Textos sobre √Ārvores

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Textos de árvores escritos por poetas consagrados, filósofos e outros autores famosos. Conheça estes e outros temas em Poetris.

Tive um Cavalo de Cart√£o

Mulher. A tua pele branca foi um verão que quis viver e me foi negado. Um caminho que não me enganou. Enganou-me a luz e os olhos foscos das manhãs revividas. Enganou-me um sonho de poder ser o filho que fui, a correr pelos campos todo o dia, a medir as searas pelo tamanho dos braços abertos; enganou-me um sonho de poder ser o filho que fui no teu homem e no teu rosto, no teu filho, nosso. Não há manhãs para reviver, sei-o hoje. Não se podem construir dias novos sobre manhãs que se recordam. Inventei-te talvez, partindo de uma estrela como todas estas. Quis ter uma estrela e dar-lhe as manhãs de julho. As grandes manhãs de julho diante de casa e a minha mãe a acabar o almoço bom e o meu pai a chegar e a ralhar, sem ser a sério, por o almoço não estar pronto e eu sentado na terra, talvez a fazer um barroco, talvez a brincar com o cavalo de cartão. Tive um cavalo de cartão. Nunca te contei, pouco te contei, mas tive um cavalo de cartão. Brincava com ele e era bonito. Gostava muito dele. Tanto. Tanto. Tanto. Quando o meu pai mo trouxe,

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Vivemos de Matar

Os vivos alimentam-se e engordam √†s custas dos mortos. √Č a ess√™ncia da natureza. Basta ver os document√°rios sobre a vida selvagem na televis√£o, aves corpulentas arrancando com o bico as tripas das v√≠timas, disputando-as entre si; a leoa de focinho enterrado na carne ensanguentada da zebra. Mas nem √© preciso ir t√£o longe: as prateleiras dos supermercados s√£o deprimentes cemit√©rios: paletes de cordeiro morto, ossos e costeletas de boi esfaqueado, v√≠sceras de vaca sacrificada, lombo de porco eletrocutado, tudo isso em embalagens fabricadas com restos de √°rvores abatidas. Vivemos do que matamos. Vivemos de matar, ou do que nos √© servido morto: os herdeiros consomem os despojos do predecessor, e isso nutre-os, fortalece-os no momento de levantar voo. Quanto maior a quantidade de carne consumida, mais alto e majestoso o voo. E mais elegante, claro. Nada que seja alheio √†s regras da natureza.

Virtudes Ociosas e Bolorentas

Mais que amor, dinheiro e fama, dai-me a verdade. Sentei-me a uma mesa onde a comida era fina, os vinhos abundantes e o serviço impecável, mas onde faltavam sinceridade e verdade, e com fome me fui embora do inóspito recinto. A hospitalidade era fria como os sorvetes. Pensei que nem havia necessidade de gelo para conservá-los. Gabaram-me a idade do vinho e a fama da safra, mas eu pensava num vinho muito mais velho, mais novo e mais puro, de uma safra mais gloriosa, que eles não tinham e nem sequer podiam comprar.
O estilo, a casa com o terreno em volta e o ¬ęentretenimento¬Ľ n√£o representam nada para mim. Visitei o rei, mas ele deixou-me √† espera no vest√≠bulo, comportando-se como um homem incapaz de hospitalidade. Na minha vizinhan√ßa havia um homem que morava no oco de uma √°rvore e cujas maneiras eram r√©gias. Teria feito bem melhor visitando-o a ele.

