Textos sobre Método

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Textos de método escritos por poetas consagrados, filósofos e outros autores famosos. Conheça estes e outros temas em Poetris.

Conseguir Escrever

O of√≠cio de escritor √© talvez o √ļnico que se torna mais dif√≠cil √† medida que mais se pratica. A facilidade com que me sentei a escrever aquele conto n√£o se pode comparar com o trabalho que me d√° agora escrever uma p√°gina. Quanto ao meu m√©todo de trabalho, √© bastante coerente com isto que vos estou a dizer. Nunca sei quanto vou poder escrever nem o que vou escrever. Espero que me ocorra alguma coisa e, quando me ocorre uma ideia que ache boa para a escrever, ponho-me a dar-lhe voltas na cabe√ßa e deixo-a ir amadurecendo. Quando a tenho terminada (e √†s vezes passam muitos anos, como no caso de Cem Anos de Solid√£o, que passei dezanove anos a pensar), quando a tenho terminada, repito, ent√£o sento-me a escrev√™-la e √© a√≠ que come√ßa a parte mais dif√≠cil e a que mais me aborrece. Porque o mais delicioso da hist√≥ria √© conceb√™-la, ir arredondando-a, dando-lhe voltas e mais voltas, de maneira que na altura de nos sentarmos a escrev√™-la j√° n√£o nos interessa muito, ou pelo menos a mim n√£o me interessa muito; a ideia que d√° voltas.

A Felicidade é tão Cansativa como a Infelicidade

Toda a gente tem o seu m√©todo de interpretar a seu favor o balan√ßo das suas impress√Ķes, para que da√≠ resulte de algum modo aquele m√≠nimo de prazer necess√°rio √†s suas exist√™ncias quotidianas, o suficiente em tempos de normalidade. O prazer da vida de cada um pode ser tamb√©m constitu√≠do por desprazer, essas diferen√ßas de ordem material n√£o t√™m import√Ęncia; sabemos que existem tantos melanc√≥licos felizes como marchas f√ļnebres, que pairam t√£o suavemente no elemento que lhes √© pr√≥prio como uma dan√ßa no seu. Talvez tamb√©m se possa afirmar, ao contr√°rio, que muitas pessoas alegres de modo nenhum s√£o mais felizes do que as tristes, porque a felicidade √© t√£o cansativa como a infelicidade; mais ou menos como voar, segundo o princ√≠pio do mais leve ou mais pesado do que o ar. Mas haveria ainda uma outra objec√ß√£o: n√£o ter√° raz√£o aquela velha sabedoria dos ricos segundo a qual os pobres n√£o t√™m nada a invejar-lhes, j√° que √© pura fantasia a ideia de que o seu dinheiro os torna mais felizes? Isso s√≥ lhes imporia a obriga√ß√£o de encontrar um sistema de vida diferente do seu, cujo or√ßamento, em termos de prazer, fecharia apenas com um m√≠nimo excedente de felicidade,

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Descobrir os Vícios dos Outros

Eis agora um bom m√©todo para descobrir os v√≠cios de uma pessoa. Come√ßa por conduzir a conversa para os v√≠cios mais correntes, depois aborda mais em particular os que pensas que possam afligir o teu interlocutor. Fica a saber que se mostrar√° extremamente duro na reprova√ß√£o e den√ļncia do v√≠cio de que ele pr√≥prio padece. Assim se v√™em muitas vezes pregadores fustigar com a maior veem√™ncia os v√≠cios que os aviltam.
Para desmascarar um falso, consulta-o acerca de um determinado assunto. Depois, passados alguns dias, volta a falar-lhe nesse mesmo assunto. Se, da primeira vez, te quis induzir em erro, a opinião que desta segunda vez te dará será diferente: quer a Diniva Providência que depressa esqueçamos as nossas próprias mentiras.
Finge-te bem informado acerca de um caso de que, na realidade, não sabes grande coisa, na presença de pessoas das quais tenhas motivos para crer que estão perfeitamente ao corrente: verás que se trairão, ao corrigirem o que disseres.
Quando vires um homem afectado por um grande desgosto, aproveita a ocasi√£o para o lisonjear e consolar. √Č muitas vezes nestas circunst√Ęncias que deixar√° transparecer os seus pensamentos mais secretos e ocultos.
Leva as pessoas –

