Textos sobre Opostos

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Textos de opostos escritos por poetas consagrados, filósofos e outros autores famosos. Conheça estes e outros temas em Poetris.

Não se Consegue ser Exterior à Nossa Própria Indiferença

A dificuldade da exist√™ncia estava precisamente neste problema concreto: por diversas vezes Walser se vira, ao longe, alegre, e tamb√©m de longe observara a sua pr√≥pria tristeza ou irrita√ß√£o. Nada de mais. Mas o que nunca conseguira era ser exterior √† indiferen√ßa; ser exterior a si nos momentos, in√ļmeros, em que se encontrava neutro face √†s coisas, inerte e em estado de espera perante a possibilidade de um acto ou do seu contr√°rio. Quanto mais intensidade existia no corpo, mais f√°cil era afastar-se, ser testemunha de si pr√≥prio. As dificuldades de observa√ß√£o privilegiada, de uma exist√™ncia que lhe pertencia, surgiam assim, de um modo extremo, quando a intensidade dos sentimentos era quase nula. Se ele j√° l√° n√£o estava ‚Äď na exist√™ncia ‚Äď como se poderia ainda afastar mais?

Mas o que era concretamente este l√°, este outro s√≠tio que por vezes parecia ser o seu centro outras vezes o seu oposto? Sobre a localiza√ß√£o geral desse l√°, Walser n√£o tinha d√ļvidas: era o c√©rebro. Era ali que tudo se passava ou que tudo o que se passava era observado. Ali fazia, e ali via-se a fazer. Como qualquer louco normal, pensou Walser, e sorriu da f√≥rmula.

Gonçalo M.

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A Natureza do Homem

A natureza est√° muitas vezes escondida, algumas vezes vencida, raramente extinta. A for√ßa torna a natureza mais violenta na reac√ß√£o; a doutrina e o discurso fazem a natureza menos exigente; mas s√≥ o h√°bito altera e subjuga a natureza. Aquele que deseja vencer a sua natureza, n√£o tente dar a si pr√≥prio tarefas muito grandes ou muito pequenas; porque as primeiras podem desanim√°-lo com frequentes frustra√ß√Ķes, e as segundas dar-lhe-√£o insignificantes progressos, apesar de serem bem sucedidas. No princ√≠pio, ir√° praticando com auxiliares, como os nadadores se socorrem de b√≥ias e coletes; mas, ao fim de algum tempo, dever√° realizar o treino entre dificuldades, como os dan√ßarinos fazem com os socos. Isto porque resulta sempre maior perfei√ß√£o quando o exerc√≠cio √© mais √°rduo do que a pr√°tica.
(…) N√£o √© m√° a antiga regra que mandava curvar a natureza at√© ao extremo oposto, para que ela se rectificasse; subentendendo-se, por√©m, que o extremo oposto n√£o seja o v√≠cio. O homem n√£o se deve for√ßar a um h√°bito com cont√≠nua persist√™ncia, mas com alguma interrup√ß√£o; porque a pausa refor√ßa a nova investida; e se o homem que n√£o √© perfeito estiver sempre a exercitar-se, ser√° t√£o perito nos seus erros como nas suas virtudes,

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O Terror como Base da Religi√£o

√Č verdade que tanto o medo como a esperan√ßa entram na religi√£o, porque estas duas paix√Ķes, em alturas diferentes, agitam a mente humana e cada uma delas forma uma esp√©cie de divindade que lhe √© adequada. Mas, quando um homem se sente bem, ele est√° inclinado para os neg√≥cios, para o conv√≠vio ou para qualquer esp√©cie de divertimento, e dedica-se naturalmente a essas actividades e n√£o pensa em religi√£o. Quando est√° melanc√≥lico e abatido, tudo o que para fazer √© meditar sobre os terrores do mundo invis√≠vel, e mergulhar mais profundamente ainda na afli√ß√£o. Pode realmente acontecer que, ap√≥s ter assim gravado profundamente as opini√Ķes religiosas no seu pensamento e imagina√ß√£o, ocorra uma altera√ß√£o da sa√ļde ou das circunst√Ęncias que restaure o seu bom humor e, ocasionando boas perspectivas de futuro, o fa√ßa cair no extremo oposto da alegria e triunfo. Mas, ainda assim deve reconhecer-se que, como o terror √© o princ√≠pio primordial da religi√£o, √© essa a paix√£o que predomina nela e que s√≥ admite pequenos intervalos de prazer.

