Textos sobre Opostos

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Textos de opostos escritos por poetas consagrados, filósofos e outros autores famosos. Conheça estes e outros temas em Poetris.

O Progresso Universal do Saber nunca é Imediato

Embora o progresso do saber humano, como a queda dos graves, adquira em cada instante maior celeridade, todavia √© muito dif√≠cil acontecer que uma mesma gera√ß√£o de homens mude de opini√Ķes ou reconhe√ßa os pr√≥prios erros, de maneira que acredite hoje no contr√°rio daquilo em que acreditou num outro tempo. Prepara, sim, essas possibilidades para a que se lhe segue, a qual depois descobre e acredita, em muitos aspectos, no oposto daquela. Mas, assim como ningu√©m sente o movimento perp√©tuo que nos transporta em rota√ß√£o juntamente com a Terra, tamb√©m a generalidade dos homens n√£o se apercebe do progresso cont√≠nuo que os seus conhecimentos fazem, nem da constante varia√ß√£o dos seus ju√≠zos. E nunca muda de opini√£o de tal modo que fique convencida de a ter mudado. Por√©m, n√£o poderia deixar de ficar convencida e de dar por isso, sempre que concebesse de repente uma ideia muito contr√°ria √†quelas que vigoravam at√© √†quele momento. Portanto, nenhuma verdade constru√≠da desta maneira, a n√£o ser que seja palp√°vel, ser√° alguma vez unanimamente cred√≠vel para os conempor√Ęneos do primeiro que a descobriu.

Compaix√£o Perversa

O prazer de maltratar outr√©m √© distinto da crueldade. Esta consiste em encontrar satisfa√ß√£o na compaix√£o, e atinge o ponto culminante quando a compaix√£o chega a extremos, como quando maltratamos os que amamos; todavia, se fosse algu√©m, que n√£o n√≥s, a magoar os que amamos, ent√£o fic√°vamos furiosos, e a compaix√£o tornar-se-nos-ia dolorosa; mas somos n√≥s a am√°-los e somos n√≥s a mago√°-los…
A compaixão exerce uma infinita atenção: a contradição de dois instintos fortes e opostos actua em nós como atractivo supremo.
(…) A crueldade e o prazer da compaix√£o:
A compaixão aumenta quanto mais conhecemos e mais amamos intensamente quem é objecto dela. Portanto, aquele que trata com crueldade o objecto do seu amor retira da crueldade Рque amplia a compaixão Рa máxima satisfação.
Quando, acima de tudo, nos amamos a nós próprios, o maior prazer que encontramos Рpor meio da compaixão Рpode levar-nos a mostrarmo-nos cruéis para connosco. Heróico da nossa parte é o esforço de completa identificação com aquilo que nos é contrário. A metamorfose do Diabo em Deus representa esse grau de crueldade.

A M√°scara Falsa da Felicidade

Um erro sem d√ļvida bem grosseiro consiste em acreditar que a ociosidade possa tornar os homens mais felizes: a sa√ļde, o vigor da mente, a paz do cora√ß√£o s√£o os frutos tocantes do trabalho. S√≥ uma vida laboriosa pode amortecer as paix√Ķes, cujo jugo √© t√£o rigoroso; √© ela que mant√©m nas cabanas o sono, fugitivo dos grandes pal√°cios. A pobreza, contra a qual somos prevenidos, n√£o √© tal como pensamos: ela torna os homens mais temperantes, mais laboriosos, mais modestos; ela os mant√©m na inoc√™ncia, sem a qual n√£o h√° repouso nem felicidade real na terra.
O que √© que invejamos na condi√ß√£o dos ricos? Eles pr√≥prios endividados na abund√Ęncia pelo luxo e pelo fasto imoderados; extenuados na flor da idade por sua licenciosidade criminosa; consumidos pela ambi√ß√£o e pelo ci√ļme na medida em que est√£o mais elevados; v√≠timas orgulhosas da vaidade e da intemperan√ßa; ainda uma vez, povo cego, que lhe podemos invejar?
Consideremos de longe a corte dos príncipes, onde a vaidade humana exibe aquilo que tem de mais especioso: aí encontraremos, mais do que em qualquer outro lugar, a baixeza e a servidão sob a aparência da grandeza e da glória, a indigência sob o nome da fortuna,

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A União entre o Espírito e a Beleza

