Textos sobre Obras

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Textos de obras escritos por poetas consagrados, filósofos e outros autores famosos. Conheça estes e outros temas em Poetris.

O Papel do Sonho na Vida

Por vezes, o homem √© mais sincero e rico na desordem dos sonhos que na consci√™ncia unit√°ria do raciocinador acordado, mas n√≥s vivemos enquanto negamos o sonho e o tornamos in√ļtil. O g√©nio √© a extradi√ß√£o do sonho, porque enriquece a consci√™ncia com as reservas e as pessoas do inconsciente. Expulsa o selvagem e o delinquente, destila a sagacidade do louco, adopta a crian√ßa e escuta o poeta. N√£o √© autocrata surdo, como o homem vulgar, mas pai de iguais. A conc√≥rdia de se terem almas subterr√Ęneas faz a grandeza do g√©nio, e a sua obra √© a sublima√ß√£o do sonho, desenrolado na vida verdadeira, liberdade concedida aos pensamentos inocentes dos reclusos.
Escolher é próprio do homem, mas escolhe-se com a rejeição e mais com o acolhimento. Vencer não significa apenas destruir, mas incorporar. A razão será tanto mais razoável quanto maior a loucura que assumir em si; o herói será mais forte se transferir para si a energia do pecador, e a fantasia do poeta tornará mais profundos os cálculos do político.
Quando o chefe da alma é o poeta, verdadeiramente poeta, não encarcera a razão, mas condu-la consigo para cima, ao céu em que até o silogismo se torna fogo.

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A Invisibilidade √© a Condi√ß√£o para a Eleg√Ęncia

Parece-me que a invisibilidade √© a condi√ß√£o para a eleg√Ęncia. A eleg√Ęncia acaba se for notada. Sendo a poesia a eleg√Ęncia por excel√™ncia, n√£o sabe ser vis√≠vel. Ent√£o, para que serve?, dir-me-eis. Para nada. Quem a v√™? Ningu√©m. O que a n√£o impede de ser um atentado contra o pudor, e apesar de o seu exibicionismo se exercer entre os cegos. Contenta-se em exprimir uma moral particular. Depois, esta moral particular solta-se sob a forma de obra. Exige que a deixem viver a sua vida. Faz-se pretexto para imensos mal-entendidos que se chamam a gl√≥ria. A gl√≥ria √© absurda por resultar de um ajuntamento. A multid√£o cerca um acidente, conta-o a si mesma, inventa-o, perturba-o at√© se transformar noutro. O belo resulta sempre de um acidente. De uma quebra brutal entre h√°bitos adquiridos e h√°bitos a adquirir. Derrota, nauseia. Chega a causar horror. Quando o novo h√°bito for adquirido, o acidente deixar√° de ser acidente. Far-se-√° cl√°ssico e perder√° a virtude de choque. Por isso uma obra nunca √© compreendida. √Č admitida. Se n√£o me engano, a observa√ß√£o pertence a Eug√®ne Delacroix: ¬ęNunca se √© compreendido, √©-se admitido¬Ľ. Matisse repete com frequ√™ncia esta frase.

A Inconsistência Humana

Que todos os homens s√£o iguais √© uma proposi√ß√£o √† qual, em tempos normais, nenhum ser humano sensato deu, alguma vez, o seu assentimento. Um homem que tem de se submeter a uma opera√ß√£o perigosa n√£o age sob a presun√ß√£o de que t√£o bom √© um m√©dico como outro qualquer. Os editores n√£o imprimem todas as obras que lhes chegam √†s m√£os. E quando s√£o precisos funcion√°rios p√ļblicos, at√© os governos mais democr√°ticos fazem uma selec√ß√£o cuidadosa entre os seus s√ļbditos teoricamente iguais.
Em tempos normais, portanto, estamos perfeitamente certos de que os Homens não são iguais. Mas quando, num país democrático, pensamos ou agimos politicamente, não estamos menos certos de que os Homens são iguais. Ou, pelo menos Рo que na prática vem ser a mesma coisa Рprocedemos como se estivéssemos certos da igualdade dos Homens.
Identicamente, o piedoso fidalgo medieval que, na igreja acreditava em perdoar aos inimigos e oferecer a outra face, estava pronto, logo que mergia novamente à luz do dia, a desembainhar a sua espada à mínima provocação. A mente humana tem uma capacidade quase infinita para ser inconsistente.