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O Professor como Mestre

N√£o me basta o professor honesto e cumpridor dos seus deveres; a sua norma √© burocr√°tica e vejo-o como pouco mais fazendo do que exercer a sua profiss√£o; estou pronto a conceder-lhe todas as qualidades, uma relativa intelig√™ncia e aquele saber que lhe assegura superioridade ante a classe; acho-o digno dos louvores oficiais e das aten√ß√Ķes das pessoas mais s√©rias; creio mesmo que tal distin√ß√£o foi expressamente criada para ele e seus pares. De resto, √© sempre poss√≠vel a compara√ß√£o com tipos inferiores de humanidade; e ante eles o professor exemplar aparece cheio de m√©rito. Simplesmente, notaremos que o ser mestre n√£o √© de modo algum um emprego e que a sua actividade se n√£o pode aferir pelos m√©todos correntes; ganhar a vida √© no professor um acr√©scimo e n√£o o alvo; e o que importa, no seu ju√≠zo final, n√£o √© a ideia que fazem dele os homens do tempo; o que verdadeiramente h√°-de pesar na balan√ßa √© a pedra que lan√ßou para os alicerces do futuro.
A sua contribuição terá sido mínima se o não moveu a tomar o caminho de mestre um imenso amor da humanidade e a clara inteligência dos destinos a que o espírito o chama;

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Falar Sempre, Pensar Nunca

Desde que, com a ajuda do cinema, das soap operas e do horney, a psicologia profunda penetra nos √ļltimos rinc√Ķes, a cultura organizada corta aos homens o acesso √† derradeira possibilidade da experi√™ncia de si mesmo. E esclarecimento j√° pronto transforma n√£o s√≥ a reflex√£o espont√Ęnea, mas o discernimento anal√≠tico, cuja for√ßa √© igual √† energia e ao sofrimento com que eles se obt√™m, em produtos de massas, e os dolorosos segredos da hist√≥ria individual, que o m√©todo ortodoxo se inclina j√° a reduzir a f√≥rmulas, em vulgares conven√ß√Ķes.
At√© a pr√≥pria dissolu√ß√£o das racionaliza√ß√Ķes se torna racionaliza√ß√£o. Em vez de realizar o trabalho de autognose, os endoutrinados adquirem a capacidade de subsumir todos os conflitos em conceitos como complexo de inferioridade, depend√™ncia materna, extrovertido e introvertido, que, no fundo, s√£o pouco menos que incompreens√≠veis. O horror em face ao abismo do eu √© eliminado mediante a consci√™ncia de que n√£o se trata mais do que uma artrite ou de sinus troubles.
Os conflitos perdem assim o seu aspecto amea√ßador. S√£o aceites; n√£o sanados, mas encaixados somente na superf√≠cie da vida normalizada como seu ingrediente inevit√°vel. S√£o, ao mesmo tempo, absorvidos como um mal universal pelo mecanismo da imediata identifica√ß√£o do indiv√≠duo com a inst√Ęncia social;

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Alimentar o Ego

Para quem faz do sonho a vida, e da cultura em estufa das suas sensa√ß√Ķes uma religi√£o e uma pol√≠tica, para esse primeiro passo, o que acusa na alma que ele deu o primeiro passo, √© o sentir as coisas m√≠nimas extraordin√°ria ‚ÄĒ e desmedidamente. Este √© o primeiro passo, e o passo simplesmente primeiro n√£o √© mais do que isto. Saber p√īr no saborear duma ch√°vena de ch√° a vol√ļpia extrema que o homem normal s√≥ pode encontrar nas grandes alegrias que v√™m da ambi√ß√£o subitamente satisfeita toda ou das saudades de repente desaparecidas, ou ent√£o nos actos finais e carnais do amor; poder encontrar na vis√£o dum poente ou na contempla√ß√£o dum detalhe decorativo aquela exaspera√ß√£o de senti-los que geralmente s√≥ pode dar, n√£o o que se v√™ ou o que se ouve, mas o que se cheira ou se gosta ‚ÄĒ essa proximidade do objecto da sensa√ß√£o que s√≥ as sensa√ß√Ķes carnais ‚ÄĒ o tacto, o gosto, o olfacto – esculpem de encontro √† consci√™ncia; poder tornar a vis√£o interior, o ouvido do sonho ‚ÄĒ todos os sentidos supostos e do suposto ‚ÄĒ recebedores e tang√≠veis como sentidos virados para o externo: escolho estas, e as an√°logas suponham-se,

