Passagens sobre Maior

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Frases sobre maior, poemas sobre maior e outras passagens sobre maior para ler e compartilhar. Leia as melhores cita√ß√Ķes em Poetris.

O Espírito Negativo dos Filósofos

Ficam reduzidos a uma √ļnica frase bem sucedida os nossos grandes fil√≥sofos, os nossos maiores poetas, dizia ele, √© essa a verdade, lembramo-nos muitas vezes apenas daquilo a que se chama uma tonalidade filos√≥fica e mais nada, dizia ele, pensei. Estudamos uma obra grandiosa, a obra de Kant por exemplo, e essa obra fica, com o correr do tempo, reduzida √† pequena cabe√ßa de prussiano oriental, que √© a de Kant, e a um universo inteiramente vago, feito de noite e de n√©voa, que vai dar √† mesma incapacidade de todos os outros, dizia ele, pensei, Pretendia ser um universo de grandiosidade, e dele n√£o restou mais do que um pormenor ris√≠vel, assim dizia ele, pensei, e assim acontece com tudo. Aquilo a que chamamos grandeza n√£o passa, afinal, de algo que apenas nos comove por provocar o riso e a compaix√£o. O pr√≥prio Shakespeare confrange-nos com o seu rid√≠culo se tivermos um momento de lucidez, dizia ele, pensei. J√° h√° muito que os deuses figuram nas nossas canecas de cerveja adornados apenas duma barba, dizia ele, pensei. S√≥ o imbecil √© que venera, dizia ele, pensei. O chamado homem de esp√≠rito consome-se a produzir uma obra que ele considera digna de marcar uma √©poca,

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Vive o Instante que Passa

Vive o instante que passa. Vive-o intensamente at√© √† √ļltima gota de sangue. √Č um instante banal, nada h√° nele que o distinga de mil outros instantes vividos. E no entanto ele √© o √ļnico por ser irrepet√≠vel e isso o distingue de qualquer outro. Porque nunca mais ele ser√° o mesmo nem tu que o est√°s vivendo. Absorve-o todo em ti, impregna-te dele e que ele n√£o seja pois em v√£o no dar-se-te todo a ti. Olha o sol dif√≠cil entre as nuvens, respira √† profundidade de ti, ouve o vento. Escuta as vozes long√≠nquas de crian√ßas, o ru√≠do de um motor que passa na estrada, o sil√™ncio que isso envolve e que fica. E pensa-te a ti que disso te apercebes, s√™ vivo a√≠, pensa-te vivo a√≠, sente-te a√≠. E que nada se perca infinitesimalmente no mundo que vives e na pessoa que √©s. Assim o dom est√ļpido e miraculoso da vida n√£o ser√° a estupidez maior de o n√£o teres cumprido integralmente, de o teres desperdi√ßado numa vida que ter√° fim.

Era um desses sentimentos puros que não embaraçam a marcha da vida, que se conservam porque são raros, cuja perda ocasionaria dor maior que o regozijo da posse.

O que Poder√° Ver quem j√° da Vista Cegou?

Ante Sintra, a mui prezada,
e serra de Ribatejo
que Arrábeda é chamada,
perto donde o rio Tejo
se mete n’√°gua salgada,
houve um pastor e pastora,
que com tanto amor se amaram
como males lhe causaram
este bem, que nunca fora,
pois foi o que n√£o cuidarom.

A ela chamavam Maria
e ao pastor Crisfal,
ao qual, de dia em dia,
o bem se tornou em mal,
que ele t√£o mal merecia.
Sendo de pouca idade,
n√£o se ver tanto sentiam
que o dia que n√£o se viam,
se via na saudade
o que ambos se queriam.

