Textos sobre Verdade

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Textos de verdade escritos por poetas consagrados, filósofos e outros autores famosos. Conheça estes e outros temas em Poetris.

A Felicidade de uma Raz√£o Perfeita

Creio que estaremos de acordo em que é para proveito do corpo que procuramos os bens exteriores; em que apenas cuidamos do corpo para benefício da alma, e em que na alma há uma parte meramente auxiliar Рa que nos assegura a locomoção e a alimentação Рda qual dispomos tão somente para serviço do elemento essencial. No elemento essencial da alma há uma parte irracional e outra racional; a primeira está ao serviço da segunda; esta não tem qualquer ponto de referência além de si própria, pelo contrário, serve ela de ponto de referência a tudo. Também a razão divina governa tudo quanto existe sem a nada estar sujeita; o mesmo se passa com a nossa razão, que, aliás, provém daquela.
Se estamos de acordo nesse ponto, estaremos necessariamente tamb√©m de acordo em que a nossa felicidade depende exclusivamente de termos em n√≥s uma raz√£o perfeita, pois apenas esta impede em n√≥s o abatimento e resiste √† fortuna; seja qual for a sua situa√ß√£o, ela manter-se-√° imperturb√°vel. O √ļnico bem aut√™ntico √© aquele que nunca se deteriora.
O homem feliz, insisto, √© aquele que nenhuma circunst√Ęncia inferioriza; que permanece no cume sem outro apoio al√©m de si mesmo,

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O Desejo de Discutir

Se as discuss√Ķes pol√≠ticas se tornam facilmente in√ļteis, √© porque quando se fala de um pa√≠s se pensa tanto no seu governo como na sua popula√ß√£o, tanto no Estado como na no√ß√£o de Estado enquanto tal. Pois o Estado como no√ß√£o √© uma coisa diferente da popula√ß√£o que o comp√Ķe, igualmente diferente do governo que o dirige. √Č qualquer coisa a meio caminho entre o f√≠sico e o metaf√≠sico, entre a realidade e a ideia.
√ą a esse g√©nero de estirilidade que est√£o geralmente condenadas, tal como acontece com as discuss√Ķes pol√≠ticas, as que incidem sobre a religi√£o, pois a religi√£o pode ser sin√≥nima de dogmas, ou de ritual, ou referir-se a posi√ß√Ķes pessoais do indiv√≠duo sobre quest√Ķes ditas eternas, o infinito e a eternidade, problemas do livre arb√≠trio e da responsabilidade ou, como se diz tamb√©m: Deus.
E o mesmo acontece com as discuss√Ķes que t√™m a ver com a maior parte dos assuntos abstractos, sobretudo a √©tica e os temas filos√≥ficos, mas tamb√©m com campos de an√°lise mais restritos, incidindo sobre os problemas mais imediatos, como por exemplo o socialismo, o capitalismo, a aristocracia, a democracia, etc…, em que as no√ß√Ķes s√£o tomadas tanto no sentido amplo como no restrito,

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Qualquer Conhecimento Vem a Partir da Experiência

Qualquer conhecimento vem a partir da experi√™ncia. Compreendam que aquele que s√≥ quisesse consultar o seu esp√≠rito e fechar todos os seus sentidos n√£o poderia pensar absolutamente nada; encontraria ainda menos nessa medita√ß√£o somente interior alguma verdade relativa ao mundo… na massa dos nossos conhecimentos, que n√£o passam da massa das nossas experi√™ncias, deve-se contudo distinguir os que se baseiam na constata√ß√£o segundo as regras, isto √©, com avalia√ß√Ķes, repeti√ß√Ķes, testemunhos, provas e contraprovas, e os que s√£o poss√≠veis de provar ou demonstrar √† maneira do ge√≥metra.

Superficialidade Popular

Como se a multidão ou os mais sábios em nome da multidão não estivessem prontos a dar passagem muito mais àquilo que é popular e superficial do que ao que é substancial e profundo; pois a verdade é que o tempo parece ter a natureza de um rio ou correnteza, que carrega até nós tudo o que é leve e inflado, mas afunda e afoga tudo aquilo que tem peso e solidez.