Os Povos Felizes não têm História

‘Os povos felizes n√£o t√™m hist√≥ria’. De onde se infere que a supress√£o da hist√≥ria tornaria os povos mais felizes. O menor olhar sobre os acontecimentos deste mundo reencontra essa mesma conclus√£o. O esquecimento √© o benef√≠cio que a hist√≥ria quer corromper. Nada, na hist√≥ria, serve para ensinar aos homens a possibilidade de viverem em paz. √Č o ensino oposto que dela se destaca – e se faz acreditar.

A Diferença Entre o Génio e a Inteligência Normal

A diferen√ßa entre o g√©nio e a intelig√™ncia normal √©, na verdade, apenas quantitativa, na medida em que √© apenas uma diferen√ßa de grau: no entanto, as pessoas t√™m tend√™ncia para a considerar qualitativa, quando se observa como os homens normais, apesar da sua diversidade individual, pensam todos segundo certas linhas comuns, de modo que est√£o frequentemente em acordo un√Ęnime acerca de julgamentos que, na realidade, s√£o falsos. Isto chega ao ponto de terem certas opini√Ķes b√°sicas que s√£o mantidas em todas as eras e continuamente reiteradas, embora as grandes mentes de todas as eras tenham, aberta ou secretamente, oposto a essas opini√Ķes.

O Verdadeiro e o Falso

A primeira dilig√™ncia do esp√≠rito √© a de distinguir o que √© verdadeiro do que √© falso. No entanto, logo que o pensamento reflecte sobre si pr√≥prio, o que primeiro descobre √© uma contradi√ß√£o. Seria ocioso procurar, neste ponto, ser-se convincente. Ningu√©m, h√° s√©culos, deu uma demonstra√ß√£o mais clara e mais elegante do caso do que Arist√≥teles: “A consequ√™ncia, muitas vezes ridicularizada, dessas opini√Ķes √© que elas se destroem a si pr√≥prias”.

Porque, se afirmarmos que tudo √© verdadeiro afirmamos a verdade da afirma√ß√£o oposta, e, em consequ√™ncia, a falsidade da nossa pr√≥pria tese (porque a afirma√ß√£o oposta n√£o admite que ela possa ser verdadeira). E, se dissermos que tudo √© falso, essa afirma√ß√£o tamb√©m √© falsa. Se declararmos que s√≥ √© falsa a afirma√ß√£o oposta √† nossa, ou ent√£o que s√≥ a nossa e que n√£o √© falsa, somos, todavia, obrigados a admitir um n√ļmero infinito de ju√≠zos verdadeiros ou falsos.

Porque aquele que anuncia uma afirmação verdadeira, pronuncia ao mesmo tempo o juízo de que ela é verdadeira, e assim sucessivamente, até ao infinito.

O Significado do Amor

Eu pensava que conhecia o significado do amor. O amor é o sangue do sol dentro do sol. A inocência repetida mil vezes na vontade sincera de desejar que o céu compreenda. Levantam-se tempestades frágeis e delicadas na respiração vegetal do amor. Como uma planta a crescer da terra. O amor é a luz do sol a beber a voz doce dessa planta. Algo dentro de qualquer coisa profunda.

O amor √© o sentido de todas as palavras imposs√≠veis. Atravessar o interior de uma montanha. Correr pelas horas originais do mundo. O amor √© a paz fresca e a combust√£o de um inc√™ndio dentro, dentro, dentro, dentro, dentro dos dias. Em cada instante de manh√£, o c√©u a deslizar como um rio. A tarde, o sol como uma certeza. O amor √© feito de claridade e da seiva das rochas. O amor √© feito de mar, de ondas na dist√Ęncia do oceano e de areia eterna. O amor √© feito de tantas coisas opostas e verdadeiras. Nascem lugares para o amor e, nesses jardins et√©reos, a salva√ß√£o √© uma brisa que cai sobre o rosto suavemente.

Eu acreditava mesmo que o amor é o sangue do sol dentro do sol.