O Nosso Infinito

H√° ou n√£o um infinito fora de n√≥s? √Č ou n√£o √ļnico, imanente, permanente, esse infinito; necessariamente substancial pois que √© infinito, e que, se lhe faltasse a mat√©ria, limitar-se-ia √†quilo; necess√°riamente inteligente, pois que √© infinito, e que, se lhe faltasse a intelig√™ncia, acabaria ali? Desperta ou n√£o em n√≥s esse infinito a ideia de ess√™ncia, ao passo que n√≥s n√£o podemos atribuir a n√≥s mesmos sen√£o a ideia de exist√™ncia? Por outras palavras, n√£o √© ele o Absoluto, cujo relativo somos n√≥s?
Ao mesmo tempo que fora de n√≥s h√° um infinito n√£o h√° outro dentro de n√≥s? Esses dois infinitos (que horroroso plural!) n√£o se sobrep√Ķem um ao outro? N√£o √© o segundo, por assim dizer, subjacente ao primeiro? N√£o √© o seu espelho, o seu reflexo, o seu eco, um abismo conc√™ntrico a outro abismo? Este segundo infinito n√£o √© tamb√©m inteligente? N√£o pensa? N√£o ama? N√£o tem vontade? Se os dois infinitos s√£o inteligentes, cada um deles tem um princ√≠pio volante, h√° um eu no infinito de cima, do mesmo modo que o h√° no infinito de baixo. O eu de baixo √© a alma; o eu de cima √© Deus.
P√īr o infinito de baixo em contacto com o infinito de cima,

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As Tuas L√°grimas

As tuas lágrimas respiram e florescem, o lugar onde te sentas é o rio que corre em sobressalto por dentro de uma árvore, seiva renovada que transporta palavras até às folhas felizes de~um amor demorado e ainda puro. E essa ávore fala através das tuas palavras, demora-se em conversas com as abelhas, com os gaios, com o vento.
As tuas l√°grimas iluminam as p√°ginas alucinadas dos livros de poesia, e as mesas claras t√£o cheias de frutos que se assemelham a fogueiras ruivas, alimento privilegiado de um imenso e intenso drag√£o que me aquece o sangue.
As tuas lágrimas transbordam os grandes lagos dos meus olhos e eu choro contigo os grandes peixes da ternura, esses mesmos peixes que são os arquitectos perturbados de uma relação sem tempo mas alimentada por primaveras que de tão altas são inquestionáveis.
As tuas l√°grimas fertilizam as searas celestes, arrefecem o movimento dos vulc√Ķes, absorvem toda a beleza do arco-√≠ris, embebedam-se com a do√ßura das estrelas. E s√£o oferendas √† m√£e terra, o reconhecimento final do princ√≠pio do nosso pequeno mundo. As tuas l√°grimas s√£o minhas amigas. S√£o as minhas l√°grimas. A forma de chorar-te cheio de alegria, ferido por esta felicidade de amar-te muito,

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N√£o se Reconquista o Amor com Argumentos

Não te esqueças de que a tua frase é um acto. Se desejas levar-me a agir, não pegues em argumentos. Julgas que me deixarei determinar por argumentos? Não me seria difícil opor, aos teus, melhores argumentos.
Já viste a mulher repudiada reconquistar-te através de um processo em que ela prova que tem razão? O processo irrita. Ela nem sequer será capaz de te recuperar mostrando-te tal como tu a amavas, porque essa já tu a não amas. Olha aquela infeliz que, nas vésperas do divórcio, teve a ideia de cantar a mesma canção triste que cantava quando noiva. Essa canção triste ainda tornou o homem mais furioso.
Talvez ela o recuperasse se o conseguisse despertar tal como ele era quando a amava. Mas para isso precisaria de um génio criador, porque teria de carregar o homem de qualquer coisa, da mesma maneira que eu o carrego de uma inclinação para o mar que fará dele construtor de navios. Só assim cresceria essa árvore que depois se iria diversificando. E ele havia de pedir de novo a canção triste.
Para fundar o amor por mim, faço nascer em ti alguém que é para mim. Não te confessarei o meu sofrimento,

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Escuta, Amor

Quando damos as mãos, somos um barco feito de oceano, a agitar-se sobre as ondas, mas ancorado ao oceano pelo próprio oceano. Pode estar toda a espécie de tempo, o céu pode estar limpo, verão e vozes de crianças, o céu pode segurar nuvens e chumbo, nevoeiro ou madrugada, pode ser de noite, mas, sempre que damos as mãos, transformamo-nos na mesma matéria do mundo. Se preferires uma imagem da terra, somos árvores velhas, os ramos a crescerem muito lentamente, a madeira viva, a seiva. Para as árvores, a terra faz todo o sentido. De certeza que as árvores acreditam que são feitas de terra.

