Textos sobre Peixes

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Textos de peixes escritos por poetas consagrados, filósofos e outros autores famosos. Conheça estes e outros temas em Poetris.

As Tuas L√°grimas

As tuas lágrimas respiram e florescem, o lugar onde te sentas é o rio que corre em sobressalto por dentro de uma árvore, seiva renovada que transporta palavras até às folhas felizes de~um amor demorado e ainda puro. E essa ávore fala através das tuas palavras, demora-se em conversas com as abelhas, com os gaios, com o vento.
As tuas l√°grimas iluminam as p√°ginas alucinadas dos livros de poesia, e as mesas claras t√£o cheias de frutos que se assemelham a fogueiras ruivas, alimento privilegiado de um imenso e intenso drag√£o que me aquece o sangue.
As tuas lágrimas transbordam os grandes lagos dos meus olhos e eu choro contigo os grandes peixes da ternura, esses mesmos peixes que são os arquitectos perturbados de uma relação sem tempo mas alimentada por primaveras que de tão altas são inquestionáveis.
As tuas l√°grimas fertilizam as searas celestes, arrefecem o movimento dos vulc√Ķes, absorvem toda a beleza do arco-√≠ris, embebedam-se com a do√ßura das estrelas. E s√£o oferendas √† m√£e terra, o reconhecimento final do princ√≠pio do nosso pequeno mundo. As tuas l√°grimas s√£o minhas amigas. S√£o as minhas l√°grimas. A forma de chorar-te cheio de alegria, ferido por esta felicidade de amar-te muito,

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Amor Comparado

Queres ter uma ideia do amor, v√™ os pardais do teu jardim; v√™ os teus pombos; contempla o touro que se leva √† tua vitela; olha esse orgulhoso cavalo que dois valetes teus conduzem √† √©gua em paz que o espera, e que desvia a cauda para receb√™-lo; v√™ como os seus olhos cintilam; ouve os seus relinchos; contempla os seus saltos, camabalhotas, orelhas eri√ßadas, boca que se abre com pequenas convuls√Ķes, narinas que se inflam, sopro inflamado que delas sai, crinas que se revolvem e flutuam, movimento imperioso com o qual o cavalo se lan√ßa para o objecto que a natureza lhe destinou; mas n√£o tenhas inveja, e pensa nas vantagens da esp√©cie humana: elas compensam com amor todas as que a natureza deu aos animais, for√ßa, beleza, ligeireza, rapidez. H√° at√© mesmo animais que n√£o sabem o que √© o gozo. Os peixes escamados s√£o privados dessa do√ßura: a f√™mea lan√ßa no lodo milh√Ķes de ovos; o macho que os encontra passa sobre eles e fecunda-os com a sua semente, sem saber a que f√™mea eles pertencem. A maior parte dos animais que copulam s√≥ t√™m prazer por um sentido; e, assim que esse apetite √© satisfeito, tudo se extingue.

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O Desporto √© a Intelig√™ncia In√ļtil

O sport √© a intelig√™ncia in√ļtil manifestada nos movimentos do corpo. O que o paradoxo alegra no cont√°gio das almas, o sport aligeira na demonstra√ß√£o dos bonecos delas. A beleza existe, verdadeiramente, s√≥ nos altos pensamentos, nas grandes emo√ß√Ķes, nas vontades conseguidas. No sport – ludo, jogo, brincadeira – o que existe √© sup√©rfluo, como o que o gato faz antes de comer o rato que lhe h√°-de escapar. Ningu√©m pensa a s√©rio no resultado, e, enquanto dura o que desaparece, existe o que n√£o dura. H√° uma certa beleza nisso, como no domin√≥, e, quando o acaso proporciona o jogo acertado, a maravilha entesoura o corpo encostado do vencedor. Fica, no fim, e sempre virado para o in√ļtil, o inconseguido do jogo. Pueri ludunt, como no prim√°rio do latim…

Ao sol brilham, no seu breve movimento de gl√≥ria esp√ļria, os corpos juvenis que envelhecer√£o, os trajectos que, com o existirem, deixaram j√° de existir. Entardece no que vemos, como no que vimos. A Gr√©cia antiga n√£o nos afaga sen√£o intelectualmente. Ditosos os que naufragam no sacrif√≠cio da posse. S√£o comuns e verdadeiros. O sol das arenas faz suar os gestos dos outros. Os poetas cantam-nos antes que des√ßa todo o sol.