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A Gravidade e a Seriedade nem Sempre andam Juntas

Tomar a verdade a s√©rio! De quantas maneiras diferentes n√£o entendem os homens esta frase! S√£o as mesmas opini√Ķes, as mesmas formas de exame e de demonstra√ß√£o que um pensador considera com uma ligeireza quando as aplica por si pr√≥prio – sucumbiu-lhes para sua vergonha, neste ou naquele momento da sua vida -, s√£o essas mesmas opini√Ķes, esses mesmos m√©todos que podem dar a um artista, quando com eles se choca e com eles vive algum tempo, a consci√™ncia de ter sido dominado pela profunda gravidade da verdade, de ter mostrado – coisa espantosa -, ainda que artista, a mais s√©ria necessidade do contr√°rio da apar√™ncia.
√Č assim que acontece que uma pomposa gravidade revele precisamente a aus√™ncia de seriedade com que um esp√≠rito que se contenta com pouco se tenha debatido at√© ent√£o no dom√≠nio do conhecimento… N√£o somos n√≥s sempre tra√≠dos por aquilo que consideramos importante? A nossa gravidade mostra onde se encontram os nossos pesos e os casos em que temos falta deles.

Ajuda entre S√°bios

Est√°s interessado em saber se um s√°bio pode ser √ļtil a outro s√°bio. N√≥s definimos o s√°bio como um homem dotado de todos os bens no mais alto grau poss√≠vel. A quest√£o est√° pois em saber como √© poss√≠vel algu√©m ser √ļtil a quem j√° atingiu o supremo bem. Ora, os homens de bem s√£o √ļteis uns aos outros. A sua fun√ß√£o √© praticar a virtude e manter a sabedoria num estado de perfeito equil√≠brio. Mas cada um necessita de outro homem de bem com quem troque impress√Ķes e discuta os problemas. A per√≠cia na luta s√≥ se adquire com a pr√°tica; dois m√ļsicos aproveitam melhor se estudarem em conjunto. O s√°bio necessita igualmente de manter as suas virtudes em actividade e, por isso mesmo, n√£o s√≥ se estimula a si pr√≥prio como se sente estimulado por outro s√°bio. Em que pode um s√°bio ser √ļtil a outro s√°bio? Pode servir-lhe de incitamento, pode sugerir-lhe oportunidades para a pr√°tica de ac√ß√Ķes virtuosas. Al√©m disso, pode comunicar-lhe as suas medita√ß√Ķes e dar-lhe conta das suas descobertas. Nunca faltar√° mesmo ao s√°bio algo de novo a descobrir, algo que d√™ ao seu esp√≠rito novos campos a explorar.
Os indivíduos perversos fazem mal uns aos outros,

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As Nossas Possibilidades de Felicidade

√Č simplesmente o princ√≠pio do prazer que tra√ßa o programa do objectivo da vida. Este princ√≠pio domina a opera√ß√£o do aparelho mental desde o princ√≠pio; n√£o pode haver d√ļvida quanto √† sua efici√™ncia, e no entanto o seu programa est√° em conflito com o mundo inteiro, tanto com o macrocosmo como com o microcosmo. N√£o pode simplesmente ser executado porque toda a constitui√ß√£o das coisas est√° contra ele; poder√≠amos dizer que a inten√ß√£o de que o homem fosse feliz n√£o estava inclu√≠da no esquema da Cria√ß√£o. Aquilo a que se chama felicidade no seu sentido mais restrito vem da satisfa√ß√£o ‚ÄĒ frequentemente instant√Ęnea ‚ÄĒ de necessidades reprimidas que atingiram uma grande intensidade, e que pela sua natureza s√≥ podem ser uma experi√™ncia transit√≥ria. Quando uma condi√ß√£o desejada pelo princ√≠pio do prazer √© protelada, tem como resultado uma sensa√ß√£o de consolo moderado; somos constitu√≠dos de tal forma que conseguirmos ter prazer intenso em contrastes, e muito menos nos pr√≥prios estados intensos. As nossas possibilidades de felicidade s√£o assim limitadas desde o princ√≠pio pela nossa forma√ß√£o. √Č muito mais f√°cil ser infeliz.
O sofrimento tem três procedências: o nosso corpo, que está destinado à decadência e dissolução e nem sequer pode passar sem a ansiedade e a dor como sinais de perigo;