H√° uma beleza espiritual e h√° outra beleza que fala aos sentidos. Certas pessoas pretendem que o belo pertence exclusivamente ao campo dos sentidos, separando dele por completo o espiritual, de modo que o nosso mundo apresente uma cis√£o entre os dois. Nisso tamb√©m se baseia o ensinamento ver√≠dico: ¬ęApenas por dois modos a felicidade √© cognosc√≠vel em todo o Universo: a que nos vem das alegrias do corpo e a que nos vem da paz redentora do esp√≠rito¬Ľ. Desta doutrina, no entanto, segue-se que o espiritual n√£o se acha, para o belo, na mesma rela√ß√£o em que o belo se encontra para com o feio e que, s√≥ em certas condi√ß√Ķes, se confunde com este.
O espiritual não é sinónimo de beleza pelo conhecimento e pelo amor do belo, amor este que se exprime em beleza espiritual. Tal amor, em absoluto, não é absurdo ou sem esperança, pois, pela lei da atracção dos opostos, o belo por sua vez anseia pelo espiritual, admirando-o e recebendo-lhe com agrado a corte. Este mundo não está constituído de tal modo que o espírito esteja fadado a amar apenas o espiritual, nem a beleza unicamente votada a procurar o belo. Na verdade,

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A Liberdade da Auto-Suficiência

Quanto mais uma pessoa tem em si, tanto menos os outros podem ser alguma coisa para ela. Um certo sentimento de auto-sufici√™ncia √© o que impede os indiv√≠duos de riqueza e valor intr√≠nseco de fazerem os sacrif√≠cios importantes, exigidos pela vida em comum com os outros, para n√£o falar em procur√°-la √†s custas de uma consider√°vel auto-abnega√ß√£o. O oposto disso √© o que torna os indiv√≠duos comuns t√£o soci√°veis e acomod√°veis: para eles, √© mais f√°cil suportar os outros do que eles mesmo. Acrescente-se a isso que aquilo que possui um valor real n√£o √© apreciado no mundo, e aquilo que √© apreciado n√£o tem valor. A prova e consequ√™ncia disso est√£o no retraimento de todo o homem digno e distinto. Assim sendo, ser√° genu√≠na sabedoria de vida de quem possui algo de justo em si mesmo, se, em caso de necessidade, souber limitar as suas pr√≥prias car√™ncias, a fim de preservar ou ampliar a sua liberdade, isto √©, se souber contentar-se com o menos poss√≠vel para a sua pessoa nas rela√ß√Ķes inevit√°veis com o universo humano.
Por outro lado, o que faz dos homens seres sociáveis é a sua incapacidade de suportar a solidão e, nesta, a si mesmos.

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Um Cérebro Ilimitado

Uma das coisas √ļnicas do c√©rebro humano √© que pode fazer apenas o que pensa poder fazer. No momento em que diz “A minha mem√≥ria j√° n√£o √© o que era” ou “Hoje n√£o me lembro de uma s√≥ coisa”, est√° de facto a treinar o c√©rebro para corresponder √†s suas diminu√≠das expetativas. Baixas expetativas equivalem a baixos resultados. A primeira regra do superc√©rebro √© que o seu c√©rebro est√° sempre a espiar os seus pensamentos. Assim escuta, assim aprende. Se lhe ensinar limita√ß√£o, o seu c√©rebro ficar√° limitado. Mas, e se fizer o oposto? E se ensinar o seu c√©rebro a ser ilimitado?

Pense no seu c√©rebro como sendo um piano de cauda Steinway. Todas as teclas est√£o no lugar, prontas a soar ao toque de um dedo. Seja um principiante a sentar-se ao teclado ou um virtuoso de renome mundial como Vladimir Horowitz ou Arthur Rubinstein, o instrumento √© fisicamente o mesmo. Mas a m√ļsica que dele ressoar√° ser√° inteiramente diferente. O principiante usa menos de 1% do potencial do piano; o virtuoso transcende os limites do instrumento.
Se o mundo da m√ļsica n√£o dispusesse de virtuosos, ningu√©m jamais adivinharia as coisas espantosas que um Steinway de cauda pode fazer.

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Felicidade Simplificada

Se quisermos avaliar a situação de uma pessoa pela sua felicidade, deve-se perguntar não por aquilo que a diverte, mas pelo que a aflige. Quanto mais insignificante for aquilo que, tomado em si mesmo, a aflige, tanto mais ela é feliz, pois é preciso um estado de bem-estar para impressionar-se com bagatelas: na infelicidade, nunca as sentimos.