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Uma Vida Simples e Modesta

N√£o depender sen√£o de si mesmo √©, em nossa opini√£o, um grande bem, mas da√≠ n√£o se segue que devamos sempre contentar-nos com pouco. Simplesmente, quando nos falte a abund√Ęncia, devemos poder contentar-nos com pouco, persuadidos de que gozam melhor a riqueza os que t√™m menor n√ļmero de cuidados, e de que tudo quanto seja natural se obt√©m facilmente, enquanto o que n√£o o √© s√≥ se consegue a custo. As iguarias mais simples proporcionam tanto prazer quanto a mesa mais ricamente servida, sempre que esteja ausente o sofrimento causado pela necessidade, e o p√£o e a √°gua ocasionam o mais vivo prazer quando s√£o saboreados ap√≥s longa priva√ß√£o.
O h√°bito de uma vida simples e modesta √©, pois, uma boa maneira de cuidar da sa√ļde e, ademais, torna o homem corajoso para suportar as tarefas que deve necessariamente cumprir na vida. Permite-lhe ainda apreciar melhor uma vida opulenta, quando se lhe enseje, e fortalece-o contra os reveses da fortuna. Por conseguinte, quando dizemos que o prazer √© o soberano bem, n√£o falamos dos prazeres dos devassos, nem dos gozos sensuais, como o pretendem alguns ignorantes que nos combatem e nos desfiguram o pensamento. Falamos da aus√™ncia de sofrimento f√≠sico e da aus√™ncia de perturba√ß√£o moral.

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Para um Grande Espírito Nada há que Seja Grande

Evitai tudo quanto agrade ao vulgo, tudo quanto o acaso proporciona; diante de qualquer bem fortuito parai com desconfian√ßa e receio: tamb√©m a ca√ßa ou o peixe se deixa enganar por esperan√ßas falacciosas. Julgais que se trata de benesses da sorte? S√£o armadilhas! Quem quer que deseje passar a vida em seguran√ßa evite quanto possa estes benef√≠cios escorregadios nos quais, pobres de n√≥s, at√© nisto nos enganamos: ao julgar possu√≠-los, deixamo-nos apanhar! Esta corrida leva-nos para o abismo; a √ļnica sa√≠da para uma vida ¬ęelevada¬Ľ, √© a queda!
E mais: nem sequer poderemos parar quando a fortuna começa a desviar-nos da rota certa, nem ao menos ir a pique, cair instantaneamente: não, a fortuna não nos faz tropeçar, derruba-nos, esmaga-nos.
Prossegui, pois, um estilo de vida correcto e saud√°vel, comprazendo o corpo apenas na medida do indispens√°vel √† boa sa√ļde. Mas h√° que trat√°-lo com dureza, para ele obedecer sem custo ao esp√≠rito: limite-se a comida a matar a fome, a bebida a extinguir a sede, a roupa a afastar o frio, a casa a servir de abrigo contra as intemp√©ries. Que a habita√ß√£o seja feita de ramos ou de pedras coloridas importadas de longe, √© pormenor sem interesse: ficai sabendo que para abrigar um homem t√£o bom √© o colmo como o ouro!

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O Tempo Vale Muito Mais do que o Dinheiro

Perder tempo não é como gastar dinheiro. Se o tempo fosse dinheiro, o dinheiro seria tempo.
Não é. O tempo vale muito mais do que o dinheiro. Quando morremos, acaba-se o tempo que tivemos. Quando morremos, o que mais subsiste e insiste é a quantidade de coisas que continuam a existir, apesar de nós.
O nosso tempo de vida √© a nossa √ļnica fortuna. Temos o tempo que temos. Depois de ter acabado o nosso tempo, n√£o conseguimos comprar mais. Quando morreu o meu pai, foi-se com ele todo o tempo que ele tinha para passar connosco. As coisas dele ficaram para tr√°s. Sobreviveram. Eram objectos. Alguns tinham valor por fazer lembrar o tempo que passaram com ele – a r√©gua de arquitecto naval, os rel√≥gios – quando ele tinha tempo.
As pessoas dizem ¬ętime is money¬Ľ para apressar quem trabalha. A √ļnica maneira de comprar tempo √© de precisar de menos dinheiro para viver, para poder passar menos tempo a ganh√°-lo. E ficar com mais tempo para trabalhar no que d√° mais gosto e para ter o luxo indispens√°vel de poder perder tempo, a fazer ninharias e a ser-se indolente.
A ideologia dominante de aproveitar bem o tempo impede-nos de perder esses tempos.