Por isto e por mais do que isto, tu estás aí e eu, aqui, também estou aí. Existimos no mesmo sítio sem esforço. Aquilo que somos mistura-se. Os nossos corpos só podem ser vistos pelos nossos olhos. Os outros olham para os nossos corpos com a mesma falta de verdade com que os espelhos nos reflectem. Tu és aquilo que sei sobre a ternura. Tu és tudo aquilo que sei. Mesmo quando não estavas lá, mesmo quando eu não estava lá, aprendíamos o suficiente para o instante em que nos encontrámos.

Aquilo que existe dentro de mim e dentro de ti,

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A Necessidade do Mal

Examinai a vida dos homens e dos povos melhores e mais fecundos, e perguntai se uma √°rvore que deve elevar-se altivamente nos ares pode dispensar o mau tempo e as tempestades; se a hostilidade do exterior, as resist√™ncias exteriores, todas as esp√©cies de √≥dio de inveja, de teimosia, de desconfian√ßa, de dureza, de avidez e de viol√™ncia n√£o fazem parte das circunst√Ęncias favor√°veis sem as quais nada, nem sequer a virtude, poderia crescer grandemente? O veneno que mata as naturezas fracas √© um fortificante para as fortes; … e por isso n√£o lhe chamam veneno.

Como uma árvore, que embora derrubada, continua a crescer enquanto as suas raízes estiverem sãs e firmes, assim também continuará a sofrer mais e mais o homem que não tenha extirpado a sua cobiça.

A Motivação do Ser Humano

Desde o pecado original fomos essencialmente iguais para conhecer o bem e o mal; no entanto, √© exactamente neste ponto que buscamos as nossas vantagens particulares. Mas √© s√≥ al√©m desse conhecimento que come√ßam as verdadeiras diferen√ßas. A apar√™ncia rec√≠proca √© provocada pelo seguinte: ningu√©m consegue contentar-se apenas com o conhecimento, mas tem de lutar para agir de acordo com ele. Contudo, n√£o lhe foi atribu√≠da a for√ßa para fazer isso; em consequ√™ncia, ele tem de se destruir, mesmo correndo o risco de n√£o adquirir com isso o poder necess√°rio, mas n√£o lhe resta nada sen√£o essa √ļltima tentativa. (√Č este tamb√©m o sentido da amea√ßa de morte associada √† proibi√ß√£o de comer da √°rvore do conhecimento; talvez tamb√©m o sentido original da morte natural). Ora, ele tem uma tentativa; prefere revogar o conhecimento do bem e do mal; (a express√£o ¬ępecado original¬Ľ tem origem nesse medo) mas o que aconteceu n√£o pode ser suprimido, apenas turvado. √Č com esse objectivo que as motiva√ß√Ķes v√™m √† tona; com efeito, todo o mundo vis√≠vel talvez n√£o seja outra coisa sen√£o uma motiva√ß√£o do ser humano para a sua vontade de descansar um momento. Uma tentativa de falsear o facto do conhecimento,