Algumas horas falavam,
andando o gado pascendo;
e ent√£o se apascentavam
os olhos, que, em se vendo,
mais famintos lhe ficavam.
E com quanto era Maria
pequena e, tinha cuidado
de guardar melhor o gado
o que lhe Crisfal dizia;
mas, em fim, foi mal guardado;

Que, depois de assim viver
nesta vida e neste amor,
depois de alcançado ter
maior bem pera mor dor,
em fim se houve de saber
por Joana,

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Grandes Planos de Vida

Uma das maiores e mais frequentes asneiras consiste em fazer grandes planos para a vida, qualquer que seja a sua natureza. Para come√ßar, esses planos pressup√Ķem uma vida humana inteira e completa, que, no entanto, somente pouqu√≠ssimos conseguem alcan√ßar. Al√©m disso, mesmo que estes consigam viver muito, esse per√≠odo de vida ainda √© demasiado curto para tais planos, uma vez que a sua realiza√ß√£o exige sempre muito mais tempo do que se imaginava; esses projectos, ademais, como todas as coisas humanas, est√£o de tal modo sujeitos a fracassos e obst√°culos, que raramente chegam a bom termo. E, mesmo se no final tudo √© alcan√ßado, n√£o se leva em conta o facto de que no decorrer dos anos o pr√≥prio ser humano se modifica e n√£o conserva as mesmas capacidades nem para agir, nem para usufruir:

aquilo que se prop√īs fazer durante a vida toda, na velhice parece-lhe insuport√°vel – j√° n√£o tem condi√ß√Ķes de ocupar a posi√ß√£o conquistada com tanta dificuldade, e portanto as coisas chegaram-lhe tarde demais; ou o inverso, quando ele quis fazer algo de especial e realiz√°-lo, √© ele que chega tarde demais com respeito √†s coisas. O gosto da √©poca mudou, a nova gera√ß√£o n√£o se interessa pelas suas conquistas,

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N√£o se pode ser nem mole nem inconstante nas amizades e inimizades. √Č preciso ser-se sincero e malcriado. √Č preciso dizer-se ¬ęEu n√£o gosto de si¬Ľ. √Č preciso dizer-se ¬ęVoc√™ √© um verme¬Ľ. Os inimigos s√£o mais f√°ceis de criar que os amigos e √†s vezes s√£o mais √ļteis e d√£o-nos maior satisfa√ß√£o.

A Morte, esse Lugar-Comum

√Č trivial a morte e h√° muito se sabe
fazer – e muito a tempo! – o trivial.
Se n√£o fui eu quem veio no jornal,
foi uma tosse a menos na cidade…

A caminho do verme, uma beldade
‚ÄĒ n√£o dirias assim, Gomes Leal? ‚ÄĒ
vai ser coberta pela mesma cal
que tapa a mais intensa fealdade.

Um crocitar de corvo fica bem
neste an√ļncio de morte para algu√©m
que n√£o v√™ n’alheia sorte a pr√≥pria sorte…

Mas por que n√£o dizer, com maior nojo,
que um menino saiu do imenso bojo
de sua m√£e, para esperar a morte?…

N√£o se preocupe muito com as suas dificuldades em Matem√°tica, posso assegurar-lhe que as minhas s√£o ainda maiores.

Soneto 278 A Salvador Dali

Pra mim, Picasso perto dele é pinto.
Qual cubo nem Guernica! O catal√£o
p√īs fogo na girafa, e d√° li√ß√£o
de como você pinta como eu pinto.

Relógios derreteu, deu ao recinto
bagunça formidável de ilusão.
Bigodes retorceu, e a posição
do Cristo subverteu: estilo extinto.

Talvez fez na pintura o que Gaudí
ergueu, fenomenal, na arquitetura:
delírio, porém nítido. Não vi

no século atual maior textura
que o fruto da estranheza de Dali,
o gênio do ocular na cor. Loucura!

O sil√™ncio √© a minha maior tenta√ß√£o. As palavras, esse v√≠cio ocidental, est√£o gastas, envelhecidas, envilecidas. Fatigam, exasperam. E mentem, separam, ferem. Tamb√©m apaziguam, √© certo, mas √© t√£o raro! Por cada palavra que chega at√© n√≥s, ainda quente das entranhas do ser, quanta baba nos escorre em cima a fingir de m√ļsica suprema! A plenitude do sil√™ncio s√≥ os orientais a conhecem.

Em toda a obra de cria√ß√£o h√° um fio condutor, nem sempre facilmente discern√≠vel, que lhe d√° unidade – um fio discreto ou evidente, da maior import√Ęncia, pois √© um dos sinais da sua autenticidade.

