Passagens de Joaquim Nabuco

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Frases, pensamentos e outras passagens de Joaquim Nabuco para ler e compartilhar. Os melhores escritores est√£o em Poetris.

Felicidade, Glória, Imaginação, Inteligência e Inspiração

Numa vida profundamente atormentada seria possível muitas vezes encontrar-se felicidade para várias outras existências. Da felicidade que um homem malbarata, sem lhe suspeitar o valor, outros homens tirariam alegria para toda a vida, assim como as sobras da mesa do rico dariam para sustento de mais de um pobre.

A gl√≥ria √© um processo de apuramento que nunca p√°ra. √Ä medida que a humanidade envelhece e que as suas recorda√ß√Ķes se v√£o amontoando, tornam-se necess√°rias novas selec√ß√Ķes. S√©culos inteiros s√£o depurados nesses escrut√≠nios, sem que sobreviva um nome sequer. Um dia os imortais ir√£o unir-se aos an√≥nimos no esquecimento final.

√Č a imagina√ß√£o, tocha divina apensa ao esp√≠rito do homem, que lhe permite mover-se nas trevas da cria√ß√£o. Assim os peixes das profundezas oce√Ęnicas trazem um facho que os ilumina na noite eterna. Sem isto para que lhes serviriam os olhos? Sem imagina√ß√£o, que utilidade teria para o homem a intelig√™ncia?

O homem de letras tem falhas pronunciadas de intelig√™ncia, a ponto de parecer est√ļpido ao homem de neg√≥cios. N√£o deixa por√©m por isso de se considerar, onde quer que se encontre, o mais inteligente da roda. Nada √© mais absurdo do que essa superioridade,

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A Esterilidade da Crítica

Personagem que Deus n√£o cuidou de convocar quando criou o mundo, o cr√≠tico faz quest√£o de estabelecer uma hierarquia nas obras de cria√ß√£o e nas obras do esp√≠rito humano. Assim geram-se inveja e desprezo, e o des√Ęnimo dos maiores, ante injusti√ßas; assim ficam eles √† merc√™ dos seus inferiores, os est√©reis. A √ļnica est√©tica sadia √© a que n√£o cogita de medir impress√Ķes produzidas por tipos diferentes, a que coloca no mesmo plano todos os grandes esfor√ßos intelectuais da humanidade, fundindo-os no g√©nio humano, como as cores se fundem na luz sem sobressair nenhuma.

Evitai de vos observar ao microscópio. Bons olhos, sem vidros, voltados para o que vos cerca é quanto basta.

Há máquinas de felicidade dispendiosas, que funcionam com enorme desperdício, e há outras económicas, que, com as migalhas da sorte, criam alegria para uma existência inteira.

A literatura de outras eras n√£o pode suprir a literatura dos nossos dias. Cada gera√ß√£o quer exprimir o seu pr√≥prio pensamento, e nunca duas √©pocas diversas, nem sequer duas gera√ß√Ķes sucessivas, tiveram os mesmos √Ęngulos intelectuais de vis√£o.

A questão de iniciativa tem aliás tem um interesses todo secundário, sobretudo quando a ideia está no ar e o espírito do tempo a agita por toda a parte.

Os críticos saqueiam muitas vezes as vítimas que esfaquearam. Prestai atenção para ver se pouco depois não aparecem, cobertos das vestes e jóias da mediocridade que eles executaram publicamente.

O reinado da mulher talvez venha um dia a ser realidade, mas ser√° precedido por uma greve geral do amor. O sexo que suportar por mais tempo essa inactividade acabar√° por triunfar sobre o outro.

Uma das maiores burlas dos nossos tempos terá sido o prestígio da imprensa. Atrás do jornal, não vemos os escritores, compondo a sós o seu artigo. Vemos as massas que o vão ler e que, por compartilhar dessa ilusão, o repetirão como se fosse o seu próprio oráculo.

O pensamento, apesar de tudo, é uma esterilização. Não há perigo de que ele venha, algum dia, a triunfar sobre a natureza, que é a vida.

Há pessoas que têm os defeitos das suas qualidades, mas outras têm as qualidades dos seus defeitos. Muita mulher honesta deverá, por exemplo, a virtude à sua falta de encantos; muita gente honesta deverá a lisura à falta de inteligência.

Em √ļltima an√°lise, o estilo √© uma quest√£o de maneiras. O escritor polido far√° ao seu p√ļblico todas as concess√Ķes poss√≠veis.

Parece pretensioso o uso do ¬ęeu¬Ľ; no entanto a forma pessoal √© a √ļnica que exclui toda a pretens√£o. Quem a emprega traduz impress√Ķes recebidas, n√£o emite senten√ßas, mas quem se veda o uso do ¬ęeu¬Ľ, constitui-se for√ßosamente num or√°culo.

Todo o autor, nascendo uma geração mais tarde, repudiaria a sua obra; não há um que, ao envelhecer, não acredite ter progredido sobre a sua mocidade.