O Sensacionismo

Sentir é criar.
Sentir é pensar sem ideias, e por isso sentir é compreender, visto que o Universo não tem ideias.
РMas o que é sentir?
Ter opini√Ķes √© n√£o sentir.
Todas as nossas opini√Ķes s√£o dos outros.
Pensar é querer transmitir aos outros aquilo que se julga que se sente.
Só o que se pensa é que se pode comunicar aos outros. O que se sente não se pode comunicar. Só se pode comunicar o valor do que se sente. Só se pode fazer sentir o que se sente. Não que o leitor sinta a pena comum [?].
Basta que sinta da mesma maneira.
O sentimento abre as portas da pris√£o com que o pensamento fecha a alma.
A lucidez s√≥ deve chegar ao limiar da alma. Nas pr√≥prias antec√Ęmaras √© proibido ser expl√≠cito.
Sentir é compreender. Pensar é errar. Compreender o que outra pessoa pensa é discordar dela. Compreender o que outra pessoa sente é ser ela. Ser outra pessoa é de uma grande utilidade metafísica. Deus é toda a gente.
Ver, ouvir, cheirar, gostar, palpar – s√£o os √ļnicos mandamentos da lei de Deus. Os sentidos s√£o divinos porque s√£o a nossa rela√ß√£o com o Universo,

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Envelhecer

Uma pessoa envelhece lentamente: primeiro envelhece o seu gosto pela vida e pelas pessoas, sabes, pouco a pouco torna-se tudo t√£o real, conhece o sginificado das coisas, tudo se repete t√£o terr√≠vel e fastidiosamente. Isso tamb√©m √© velhice. Quando j√° sabe que um corpo n√£o √© mais que um corpo. E um homem, coitado, n√£o √© mais que um homem, um ser mortal, fa√ßa o que fizer… Depois envelhece o seu corpo; nem tudo ao mesmo tempo, n√£o, primeiro envelhecem os olhos, ou as pernas, o est√īmago, ou o cora√ß√£o. Uma pessoa envelhece assim, por partes. A seguir, de repente, come√ßa a envelhecer a alma: porque por mais enfraquecido e decr√©pito que seja o corpo, a alma ainda est√° repleta de desejos e de recorda√ß√Ķes, busca e deleita-se, deseja o prazer. E quando acaba esse desejo de prazer, nada mais resta que as recorda√ß√Ķes, ou a vaidade; e ent√£o √© que se envelhece de verdade, fatal e definitivamente. Um dia acordas e esfregas os olhos: j√° n√£o sabes porque acordaste. O que o dia te traz, conheces tu com exactid√£o: a Primavera ou o Inverno, os cen√°rios habituais, o tempo, a ordem da vida. N√£o pode acontecer nada de inesperado: n√£o te surpreeende nem o imprevisto,

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A Insustent√°vel Leveza do Ser

Eis que ao despedir-vos, esse teu amigo te diz que ele n√£o √© esse teu amigo mas sim um seu irm√£o g√©meo. Imediatamente uma altera√ß√£o profunda se instalou nas vossas rela√ß√Ķes. Mas se te perguntares em qu√™, n√£o √© f√°cil responderes. Naturalmente dirias que esse teu amigo n√£o era ele, que era outra pessoa. Mas outra em qu√™? O corpo √© igual nos m√≠nimos pormenores, igual a face e os gestos e a voz e os olhos. Iguais as ideias, os sentimentos, as recorda√ß√Ķes, o todo integral da sua vida e do que ele √©. Se percorreres todos os pormenores, encontr√°-los-√°s em hip√≥tese absolutamente iguais. Come√ßa onde quiseres, examina cada min√ļcia que constitui o teu amigo, progride at√© ao mais extremo limite e verificar√°s que nada escapa a uma integral igualdade. Mas se isto √© assim, deveria ser-te indiferente seres amigo deste como eras amigo do outro. Pois se uma pessoa √© aquilo que ela nos √©, se uma pessoa √© aquilo que a manifesta, se aquilo que nos define √© aquilo que somos e se esse algu√©m que encontr√°mos em nada difere, em hip√≥tese, do algu√©m que esper√°vamos encontrar, nenhuma raz√£o havia para que as rela√ß√Ķes com ele se perurbassem.