Guardemo-nos de erguer a felicidade da nossa vida sobre um amplo fundamento, exigindo muito dessa felicidade: pois, estando apoiada sobre tal base, ela desaba mais facilmente, já que oferece muito mais oportunidades para acidentes, que não tardam em faltar. Portanto, a esse respeito, ocorre com o edifício da nossa felicidade o oposto do que ocorre com todos os demais, que se apoiam mais firmemente sobre um amplo fundamento.
Reduzir ao máximo as expectativas em relação aos nossos meios, sejam eles quais forem, é, pois, o caminho mais seguro para escaparmos de uma grande infelicidade.

Dizer Mal dos Outros, Ouvir Falar Mal de Nós

Uma das formas mais universais de irracionalidade é a atitude tomada por quase toda a gente em relação às conversas maldizentes. Muito poucas pessoas sabem resistir à tentação de dizer mal dos seus conhecimentos e mesmo, se a ocasião se proporciona, dos seus amigos; no entanto, quando sabem que alguma coisa foi dita em seu desabono, enchem-se de espanto e indignação. Certamente nunca lhes ocorreu ao espírito que da mesma forma que dizem mal de não importa quem, alguém possa dizer mal deles. Esta é uma forma atenuada da atitude que, quando exagerada, conduz à mania da perseguição.
Exigimos de toda a gente o mesmo sentimento de amor e de profundo respeito que sentimos por nós próprios. Nunca nos ocorre que não devemos exigir que os outros pensem melhor de nós do que nós pensamos a respeito deles e não nos ocorre porque aos nossos olhos os méritos são grandes e evidentes ao passo que os dos outros, se na realidade existem, só são reconhecidos com certa benevolência. Quando o leitor ouve dizer que alguém disse qualquer coisa desprimorosa a seu respeito, lembra-se logo das noventa e nove vezes que reprimiu o desejo de exprimir, sobre esse alguém, a crítica que considerava justa e merecida,

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O Provincianismo Português (II)

Se fosse preciso usar de uma s√≥ palavra para com ela definir o estado presente da mentalidade portuguesa, a palavra seria “provincianismo”. Como todas as defini√ß√Ķes simples esta, que √© muito simples, precisa, depois de feita, de uma explica√ß√£o complexa. Darei essa explica√ß√£o em dois tempos: direi, primeiro, a que se aplica, isto √©, o que deveras se entende por mentalidade de qualquer pa√≠s, e portanto de Portugal; direi, depois, em que modo se aplica a essa mentalidade.
Por mentalidade de qualquer pa√≠s entende-se, sem d√ļvida, a mentalidade das tr√™s camadas, organicamente distintas, que constituem a sua vida mental ‚ÄĒ a camada baixa, a que √© uso chamar povo; a camada m√©dia, a que n√£o √© uso chamar nada, excepto, neste caso por engano, burguesia; e a camada alta, que vulgarmente se designa por escol, ou, traduzindo para estrangeiro, para melhor compreens√£o, por elite.
O que caracteriza a primeira camada mental é, aqui e em toda a parte, a incapacidade de reflectir. O povo, saiba ou não saiba ler, é incapaz de criticar o que lê ou lhe dizem. As suas ideias não são actos críticos, mas actos de fé ou de descrença, o que não implica, aliás,

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Raz√£o afectada pelo Desejo

O homem que deseja agir de certa forma se persuadirá que, assim procedendo, alcançará algum propósito que considera bom, mesmo que não vise motivo algum para pensar dessa forma, se não tivesse tal desejo. E julgará os factos e probabilidades de maneira muito diferente daquela adoptada por um homem com desejos opostos. Como todos sabem, os jogadores estão cheios de crenças irracionais relativas a sistemas que devem, no fim, fazê-los ganhar. Os que se interessam pela política persuadem-se de que os líderes do seu partido jamais praticariam as patifarias cometidas pelos adversários. Os homens que gostam de administrar acham que é bom para o povo ser tratado como um rebanho de ovelhas, os que gostam do fumo dizem que acalma os nervos, e os que apreciam o álcool afirmam que aguça o tino. A parcialidade assim criada falsifica o julgamento dos homens em relação aos factos, de modo muito difícil de evitar.
At√© mesmo um erudito artigo cient√≠fico sobre os efeitos do √°lcool no sistema nervoso em geral trai, por sintomas internos, o facto de o autor ser ou n√£o abst√©mio; em ambos os casos tende a ver os factos de maneira que justifique a sua atitude. Em pol√≠tica e religi√£o tais considera√ß√Ķes tornam-se muito importantes.