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Raz√£o afectada pelo Desejo

O homem que deseja agir de certa forma se persuadirá que, assim procedendo, alcançará algum propósito que considera bom, mesmo que não vise motivo algum para pensar dessa forma, se não tivesse tal desejo. E julgará os factos e probabilidades de maneira muito diferente daquela adoptada por um homem com desejos opostos. Como todos sabem, os jogadores estão cheios de crenças irracionais relativas a sistemas que devem, no fim, fazê-los ganhar. Os que se interessam pela política persuadem-se de que os líderes do seu partido jamais praticariam as patifarias cometidas pelos adversários. Os homens que gostam de administrar acham que é bom para o povo ser tratado como um rebanho de ovelhas, os que gostam do fumo dizem que acalma os nervos, e os que apreciam o álcool afirmam que aguça o tino. A parcialidade assim criada falsifica o julgamento dos homens em relação aos factos, de modo muito difícil de evitar.
At√© mesmo um erudito artigo cient√≠fico sobre os efeitos do √°lcool no sistema nervoso em geral trai, por sintomas internos, o facto de o autor ser ou n√£o abst√©mio; em ambos os casos tende a ver os factos de maneira que justifique a sua atitude. Em pol√≠tica e religi√£o tais considera√ß√Ķes tornam-se muito importantes.

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O Método é Necessário para a Procura da Verdade

Os mortais s√£o dominados por uma curiosidade t√£o cega que, muitas vezes, envenenam o esp√≠rito por caminhos desconhecidos, sem qualquer esperan√ßa razo√°vel, mas unicamente para se arriscarem a encontrar o que procuram: √© como se algu√©m, incendiado pelo desejo t√£o est√ļpido de encontrar um tesouro, vagueasse sem cessar pelas pra√ßas p√ļblicas para ver se, casualmente, encontrava algum perdido por um transeunte. (…) n√£o nego que tenham por vezes muita sorte nos seus caminhos errantes e encontrem alguma verdade; contudo, n√£o estou de acordo que sejam mais competentes, mas apenas mais afortunados. Ora, vale mais nunca pensar em procurar a verdade de alguma coisa que faz√™-lo sem m√©todo: √© cert√≠ssimo, pois, que os estudos feitos desordenadamente e as medita√ß√Ķes confusas obscurecem a luz natural e cegam os esp√≠ritos. Quem se acostuma a andar assim nas trevas enfraquece de tal modo a acuidade do olhar que, depois, n√£o pode suportar a luz do pleno dia.

√Č a experi√™ncia que o diz: vemos muitissimas vezes os que nunca se dedicaram √†s letras julgar o que se lhes depara com muito maior solidez e clareza do que aqueles que sempre frequentaram as escolas. Entendo por m√©todo regras certas e f√°ceis, que permitem a quem exactamente as observar nunca tomar por verdadeiro algo de falso,

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O Dilema do Conhecimento

Como todos sabemos, aprender pouco é algo perigoso. Mas o excesso de aprendizado altamente especializado também é uma coisa perigosa, e por vezes pode ser ainda mais perigoso do que aprender só um pouco. Um dos principais problemas da educação superior agora é conciliar as exigências da muita aprendizagem, que é essencialmente uma aprendizagem especializada, com as exigências da pouca aprendizagem, que é a abordagem mais ampla, mas menos profunda, dos problemas humanos em geral.
(…) O que precisamos fazer √© arranjar casamentos, ou melhor, trazer de volta ao seu estado original de casados os diversos departamentos do conhecimento e das emo√ß√Ķes, que foram arbitrariamente separados e levados a viver em isolamento nas suas celas mon√°sticas. Podemos parodiar a B√≠blia e dizer: “Que o homem n√£o separe o que a natureza juntou”; n√£o permitamos que a arbitr√°ria divis√£o acad√©mica em disciplinas rompa a teia densa da realidade, transformando-a em absurdo.
Mas aqui deparamo-nos com um problema muito grave: qualquer forma de conhecimento superior exige especializa√ß√£o. Precisamos de nos especializar para entrar mais profundamente em certos aspectos separados da realidade. Mas se a especializa√ß√£o √© absolutamente necess√°ria, pode ser absolutamente fatal, se levada longe demais. Por isso, precisamos de descobrir algum meio de tirar o maior proveito de ambos os mundos –