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A Melhor Companhia

Considero saudável estar só na maior parte do tempo. Estar acompanhado, mesmo pelos melhores, cedo se torna enfadonho e dispersivo. Adoro estar só. Nunca encontrei um companheiro tão sociável como a solidão. Estamos geralmente mais sós quando viajamos com outros homens do que quando permanecemos nos nossos aposentos. Um homem quando pensa ou trabalha está sempre só, deixai-o pois estar onde ele deseja. A solidão não é medida pelas milhas de espaço que separam um homem e os seus congéneres.
O estudante verdadeiramente diligente de um dos enxames da Universidade de Cambridge est√° t√£o solit√°rio como um derviche no deserto. O agricultor pode trabalhar sozinho no campo ou nos bosques durante todo o dia, mondando ou podando, e n√£o se sentir solit√°rio porque est√° ocupado; mas quando chega a casa, √† noite, n√£o consegue sentar-se numa sala sozinho, √† merc√™ dos seus pensamentos. Tem que ir onde possa ¬ęestar com as pessoas¬Ľ, distrair-se e ser compensado pela solid√£o do seu dia; e, assim, interroga-se como pode o estudante estar s√≥ em casa durante toda a noite e grande parte do dia sem se aborrecer ou sentir-se deprimido. Mas ele n√£o entende que o estudante, se bem que em casa,

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Somos uma Turba e Ninguém

Somos uma turba e ningu√©m: um ningu√©m que vive, porque √© sangue e carne, e existe porque √© esqueleto ou pedra; e uma turba da espectros que nos acompanha desde a Origem, e √© a nossa mesma pessoa multiplicada em mil tend√™ncias incoerentes, for√ßas contradit√≥rias, em v√°rios sentidos ignotos… E l√° vamos, a tactear as trevas, ladeando, avan√ßando, recuando, como pobres jumentos aflitos e √†s escuras, sob as esporas que o espica√ßam para a frente e as r√©deas que o puxam para tr√°s.
Pobres jumentos aflitos e às escuras! Escouceiam, orneiam, levantam a garupa. De que serve? As patas ferem o ar e aquela voz de soluços, que faz rir, não chega ao céu.
(…) Deus, criando as almas, condenou-as √† suprema solid√£o. Algumas iludem a pena. Imaginam conviver com as √°rvores e os penedos. Falam √†s √°rvores e aos penedos, queixando-se dos seus desgostos. (…) Somos uma turba e ningu√©m. Somos Deus e o Dem√≥nio, o C√©u e a Terra e outras letras grandes e Ningu√©m.

A Voz que Ouço quando Leio

Quando leio, h√° uma voz que l√™ dentro de mim. Paro o olhar sobre o texto impresso, mas n√£o acredito que seja o meu olhar que l√™. O meu olhar fica embaciado. √Č essa voz que l√™. Quando √© s√©ria, ou√ßo-a falar-me de assuntos s√©rios. √Äs vezes, sussurra-me. √Äs vezes, grita-me. Essa voz n√£o √© a minha voz. N√£o √© a voz que, em filmagens de festas de anos e de natais, vejo sair da minha boca, do movimento dos meus l√°bios, a voz que estranho por, num rosto parecido com o meu, n√£o me parecer minha. A voz que ou√ßo quando leio existe dentro de mim, mas n√£o √© minha. N√£o √© a voz dos meus pensamentos. A voz que ou√ßo quando leio existe dentro de mim, mas √© exterior a mim. √Č diferente de mim. Ainda assim, n√£o acredito que algu√©m possa ter uma voz que l√™ igual √† minha, por isso √© minha mas n√£o √© minha. Mas, claro, n√£o posso ter a certeza absoluta. N√£o s√≥ porque uma voz √© indescrit√≠vel, mas tamb√©m porque nunca ningu√©m me tentou descrever a voz que ouve quando l√™ e porque eu nunca falei com ningu√©m da voz que ou√ßo quando leio.

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A Solid√£o em Perspectiva

√Č exactamente porque n√£o h√° solid√£o que dizes que h√° solid√£o. Imagina que eras o √ļnico homem no universo. Imagina que nascias de uma √°rvore, ou antes, porque eu quero p√īr a hip√≥tese de que n√£o h√° √°rvores, nem astros, nem nada com que te confrontes: sup√Ķe que o universo √© s√≥ o vazio e que tu nascias no meio desse vazio, sem nada para te confrontares. Como dizeres ¬ęeu estou sozinho¬Ľ? Para pensares em ¬ęeu¬Ľ e em ¬ęsozinho¬Ľ tinhas de pensar em ¬ętu¬Ľ e em ¬ęcompanhia¬Ľ. S√≥ h√° solid√£o ¬ęporque¬Ľ vivemos com os outros…

