiferente continuares livre ou seres preso. Ou enforcado.

A Evolução da Criatividade

A experi√™ncia humana √© apenas ponto de partida, n√ļcleo s√≥lido e permanente onde assenta a experi√™ncia posterior da cria√ß√£o. Considero a cria√ß√£o o encaminhamento, at√© √†s consequ√™ncias extremas, de uma experi√™ncia em si mesma n√£o organizada. A descoberta do mundo n√£o possui, por ela pr√≥pria, finalidade ou coer√™ncia, nem constitui a salva√ß√£o desse mundo. Desde que seja poss√≠vel criar um corpo org√Ęnico em que a experi√™ncia, devidamente articulada, se baste, surge uma harmonia entre o sujeito e a sua experi√™ncia, quero dizer, o sujeito participa do cosmos. Este esfor√ßo da supera√ß√£o do caos exprime-se pela busca de uma linguagem. √ą ali√°s na linguagem que a experi√™ncia se vai tornando real. Se nela n√£o h√°, em sentido rigoroso, experi√™ncia do mundo. A esta conclus√£o vem chegando uma moderna filosofia da arte. A forma√ß√£o da linguagem √© um paciente, extenso, doloroso e, muitas vezes, desesperante caminho. O erro aparece como uma constante, mas existe a possibilidade de ser sempre menor. Entre um grau m√°ximo e um grau m√≠nimo de erro, situa-se a evolu√ß√£o. Progresso de linguagem, de adequa√ß√£o √†s finalidades, supera√ß√£o da experi√™ncia, purifica√ß√£o do tema ‚Äď eis onde se pode situar o sentido da evolu√ß√£o.

A verosimilhança de uma obra de arte (de um romance, por exemplo, que é o que mais me importa) é a coerência interna dos seus elementos.

Consistência Irreal

A principal diferença entre as pessoas reais e as figuras inventadas pelos escritores é a que resulta do facto de estes fazerem todos os esforços para darem às figuras coerência e unidade interior, ao passo que as pessoas vivas podem ir, na incoerência, até ao extremo, dado que o físico lhes mantém a consistência.

A Busca da Felicidade ou do Sofrimento

O homem recusa o mundo tal como ele √©, sem aceitar o eximir-se a esse mesmo mundo. Efectivamente os homens gostam do mundo e, na sua imensa maioria, n√£o querem abandon√°-lo. Longe de quererem esquec√™-lo, sofrem, sempre, pelo contr√°rio, por n√£o poderem possu√≠-lo suficientemente, estranhos cidad√£os do mundo que s√£o, exilados na sua pr√≥pria p√°tria. Excepto nos momentos fulgurantes da plenitude, toda a realidade √© para eles imperfeita. Os seus actos escapam-lhes noutros actos; voltam a julg√°-los assumindo fei√ß√Ķes inesperadas; fogem, como a √°gua de T√Ęntalo, para um estu√°rio ainda desconhecido. Conhecer o estu√°rio, dominar o curso do rio, possuir enfim a vida como destino, eis a sua verdadeira nostalgia, no ponto mais fechado da sua p√°tria. Mas essa vis√£o que, ao menos no conhecimento, finalmente os reconciliaria consigo pr√≥prios, n√£o pode surgir; se tal acontecer, ser√° nesse momento fugitivo que √© a morte; tudo nela termina. Para se ser uma vez no mundo, √© preciso deixar de ser para sempre.
Neste ponto nasce essa desgraçada inveja que tantos homens sentem da vida dos outros. Apercebendo-se exteriormente dessas existências, emprestam-lhes uma coerência e uma unidade que elas não podem ter, na verdade, mas que ao observador parecem evidentes. Este não vê mais que a linha mais elevada dessas vidas,

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A Verdade é um Modo de Estarmos a Bem Connosco

Cada √©poca, como cada idade da vida, tem o seu secreto e indiz√≠vel e injustific√°vel sentido de equil√≠brio. Por ele sabemos o que est√° certo e errado, sensato e rid√≠culo. E isto n√£o √© s√≥ vis√≠vel no que √© produto da emotividade. √Č vis√≠vel mesmo na manifesta√ß√£o mais neutral como uma not√≠cia ou um an√ļncio de jornal. Donde nasce esse equil√≠brio? Que √© que o constitui? O destr√≥i? Porque √© que se n√£o rebentava a rir com os an√ļncios de h√° cento e tal anos?¬†¬†¬†(Rebent√°mos n√≥s, aqui h√° uns meses, em casa dos Paix√Ķes, ao ler um jornal de 186…). Mas a raz√£o deve ser a mesma por que se n√£o rebentou a rir com a moda que h√° anos us√°mos, os livros rid√≠culos que nos entusiasmaram, as anedotas com que rimos e de que dev√≠amos apenas rir. O homem √©, no corpo como no esp√≠rito, um equil√≠brio de tens√Ķes. S√≥ que as do esp√≠rito, mais do que as do corpo, se reorganizam com mais frequ√™ncia. Equilibrado o esp√≠rito, mete-se-lhe uma ideia nova. Se n√£o √© expulsa, h√° nela a verdade. Porque a verdade √© isso: a inclus√£o de seja o que for no nosso mecanismo sem que lhe rebente as estruturas.

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Uma Mentira

Uma mentira, fina como um cabelo, perturba para sempre a ordem do mundo. Aquilo que sabemos tem muita import√Ęncia. Tomamos decis√Ķes, vamos por aqui ou por ali, consoante aquilo que sabemos. E tudo o que vir√° a seguir, o futuro at√© ao fim dos tempos, ser√° diferente se formos por um lado em vez de irmos por outro. Nascem pessoas devido a insignific√Ęncias, morrem pessoas pelo mesmo motivo. Uma pessoa √© uma m√°quina de coisas a acontecer, possibilidades multiplicadas por possibilidades em todos os instantes do seu tempo. Uma mentira, mesmo que transparente, perturba o entendimento que os outros t√™m da realidade, leva-os a acreditar que √© aquilo que n√£o √©. Essa polui√ß√£o vai turvar-lhes a l√≥gica do mundo. As conclus√Ķes a que forem capazes de chegar ser√£o calculadas a partir de um dado falso e, desse ponto em diante, todas as contas ser√£o multiplica√ß√Ķes de erros. Uma mentira baralha tudo aquilo em que toca, desequilibra o mundo. √Č por isso que uma mentira precisa sempre de mentiras novas para se suster. O mundo n√£o lhe d√° cobertura. Para alcan√ßar coer√™ncia, cada mentira requer a cria√ß√£o apressada de um mundo de mentira que a suporte. √Č assim que a mentira vai avan√ßando pela verdade adentro,

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