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Nunca Mostrar Espírito e Entendimento

Como ainda √© inexperiente quem sup√Ķe que, ao mostrar esp√≠rito e entendimento, recorre a um meio seguro para fazer-se benquisto em sociedade! Na verdade, na maioria das pessoas, tais qualidades despertam √≥dio e rancor, que ser√£o t√£o mais amargos quanto quem os sentir n√£o tiver o direito de externar o motivo, chegando at√© a dissimul√°-lo para si mesmo. Isso acontece da seguinte forma: se algu√©m nota e sente uma grande superioridade intelectual naquele com quem fala, ent√£o conclui tacitamente e sem consci√™ncia clara que este, em igual medida, notar√° e sentir√° a sua inferioridade e a sua limita√ß√£o. Essa conclus√£o desperta o √≥dio, o rancor e a raiva mais amarga.
(…) Mostrar esp√≠rito e entendimento √© uma maneira indirecta de repreender nos outros a sua incapacidade e estupidez. Ademais, o indiv√≠duo comum revolta-se ao avistar o seu oposto, sendo a inveja o seu instigador secreto. A satisfa√ß√£o da vaidade √©, como se pode ver diariamente, um prazer que as pessoas colocam acima de qualquer outro, mas que s√≥ √© poss√≠vel por interm√©dio da compara√ß√£o delas pr√≥prias com os demais. No entanto, nenhum m√©rito torna o homem mais orgulhoso do que o intelectual: s√≥ neste repousa a sua superioridade em rela√ß√£o aos animais.

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Acredita no Teu Próprio Pensamento

Acredita no teu pr√≥prio pensamento; crer que o que √© certo para ti, no teu cora√ß√£o, o √© tamb√©m para todos os homens – isso √© o g√©nio. Expressa a tua convic√ß√£o latente e ela ser√° o ju√≠zo universal; pois sempre o mais √≠ntimo se converte no mais externo, e o nosso primeiro pensamento √©-nos devolvido pelas trombetas do Ju√≠zo Final. A voz da mente √© familiar a cada um; o maior m√©rito que atribu√≠mos a Mois√©s, Plat√£o e Milton √© o de terem reduzido a nada livros e tradi√ß√Ķes, e dito o que pensavam eles pr√≥prios, n√£o o que pensavam os homens. Um homem deveria aprender a distinguir e contemplar esse raio de luz que brilha atrav√©s da sua mente, vindo do interior, melhor do que o brilho do firmamento de bardos e s√°bios. E, no entanto, expulsa o seu pensamento, sem lhe dar import√Ęncia, apenas porque √© o seu.
Em toda a obra de g√©nio, reconhecemos os nossos pr√≥prios pensamentos rejeitados; s√£o-nos devolvidos com uma certa majestade alienada. As grandes obras de arte n√£o nos oferecem li√ß√£o mais impressionante do que essa. Elas ensinam-nos a aceitar, com bem humorada inflexibilidade, as nossas impress√Ķes espont√Ęneas, especialmente quando todo o clamor das vozes esteja do lado oposto.

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O Universo é o Sonho de um Sonhador Infinito

1. N√£o conhecemos sen√£o as nossas sensa√ß√Ķes. O universo √© pois um simples conceito nosso.
2. O universo porém Рao contrário de e em contraste com, as nossas fantasias e os nossos sonhos Рrevela, ao ser examinado, que tem uma ordem, que é regido por regras sem excepção a que chamamos leis.
3. √Äparte isso, o universo, ou grande parte dele, √© um ¬ęconceito¬Ľ comum a todos os que s√£o constitu√≠dos como n√≥s: isto √©, √© um conceito do esp√≠rito humano.
4. O universo é considerado objectivo, real Рpor isso e pela própria constituição dos nossos sentidos.
5. Como objectivo, o universo √© pois o conceito de um esp√≠rito infinito, √ļnico que pode sonhar de modo a criar. O universo √© o sonho de um sonhador infinito e omnipotente.
6. Como cada um de nós, ao vê-lo, ouvi-lo, etc., cria o universo, esse espírito infinito existe em todos nós.
7. Como cada um de nós é parte do universo, esse espírito infinito, ao mesmo tempo que existe em nós, cria-nos a nós. Somos distintos e indistintos dele.
8. A ¬ęCausa imanente¬Ľ, como √© definida, tem que, ao criar, criar infinitamente.

