Citação de

Os Livros Representam a Essência de um Espírito

As obras s√£o a quintess√™ncia de um esp√≠rito: por conseguinte, mesmo se este for o esp√≠rito mais sublime, elas sempre ser√£o, sem compara√ß√£o, mais ricas de cont√ļdo do que a sua companhia, e a substituir√£o tamb√©m na ess√™ncia – ou melhor, ultrapass√°-la-√£o em muito e a deixar√£o para tr√°s: At√© mesmo os escritos de uma cabe√ßa med√≠ocre podem ser instrutivos, dignos de leitura e divertidos, justamente porque s√£o sua quintess√™ncia, o resultado, o fruto de todo o seu pensamento e estudo; enquanto a sua companhia n√£o nos consegue satisfazer. Sendo assim, podem-se ler livros de pessoas em cujas companhias n√£o se encontraria nenhum prazer, e √© por essa raz√£o que uma cultura intelectual elevada nos induz pouco a pouco a encontrar o nosso prazer quase exclusivamente na leitura dos livros, e n√£o na conversa com as pessoas.
N√£o h√° maior refrig√©rio para o esp√≠rito do que a leitura dos cl√°ssicos antigos: t√£o logo temos um deles nas m√£os, e mesmo que seja por apenas meia hora, sentimo-nos imdediatamente refrescados, aliviados, purificados, elevados e fortalecidos; como se nos tiv√©ssemos deleitado na fonte fresca de uma rocha. Tal facto depende das l√≠nguas antigas e da sua perfei√ß√£o ou da grandeza dos esp√≠ritos, cujas obras permanecem intactas e vigorosas pelos mil√©nios? Talvez de ambos. Mas sei que, se algum dia o estudo das l√≠nguas antigas cessar, como amea√ßa cessar agora, surgir√° ent√£o uma nova literatura, feita de escrevinha√ß√Ķes b√°rbaras, triviais e indignas, como ainda n√£o chegou a existir; tanto mais que a l√≠ngua alem√£, que realmente possui algumas das perfei√ß√Ķes das l√≠nguas antigas, √© delapidada e mutilada com zelo e m√©todo pelos rabiscadores da √©poca ¬ęactual¬Ľ, de modo que, pouco a pouco, ela se empobrece e degenera, transformando-se num jarg√£o miser√°vel.

Existem duas hist√≥rias: a pol√≠tica e a da literatura e da arte. A primeira √© a hist√≥ria da vontade, a segunda, do intelecto. Por isso, a primeira √© quase sempre alarmante, ou melhor, assustadora. Nela, o medo, a necessidade, o engano e terr√≠veis assassinatos ocorrem em massa. A outra, ao contr√°rio, √© sempre agrad√°vel e serena, como o intelecto isolado, mesmo quando descreve erros. O seu ramo principal √© a hist√≥ria da filosofia. Na verdade, esta constitui o seu baixo ideal, que se faz ouvir at√© mesmo na outra hist√≥ria e tamb√©m conduz a opini√£o do seu fundamento at√© ela: mas esta √ļltima domina o mundo. Sendo assim, a filosofia, no sentido pr√≥prio e inequ√≠voco, tamb√©m √© a mais fote pot√™ncia material; contudo, age de forma muito lenta.