A Mentira

Porque √© que, na maior parte das vezes, os homens na vida quotidiana dizem a verdade? Certamente, n√£o porque um deus proibiu mentir. Mas sim, em primeiro lugar, porque √© mais c√≥modo, pois a mentira exige inven√ß√£o, dissimula√ß√£o e mem√≥ria. Por isso Swift diz: ¬ęQuem conta uma mentira raramente se apercebe do pesado fardo que toma sobre si; √© que, para manter uma mentira, tem de inventar outras vinte¬Ľ. Em seguida, porque, em circunst√Ęncias simples, √© vantajoso dizer directamente: quero isto, fiz aquilo, e outras coisas parecidas; portanto, porque a via da obriga√ß√£o e da autoridade √© mais segura que a do ardil. Se uma crian√ßa, por√©m, tiver sido educada em circunst√Ęncias dom√©sticas complicadas, ent√£o maneja a mentira com a mesma naturalidade e diz, involuntariamente, sempre aquilo que corresponde ao seu interesse; um sentido da verdade, uma repugn√Ęncia ante a mentira em si, s√£o-lhe completamente estranhos e inacess√≠veis, e, portanto, ela mente com toda a inoc√™ncia.

Tormanto do Ideal

Conheci a Beleza que n√£o morre
E fiquei triste. Como quem da serra
Mais alta que haja, olhando aos pés a terra
E o mar, vê tudo, a maior nau ou torre,

Minguar, fundir-se, sob a luz que jorre:
Assim eu vi o mundo e o que ele encerra
Perder a c√īr, bem como a nuvem que erra
Ao p√īr do sol e sobre o mar discorre.

Pedindo à fórma, em vão, a idea pura,
Tropéço, em sombras, na materia dura.
E encontro a imperfeição de quanto existe.

Recebi o baptismo dos poetas,
E assentado entre as fórmas incompletas
Para sempre fiquei palido e triste.

O maior pecado contra nossos semelhantes não é odiá-los, mas ser indiferente a eles: esta é a essência da desumanidade.

A verdadeira p√°tria √© aquela onde encontramos o maior n√ļmero de pessoas que se parecem connosco.

Daqui a Vinte e Cinco Anos

Perguntaram-me uma vez se eu saberia calcular o Brasil daqui a vinte e cinco anos. Nem daqui a vinte e cinco minutos, quanto mais vinte e cinco anos. Mas a impressão-desejo é a de que num futuro não muito remoto talvez compreendamos que os movimentos caóticos atuais já eram os primeiros passos afinando-se e orquestrando-se para uma situação económica mais digna de um homem, de uma mulher, de uma criança. E isso porque o povo já tem dado mostras de ter maior maturidade política do que a grande maioria dos políticos, e é quem um dia terminará liderando os líderes. Daqui a vinte e cinco anos o povo terá falado muito mais.
Mas se n√£o sei prever, posso pelo menos desejar. Posso intensamente desejar que o problema mais urgente se resolva: o da fome. Muit√≠ssimo mais depressa, por√©m, do que em vinte e cinco anos, porque n√£o h√° mais tempo de esperar: milhares de homens, mulheres e crian√ßas s√£o verdadeiros moribundos ambulantes que tecnicamente deviam estar internados em hospitais para subnutridos. Tal √© a mis√©ria, que se justificaria ser decretado estado de prontid√£o, como diante de calamidade p√ļblica. S√≥ que √© pior: a fome √© a nossa endemia, j√° est√° fazendo parte org√Ęnica do corpo e da alma.

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XXX

Ao coração que sofre, separado
Do teu, no exílio em que a chorar me vejo,
N√£o basta o afeto simples e sagrado
Com que das desventuras me protejo.

N√£o me basta saber que sou amado,
Nem só desejo o teu amor: desejo
Ter nos braços teu corpo delicado,
Ter na boca a doçura de teu beijo.

E as justas ambi√ß√Ķes que me consomem
N√£o me envergonham: pois maior baixeza
Não há que a terra pelo céu trocar;

E mais eleva o coração de um homem
Ser de homem sempre e, na maior pureza,
Ficar na terra e humanamente amar.