A Simpatia pela Obra de Arte

Qualquer produto intelectual de valor que se pretende surta um efeito imediato, vasto e profundo, tem de conter uma secreta harmonia, uma afinidade mesmo entre o destino pessoal do autor e o destino da generalidade dos seus contempor√Ęneos. As pessoas n√£o sabem por que raz√£o atribuem fama a uma obra de arte. Longe de serem connaisseurs, julgam descobrir nela uma centena de virtudes para justificar tal apre√ßo; mas o verdadeiro motivo do seu aplauso √© imponder√°vel – √© a simpatia.

A Moda

As varia√ß√Ķes da sensibilidade sob a influ√™ncia das modifica√ß√Ķes do meio, das necessidades, das preocupa√ß√Ķes, etc., criam um esp√≠rito p√ļblico que varia de uma gera√ß√£o para outra e mesmo muitas vezes no espa√ßo de uma gera√ß√£o. Esse esp√≠rito publico, rapidamente dilatado por contacto mental, determina o que se chama a moda. Ela √© um possante factor de propaga√ß√£o da maior parte dos elementos da vida social, das nossas opini√Ķes e das nossas cren√ßas.
Não é só o vestuário que se submete às suas vontades. O teatro, a literatura, a política, a arte, as próprias idéias científicas lhe obedecem, e é por isso que certas obras apresentam um fundo de semelhança que permite falar do estilo de uma época.
Em virtude da sua acção inconsciente, submetemo-nos à moda sem que o percebamos. Os espíritos mais independentes a ela não se podem subtrair. São muito raros os artistas, os escritores que ousam produzir uma obra muito diferente das ideias do dia.
A influência da moda é tão pujante que ela obriga-nos, por vezes, a admirar coisas sem interesse e que parecerão mesmo de uma fealdade extrema, alguns anos mais tarde. O que nos impressiona numa obra de arte é muito raramente a obra em si mesma,

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A Realidade Histórica é Equívoca e Inesgotável

O historiador pertence ao devir que descreve. Está situado após os acontecimentos, mas na mesma evolução. A ciência histórica é uma forma de consciência que uma comunidade toma de si mesma, um elemento da vida colectiva, como o conhecimento de si um aspecto da consciência pessoal, um dos factores do destino individual. Não é ela função simultaneamente da situação actual, que por definição muda com o tempo, e da vontade que anima o sábio, incapaz de se destacar de si mesmo e do seu objecto?
Mas, por outro lado, ao contr√°rio, o historiador busca penetrar a consci√™ncia de outrem. √Č, em rela√ß√£o ao ser hist√≥rico, o outro. Psic√≥logo, estratega ou fil√≥sofo, observa sempre do exterior. N√£o pode nem pensar o seu her√≥i, como este se pensa a si mesmo, nem ver a batalha como o general a viu ou viveu, nem compreender uma doutrina do mesmo modo que o criador.
Finalmente, quer se trate de interpretar um acto ou uma obra, devemos reconstu√≠-los conceptualmente. Ora n√≥s temos sempre de escolher entre m√ļltiplos sistemas, pois a ideia √© ao mesmo tempo imanente e transcendente √† vida: todos os monumentos existem por eles mesmos num universo espiritual, a l√≥gica jur√≠dica e econ√≥mica √© interna √† realidade social e superior √† consci√™ncia individual.

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Boa e M√° Literatura

O que acontece na literatura n√£o √© diferente do que acontece na vida: para onde quer que se volte, depara-se imediatamente com a incorrig√≠vel plebe da humanidade, que se encontra por toda a parte em legi√Ķes, preenchendo todos os espa√ßos e sujando tudo, como as moscas no ver√£o.
Eis a raz√£o do n√ļmero incalcul√°vel de livros maus, essa erva daninha da literatura que tudo invade, que tira o alimento do trigo e o sufoca. De facto, eles arrancam tempo, dinheiro e aten√ß√£o do p√ļblico – coisas que, por direito, pertencem aos bons livros e aos seus nobres fins – e s√£o escritos com a √ļnica inten√ß√£o de proporcionar algum lucro ou emprego. Portanto, n√£o s√£o apenas in√ļteis, mas tamb√©m positivamente prejudiciais. Nove d√©cimos de toda a nossa literatura actual n√£o possui outro objectivo sen√£o o de extrair alguns t√°leres do bolso do p√ļblico: para isso, autores, editores e recenseadores conjuraram firmemente.
Um golpe astuto e maldoso, porém notável, é o que teve êxito junto aos literatos, aos escrevinhadores que buscam o pão de cada dia e aos polígrafos de pouca conta, contra o bom gosto e a verdadeira educação da época, uma vez que eles conseguiram dominar todo o mundo elegante,