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A Palavra

…Tudo o que voc√™ quiser, sim senhor, mas s√£o as palavras que cantam, que sobem e descem… Prosterno-me diante delas… Amo–as, abra√ßo-as, persigo-as, mordo-as, derreto-as… Amo tanto as palavras… As inesperadas… As que glutonamente se amontoam, se espreitam, at√© que de s√ļbito caem… Voc√°bulos amados… Brilham como pedras de cores, saltam como irisados peixes, s√£o espuma, fio, metal, orvalho… Persigo algumas palavras… S√£o t√£o belas que quero p√ī-las a todas no meu poema… Agarro-as em voo, quando andam a adejar, e ca√ßo-as, limpo-as, descasco-as, preparo-me diante do prato, sinto-as cristalinas, vibrantes, eb√ļrneas, vegetais, oleosas, como frutas, como algas, como √°gatas, como azeitonas… E ent√£o revolvo-as, agito-as, bebo-as, trago-as, trituro-as, alindo-as, liberto-as… Deixo-as como estalactites no meu poema, como pedacinhos de madeira polida, como carv√£o, como restos de naufr√°gio, presentes das ondas… Tudo est√° na palavra… Uma ideia inteira altera-se porque uma palavra mudou de lugar, ou porque outra se sentou como um reizinho dentro de uma frase que n√£o a esperava, nas que lhe obedeceu… Elas t√™m sombra, transpar√™ncia, peso, penas, p√™los, t√™m de tudo quanto se lhes foi agregando de tanto rolar pelo rio, de tanto transmigrar de p√°tria, de tanto serem ra√≠zes… S√£o antiqu√≠ssimas e recent√≠ssimas… Vivem no f√©retro escondido e na flor que desponta…

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Aos Realistas

√ď seres frios que vos sentis t√£o coura√ßados contra a paix√£o e a quimera e que tanto gostar√≠eis de fazer da vossa doutrina um adorno e um objecto de orgulho, dais-vos o nome de realistas e dais a entender que o mundo √© verdadeiramente tal como vos aparece; que sois os √ļnicos a ver a verdade isenta de v√©us e que sois v√≥s talvez a melhor parte dessa verdade… √≥ queridas imagens de Sais! Mas n√£o sereis ainda v√≥s pr√≥prios, mesmo no vosso estado mais despojado, seres surpreendentemente obscuros e apaixonados se vos compararmos aos peixes? N√£o sereis ainda demasiado parecidos com artistas apaixonados? E o que vem a ser a ¬ęrealidade¬Ľ aos olhos de um artista apaixonado? Ainda n√£o deixaste de julgar as coisas como f√≥rmulas que t√™m a sua origem nas paix√Ķes e nos complexos amorosos dos s√©culos passados! A vossa frieza est√° ainda cheia de uma secreta e inextirp√°vel embriaguez!
O vosso amor pela ¬ęrealidade¬Ľ, se for necess√°rio escolher-vos um exemplo, que coisa antiga! Que velho ¬ęamor¬Ľ! N√£o h√° sentimento, sensa√ß√£o, que n√£o contenham uma certa dose, que n√£o tenham sido, tamb√©m, trabalhados e alimentados por qualquer exagero da imagina√ß√£o, por um preconceito, uma sem-raz√£o, uma incerteza,

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No Amor Começa-se Sempre a Zero

Fazer um registo de propriedade √© chato e dif√≠cil mas fazer uma declara√ß√£o de amor ainda √© pior. Ningu√©m sabe como. N√£o h√° minuta. N√£o h√° sequer um despachante ao qual o premente assunto se possa entregar. As declara√ß√Ķes de amor t√™m de ser feitas pelo pr√≥prio. A experi√™ncia n√£o serve de nada ‚ÄĒ por muitas declara√ß√Ķes que j√° se tenham feito, cada uma √© completamente diferente das anteriores. No amor, ali√°s, a experi√™ncia s√≥ demonstra uma coisa: que n√£o tem nada que estar a demonstrar cois√≠ssima nenhuma. √Č verdade ‚ÄĒ come√ßa-se sempre do zero. Cada vez que uma pessoa se apaixona, regressa √† suprema inoc√™ncia, in√©pcia e barb√°rie da puberdade. Sobem-nos as bainhas das cal√ßas nas pernas e quando damos por n√≥s estamos de cal√ß√Ķes. A experi√™ncia n√£o serve de nada na luta contra o fogo do amor. Imaginem-se duas pessoas apanhadas no meio de um inc√™ndio, sem poderem fugir, e veja-se o sentido que faria uma delas virar-se para a outra e dizer: ¬ęOuve l√°, tu que tens experi√™ncia de queimaduras do primeiro grau…¬Ľ