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A Ligação das Ideias

√Č a liga√ß√£o das ideias que sustenta todo o edif√≠cio do entendimento humano. Sem ela, o prazer e a dor seriam sentimentos isolados, sem efeito, t√£o cedo esquecidos quanto sentidos. Os homens sem ideias gerais e princ√≠pios universais, isto √©, os homens ignorantes e embrutecidos, n√£o agem sen√£o segundo as ideias mais vizinhas e mais imediatamente unidas. Negligenciam as rela√ß√Ķes distantes, e essas ideias complicadas, que s√≥ se apresentam ao homem fortemente apaixonado por um objecto, ou aos esp√≠ritos esclarecidos. A luz da aten√ß√£o dissipa no homem apaixonado as trevas que cercam o vulgar. O homem instru√≠do, acostumado a percorrer e a comparar rapidamente um grande n√ļmero de ideias e de sentimentos opostos, tira do contraste um resultado que constitui a base da sua conduta, desde ent√£o menos incerta e menos perigosa.

O Cortejo Ingénuo dos Nossos Sonhos

N√£o desenhamos uma imagem ilus√≥ria de n√≥s pr√≥prios, mas in√ļmeras imagens, das quais muitas s√£o apenas esbo√ßos, e que o esp√≠rito repele com embara√ßo, mesmo quando porventura haja colaborado, ele pr√≥prio, na sua forma√ß√£o. Qualquer livro, qualquer conversa podem faz√™-las surgir; renovadas por cada paix√£o nova, mudam com os nossos mais recentes prazeres e os nossos √ļltimos desgostos. S√£o, contudo, bastante fortes para deixarem, em n√≥s, lembran√ßas secretas que crescem at√© formarem um dos elementos mais importantes da nossa vida: a consci√™ncia que temos de n√≥s mesmos t√£o velada, t√£o oposta a toda a raz√£o, que o pr√≥prio esfor√ßo do esp√≠rito para a captar a faz anular-se.
Nada de definido, nem que nos permita definir-nos; uma esp√©cie de pot√™ncia latente… como se houvesse apenas faltado a ocasi√£o para cumprirmos no mundo real os gestos dos nossos sonhos, conservamos a impress√£o confusa, n√£o de os ter realizado, mas de termos sido capazes de os realizar. Sentimos esta pot√™ncia em n√≥s como o atleta conhece a sua for√ßa sem pensar nela. Actores miser√°veis que j√° n√£o querem deixar os seus pap√©is gloriosos, somos, para n√≥s mesmos, seres nos quais dorme, amalgamado, o cortejo ing√©nuo das possibilidades das nossas ac√ß√Ķes e dos nossos sonhos.

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O Equilibrio das Virtudes

O que pode a virtude de um homem não deve medir-se nos momentos de esforço, mas na vida de todos os dias.
N√£o admiro o excesso de uma virtude, como a coragem, se n√£o vir ao mesmo tempo o excesso da virtude oposta, como em Epaminondas, que tinha a extrema coragem e a extrema benignidade. Pois de outro modo n√£o √© subir, √© cair. A grandeza n√£o consiste em estar num extremo, mas em tocar os dois ao mesmo tempo e em preencher todo o espa√ßo interm√©dio. Mas talvez ela seja apenas um s√ļbito movimento de alma de um extremo ao outro, talvez nunca esteja em mais que um ponto, como o ti√ß√£o de fogo? Seja; mas pelo menos isso indica a agilidade da alma, se n√£o a sua extens√£o.