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Serenidade Desperta

Tenho tanta coisa para fazer. Pois, mas aquilo que faz, f√°-lo com qualidade? Conduzir at√© ao emprego, falar com os clientes, trabalhar no computador, fazer recados, lidar com os incont√°veis afazeres que preenchem a sua vida quotidiana – at√© que ponto √© que se entrega √†s coisas que faz? E realiza-as com entrega, sem resist√™ncia, ou, pelo contr√°rio, sem se entregar e resistindo √† ac√ß√£o? √Č isto que determina o sucesso na vida e n√£o a dose de esfor√ßo que se despende. O esfor√ßo implica stresse e desgaste f√≠sico, implica a necessidade absoluta de atingir um determinado objectivo ou de alcan√ßar um determinado resultado.

√Č capaz de detectar dentro de si at√© a mais pequena sensa√ß√£o de n√£o quererestar a fazer aquilo que est√° a fazer? Isso √© uma nega√ß√£o da vida e, desse modo, n√£o ser√° poss√≠vel obter resultados verdadeiramente bons.

Se for capaz de descobrir aquela sensa√ß√£o, ser√° que tamb√©m consegue abdicar dela e entregar–se completamente √†quilo que faz?

‚ÄúFazer uma coisa de cada vez”, foi assim que um Mestre Zen definiu o esp√≠rito da filosofia Zen.

Fazer uma coisa de cada vez significa estar nela por inteiro, concentrar nela toda a sua atenção.

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Uma Alma Grande e Corajosa

Um esp√≠rito corajoso e grande √© reconhecido principalmente devido a duas caracter√≠sticas: uma consiste no desprezo pelas coisas exteriores, na convic√ß√£o de que o homem, independentemente do que √© belo e conveniente, n√£o deve admirar, decidir ou escolher coisa alguma nem deixar-se abater por homem algum, por qualquer quest√£o espiritual ou simplesmente pela m√° fortuna. A outra consiste no facto – especialmente quando o esp√≠rito √© disciplinado na maneira acima referida – de se dever realizar feitos, n√£o s√≥ grandes e seguramente, bastante √ļteis, mas ainda em grande n√ļmero, √°rduos e cheios de trabalhos e perigos, tanto para a vida como para as muitas coisas que √† vida interessam.
Todo o esplendor, toda a dimensão (devo acrescentar ainda a utilidade), pertencem à segunda destas duas características; porém, a causa e o princípio eficiente, que os tornam homens grandes, à primeira.
Naquela est√°, com efeito, aquilo que torna os esp√≠ritos excelentes e desdenhosos das coisas humanas. Na verdade, pode isto ser reconhecido por duas condi√ß√Ķes: em primeiro lugar, se estimares alguma coisa como sendo boa unicamente porque √© honesta, em segundo lugar, se te encontrares livre de toda a perturba√ß√£o de esp√≠rito. Consequentemente, o facto de se ter em pouca conta aquelas coisas humanas e de se desprezar,

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Virtudes Ociosas e Bolorentas

Mais que amor, dinheiro e fama, dai-me a verdade. Sentei-me a uma mesa onde a comida era fina, os vinhos abundantes e o serviço impecável, mas onde faltavam sinceridade e verdade, e com fome me fui embora do inóspito recinto. A hospitalidade era fria como os sorvetes. Pensei que nem havia necessidade de gelo para conservá-los. Gabaram-me a idade do vinho e a fama da safra, mas eu pensava num vinho muito mais velho, mais novo e mais puro, de uma safra mais gloriosa, que eles não tinham e nem sequer podiam comprar.
O estilo, a casa com o terreno em volta e o ¬ęentretenimento¬Ľ n√£o representam nada para mim. Visitei o rei, mas ele deixou-me √† espera no vest√≠bulo, comportando-se como um homem incapaz de hospitalidade. Na minha vizinhan√ßa havia um homem que morava no oco de uma √°rvore e cujas maneiras eram r√©gias. Teria feito bem melhor visitando-o a ele.