Pode ter-se sessenta anos. Mas no dia em que o peito sacode com as aurículas a brincar aos carrinhos-de-choque com os ventrículos,

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No Amor, Mil Almas, Mil Maneiras Diferentes

Nem todas as mulheres experimentam os mesmos sentimentos. Encontrareis mil almas com mil maneiras diferentes. Para as conquistar, empregai mil maneiras. A mesma terra n√£o produz todas as coisas: tal conv√©m √† vinha, tal √† oliveira; aqui despontar√£o cereais em abund√Ęncia. H√° nos cora√ß√Ķes tantos caracteres diferentes, quantos rostos h√° no mundo. O homem prudente acomodar-se-√° a estes inumer√°veis caracteres; novo Proteu, t√£o depressa se diluir√° em ondas fluidas para logo ser um le√£o, uma √°rvore, um javali de eri√ßadas cerdas. Os peixes apanham-se aqui com o arp√£o, ali com o anzol, acol√° com as redes puxadas pela corda estendida. E o mesmo m√©todo n√£o convir√° a todas as idades: uma cor√ßa velha descobrir√° a armadilha de mais longe; se te mostrares experiente junto de uma novi√ßa, demasiado petulante junto de uma recatada, ela desconfiar√° que a vais tornar infeliz. Assim √© que a mulher que √†s vezes teme entregar-se a um homem honesto, caiu vergonhosamente nos bra√ßos de algu√©m que a n√£o merece.

Felicidade, Glória, Imaginação, Inteligência e Inspiração

Numa vida profundamente atormentada seria possível muitas vezes encontrar-se felicidade para várias outras existências. Da felicidade que um homem malbarata, sem lhe suspeitar o valor, outros homens tirariam alegria para toda a vida, assim como as sobras da mesa do rico dariam para sustento de mais de um pobre.

A gl√≥ria √© um processo de apuramento que nunca p√°ra. √Ä medida que a humanidade envelhece e que as suas recorda√ß√Ķes se v√£o amontoando, tornam-se necess√°rias novas selec√ß√Ķes. S√©culos inteiros s√£o depurados nesses escrut√≠nios, sem que sobreviva um nome sequer. Um dia os imortais ir√£o unir-se aos an√≥nimos no esquecimento final.

√Č a imagina√ß√£o, tocha divina apensa ao esp√≠rito do homem, que lhe permite mover-se nas trevas da cria√ß√£o. Assim os peixes das profundezas oce√Ęnicas trazem um facho que os ilumina na noite eterna. Sem isto para que lhes serviriam os olhos? Sem imagina√ß√£o, que utilidade teria para o homem a intelig√™ncia?

O homem de letras tem falhas pronunciadas de intelig√™ncia, a ponto de parecer est√ļpido ao homem de neg√≥cios. N√£o deixa por√©m por isso de se considerar, onde quer que se encontre, o mais inteligente da roda. Nada √© mais absurdo do que essa superioridade,

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Resgatar o Prazer de Viver

√Č poss√≠vel resgatar o prazer de viver, √© poss√≠vel treinar a emo√ß√£o para ser jovem, desprendida, livre, feliz.

Primeiro: Contemple o belo nos pequenos eventos da vida.
Tenha sempre atividades programadas fora da sua agenda pelo menos uma vez por semana. Valorize aquilo que o dinheiro não compra e que não dá prestígio.
Treine dez minutos por dia a contemplar a anatomia das flores, a gastar tempo a ver o brilho das estrelas, a experimentar o prazer de penetrar no mundo das pessoas.
Não viva em função de grandes eventos, aprenda a extrair o prazer dos pequenos estímulos da rotina diária.