A Arte da Recordação

A mem√≥ria √© n√£o-mediada, e o que vem em seu aux√≠lio vem directamente; a recorda√ß√£o √© sempre reflectida. √Č por isso que recordar √© uma arte. Como Tem√≠stocles, em vez de lembrar, desejo poder esquecer; por√©m, recordar e esquecer n√£o s√£o opostos. N√£o √© f√°cil a arte de recordar, porque a recorda√ß√£o, no momento em que √© preparada, pode modificar-se, enquanto a mem√≥ria se limita a flutuar entre a lembran√ßa certa e a lembran√ßa errada. Por exemplo, o que √© a saudade? √Č vir √† recorda√ß√£o algo que est√° na mem√≥ria. A saudade gera-se simplesmente pelo facto de se estar ausente. Arte seria conseguir sentir-se saudade sem se estar ausente. Para tanto √© preciso estar-se treinado em mat√©ria de ilus√£o. Viver numa ilus√£o, em que o crep√ļsculo √© cont√≠nuo e nunca se faz dia, ou algu√©m ver-se reflectido numa ilus√£o, n√£o √© t√£o dif√≠cil como algu√©m reflectir-se para dentro de uma ilus√£o e ser capaz de deix√°-la agir sobre si, com todo o poder que √© o da ilus√£o, apesar de se ter pleno conhecimento disso. A magia de trazer at√© si o passado n√£o √© t√£o dif√≠cil como a de fazer desaparecer o que est√° presente em benef√≠cio da recorda√ß√£o.

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A Hipocrisia do Amor ao Povo

Estes amam o povo, mas n√£o desejariam, por interesse do pr√≥prio amor, que sa√≠sse do passo em que se encontra; deleitam-se com a ingenuidade da arte popular, com o imperfeito pensamento, as supersti√ß√Ķes e as lendas; v√™em-se generosos e sens√≠veis quando se debru√ßam sobre a classe inferior e traduzem, na linguagem adamada, o que dela julgam perceber; √© muito interessante o animal que examinam, mas que n√£o tente o animal libertar-se da sua condi√ß√£o; estragaria todo o quadro, toda a equilibrada posi√ß√£o; em nome da est√©tica e de tudo o resto conv√©m que se mantenha.
H√° tamb√©m os que adoram o povo e combatem por ele mas pouco mais o julgam do que um meio; a meta a atingir √© o dom√≠nio do mesmo povo por que parecem sacrificar-se; bate-lhes no peito um cora√ß√£o de altos senhores; se vieram parar a este lado da batalha foi porque os acidentes os repeliram das trincheiras opostas ou aqui viram maneira mais segura de satisfazer o v√£o desejo de mandar; nestes n√£o encontraremos a frase preciosa, a afectada sensibilidade, o retoque liter√°rio; preferem o estilo de barricada; mas, como nos outros, √© o som do oco tambor ret√≥rico o √ļltimo que se ouve.

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O Amor n√£o Existe sem Ci√ļme

Se o ci√ļme nasce do intenso amor, quem n√£o sente ci√ļmes pela amada n√£o √© amante, ou ama de cora√ß√£o ligeiro, de modo que se sabe de amantes os quais, temendo que o seu amor se atenue, o alimentam procurando a todo o custo raz√Ķes de ci√ļme.
Portanto o ciumento (que por√©m quer ou queria a amada casta e fiel) n√£o quer nem pode pens√°-la sen√£o como digna de ci√ļme, e portanto culpada de trai√ß√£o, ati√ßando assim no sofrimento presente o prazer do amor ausente. At√© porque pensar em n√≥s que possu√≠mos a amada longe – bem sabendo que n√£o √© verdade – n√£o nos pode tornar t√£o vico o pensamento dela, do seu calor, dos seus rubores, do seu perfume, como o pensar que desses mesmos dons esteja afinal a gozar um Outro: enquanto da nossa aus√™ncia estamos seguros, da presen√ßa daquele inimigo estamos, se n√£o certos, pelo menos n√£o necessariamente inseguros. O contacto amoroso, que o ciumento imagina, √© o √ļnico modo em que pode representar-se com verosimilhan√ßa um con√ļbio de outrem que, se n√£o indubit√°vel, √© pelo menos poss√≠vel, enquanto o seu pr√≥prio √© imposs√≠vel.
Assim o ciumento não é capaz, nem tem vontade, de imaginar o oposto do que teme,

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O Sexo é um Caso Sério

Pensai no casal mais belo, mais encantador, como ele se atrai e se repele, se deseja e foge um do outro com gra√ßa num belo jogo de amor. Chega o instante da vol√ļpia, e toda a brincadeira, toda a alegria graciosa e doce de s√ļbito desapareceram. Porqu√™? Porque a vol√ļpia √© bestial, e a bestialidade n√£o ri. As for√ßas da natureza agem por toda a parte seriamente. A vol√ļpia dos sentidos √© o oposto do entusiasmo que nos abre o mundo ideal. O entusiasmo e a vol√ļpia s√£o graves e n√£o comportam a brincadeira.

