Passagens sobre Raz√£o

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Frases sobre raz√£o, poemas sobre raz√£o e outras passagens sobre raz√£o para ler e compartilhar. Leia as melhores cita√ß√Ķes em Poetris.

A Alma é o Bem Supremo

Devemos circunscrever o bem supremo √† alma: degrad√°-lo-emos se em vez da melhor parte de n√≥s o associarmos antes √† pior, se o pusermos na depend√™ncia dos sentidos que nos animais sem fala s√£o bem mais apurados do que no homem. N√£o devemos atribuir ao corpo o ponto mais alto da nossa felicidade; os bens verdadeiros s√£o aqueles que devemos √† raz√£o – bens firmes e duradouros, insuscept√≠veis de decad√™ncia, incapazes de padecerem qualquer decr√©scimo ou limita√ß√£o! Os restantes bens s√£o-no somente na opini√£o do vulgo; na realidade apenas t√™m de comum o nome com os bens verdadeiros, mas carecem das propriedades que distinguem um ¬ębem¬Ľ real. Chamemos-lhes antes ¬ęutilidades¬Ľ ou, para usar o termo t√©cnico, ¬ęrecursos desej√°veis¬Ľ, mas sem perder de vista que se trata de ¬ęutens√≠lios¬Ľ, n√£o de partes de n√≥s mesmos; tenhamo-los √† m√£o, mas sem esquecer que s√£o exteriores a n√≥s; e mesmo tendo-os √† m√£o atribuamos-lhes um lugar subalterno e secund√°rio, como coisas de que ningu√©m se deve orgulhar. H√° coisa mais est√ļpida do que nos vangloriarmos de algo que n√£o fizemos? Deixemos que todos esses falsos bens nos caibam em sorte mas sem se colarem a n√≥s de modo a que, se ficarmos sem eles,

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O que Poder√° Ver quem j√° da Vista Cegou?

Ante Sintra, a mui prezada,
e serra de Ribatejo
que Arrábeda é chamada,
perto donde o rio Tejo
se mete n’√°gua salgada,
houve um pastor e pastora,
que com tanto amor se amaram
como males lhe causaram
este bem, que nunca fora,
pois foi o que n√£o cuidarom.

A ela chamavam Maria
e ao pastor Crisfal,
ao qual, de dia em dia,
o bem se tornou em mal,
que ele t√£o mal merecia.
Sendo de pouca idade,
n√£o se ver tanto sentiam
que o dia que n√£o se viam,
se via na saudade
o que ambos se queriam.

Algumas horas falavam,
andando o gado pascendo;
e ent√£o se apascentavam
os olhos, que, em se vendo,
mais famintos lhe ficavam.
E com quanto era Maria
pequena e, tinha cuidado
de guardar melhor o gado
o que lhe Crisfal dizia;
mas, em fim, foi mal guardado;

Que, depois de assim viver
nesta vida e neste amor,
depois de alcançado ter
maior bem pera mor dor,
em fim se houve de saber
por Joana,

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A D√ļvida, a Solid√£o, logo… a Escrita

Na vida, chega um momento – e penso que ele √© fatal – ao qual n√£o √© poss√≠vel escapar, em que tudo √© posto em causa: o casamento, os amigos, sobretudo os amigos do casal. Tudo menos a crian√ßa. A crian√ßa nunca √© posta em d√ļvida. E essa d√ļvida cresce √† sua volta. Essa d√ļvida, est√° s√≥, √© a da solid√£o. Nasce dela, da solid√£o. Podemos j√° nomear a palavra. Creio que h√° muita gente que n√£o poderia suportar o que aqui digo, que fugiria. Talvez seja por essa raz√£o que nem todos os homens s√£o escritores. Sim. Essa √© a diferen√ßa. Essa √© a verdade. Mais nada. A d√ļvida √© escrever. √Č, portanto, tamb√©m, o escritor. E com o escritor todo o mundo escreve. √Č algo que sempre se soube.
Creio tamb√©m que sem esta d√ļvida primeira do gesto em direc√ß√£o √† escrita n√£o existe solid√£o. Nunca ningu√©m escreveu a duas vozes. Foi poss√≠vel cantar a duas vozes, ou fazer m√ļsica tamb√©m, e jogar t√©nis, mas escrever, n√£o. Nunca.

N√£o h√° nada no mundo que esteja melhor repartido do que a raz√£o: toda a gente est√° convencida de que a tem de sobra.