Segundo: Irrigue o palco da mente com pensamentos agrad√°veis.
Treine trazer diariamente à sua memória aquilo que lhe traz esperança, serenidade e encanto pela vida. Pense em conquistar pessoas e em superar os seus obstáculos. Pense em ser íntimo do Autor da vida e conhecer os mistérios da existência.
Os seus maiores inimigos est√£o dentro de si. N√£o se deixe derrotar ou perturbar por pensamentos que lhe roubam a tranquilidade e o prazer de viver.
Treine ver o lado positivo de todas as coisas negativas. Os negativistas veem os raios,

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A Deliciosa Solid√£o dos Anos de Maturidade

O que é significativo na existência de cada um é algo de que dificilmente temos consciência e não deve seguramente incomodar os outros. O que sabe um peixe acerca da água na qual nada durante toda a vida?
A amargura e a do√ßura v√™m do exterior, as dificuldades do interior, dos nossos pr√≥prios esfor√ßos. Na maior parte das vezes fa√ßo as coisas que a minha pr√≥pria natureza me compele a fazer. √Č embara√ßador ganhar tanto respeito e amor por isso. Tamb√©m me foram atiradas setas de √≥dio, mas nunca me atingiram, porque de algum modo pertencem a outro mundo, com o qual n√£o tenho qualquer tipo de liga√ß√£o.
Vivo naquela solidão que é penosa na juventude, mas deliciosa nos anos de maturidade.

Caminho da Manh√£

Vais pela estrada que é de terra amarela e quase sem nenhuma sombra. As cigarras cantarão o silêncio de bronze. À tua direita irá primeiro um muro caiado que desenha a curva da estrada. Depois encontrarás as figueiras transparentes e enroladas; mas os seus ramos não dão nenhuma sombra. E assim irás sempre em frente com a pesada mão do Sol pousada nos teus ombros, mas conduzida por uma luz levíssima e fresca. Até chegares às muralhas antigas da cidade que estão em ruínas. Passa debaixo da porta e vai pelas pequenas ruas estreitas, direitas e brancas, até encontrares em frente do mar uma grande praça quadrada e clara que tem no centro uma estátua. Segue entre as casas e o mar até ao mercado que fica depois de uma alta parede amarela. Aí deves parar e olhar um instante para o largo pois ali o visível se vê até ao fim. E olha bem o branco, o puro branco, o branco da cal onde a luz cai a direito. Também ali entre a cidade e a água não encontrarás nenhuma sombra; abriga-te por isso no sopro corrido e fresco do mar. Entra no mercado e vira à tua direita e ao terceiro homem que encontrares em frente da terceira banca de pedra compra peixes.

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A Má Consciência como Inibição dos Instintos

A m√° consci√™ncia √© para mim o estado m√≥rbido em que devia ter ca√≠do o homem quando sofreu a transforma√ß√£o mais radical que alguma vez houve, a que nele se produziu quando se viu acorrentado √† argola da sociedade e da paz. √Ä maneira dos peixes obrigados a adaptarem-se a viver em terra, estes semianimais, acostumados √† vida selvagem, √† guerra, √†s correrias e aventuras, viram-se obrigados de repente a renunciar a todos os seus nobres instintos. For√ßavam-nos a irem pelo seu p√©, a ¬ęlevarem-se a si mesmos¬Ľ, quando at√© ent√£o os havia levado a √°gua: esmagava-os um peso enorme. Sentiam-se inaptos para as fun√ß√Ķes mais simples; neste mundo novo e desconhecido n√£o tinham os seus antigos guias estes instintos reguladores, inconscientemente fal√≠veis; viam-se reduzidos a pensar, a deduzir, a calcular, a combinar causas e efeitos. Infelizes! Viam-se reduzidos √† sua ¬ęconsci√™ncia¬Ľ, ao seu √≥rg√£o mais fraco e mais coxo! Creio que nunca houve na terra desgra√ßa t√£o grande, mal-estar t√£o horr√≠vel!
Acrescente-se a isto que os antigos instintos n√£o haviam renunciado de vez √†s suas exig√™ncias. Mas era dif√≠cil e ami√ļde imposs√≠vel satisfaz√™-las; era preciso procurar satisfa√ß√Ķes novas e subterr√Ęneas. Os instintos sob a enorme for√ßa repressiva, volvem para dentro,

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O Supremo Palhaço da Criação