A Felicidade na Perseverança

Meu bem-amado Luc√≠lio, conjuro-te a tomar o √ļnico partido que pode garantir a felicidade. Dispersa e pisoteia os esplendores de fora, as suas promessas, os seus lucros; volta o olhar para o vero bem; s√™ feliz merc√™ do teu pr√≥prio cabedal. Qual √© esse cabedal? Tu mesmo, e a melhor parte de ti. Este pobre corpo esfor√ßa-se por ser nosso colaborador indispens√°vel; considera-o antes um objecto necess√°rio do que importante. Ele procura os prazeres v√£os, breves, seguidos de descontentamento e destinados, se uma grande modera√ß√£o n√£o os tempera, a passarem para o estado oposto. Sim, sim, o prazer est√° √† beira de um declive: inclina-se para o sofrimento quando deixa de observar o justo limite. Ora, observar tal limite √© dif√≠cil em rela√ß√£o √†quilo que se acreditou fosse um bem. O √°vido desejo do verdadeiro bem n√£o oferece risco algum.
Em que consiste o verdadeiro bem Рquereis saber Рe qual é a fonte de onde emana?

Eu to direi: √© a boa consci√™ncia, as inten√ß√Ķes virtuosas, as rectas ac√ß√Ķes, o desprezo pelos eventos fortuitos, o desenvolvimento tranquilo e regular de uma exist√™ncia que anda por um s√≥ caminho. Quanto a esses homens que v√£o de desejo em desejo,

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O Progresso Universal do Saber nunca é Imediato

Embora o progresso do saber humano, como a queda dos graves, adquira em cada instante maior celeridade, todavia √© muito dif√≠cil acontecer que uma mesma gera√ß√£o de homens mude de opini√Ķes ou reconhe√ßa os pr√≥prios erros, de maneira que acredite hoje no contr√°rio daquilo em que acreditou num outro tempo. Prepara, sim, essas possibilidades para a que se lhe segue, a qual depois descobre e acredita, em muitos aspectos, no oposto daquela. Mas, assim como ningu√©m sente o movimento perp√©tuo que nos transporta em rota√ß√£o juntamente com a Terra, tamb√©m a generalidade dos homens n√£o se apercebe do progresso cont√≠nuo que os seus conhecimentos fazem, nem da constante varia√ß√£o dos seus ju√≠zos. E nunca muda de opini√£o de tal modo que fique convencida de a ter mudado. Por√©m, n√£o poderia deixar de ficar convencida e de dar por isso, sempre que concebesse de repente uma ideia muito contr√°ria √†quelas que vigoravam at√© √†quele momento. Portanto, nenhuma verdade constru√≠da desta maneira, a n√£o ser que seja palp√°vel, ser√° alguma vez unanimamente cred√≠vel para os conempor√Ęneos do primeiro que a descobriu.

Compaix√£o Perversa

O prazer de maltratar outr√©m √© distinto da crueldade. Esta consiste em encontrar satisfa√ß√£o na compaix√£o, e atinge o ponto culminante quando a compaix√£o chega a extremos, como quando maltratamos os que amamos; todavia, se fosse algu√©m, que n√£o n√≥s, a magoar os que amamos, ent√£o fic√°vamos furiosos, e a compaix√£o tornar-se-nos-ia dolorosa; mas somos n√≥s a am√°-los e somos n√≥s a mago√°-los…
A compaixão exerce uma infinita atenção: a contradição de dois instintos fortes e opostos actua em nós como atractivo supremo.
(…) A crueldade e o prazer da compaix√£o:
A compaixão aumenta quanto mais conhecemos e mais amamos intensamente quem é objecto dela. Portanto, aquele que trata com crueldade o objecto do seu amor retira da crueldade Рque amplia a compaixão Рa máxima satisfação.
Quando, acima de tudo, nos amamos a nós próprios, o maior prazer que encontramos Рpor meio da compaixão Рpode levar-nos a mostrarmo-nos cruéis para connosco. Heróico da nossa parte é o esforço de completa identificação com aquilo que nos é contrário. A metamorfose do Diabo em Deus representa esse grau de crueldade.