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O Coração é o Seu Amigo

O verdadeiro problema reside na mente, porque a mente √© formada pela sociedade humana e especialmente projectada para nos manter escravizados. O corpo tem uma beleza pr√≥pria. Ainda faz parte das √°rvores e do oceano, das montanhas e das estrelas. N√£o foi contaminado pela sociedade nem foi envenenado pelas igrejas, pelas religi√Ķes e pelos padres. Mas a mente foi completamente condicionada e distorcida ao receber ideias que s√£o totalmente falsas. A nossa mente funciona quase como uma m√°scara que esconde o nosso verdadeiro rosto.
A arte da medita√ß√£o consiste em transcender a mente, e o Oriente dedicou toda a sua intelig√™ncia e todo o seu g√©nio durante quase dez mil anos a um √ļnico objectivo: descobrir a maneira de transcender a mente e os seus condicionamentos. Do esfor√ßo de dez mil anos resultou o aperfei√ßoamento do m√©todo da medita√ß√£o.
Em poucas palavras, medita√ß√£o significa olhar para a mente, observar a mente. Tente examinar a mente, olhando em sil√™ncio para ela – sem explica√ß√Ķes, sem aprecia√ß√Ķes, sem condena√ß√Ķes, sem qualquer julgamento, a favor ou contra -, observe-a apenas, como se n√£o tivesse nada a ver com ela. Aprecie apenas o tr√°fego que vai na mente. E o milagre da medita√ß√£o faz com que,

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A Tirania Individual e a Tirania Colectiva

As diverg√™ncias de opini√£o n√£o resultam, como por vezes supomos, das desigualdades de instru√ß√£o daqueles que as manifestam. Elas notam-se, com efeito, em indiv√≠duos dotados de intelig√™ncia e de instru√ß√£o equivalentes. Disso se convencer√° quem percorrer as respostas aos grandes inqu√©ritos colectivos destinados a elucidar certas quest√Ķes bem definidas.
Entre os in√ļmeros exemplos fornecidos pela leitura das suas actas, mencionarei apenas um, muito t√≠pico, publicado nos Anais de Psicologia do sr. Binet. Querendo informar-se quanto aos efeitos da redu√ß√£o do programa de hist√≥ria da filosofia nos liceus, enviou um question√°rio a todos os professores incumbidos desse ensino. As respostas foram nitidamente contradit√≥rias, pois uns declaravam desastroso o que os outros julgavam excelente. ¬ęN√£o se compreende¬Ľ, conclui o Sr. Binet com melancolia, ¬ęque uma reforma que consterna um professor, pare√ßa excelente a um dos seus colegas. Que li√ß√£o para eles sobre a relatividade das opini√Ķes humanas, mesmo entre pessoas competentes!¬Ľ.
Contradi√ß√Ķes da mesma esp√©cie invariavelmente se manifestaram em todos os assuntos e em todos os tempos. Para chegar √† ac√ß√£o, o homem teve, entretanto, de escolher entre essas opini√Ķes contr√°rias. Como operar tal escolha, sendo a raz√£o muito fraca para a determinar?
Somente dois m√©todos foram descobertos at√© hoje: aceitar a opini√£o da maioria ou a de um √ļnico,

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A Realidade n√£o Est√° nos Livros

