Passagens de Bertrand Russell

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Frases, pensamentos e outras passagens de Bertrand Russell para ler e compartilhar. Os melhores escritores est√£o em Poetris.

A vida é demasiado curta para nos permitir interessar-nos por todas as coisas, mas é bom que nos interessemos por tantas quantas forem necessárias para preencher os nossos dias.

Liberdade com Limites

H√° muitas esp√©cies de liberdade. Umas tem o mundo de menos, outras tem o mundo de mais. Mas ao dizer que pode haver ¬ęde mais¬Ľ de uma certa esp√©cie de liberdade devo apressar-me a acrescentar que a √ļnica esp√©cie de liberdade que considero indesej√°vel √© aquela que permite diminuir a liberdade de outrem, por exemplo, a liberdade de fazer escravos.
O mundo n√£o pode garantir-se a maior quantidade poss√≠vel de liberdade instituindo, pura e simplesmente, a anarquia, pois nesse caso os mais fortes seriam capazes de privar da liberdade os mais fracos. Duvido de que qualquer institui√ß√£o social seja justific√°vel se contribui para diminuir o quantitativo total de liberdade existente no mundo, mas certas institui√ß√Ķes sociais s√£o justific√°veis apesar do facto de coarctarem a liberdade de um certo indiv√≠duo ou grupo de indiv√≠duos.
No seu sentido mais elementar, liberdade significa a ausência de controles externos sobre os actos de indivíduos ou grupos. Trata-se, portanto, de um conceito negativo, e a liberdade, por si só, não confere a uma comunidade qualquer alta valia.
Os Esquim√≥s, por exemplo, podem dispensar o Governo, a educa√ß√£o obrigat√≥ria, o c√≥digo das estradas, e at√© as complica√ß√Ķes incr√≠veis do c√≥digo comercial. A sua vida,

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O Medo da Morte só se Justifica na Juventude

Algumas pessoas idosas vivem obcecadas com o medo da morte. Este sentimento s√≥ se justifica na juventude. Os jovens que receiam, com raz√£o, morrer na guerra, podem legitimamente sentir a amargura do pensamento de terem sido defraudados do melhor que a vida lhes podia oferecer. Mas num velho que conheceu j√° as alegrias e dores humanas e que cumpriu a sua miss√£o, qualquer que fosse, o receio da morte √© algo de abjecto e ign√≥bil. O melhor meio de o vencer – pelo menos quanto a mim – √© aumentar gradualmente as nossas preocupa√ß√Ķes, torn√°-las cada vez mais impessoais, at√© ao momento em que, a pouco e pouco, os limites da nossa personalidade recuem e a nossa vida mergulhe mais ainda na vida universal.
Pode-se comparar a existência de um indivíduo a um rio Рpequeno a princípio, estreitamente encerrado entre duas margens, arremetendo, com entusiasmo, primeiro os seixos e depois as cataratas. A pouco e pouco, o rio alarga-se, as suas margens afastam-se, a água corre mais calmamente e, por fim, sem nenhuma mudança brusca, desagua no oceano e perde sem sofrimento a sua existência individual.
O homem que na velhice pode ver a sua vida desta maneira,

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O Abismo da Agitação

Uma vida demasiado repleta de agita√ß√£o √© uma vida esgotante que continuamente exige estimulantes mais fortes para provocar as emo√ß√Ķes que acabam por ser consideradas parte essencial do prazer. Uma pessoa habituada a demasiada agita√ß√£o √© compar√°vel √† que tem um desejo m√≥rbido de pimenta e acaba por ser incapaz de lhe apreciar o sabor numa quantidade que sufocaria qualquer outra pessoa. H√° sempre um certo aborrecimento quando se evita em demasia a agita√ß√£o, mas por sua vez a agita√ß√£o demasiada n√£o s√≥ enfraquece a sa√ļde como embota o gosto para toda a esp√©cie de prazeres, substituindo titila√ß√Ķes por profundas satisfa√ß√Ķes org√Ęnicas, habilidade por intelig√™ncia e impress√Ķes fugidias por beleza. N√£o pretendo exagerar os perigos da agita√ß√£o. Uma certa quantidade talvez seja saud√°vel, mas como em quase todas as outras coisas, o problema √© de ordem quantitativa. Uma dose demasiado pequena pode gerar desejos m√≥rbidos e o abuso pode produzir o esgotamento. Certa capacidade para suportar o aborrecimento √© pois essencial a uma vida feliz e isso era uma das coisas que deviam ser ensinadas aos jovens.