A Inteligência e o Sentido Moral

A intelig√™ncia √© quase in√ļtil para aqueles que s√≥ a possuem a ela. O intelectual puro √© um ser incompleto, infeliz, pois √© incapaz de atingir aquilo que compreende. A capacidade de apreender as rela√ß√Ķes das coisas s√≥ √© fecunda quando associada a outras actividades, como o sentido moral, o sentido afectivo, a vontade, o racioc√≠nio, a imagina√ß√£o e uma certa for√ßa org√Ęnica. S√≥ √© utiliz√°vel √† custa de esfor√ßo.
Os detentores da ciência preparam-se longamente realizando um duro trabalho. Submetem-se a uma espécie de ascetismo. Sem o exercício da vontade, a inteligência mantém-se dispersa e estéril. Uma vez disciplinada, torna-se capaz de perseguir a verdade. Mas só a atinge plenamente se for ajudada pelo sentido moral. Os grandes cientistas têm sempre uma profunda honestidade intelectual. Seguem a realidade para onde quer que ela os conduza. Nunca procuram substituí-la pelos seus próprios desejos, nem ocultá-la quando se torna opressiva. O homem que quiser contemplar a verdade deve manter a calma dentro de si mesmo. O seu espírito deve ser como a água serena de um lago. As actividades afectivas, contudo, são indispensáveis ao progresso da inteligência. Mas devem reduzir-se a essa paixão que Pasteur chamava deus inteiror, o entusiasmo.

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Absurdo, Liberdade e Projecto

Uma vez admitidos dois factos: que o devir n√£o tem fim e que n√£o √© dirigido por qualquer grande unidade na qual o indiv√≠duo possa mergulhar totalmente como num elemento de valor supremo, resta s√≥ uma escapat√≥ria poss√≠vel: condenar todo esse mundo do devir como ilus√≥rio e inventar um mundo situado no al√©m, que seria o mundo verdadeiro. Mas, logo que o homem descobre que este mundo n√£o √© sen√£o constru√≠do sobre as suas pr√≥prias necessidades psicol√≥gicas e que ele n√£o √© de nenhum modo obrigado a acreditar nele, vemos aparecer a √ļltima forma do niilismo, que implica a nega√ß√£o do mundo metaf√≠sico e que a si mesma se pro√≠be de crer num mundo verdadeiro. Alcan√ßado este estado, reconhecemos que a realidade do devir √© a √ļnica realidade e abstemo-nos de todos os caminhos afastados que conduziriam √† cren√ßa em outros mundos e em falsos deuses – mas n√£o suportamos este mundo que n√£o temos j√° a vontade de negar.
(…) Que se passou portanto? Cheg√°mos ao sentimento do n√£o valor da exist√™ncia quando compreendemos que ela n√£o pode interpretar-se, no seu conjunto, nem com a ajuda do conceito de fim, nem com a do conceito de unidade, nem com a do conceito de verdade.

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Controle da Alma

Lembra o retiro que te oferece esse pequeno dom√≠nio que √©s tu mesmo; acima de tudo, n√£o te inquietes nem te oponhas, mas permanece livre e encara as coisas virilmente, como homem, como cidad√£o, como mortal. E, naquilo em que meditares mais frequentemente, estejam presentes estas duas verdades fundamentais: uma, que as coisas n√£o afectam a alma, mas permanecem im√≥veis, fora dela, e as nossas perturba√ß√Ķes resultam unicamente da opini√£o interior que a alma delas forma; outra, que tudo quanto contemplas mudar√° dentro de um instante e n√£o mais existir√°. Pensa em quantas mudan√ßas j√° assististe. O cosmos √© muta√ß√£o; a vida, opini√£o.
Se suprimires a tua opinião sobre aquilo que te parece causar sofrimento, alcançarás perfeita segurança. Tu, quem? A razão. Mas eu não sou apenas razão. Seja. Então, que a razão não se perturbe a si mesma. Mas se outra parte de ti sofrer, que ela opine sobre si própria.

Tenho Saudades de Ti

Os dias contigo são dias inteiros que passam num instante. Tenho saudades de ti quando acordo, antes de perceber que já estás ali ao meu lado. Tenho saudades de ti de manhã enquanto espero que desças do banho. Fico bem a ler enquanto te espero, mas leio melhor quando estás ao pé de mim, quando já não me apetece ler.

Hoje foi mais um dia contigo e, mais uma vez, dou comigo aqui à noite, separado de ti, para escrever sobre o dia que se passou. E a coisa principal que aconteceu foi ter saudades de ti outra vez.