Uma Vida Calma e Tranquila

A primeira pergunta que Di√≥genes fez a Alexandre √© a primeira pergunta que qualquer pessoa inteligente deve fazer a si pr√≥pria. Di√≥genes n√£o desperdi√ßou um √ļnico momento.
РAlexandre, estás a tentar conquistar o mundo inteiro. Então e tu? Terás tempo suficiente, depois de conquistares o mundo, para te conheceres a ti próprio? Tens certezas sobre o amanhã ou sobre o próximo momento?
Alexandre nunca tinha conhecido um homem assim. Ele já tinha vencido grandes reis e imperadores, mas percebeu que Diógenes era um homem muito poderoso. Baixando os olhos, Alexandre respondeu:
– N√£o te posso dizer que esteja certo sobre o momento seguinte. Mas posso prometer-te uma coisa: quando tiver conquistado o mundo, vou desejar descansar e viver uma vida calma, tal como tu.
Di√≥genes estava a gozar um banho de sol matinal junto a um rio, rodeado por bonitas √°rvores. Ele riu-se… por vezes penso que o seu riso ainda deve continuar a ecoar.
Pessoas como Diógenes pertencem à eternidade. As suas assinaturas não são feitas na água.
Alexandre sentiu-se ofendido e perguntou-lhe porque se estava a rir.
– √Č muito simples! – respondeu Di√≥genes. – Se eu posso descansar e viver uma vida calma sem ter conquistado o mundo,

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Temos de Ser Mais Humanos

Abram os olhos. Somos umas bestas. No mau sentido. Somos primitivos. Somos prim√°rios. Por nossa causa corre um oceano de sangue todos os dias. N√£o √© auscultando todos os nossos instintos ou encorajando a nossa natureza biol√≥gica a manifestar-se que conseguiremos afastar-nos da crueza da nossa condi√ß√£o. √Č lendo Plat√£o. E construindo pontes suspensas. √Č tendo ins√≥nias. √Č desenvolvendo paran√≥ias, conceitos filos√≥ficos, poemas, desequil√≠brios neuroqu√≠micos insan√°veis, frisos de portas, birras de amor, grafismos, sistemas pol√≠ticos, receitas de bacalhau, pormenores.

√Č engra√ßado como cada √©poca se foi considerando ¬ęde charneira¬Ľ ao longo da hist√≥ria. A pretens√£o de se ser definitivo, a arrog√Ęncia de ser ¬ęo √ļltimo¬Ľ, a vaidade de se ser futuro √©, h√° mil√©nios, a mesm√≠ssima cantiga.
Temos de ser mais humanos. Reconhecer que somos as bestas que somos e arrependermo-nos disso. Temos de nos reduzir à nossa miserável insensibilidade, à pobreza dos nossos meios de entendimento e explicação, à brutalidade imperdoável dos nossos actos. O nosso pé foge-nos para o chinelo porque ainda não se acostumou a prender-se aos troncos das árvores, quanto mais habituar-se a usar sapato.

A √ļnica atitude verdadeiramente civilizada √© a fraqueza, a curiosidade, o desespero, a experi√™ncia, o amor desinteressado,

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O Primitivo Reina na Civilização Actual