A velha no√ß√£o antropom√≥rfica de que todo o universo se centraliza no homem ‚Äď de que a exist√™ncia humana √© a suprema express√£o do processo c√≥smico ‚Äď parece galopar alegremente para o ba√ļ das ilus√Ķes perdidas. O facto √© que a vida do homem, quanto mais estudada √† luz da biologia geral, parece cada vez mais vazia de significado. O que no passado deu a impress√£o de ser a principal preocupa√ß√£o e obra-prima dos deuses, a esp√©cie humana come√ßa agora a apresentar o aspecto de um sub-produto acidental das maquina√ß√Ķes vastas, inescrut√°veis e provavelmente sem sentido desses mesmos deuses.
(…) O que n√£o quer dizer, naturalmente, que um dia a tal teoria seja abandonada pela grande maioria dos homens. Pelo contr√°rio, estes a abra√ßar√£o √† medida que ela se tornar cada vez mais duvidosa. De fato, hoje, a teoria antropom√≥rfica ainda √© mais adoptada do que nas eras de obscurantismo, quando a doutrina de que um homem era um quase Deus foi no m√≠nimo aperfei√ßoada pela doutrina de que as mulheres inferiores. O que mais est√° por tr√°s da caridade, da filantropia, do pacifismo, da ‚Äúinspira√ß√£o‚ÄĚ e do resto dos atuais sentimentalismos? Uma por uma, todas estas tolices s√£o baseadas na no√ß√£o de que o homem √© um animal glorioso e indescrit√≠vel,

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Felicidade e Prazer

Devemos estudar os meios de alcan√ßar a felicidade, pois, quando a temos, possu√≠mos tudo e, quando n√£o a temos, fazemos tudo por alcan√ß√°-la. Respeita, portanto, e aplica os princ√≠pios que continuadamente te inculquei, convencendo-te de que eles s√£o os elementos necess√°rios para bem viver. Pensa primeiro que o deus √© um ser imortal e feliz, como o indica a no√ß√£o comum de divindade, e n√£o lhe atribuas jamais car√°cter algum oposto √† sua imortalidade e √† sua beatitude. Habitua-te, em segundo lugar, a pensar que a morte nada √©, pois o bem e o mal s√≥ existem na sensa√ß√£o. De onde se segue que um conhecimento exacto do facto de a morte nada ser nos permite fruir esta vida mortal, poupando-nos o acr√©scimo de uma ideia de dura√ß√£o eterna e a pena da imortalidade. Porque n√£o teme a vida quem compreende que n√£o h√° nada de tem√≠vel no facto de se n√£o viver mais. √Č, portanto, tolo quem declara ter medo da morte, n√£o porque seja tem√≠vel quando chega, mas porque √© tem√≠vel esperar por ela.
√Č tolice afligirmo-nos com a espera da morte, visto ser ela uma coisa que n√£o faz mal, uma vez chegada. Por conseguinte, o mais pavoroso de todos os males,

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O Único Meio de Ser Livre é Estar Disposto a Morrer

Di√≥genes disse nalgum lugar: ¬ęO √ļnico meio de ser livre √© estar disposto a morrer¬Ľ; e escreveu ao rei da P√©rsia: ¬ęN√£o podes reduzir √† escravid√£o a cidade de Atenas, n√£o mais do que os peixes do mar¬Ľ. ¬ęComo? N√£o a tomarei?¬Ľ ¬ęSe a tomares, os atenienses far√£o como os peixes, abandonar-te-√£o e ir√£o embora. E, de facto, o peixe que pegas morre; e, se morrem assim que pegas neles, de que te servem todos os teus preparativos?¬Ľ Estas s√£o as palavras de um homem livre que examinou a quest√£o com cuidado e que provavelmente encontrou a resposta.

Aprender a Ler

Tive muita dificuldade em aprender a ler. N√£o me parecia l√≥gico que a letra ¬ęm¬Ľ se chamasse ¬ę√©me¬Ľ e, no entanto, com a vogal seguinte n√£o se dissesse ¬ę√©me¬Ľ e sim ¬ęma¬Ľ. Era-me imposs√≠vel ler assim. Por fim, quando cheguei ao Montessori, a professora n√£o me ensinou os nomes mas sim os sons das consoantes. Assim pude ler o primeiro livro que encontrei numa arca poeirenta da arrecada√ß√£o da casa. Estava descosido e incompleto, mas absorveu-me de uma forma t√£o intensa que o namorado da Sara, ao passar, deixou cair uma premoni√ß√£o aterradora: ¬ęCaramba!, este menino vai ser escritor¬Ľ.

Dito por ele, que vivia de escrever, causou-me uma grande impress√£o. Passaram v√°rios anos antes de saber que o livro era ¬ęAs Mil e Uma Noites¬Ľ. O conto de que mais gostei – um dos mais curtos e o mais simples que li ‚ÄĒ continuou a parecer-me o melhor para o resto da minha vida, embora agora n√£o esteja seguro de que fosse l√° que o li nem ningu√©m me tenha podido esclarecer. O conto √© este: um pescador prometeu a uma vizinha oferecer-lhe o primeiro peixe que pescasse se ela lhe emprestasse um chumbo para a sua rede e,

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