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O Amor em Portugal

Mesmo que Dom Pedro n√£o tenha arrancado e comido o cora√ß√£o do carrasco de Dona In√™s, J√ļlio Dantas continua a ter raz√£o: √© realmente diferente o amor em Portugal. Basta pensar no inc√≥modo fon√©tico de dizer ¬ęEu amo-o¬Ľ ou ¬ęEu amo-a¬Ľ. Em Portugal aqueles que amam preferem dizer que est√£o apaixonados, o que n√£o √© a mesma coisa, ou ent√£o embara√ßam seriamente os eleitos com as vers√Ķes estrangeiras: ¬ęI love you¬Ľ ou ¬ęJe t’aime¬Ľ. As perguntas ¬ęAmas-me?¬Ľ ou ¬ęSer√° que me amas?¬Ľ est√£o vedadas pelo bom gosto, sen√£o pelo bom senso. Por isso diz-se antes ¬ęGostas mesmo de mim?¬Ľ, o que tamb√©m n√£o √© a mesma coisa.

O mesmo pudor aflige a palavra amante, a qual, ao contr√°rio do que acontece nas demais l√≠nguas indo-europeias, n√£o tem em Portugal o sentido simples e bonito de ¬ęaquele que ama, ou √© amado¬Ľ. Diz-se que n√£o sei-quem √© amante de outro, e entende-se logo, maliciosamente, o biscate por fora, o concubinato indecente, a pouca vergonha, o treco-lareco machista da cervejaria, ou o opr√≥bio galin√°ceo das reuni√Ķes de ¬ętupperwares¬Ľ e de costura.
Amoroso não significa cheio de amor, mas sim qualquer vago conceito a leste de levemente simpático, porreiro, ou giríssimo.

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As Institui√ß√Ķes S√£o Degenerativas

Quem faz uma religi√£o n√£o sabe o que faz. Por pouco diria a mesma coisa a respeito daqueles que fundam as grandes institui√ß√Ķes humanas, ordens mon√°sticas, companhias de seguros, guarda nacional, bancos, sindicatos, academias e conservat√≥rios, sociedades de gin√°stica de benefic√™ncia e de de confer√™ncias. Estes estabelecimentos, comumente, n√£o correspondem durante muito tempo √†s inten√ß√Ķes dos seus fundadores e acontece √†s vezes que se tornam coisas completamente opostas.

O Perigo da Extinção do Individualismo

Ao contemplar nas grandes cidades essas imensas aglomera√ß√Ķes de seres humanos, que v√£o e v√™m pelas suas ruas ou se concentram em festivais e manifesta√ß√Ķes pol√≠ticas, incorpora-se em mim, obsedante, este pensamento: pode hoje um homem de vinte anos formar um projecto de vida que tenha figura individual e que, portanto, necessitaria realizar-se mediante as suas iniciativas independentes, mediante os seus esfor√ßos particulares? Ao tentar o desenvolvimento desta imagem na sua fantasia, n√£o notar√° que √©, sen√£o imposs√≠vel, quase improv√°vel, porque n√£o h√° √† sua disposi√ß√£o espa√ßo em que possa aloj√°-la e em que possa mover-se segundo o seu pr√≥prio ditame? Logo advertir√° que o seu projecto trope√ßa com o pr√≥ximo, como a vida do pr√≥ximo aperta a sua. O des√Ęnimo leva-lo-√° com a facilidade de adapta√ß√£o pr√≥pria da sua idade a renunciar n√£o s√≥ a todo o acto, como at√© a todo o desejo pessoal e buscar√° a solu√ß√£o oposta: imaginar√° para si uma vida standard, composta de desideratos comuns a todos e ver√° que para consegui-la tem de a solicitar ou exigir em coletividade com os demais. Da√≠ a ac√ß√£o em massa.
A coisa é horrível, mas não creio que exagera a situação efectiva em que se vão achando quase todos os europeus.

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A Crença é Baseada no Desejo

A influ√™ncia dos nossos desejos sobre as nossas cren√ßas √© do conhecimento e da observa√ß√£o de todos, mas a natureza dessa influ√™ncia √©, em geral, muito mal interpretada. √Č costume supor que a massa das nossas cren√ßas prov√©m de alguma base racional e que o desejo √© apenas uma for√ßa perturbadora ocasional. Exactamente o oposto se aproximaria mais da verdade: a grande massa de cren√ßas pela qual somos amparados na nossa vida di√°ria √© apenas projec√ß√£o do desejo, corrigida aqui e ali, em pontos isolados, pelo rude choque dos factos.