Bem sei que sei onde est√°s e que eu estou aqui a cinco passos de ti. Mas a maior certeza que tenho √© que, apesar disso tudo, n√£o estou contigo nem tu est√°s comigo. √Č o que me basta para ter saudades de ti. N√£o preciso de mais: se mais tivesse, morreria.

√Č verdade que estive contigo durante uma pequena parte do dia: aquela a que as pessoas tristes e habituadas chamam vida. Mas estava t√£o apaixonado e t√£o feliz que nem dei por isso.

Pensei apenas: “Conseguimos! Conseguimos estar juntos! Nem acredito!”

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A Virtude do Aforista

A excel√™ncia dos aforismos n√£o consiste tanto na express√£o de algum sentimento raro e abstruso, como na compreens√£o de algumas √≥bvias e √ļteis verdades em poucas palavras. N√≥s frequentemente ca√≠mos em erros e distrac√ß√Ķes, n√£o porque os verdadeiros princ√≠pios de ac√ß√£o n√£o sejam conhecidos, mas porque, durante algum tempo, eles n√£o s√£o recordados; e o aforista pode, ent√£o, ser enumerado justamente entre os benfeitores do g√©nero humano que contrai as grandes regras da vida em senten√ßas curtas, que podem ser facilmente colocadas na mem√≥ria, e serem ensinadas atrav√©s da lembran√ßa frequente para que possam ocorrer periodicamente √† mente.

A Imaginação é a Base do Homem

De tal modo a imagina√ß√£o √© a base do homem ‚ÄĒ Joana de novo ‚ÄĒ que todo o mundo que ele tem constru√≠do encontra sua justificativa na beleza da cria√ß√£o e n√£o na sua utilidade, n√£o em ser o resultado de um plano de fins adequados √†s necessidades. Por isso √© que vemos multiplicarem-se os rem√©dios destinados a unir o homem √†s ideias e institui√ß√Ķes existentes ‚ÄĒ a educa√ß√£o, por exemplo, t√£o dif√≠cil ‚ÄĒ e vemo-lo continuar sempre fora do mundo que ele construiu. O homem levanta casas para olhar e n√£o para nelas morar. Porque tudo segue o caminho da inspira√ß√£o. O determinismo n√£o √© um determinismo de fins, mas um estreito determinismo de causas. Brincar, inventar, seguir a formiga at√© seu formigueiro, misturar √°gua com cal para ver o resultado, eis o que se faz quando se √© pequeno e quando se √© grande. √Č erro considerar que chegamos a um alto grau de pragmatismo e materialismo. Na verdade o pragmatismo ‚ÄĒ o plano orientado para um dado fim real ‚ÄĒ seria a compreens√£o, a estabilidade, a felicidade, a maior vit√≥ria de adapta√ß√£o que o homem conseguisse. No entanto fazer as coisas ¬ępara qu√™¬Ľ parece-me, perante a realidade,

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Se Queres Ser Feliz Abdica da Inteligência

Os tolos s√£o felizes; eu se fosse casado eliminava os tolos da minha casa. Cada cidad√£o, que me fosse apresentado, n√£o poderia s√™-lo, sem exibir o diploma de s√≥cio da academia real das ci√™ncias. Olha, crian√ßa, decora estas duas verdades que o Balzac n√£o menciona na ¬ęFisiologia do Casamento¬Ľ. Um erudito, ao p√© da tua mulher, fala-lhe na civiliza√ß√£o grega, na decad√™ncia do imp√©rio romano, em economia politica, em direito publico, e at√© em qu√≠mica aplicada ao extracto do esp√≠rito de rosas. Confessa que tudo isto o maior mal que pode fazer √† tua mulher √© adormec√™-la. O tolo n√£o √© assim. Como ignora e desdenha a ci√™ncia, dispara √† queima roupa na tua pobre mulher quantos galanteios importou de Paris, que s√£o originais em Portugal, porque s√£o ditos num idioma que n√£o √© franc√™s nem portugu√™s.