A liberdade é algo maravilhoso, mas não quando o preço que se paga por ela tem de ser a solidão.

A Grande Ren√ļncia

Cedo ou tarde, a todo o homem chega a grande ren√ļncia. Para o jovem n√£o existe nada inalcan√ß√°vel. Que algo bom e desejado com toda a for√ßa de uma vontade apaixonada seja imposs√≠vel, n√£o lhe parece cr√≠vel. Mas, ou por meio da morte ou da doen√ßa, da pobreza ou da voz do dever, cada um de n√≥s √© for√ßado a aprender que o mundo n√£o foi feito para n√≥s e que, n√£o importa qu√£o belas as coisas que almejamos, o destino pode, n√£o obstante, proibi-las. √Č parte da coragem, quando a adversidade vem, suport√°-la sem lamentar a derrocada das nossas esperan√ßas, afastando os nossos pensamentos de v√£os arrependimentos. Esse grau de submiss√£o (…) n√£o √© somente justo e correcto: ele √© o portal da sabedoria.

O homem moderno não combate as calamidades com a humildade; descobriu que elas devem ser combatidas com os conhecimentos científicos.

A Felicidade Provém da Plena Posse das Suas Faculdades

O √≥dio √† raz√£o, t√£o frequente nos nossos dias, √© devido em grande parte ao facto dos movimentos da raz√£o n√£o serem concebidos duma forma suficientemente fundamental. O homem dividido contra si mesmo procura est√≠mulos e distrac√ß√Ķes; ama as paix√Ķes fortes, n√£o por raz√Ķes profundas, mas porque moment√Ęneamente elas lhe permitem evadir-se de si pr√≥prio e afastam dele a dolorosa necessidade de pensar.
Toda a paix√£o √© para ele uma forma de intoxica√ß√£o, e desde que n√£o pode conceber uma felicidade fundamental, a intoxica√ß√£o parece-lhe o √ļnico al√≠vio para o seu sofrimento. Isso, no entanto, √© o sintoma duma doen√ßa de ra√≠zes profundas. Quando n√£o h√° tal doen√ßa, a felicidade prov√©m da plena posse das suas faculdades. √Č nos momentos em que o esp√≠rito est√° mais activo, em que menos coisas s√£o esquecidas que se sentem alegrias mais intensas. Esta √©, sem d√ļvida, uma das melhores pedras de toque da felicidade. A felicidade que exige intoxica√ß√£o de n√£o importa que esp√©cie, √© falsa e n√£o d√° qualquer satisfa√ß√£o. A felicidade que satisfaz verdadeiramente √© acompanhada pelo completo exerc√≠cio das nossas faculdades e pela compreens√£o plena do mundo em que vivemos.