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Liquidar os Defeitos Pouco a Pouco

Legislasse eu em Inglaterra e a minha obra seria completamente diferente. Dentro das ra√ßas, dentro das nacionalidades, h√° duas esp√©cies de defeitos: os defeitos naturais, que podem ser combatidos mas nunca extirpados violentamente, e que nos far√£o sempre distinguir um latino dum eslavo ou dum anglo-sax√£o, e os defeitos incrustados, os v√≠cios adquiridos, que s√£o v√≠cios, sobretudo, de educa√ß√£o, de mentalidade. Ora se √© quase in√ļtil fazer guerra aos primeiros, porque eles t√™m sempre a vit√≥ria, j√° n√£o √© t√£o ideal, t√£o imposs√≠vel, como se diz, desincrustar os √ļltimos, liquid√°-los pouco a pouco… Veja, por exemplo, como o Jap√£o se transformou no curto espa√ßo da vida dum homem…

Arte e Sensibilidade

1) Toda a arte se baseia na sensibilidade, e essencialmente na sensibilidade.
2) A sensibilidade é pessoal e intransmissível.
3) Para se transmitir a outrem o que sentimos, e é isso que na arte buscamos fazer, temos que decompor a sensação, rejeitando nela o que é puramente pessoal, aproveitando nela o que, sem deixar de ser individual, é todavia susceptível de generalidade, portanto, compreensível, não direi já pela inteligência, mas ao menos pela sensibilidade dos outros.
4) Este trabalho intelectual tem dois tempos: a) a intelectualiza√ß√£o directa e instintiva da sensibilidade, pela qual ela se converte em transmiss√≠vel (√© isto que vulgarmente se chama “inspira√ß√£o”, quer dizer, o encontrar por instinto as frases e os ritmos que reduzam a sensa√ß√£o √† frase intelectual (prim. vers√£o: tirem da sensa√ß√£o o que n√£o pode ser sens√≠vel aos outros e ao mesmo tempo, para compensar, refor√ßam o que lhes pode ser sens√≠vel); b) a reflex√£o cr√≠tica sobre essa intelectualiza√ß√£o, que sujeita o produto art√≠stico elaborado pela “inspira√ß√£o” a um processo inteiramente objectivo ‚ÄĒ constru√ß√£o, ou ordem l√≥gica, ou simplesmente conceito de escola ou corrente.
5) Não há arte intelectual, a não ser, é claro, a arte de raciocinar. Simplesmente,

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Originalidade Verdadeira e Originalidade Falseada

Em Arte, √© vivo tudo o que √© original. √Č original tudo o que prov√©m da parte mais virgem, mais verdadeira e mais √≠ntima duma personalidade art√≠stica. A primeira condi√ß√£o duma obra viva √© pois ter uma personalidade e obedecer-lhe. Ora como o que personaliza um artista √©, ao menos superficialmente, o que o diferencia dos demais, (artistas ou n√£o) certa sinon√≠mia nasceu entre o adjectivo original e muitos outros, ao menos superficialmente aparentados; por exemplo: o adjectivo exc√™ntrico, estranho, extravagante, bizarro… Eis como √© falsa toda a originalidade calculada e astuciosa.
Eis como tamb√©m pertence √† literatura morta aquela em que um autor pretende ser original sem personalidade pr√≥pria. A excentricidade, a extravag√Ęncia e a bizarria podem ser poderosas – mas s√≥ quando naturais a um dado temperamento art√≠stico. Sobre outras qualidades, o produto desses temperamentos ter√° o encanto do raro e do imprevisto. Afectadas, semelhantes qualidades n√£o passar√£o dum truque liter√°rio.

Raramente Lemos um Livro que nos D√£o

Raramente lemos um livro que nos dão; e poucos nos são dados. A maneira de espalhar uma obra é vendê-la a um preço baixo. Pois ninguém comprará algo ainda que custe apenas alguns cêntimos, se não tiver a intenção de lê-la.

A Espontaneidade

O homem produz tudo o que sai da sua natureza. Concorre com a sua actividade; fornece a for√ßa bruta que produz o resultado. Mas a direc√ß√£o dessa for√ßa n√£o lhe pertence. D√° a mat√©ria: a forma, por√©m, vem doutra parte. O verdadeiro autor das obras espont√Ęneas √© a natureza humana, ou, se se quiser, a causa superior da natureza. Neste ponto torna-se indiferente atribuir a causalidade a Deus ou ao Homem. O Espont√Ęneo √© √† uma humano e divino. Est√° nisto a concilia√ß√£o de opini√Ķes, antes incompletas do que contradit√≥rias, que, segundo dizem respeito a uma ou outra face do fen√≥meno, t√™m igualmente uma parte de verdade.