Tua mulher, se tem a infelicidade de não ter em ti um marido doce e meigo, começa a comparar-te com o tolo, que a lisonjeia, e acha que o tolo tem muito juízo. Concedido juízo ao tolo, concede-se-lhe razão; concedida a razão, concede-se-lhe tudo. Ora aí tens porque eu antes queria ao pé de minha mulher o padre José Agostinho de Macedo,

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A Maior Parte do que Sabemos é a Menor do que Ignoramos

A maior parte do que sabemos, √© a menor do que ignoramos. N√£o se achou var√£o t√£o perfeito no Mundo, que conhecesse o que tinha de s√°bio, sen√£o sabendo o que lhe faltava para perfeito. N√£o se viu ningu√©m tanto nos √ļltimos remates da perfei√ß√£o, em quem n√£o bruxoleassem sempre alguns desaires de humano. (…) N√£o necessitando de nada os grandes, s√≥ de verdades necessitam; porque, como custam caro, todo o cabedal da fortuna √© pre√ßo limitado para elas; por isso nos grandes s√£o mais avultados os erros, porque erram com grandeza e ignoram com presun√ß√£o. Mais gravemente enferma o que logra melhor disposi√ß√£o, que o que nunca deixou de ter achaques: e a raz√£o √© porque a enfermidade que p√īde vencer disposi√ß√£o t√£o boa, teve muito de poderosa; ignor√Ęncia a que n√£o alumiou o discurso mais desperto, tirou as esperan√ßas ao rem√©dio.

O Bom Senso como Suporte da Humanidade

Se n√£o tivesse havido em todos os tempos uma maioria de homens para fazer depender o seu orgulho, o seu dever, a sua virtude da disciplina do seu esp√≠rito, da sua ¬ęraz√£o¬Ľ, dos amigos do ¬ębom senso¬Ľ, para se sentirem feridos e humilhados pela menor fantasia, o menor excesso da imagina√ß√£o, a humanidade j√° teria naufragado h√° muito tempo.
A loucura, o seu pior perigo, n√£o deixou nunca, com efeito, de planar por cima dela, a loucura prestes a estalar… quer dizer a irrup√ß√£o da lei do bom prazer em mat√©ria de sentimento de sensa√ß√Ķes visuais ou auditivas, o direito de gozar com o jorro do esp√≠rito e de considerar como um prazer a irris√£o humana. N√£o s√£o a verdade, a certeza que est√£o nos ant√≠podas do mundo dos insensatos; √© a cren√ßa obrigat√≥ria e geral, √© a exclus√£o do bom prazer no ajuizar. O maior trabalho dos homens foi at√© agora concordar sobre uma quantidade de coisas, e fazer uma lei desse acordo,… quer essas coisas fossem verdadeiras ou falsas. Foi a disciplina do esp√≠rito que preservou a humanidade,… mas os instintos que a combatem s√£o ainda t√£o poderosos que em suma s√≥ se pode falar com pouca confian√ßa no futuro da humanidade.

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Estamos Nós Realmente Salvando o Mundo?

Hoje a pergunta com que nos confrontamos é simples: estamos nós realmente salvando o mundo? Não me parece que a resposta possa ser aquela que gostaríamos. O mundo só pode ser salvo se for outro, se esse outro mundo nascer em nós e nos fizer nascer nele.
Mas nem o mundo est√° sendo salvo nem ele nos salva enquanto seres de exist√™ncia √ļnica e irrepet√≠vel. Alguns de n√≥s estar√£o fazendo coisas que acreditam ser important√≠ssimas. Mas poucos ter√£o a cren√ßa que est√£o mudando o nosso futuro. A maior parte de n√≥s est√° apenas gerindo uma condi√ß√£o que sabemos torta, geneticamente modificada ao sabor de um enorme laborat√≥rio para o qual todos trabalhamos mesmo sem vencimento.

Se alguma coisa queremos mudar e parece que mudar √© preciso, temos que enfrentar algumas perguntas. A primeira das quais √© como estamos n√≥s, bi√≥logos, pensando a ci√™ncia biol√≥gica? Antes de sermos cientistas somos cidad√£os cr√≠ticos, capazes de questionar os pressupostos que nos s√£o entregues como sendo ¬ęnaturais¬Ľ. A verdade, colegas, √© que estamos hoje perante uma natureza muito pouco natural.

E é aqui que o pecado da preguiça pode estar ganhando corpo. Uma subtil e silenciosa preguiça pode levar a abandonar a reflexão sobre o nosso próprio objecto de trabalho.

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