O Desgaste da Inveja

De todas as caracter√≠sticas que s√£o vulgares na natureza humana a inveja √© a mais desgra√ßada; o invejoso n√£o s√≥ deseja provocar o infort√ļnio e o provoca sempre que o pode fazer impunemente, como tamb√©m se torna infeliz por causa da sua inveja. Em vez de sentir prazer com o que possui, sofre com o que os outros t√™m. Se puder, priva os outros das suas vantagens, o que para ele √© t√£o desej√°vel como assegurar as mesmas vantagens para si pr√≥prio. Se uma tal paix√£o toma propor√ß√Ķes desmedidas, torna-se fatal a todo o m√©rito e mesmo ao exerc√≠cio do talento mais excepcional.
Por que √© que o m√©dico deve ir ver os seus doentes de autom√≥vel quando o oper√°rio vai para o seu trabalho a p√©? Por que √© que o investigador cient√≠fico pode passar os dias num quarto aquecido, quando os outros t√™m de expor-se √† inclem√™ncia dos elementos? Por que √© que um homem que possui algum talento raro de grande import√Ęncia para o mundo deve ser dispensado do penoso trabalho dom√©stico? Para tais perguntas a inveja n√£o encontra resposta. Afortunadamente, por√©m, h√° na natureza humana um sentimento compensador, chamado admira√ß√£o. Todos os que desejm aumentar a felicidade humana devem procurar aumentar a admira√ß√£o e diminuir a inveja.

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Moralistas são pessoas que renunciam às alegrias corriqueiras para poder, sem culpa e recriminação, estragar a alegria dos outros.

O Medo do Aborrecimento

O género de aborrecimento de que sofre a população das cidades modernas está intimamente ligado à sua separação da vida da Terra. Essa separação torna o seu viver ardente, poeirento e ansioso, tal como uma peregrinação no deserto. Nos que são suficientemente ricos para escolher o seu género de vida, o estigma peculiar de insuportável aborrecimento que os distingue é devido, por muito paradoxal que isso possa parecer, ao seu medo do aborrecimento. Ao fugirem do aborrecimento que é fecundo, são vítimas de outro de natureza pior. Uma vida feliz deve ser, em grande medida, uma vida tranquila, pois só numa atmosfera calma pode existir o verdadeiro prazer.

O Jugo da Maquinaria Política

Os interesses comuns do g√©nero humano s√£o enumer√°veis e ponder√°veis, por√©m a maquinaria pol√≠tica existente obscurece-os por causa da luta em torno do poder entre diferentes na√ß√Ķes e partidos. M√°quina diferente, que n√£o exigisse modifica√ß√Ķes legislativas ou constitucionais e que n√£o fosse muito dif√≠cil de criar, minaria a fortaleza da paix√£o nacional e partid√°ria e focalizaria a aten√ß√£o sobre medidas benfazejas a todos, em vez de concentr√°-la em prejudicar o inimigo. No meu entender, √© por esta directriz, e n√£o pelo governo nacionalmente partid√°rio, que se encontrar√° a sa√≠da dos perigos que actualmente amea√ßam a civiliza√ß√£o. O saber existe, e a boa vontade; ambos por√©m continuar√£o impotentes enquanto n√£o possuirem org√£os pr√≥prios para se fazerem ouvir.

A Habilidade Específica do Político

A habilidade espec√≠fica do pol√≠tico consiste em saber que paix√Ķes pode com maior facilidade despertar e como evitar, quando despertas, que sejam nocivas a ele pr√≥prio e aos seus aliados. Na pol√≠tica como na moeda h√° uma lei de Gresham; o homem que visa a objectivos mais nobres ser√° expulso, excepto naqueles raros momentos (principalmente revolu√ß√Ķes) em que o idealismo se conjuga com um poderoso movimento de paix√£o interesseira. Al√©m disso, como os pol√≠ticos est√£o divididos em grupos rivais, visam a dividir a na√ß√£o, a menos que tenham a sorte de a unir na guerra contra outra. Vivem √† custa do ¬ęru√≠do e da f√ļria, que nada significam¬Ľ. N√£o podem prestar aten√ß√£o a nada que seja dif√≠cil de explicar, nem a nada que n√£o acarrete divis√£o (seja entre na√ß√Ķes ou na frente nacional), nem a nada que reduza o poderio dos pol√≠ticos como classe.

Eu encontrei um dia na escola um menino de tamanho m√©dio maltratando um menino menor. Eu o repreendi, mas respondeu: ‘ os grandes me bateram, assim como eu bati nos menores; para mim isso √© justo.’ Nestas palavras ele resumiu a hist√≥ria da ra√ßa humana.