A M√°scara Falsa da Felicidade

Um erro sem d√ļvida bem grosseiro consiste em acreditar que a ociosidade possa tornar os homens mais felizes: a sa√ļde, o vigor da mente, a paz do cora√ß√£o s√£o os frutos tocantes do trabalho. S√≥ uma vida laboriosa pode amortecer as paix√Ķes, cujo jugo √© t√£o rigoroso; √© ela que mant√©m nas cabanas o sono, fugitivo dos grandes pal√°cios. A pobreza, contra a qual somos prevenidos, n√£o √© tal como pensamos: ela torna os homens mais temperantes, mais laboriosos, mais modestos; ela os mant√©m na inoc√™ncia, sem a qual n√£o h√° repouso nem felicidade real na terra.
O que √© que invejamos na condi√ß√£o dos ricos? Eles pr√≥prios endividados na abund√Ęncia pelo luxo e pelo fasto imoderados; extenuados na flor da idade por sua licenciosidade criminosa; consumidos pela ambi√ß√£o e pelo ci√ļme na medida em que est√£o mais elevados; v√≠timas orgulhosas da vaidade e da intemperan√ßa; ainda uma vez, povo cego, que lhe podemos invejar?
Consideremos de longe a corte dos príncipes, onde a vaidade humana exibe aquilo que tem de mais especioso: aí encontraremos, mais do que em qualquer outro lugar, a baixeza e a servidão sob a aparência da grandeza e da glória, a indigência sob o nome da fortuna,

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A União entre o Espírito e a Beleza

H√° uma beleza espiritual e h√° outra beleza que fala aos sentidos. Certas pessoas pretendem que o belo pertence exclusivamente ao campo dos sentidos, separando dele por completo o espiritual, de modo que o nosso mundo apresente uma cis√£o entre os dois. Nisso tamb√©m se baseia o ensinamento ver√≠dico: ¬ęApenas por dois modos a felicidade √© cognosc√≠vel em todo o Universo: a que nos vem das alegrias do corpo e a que nos vem da paz redentora do esp√≠rito¬Ľ. Desta doutrina, no entanto, segue-se que o espiritual n√£o se acha, para o belo, na mesma rela√ß√£o em que o belo se encontra para com o feio e que, s√≥ em certas condi√ß√Ķes, se confunde com este.
O espiritual não é sinónimo de beleza pelo conhecimento e pelo amor do belo, amor este que se exprime em beleza espiritual. Tal amor, em absoluto, não é absurdo ou sem esperança, pois, pela lei da atracção dos opostos, o belo por sua vez anseia pelo espiritual, admirando-o e recebendo-lhe com agrado a corte. Este mundo não está constituído de tal modo que o espírito esteja fadado a amar apenas o espiritual, nem a beleza unicamente votada a procurar o belo. Na verdade,

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A Liberdade da Auto-Suficiência

Quanto mais uma pessoa tem em si, tanto menos os outros podem ser alguma coisa para ela. Um certo sentimento de auto-sufici√™ncia √© o que impede os indiv√≠duos de riqueza e valor intr√≠nseco de fazerem os sacrif√≠cios importantes, exigidos pela vida em comum com os outros, para n√£o falar em procur√°-la √†s custas de uma consider√°vel auto-abnega√ß√£o. O oposto disso √© o que torna os indiv√≠duos comuns t√£o soci√°veis e acomod√°veis: para eles, √© mais f√°cil suportar os outros do que eles mesmo. Acrescente-se a isso que aquilo que possui um valor real n√£o √© apreciado no mundo, e aquilo que √© apreciado n√£o tem valor. A prova e consequ√™ncia disso est√£o no retraimento de todo o homem digno e distinto. Assim sendo, ser√° genu√≠na sabedoria de vida de quem possui algo de justo em si mesmo, se, em caso de necessidade, souber limitar as suas pr√≥prias car√™ncias, a fim de preservar ou ampliar a sua liberdade, isto √©, se souber contentar-se com o menos poss√≠vel para a sua pessoa nas rela√ß√Ķes inevit√°veis com o universo humano.
Por outro lado, o que faz dos homens seres sociáveis é a sua incapacidade de suportar a solidão e, nesta, a si mesmos.

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