Um Estado Desacostumado

N√£o √© imposs√≠vel assistir a um desvio anormal no funcionamento latente ou vis√≠vel das leis da natureza. Efectivamente, se qualquer um se der ao engenhoso trabalho de interrogar as diversas fases da sua exist√™ncia (sem esquecer qualquer delas, porque talvez fosse essa a que estava destinada a fornecer a prova do que afirmo), n√£o ser√° sem um certo espanto, que noutras circunst√Ęncias seria c√≥mico, que se recordar√° de que em determinado dia, para come√ßar a falar de coisas objectivas, foi testemunha de qualquer fen√≥meno que parecia ultrapassar, e positivamente ultrapassava, as no√ß√Ķes conhecidas fornecidas pela observa√ß√£o e pela experi√™ncia, como, por exemplo, as chuvas de sapos, cujo m√°gico espect√°culo n√£o foi a princ√≠pio compreendido pelos s√°bios. E de que, noutro dia, para falar em segundo e √ļltimo lugar de coisas subjectivas, a sua alma apresentou ao olhar investigador da psicologia, n√£o vou ao ponto de dizer uma aberra√ß√£o da raz√£o (que, no entanto, n√£o deixaria de ser curiosa; pelo contr√°rio, ainda o seria mais), mas, pelo menos, para n√£o me fazer rogado perante certas pessoas frias, que nunca perdoariam as locubra√ß√Ķes flagrantes do meu exagero, um estado desacostumado, muitas vezes grav√≠ssimo, que significa que o limite concedido pelo bom-senso √† imagina√ß√£o √©,

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A Consciência Débil da Nossa Autenticidade

A consciência que te acompanha no que vais sendo é o puro registo disso que vais sendo para o poderes ler, se quiseres, depois de já ter sido. Mas no instante de seres o que és, o que és é apenas, por uma decisão anterior ao decidires. O que és é-lo onde a tua realidade profunda em profundeza obscura se realizou. O que és é-lo no absoluto de ti. A consciência testifica-nos apenas como o ser privilegiado que sabe o que é por aquilo que vai sendo e pode assim reconverter-se à posse iluminada disso que vai sendo. A consciência constata mas não interfere senão para se não ser mais o que se foi, ou mais rigorosamente, para se não querer ser o que se é Рo que é ser-se ainda, embora de outra maneira.
Porque se neste instante me sobreponho, ao que sou, outra maneira de ser Рa consciência que me altera o primeiro modo de ser é a paralela iluminação do modo de ser segundo. Decidi ainda antes de decidir, quando decidi não ser o que primeiramente decidira. Assim no torvelinho dos actos que me presentificam e da consciência desses actos, sempre o insondável de nós se abre para lá do que podemos sondar.

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Medo da Própria Alma

Se Deus n√£o existe… O pior de tudo √© que eu digo e afirmo – Deus n√£o existe! – mas na realidade n√£o sei se Deus existe ou n√£o. N√£o h√° nada que o prove – ou que prove o contr√°rio. O pior de tudo √© que eu sinto uma sombra por tr√°s de mim e n√£o sei por que nome lhe hei-de chamar. O pior que podia acontecer no mundo foi algu√©m p√īr esta ideia a caminho.
Mas mesmo que Deus não exista, tenho medo de mim mesmo, tenho medo da minha alma, tenho medo de me encontrar sós a sós com a minha alma, que é nada, o fim e o princípio da vida e a razão do meu ser. Mesmo que Deus não exista e a consciência seja uma palavra, há ainda outra coisa indefinida e imensa diante de mim, ao pé de mim, perto de mim.

A Violência Oculta

A primeira raz√£o por que a viol√™ncia maior actua de modo silencioso, e das poucas vezes que falamos dela falamos apenas da ponta do icebergue. N√≥s acreditamos que estamos perante fen√≥menos de viol√™ncia apenas quando essa tens√£o assume propor√ß√Ķes vis√≠veis, quando ela surge como espect√°culo medi√°tico. Mas esquecemos que existem formas de viol√™ncia oculta que s√£o grav√≠ssimas. Esquecemos, por exemplo, que todos os dias, no nosso pa√≠s, s√£o sexualmente violentadas crian√ßas. E que, na maior parte das vezes, os agressores n√£o s√£o estranhos. Quem viola essas crian√ßas s√£o principalmente parentes. Quem pratica esse crime √© gente da pr√≥pria casa.

N√≥s temos n√≠veis alt√≠ssimos de viol√™ncia dom√©stica, em particular, de viol√™ncia contra a mulher. Mas esse assunto parece ser preocupa√ß√£o de poucos. Fala-se disso em algumas ONGs, em alguns semin√°rios. A Lei contra a viol√™ncia dom√©stica ainda n√£o foi aprovada na Assembleia da Rep√ļblica.

Existem várias outras formas invisíveis de violência. Existe violência quando os camponeses são expulsos sumariamente das suas terras por gente poderosa e não possuem meios para defender os seus direitos. Existe uma violência contida quando, perante o agente corrupto da autoridade, não nos surge outra saída senão o suborno. Existe, enfim, a violência terrível que é o vivermos com medo.

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A arte de governar n√£o √© mais do que a raz√£o e a moral aplicadas ao governo das na√ß√Ķes.