Como toda a gente, s√≥ disponho de tr√™s meios para avaliar a exist√™ncia humana: o estudo de n√≥s pr√≥prios, o mais dif√≠cil e o mais perigoso, mas tamb√©m o mais fecundo dos m√©todos; a observa√ß√£o dos homens, que na maior parte dos casos fazem tudo para nos esconder os seus segredos ou para nos convencer de que os t√™m; os livros, com os erros particulares de perspectiva que nascem entre as suas linhas. Li quase tudo quanto os nossos historiadores, os nossos poetas e mesmo os nossos narradores escreveram, apesar de estes √ļltimos serem considerados fr√≠volos, e devo-lhes talvez mais informa√ß√Ķes do que as que recebi das situa√ß√Ķes bastante variadas da minha pr√≥pria vida. A palavra escrita ensinou-me a escutar a voz humana, assim como as grandes atitudes im√≥veis das est√°tuas me ensinaram a apreciar os gestos. Em contrapartida, e posteriormente, a vida fez-me compreender os livros.
Mas estes mentem, mesmo os mais sinceros. Os menos hábeis, por falta de palavras e de frases onde possam abrangê-la, traçam da vida uma imagem trivial e pobre; alguns, como Lucano, tornam-na mais pesada e obstruída com uma solenidade que ela não tem. Outros, pelo contrário, como Petrónio, aligeiram-na, fazem dela uma bola saltitante e vazia,

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A Arte e a Filosofia

Nunca ser√° de mais insistir no car√°cter arbitr√°rio da antiga oposi√ß√£o entre arte e a filosofia. Se quisermos interpret√°-la num sentido muito preciso, √© certamente falsa. Se quisermos simplesmente significar que essas duas disciplinas t√™m, cada uma delas, o seu clima particular, isso √© verdade sem d√ļvida, mas muito vago. A √ļnica argumenta√ß√£o aceit√°vel residia na contradi√ß√£o levantada entre o fil√≥sofo fechado no meio do seu sistema e o artista colocado diante da sua obra. Mas isto era v√°lido para uma certa forma de arte e de filosofia, que aqui consideramos secund√°ria. A ideia de uma arte separada do seu criador n√£o est√° somente fora de moda. √Č falsa. Por oposi√ß√£o ao artista, dizem-nos que nunca nenhum fil√≥sofo fez v√°rios sistemas.
Mas isto √© verdade, na pr√≥pria medida em que nunca nenhum artista exprimiu mais de uma s√≥ coisa sob rostos diferentes. A perfei√ß√£o instant√Ęnea da arte, a necessidade da sua renova√ß√£o, s√≥ √© verdade por preconceito. Porque a obra de arte tamb√©m √© uma constru√ß√£o, e todos sabem como os grandes criadores podem ser mon√≥tonos. O artista, tal como o pensador, empenha-se e faz-se na sua obra. Essa osmose levanta o mais importante dos problemas est√©ticos. Al√©m disso,

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Em Todas as Sociedades Existe um Impulso Para a Conformidade

A imposi√ß√£o de padr√Ķes pelas sociedades aos seus extremamente diversificados indiv√≠duos tem variado muito em diferentes per√≠odos hist√≥ricos e diferentes n√≠veis de cultura. Nas culturas mais primitivas, onde as sociedades eram pequenas e ligadas a tradi√ß√Ķes muito estreitas, a press√£o para o conformismo era naturalmente muito intensa. Quem ler literatura de antropologia ficar√° espantado com a natureza fant√°stica de algumas das tradi√ß√Ķes √†s quais os homens tiveram de se adaptar. A vantagem de uma sociedade grande e complexa como a nossa √© permitir √† variedade de seres humanos expressar-se de muitas maneiras; n√£o precisa de haver uma adapta√ß√£o intensa, como a que encontramos em pequenas sociedades primitivas. Mesmo assim, em toda a sociedade h√° sempre um impulso para a conformidade, imposto de fora pela lei e pela tradi√ß√£o, e que os indiv√≠duos imp√Ķem sobre si mesmos, tentando imitar o que a sociedade considera o tipo ideal.
A esse respeito, recomendo um livro muito importante do fil√≥sofo franc√™s Jules de Gaultier, publicado h√° cerca de cinquenta anos, chamado “Bovarismo”. O nome vem da hero√≠na do romance de Gustave Flaubert, Madame Bovary, no qual essa jovem mulher infeliz sempre tentava ser o que n√£o era. Gaultier generaliza isso e diz que todos temos tend√™ncia a tentar ser o que n√£o somos,

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O Ideal Português como Ideal para o Mundo