Todo o crescimento de possibilidades concretas que a vida experimentou corre risco de se anular a si mesmo ao topar com o mais pavoroso problema sobrevindo no destino europeu e que de novo formulo: apoderou-se da dire√ß√£o social um tipo de homem a quem n√£o interessam os princ√≠pios da civiliza√ß√£o. N√£o os desta ou os daquela, mas ‚Äď ao que hoje pode julgar-se ‚Äď os de nenhuma. Interessam-lhe evidentemente os anest√©sicos, os autom√≥veis e algumas coisas mais. Mas isto confirma o seu radical desinteresse pela civiliza√ß√£o. Pois estas coisas s√£o s√≥ produtos dela, e o fervor que se lhes dedica faz ressaltar mais cruamente a insensibilidade para os princ√≠pios de que nascem. Baste fazer constar este fato: desde que existem as nuove scienze, as ci√™ncias f√≠sicas ‚Äď portanto, desde o Renascimento ‚Äď, o entusiasmo por elas havia aumentado sem colapso, ao longo do tempo. Mais concretamente: o n√ļmero de pessoas que em propor√ß√£o se dedicavam a essas puras investiga√ß√Ķes era maior em cada gera√ß√£o. O primeiro caso de retrocesso ‚Äď repito, proporcional ‚Äď produziu-se na gera√ß√£o que hoje vai dos vinte aos trinta anos. Nos laborat√≥rios de ci√™ncia pura come√ßa a ser dif√≠cil atrair disc√≠pulos. E isso acontece quando a ind√ļstria alcan√ßa o seu maior desenvolvimento e quando as pessoas mostram maior apetite pelo uso de aparelhos e medicinas criados pela ci√™ncia.

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O Coração é o Seu Amigo

O verdadeiro problema reside na mente, porque a mente √© formada pela sociedade humana e especialmente projectada para nos manter escravizados. O corpo tem uma beleza pr√≥pria. Ainda faz parte das √°rvores e do oceano, das montanhas e das estrelas. N√£o foi contaminado pela sociedade nem foi envenenado pelas igrejas, pelas religi√Ķes e pelos padres. Mas a mente foi completamente condicionada e distorcida ao receber ideias que s√£o totalmente falsas. A nossa mente funciona quase como uma m√°scara que esconde o nosso verdadeiro rosto.
A arte da medita√ß√£o consiste em transcender a mente, e o Oriente dedicou toda a sua intelig√™ncia e todo o seu g√©nio durante quase dez mil anos a um √ļnico objectivo: descobrir a maneira de transcender a mente e os seus condicionamentos. Do esfor√ßo de dez mil anos resultou o aperfei√ßoamento do m√©todo da medita√ß√£o.
Em poucas palavras, medita√ß√£o significa olhar para a mente, observar a mente. Tente examinar a mente, olhando em sil√™ncio para ela – sem explica√ß√Ķes, sem aprecia√ß√Ķes, sem condena√ß√Ķes, sem qualquer julgamento, a favor ou contra -, observe-a apenas, como se n√£o tivesse nada a ver com ela. Aprecie apenas o tr√°fego que vai na mente. E o milagre da medita√ß√£o faz com que,

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Hábito e Inércia

Ao princípio, somos carne animada pela alma; a meio caminho, meias máquinas; perto do fim, autómatos rígidos e gelados como cadáveres. Quando a morte chega, encontramo-nos em tudo semelhantes aos mortos. Esta petrificação progressiva é obra do hábito.
O hábito torna-nos cegos às maravilhas do mundo Рindiferentes e inconscientes perante os milagres quotidianos -, embota a força dos sentidos e dos sentimentos Рtorna-nos escravos dos costumes, mesmo tristes e culpados: suprime a vista, espanto, fogo e liberdade. Escravos, frígidos, insensatos, cegos: tudo propriedade dos cadáveres. A subjugação aos hábitos é uma subjugação da morte; um suicídio gradual do espírito.
O h√°bito suprime as cores, incrusta, esconde: partes da nossa vida afundam-se gradualmente na inconsci√™ncia e deixam de ser vida para se tornarem pe√ßas de um mecanismo imprevisto. O c√≠rculo do espont√Ęneo reduz-se; a liberdade e novidade decaem na monotonia do vulgar.
√Č como se o sangue se tornasse, a pouco e pouco, s√≥lido como os ossos e a alma um sistema de correias e rodas. A mat√©ria n√£o passa de esp√≠rito petrificado pelos h√°bitos. Nasce-se esp√≠rito e mat√©ria e termina-se apenas como mat√©ria. A casca converteu em madeira a pr√≥pria linfa.
A casca é necessária para proteger o albume,

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