A Instabilidade e Imprevisibilidade do Nosso Comportamento

N√£o deveis estranhar se hoje vedes poltr√£o aquele que ontem vistes t√£o intr√©pido: ou a c√≥lera, ou a necessidade, ou a companhia, ou o vinho, ou o som de uma trombeta, tinham-lhe incutido coragem. N√£o se trata de uma coragem que a raz√£o haja modelado; foram as circunst√Ęncias que lhe deram consist√™ncia; n√£o espanta, pois, que circunst√Ęncias contr√°rias a tenham transformado.
Esta t√£o flex√≠vel varia√ß√£o e estas contradi√ß√Ķes que em n√≥s se v√™em, fizeram com que alguns imaginassem termos duas almas, e que outros supusessem que dois poderes nos acompanham e agitam, cada qual √† sua maneira, um tendendo para o bem, o outro para o mal, j√° que t√£o brutal diversidade n√£o poderia atribuir-se a uma s√≥ entidade.
N√£o somente o vento dos acidentes me agita consoante a direc√ß√£o para que sopra, mas, ademais, eu agito-me e perturbo-me a mim pr√≥prio pela instabilidade da minha postura; e quem, antes do mais, se observar, nunca se achar√° duas vezes no mesmo estado. Confiro √† minha alma ora um rosto ora outro, conforme o lado sobre que a pousar. Se falo de mim de diferentes maneiras √© porque de maneiras diferentes me observo. Toda a sorte de contradi√ß√Ķes se podem encontrar em mim sob algum ponto de vista e sob alguma forma.

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O Prazer em Perspectiva: a Esperança

A esperan√ßa √© filha do desejo, mas n√£o √© o desejo. Constitui uma aptid√£o mental, que nos fez crer na realiza√ß√£o de um desejo. Podemos desejar uma coisa sem que a esperemos. Toda gente deseja a fortuna, muito poucos a esperam. Os s√°bios desejam descobrir a causa primitiva dos fen√īmenos; eles n√£o t√™m nenhuma esperan√ßa de consegui-lo. O desejo aproxima-se algumas vezes da esperan√ßa, a ponto de confundir-se com ela. Na roleta, eu desejo e espero ganhar.
A esperan√ßa √© uma forma de prazer em expectativa que, na sua atual fase de espera, constitui uma satisfa√ß√£o freq√ľentemente maior do que o contentamento produzido pela sua realiza√ß√£o. A raz√£o √© evidente. O prazer realizado limita-se em quantidade e em dura√ß√£o, ao passo que nada limita a grandeza do sonho criado pela esperan√ßa. A for√ßa e o encanto da esperan√ßa consistem em conter todas as possibilidades de prazer. Ela constitui uma esp√©cie de vara m√°gica que transforma tudo. Os reformadores nunca fizeram mais do que substituir uma esperan√ßa por outra.

Reflex√Ķes sobre a Guerra

As vantagens do aumento da amplitude das unidades sociais s√£o principalmente evidentes em caso de guerra. De resto, a guerra foi em todos os tempos a causa principal desse crescimento, da transforma√ß√£o das fam√≠lias em tribos, das tribos em na√ß√Ķes e das na√ß√Ķes em coliga√ß√Ķes. Nas muito embora seja grande o interesse das na√ß√Ķes poderosas em triunfar, algumas come√ßam a compreender que h√° qualquer coisa prefer√≠vel √† pr√≥pria vit√≥ria, que √© evitar a guerra. No passado, a guerra era √†s vezes uma empresa proveitosa. A Guerra dos Sete Anos, por exemplo, proporcionou aos ingleses excelente rendimento em rela√ß√£o ao capital nela empregado, e os lucros conseguidos pelos vencedores nas guerras primitivas foram ainda mais evidentes. Mas o mesmo n√£o sucede nos conflitos modernos, por duas raz√Ķes principais: primeiro, porque os armamentos se tornaram extremamente caros; segundo, porque os grupos sociais envolvidos numa guerra moderna s√£o muito importantes.
√Č um erro pensar que a guerra moderna √© mais destruidora de vidas do que o foram os conflitos menos importantes de outrora. Antigamente, a percentagem das perdas em rela√ß√£o aos efectivos envolvidos na luta era por vezes t√£o elevada como hoje; e al√©m das perdas em combate, as mortes causadas pelas epidemias eram em geral numerosas.

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Em todas as disputas acaba-se por chegar a um ponto em que nenhuma das partes tem completa raz√£o nem completa falta dela, e o compromisso √© a √ļnica alternativa para aqueles que seriamente desejam a paz e a estabilidade.

N√£o se conhecer a si mesmo revela a prud√™ncia do idealista: uma pessoa que tem raz√Ķes para n√£o se ver claramente a si pr√≥pria e que √© assaz inteligente para n√£o esclarecer as suas pr√≥prias raz√Ķes.