Inteligência e Intuição

O instinto √© simpatia. Se esta simpatia pudesse alargar o seu objecto e tamb√©m reflectir sobre si mesma, dar-nos-ia a chave das opera√ß√Ķes vitais – do mesmo modo que a intelig√™ncia, desenvolvida e reeducada, nos introduz na mat√©ria. Porque, n√£o √© de mais repeti-lo, a intelig√™ncia e o instinto est√£o orientados em dois sentidos opostos: aquela para a mat√©ria inerte, este para a vida. A intelig√™ncia, por meio da ci√™ncia, que √© obra sua, desvendar-nos-√° cada vez mais completamente o segredo das opera√ß√Ķes f√≠sicas; da vida apenas nos d√°, e n√£o pretende ali√°s dar-nos outra coisa, uma tradu√ß√£o em termos de in√©rcia. Gira em derredor, obtendo de fora o maior n√ļmero de vis√Ķes do objecto que chama at√© si, em vez de entrar nele. Mas √© ao interior mesmo da vida que nos conduzir√° a intui√ß√£o, quero dizer o instinto tornado desinteressado, consciente de si mesmo, capaz de reflectir sobre o seu objecto e de o alargar indefinidamente.
Que um esforço deste género não é impossível, é o que demonstra já a existência no homem de uma faculdade estética ao lado da percepção normal. O nosso olhar apercebe os traços do ser vivo, mas justapostos uns aos outros, e não organizados entre si.

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Viver Plenamente os Desejos

Quanto ao facto de saber se o sexual e o religioso s√£o antag√≥nicos e opostos, eu responderia do seguinte modo: todos os elementos ou aspectos da vida, por muito pobres, por muito duvidosos que sejam (para n√≥s), s√£o suscept√≠veis de convers√£o, e na verdade devem ser transpostos para outro n√≠vel, de acordo com a nossa maturidade e intelig√™ncia.O esfor√ßo visando eliminar os aspectos ¬ęrepugnantes¬Ľ da exist√™ncia, que √© a obsess√£o dos moralistas, n√£o s√≥ √© absurdo, como f√ļtil. √Č poss√≠vel ser-se bem sucedido na repress√£o dos pensamentos e desejos, dos impulsos e tend√™ncias feios e ¬ępecaminosos¬Ľ. mas os resultados s√£o manifestamente desastrosos. (√Č estreita a margem que separa um santo e um criminoso). Viver plenamente os seus desejos e, ao faz√™-lo, modificar subtilmente a natureza destes, √© o objectivo de todo o indiv√≠duo que aspira a desenvolver-se. Mas o desejo √© soberano e inextirp√°vel, mesmo quando, como dizem os budistas, se converte no seu contr√°rio. Para algu√©m se poder libertar do desejo, tem que desejar faz√™-lo.

A Vida é Triste

A vida √© triste por uma s√≥ raz√£o. N√£o √© a primeira (o ser curta). √Č comprida. S√≥ parece curta a quem n√£o sofre; a quem n√£o quer que acabe.

A vida √© triste por ser muito mais f√°cil iludirmo-nos do que somos capazes de nos desiludir. A ilus√£o, sem qualquer esfor√ßo da nossa parte, p√Ķe-nos nos p√≠ncaros. Estamos programados para isso. N√£o nos custa. Sabe-nos bem. Gostamos de ser enganados, desde que nos sintamos mais bem por causa disso.

J√° a desilus√£o n√£o s√≥ √© dif√≠cil como custa muito mais. Nunca √© bem-vinda. √Č uma for√ßa destruidora, a realidade. A morte, sendo inesperada ‚ÄĒ seja a morte intelectual, emotiva, sens√≠vel, amorosa ou f√≠sica ‚ÄĒ, √© sempre mais violenta do que a esperada, que raramente se adianta.

Cada vez que acordamos e lamentamos ter acordado; cada vez que adormecemos e agradecemos ter adormecido; estamos a rejeitar alegremente a vida. Não há outra maneira de a rejeitar. Viver, apesar de tudo, ainda é uma espécie de glória, sendo a glória o oposto do prazer.

Esperar muito ‚ÄĒ tanto no sentido louco da esperan√ßa como no sentido (cuja raiz latina vem de sofrer) masoquista de paci√™ncia ‚Äď √© pormo-nos a jeito para o sofrimento.

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