Tr√™s pontos, segundo Cam√Ķes, sobre os quais temos que meditar, e ver como √©. Ponto n√ļmero 1: √© preciso que os corpos se apaziguem para que a cabe√ßa possa estar livre para entender o mundo √† volta. Enquanto n√≥s estamos perturbados com existir um corpo que temos que alimentar, temos que fartar, que temos de tratar o melhor poss√≠vel, cometendo para isso muitas coisas extremamente dif√≠ceis, nessa altura, quando a nossa cabe√ßa estiver inteiramente livre e l√≠mpida, n√≥s podemos ouvir aquilo que Cam√Ķes chama ¬ęa voz da deusa¬Ľ. E que faz a voz da deusa? Arranca √†queles marinheiros as limita√ß√Ķes do tempo e as limita√ß√Ķes do espa√ßo. Arranca-os √†s limita√ß√Ķes do tempo o que faz que eles saibam qual vai ser o futuro de Portugal. E arranca-os √†s limita√ß√Ķes do espa√ßo porque eles v√™em todo o mundo ao longe, o universo que est√° ao longe, a deusa lho mostra, embora com o sistema errado, digamos assim, ou imperfeito, de Ptolomeu, e eles est√£o portanto inteiramente fora do espa√ßo. Aquilo que foi o ideal dos gregos, e que os gregos nunca conseguiram realizar. Ent√£o o que √© que aconteceu? Aconteceu que um dia houve outro portugu√™s que tinha ido para o Brasil,

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O Dinheiro Tem uma Qualidade Detergente

O dinheiro tem, entre outras incont√°veis virtudes, uma qualidade detergente. E m√ļltiplas qualidades nutricionais. Alegra-te os belos olhos, engorda-te as bochechas, permite-te esse modo de ocupares uma poltrona, de pernas bem esticadas e jornal nas m√£os. D√°-te essas m√£os impolutas que emergem dos punhos de algod√£o branco da camisa. J√° n√£o √©s tu quem vagueia √† noite. Podes contratar quem capture, degole e esfole as presas que constituem os ingredientes indispens√°veis do cozido ou da paella dos domingos. Assim se fez sempre nas casas das boas fam√≠lias.

N√£o √© o senhor da casa que desfere o golpe fatal ao coelho, n√£o √© a senhora que crava a faca no pesco√ßo da galinha e a depena, com o pote de barro entre as pernas, cheio de p√£o migado que o sangue h√° de empapar como deve ser, para o rico ensopado. Aos senhores os animais chegam sempre j√° cozinhados, servidos numa bandeja coberta por uma reluzente camp√Ęnula de prata, ou na ca√ßarola, guarnecidos, irreconhec√≠veis de t√£o desfigurados e, por isso mesmo, apetitosos na sua aparente inoc√™ncia. Assim se fez sempre, assim se continua a fazer; n√≥s pr√≥prios adquirimos em poucos anos esse privilegiado estatuto, a ilus√£o de sermos todos senhores: em remotos pavilh√Ķes industriais,

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Cidad√£o do Mundo

De todas as grandes tiradas da Hist√≥ria, em boa verdade, aquela que eu mais depressa aprendera a detestar fora essa do ¬ęcidad√£o do mundo¬Ľ, com que a classe m√©dia de Lisboa tanto gostava de encher a boca at√© que algu√©m a reconhecesse globetrotter, portadora de cart√£o de cr√©dito e representante dessa nova burguesia do resort de quatro estrelas e da m√°quina fotogr√°fica digital. Porque ser de todo o lado, percebi-o eu assim que extravasei os limites da terra-m√£e, n√£o podia significar outra coisa sen√£o que n√£o se era de lado nenhum – e n√£o ser de lado nenhum, n√£o ter um lugar, um canto de mundo a que regressar, parecera-me sempre a mais triste de todas as condi√ß√Ķes. Para ser sincero, e apesar das j√° quase duas d√©cadas que levava de ex√≠lio, eu continuava a voltar √† terra como se realmente pudesse acordar ao contr√°rio, contorcendo-me e espregui√ßando-me e depois fechando-me em concha, at√©, enfim, adormecer. E, se de algu√©m ainda conseguia desdenhar com algum m√©todo, assim despertando da letargia que nos √ļltimos anos me deixara imp√°vido perante cada vez mais coisas, perante a dor e o pr√≥prio prazer, era daqueles que viviam longe h√° dez ou vinte ou trinta ou mesmo quarenta anos e,

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