Da Duração das Obras

Algumas obras morrem porque nada valem; estas, por morrerem logo, s√£o natimortas. Outras t√™m o dia breve que lhes confere a sua express√£o de um estado de esp√≠rito passageiro ou de uma moda da sociedade; morrem na inf√Ęncia. Outras, de maior escopo, coexistem com uma √©poca inteira do pa√≠s, em cuja l√≠ngua foram escritas, e, passada essa √©poca, elas tamb√©m passam; morrem na puberdade da fama e n√£o alcan√ßam mais do que a adolesc√™ncia na vida perene da gl√≥ria. Outras ainda, como exprimem coisas fundamentais da mentalidade do seu pa√≠s, ou da civiliza√ß√£o, a que ele pertence, duram tanto quanto dura aquela civiliza√ß√£o; essas alcan√ßam a idade adulta da gl√≥ria universal. Mas outras duram al√©m da civiliza√ß√£o, cujos sentimentos expressam. Essas atingem aquela maturidade de vida que √© t√£o mortal como os Deuses, que come√ßam mas n√£o acabam, como acontece com o Tempo; e est√£o sujeitas apenas ao mist√©rio final que o Destino encobre para todo o sempre (…)

Escrita e Interpretação

Sócrates: Você sabe, Fedro, esta é a singularidade do escrever, que o torna verdadeiramente análogo ao pintar. As obras de um pintor mostram-se a nós como se estivessem vivas; mas, se as questionamos, elas mantêm o mais altivo silêncio. O mesmo se dá com as palavras escritas: parecem falar conosco como se fossem inteligentes, mas, se lhes perguntamos qualquer coisa com respeito ao que dizem, por desejarmos ser instruídos, elas continuam para sempre a nos dizer exactamente a mesma coisa. E, uma vez que algo foi escrito, a composição, seja qual for, espalha-se por toda a parte, caindo em mãos não só dos que a compreendem mas também dos que não têm relação alguma com ela; não sabe como se dirigir às pessoas certas e não se dirigir às erradas. E, quando é maltratada ou injustamente ultrajada, precisa sempre que o seu pai lhe venha em socorro, sendo incapaz de se defender ou de cuidar de si própria.

O Preço da Honra

As coisas que mais ocorrem na vida e s√£o tidas pelos homens como o supremo bem resumem-se, ao que se pode depreender das suas obras, nestas tr√™s: as riquezas, as honras e a concupisc√™ncia. Por elas a mente se v√™ t√£o distra√≠da que de modo algum poder√° pensar em qualquer outro bem. Realmente, no que tange √† concupisc√™ncia, o esp√≠rito fica por ela de tal maneira possu√≠do como se repousasse num bem, tornando-se de todo impossibilitado de pensar em outra coisa; mas, ap√≥s a sua frui√ß√£o, segue-se a maior das tristezas, a qual, se n√£o suspende a mente, pelo menos a perturba e a embota. Tamb√©m procurando as honras e a riqueza, n√£o pouco a mente se distrai, mormente quando s√£o buscadas apenas por si mesmas, porque ent√£o ser√£o tidas como o sumo bem. Pela honra, por√©m, muito mais ainda fica distra√≠da a mente, pois sempre se sup√Ķe ser um bem por si e como que o fim √ļltimo, ao qual tudo se dirige.
Al√©m do mais, nestas √ļltimas coisas n√£o aparece, como na concupisc√™ncia, o arrependimento. Pelo contr√°rio, quanto mais qualquer delas se possuir, mais aumentar√° a alegria e consequentemente sempre mais somos incitados a aument√°-las. Se, por√©m,

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Alimentar o Ego

Para quem faz do sonho a vida, e da cultura em estufa das suas sensa√ß√Ķes uma religi√£o e uma pol√≠tica, para esse primeiro passo, o que acusa na alma que ele deu o primeiro passo, √© o sentir as coisas m√≠nimas extraordin√°ria ‚ÄĒ e desmedidamente. Este √© o primeiro passo, e o passo simplesmente primeiro n√£o √© mais do que isto. Saber p√īr no saborear duma ch√°vena de ch√° a vol√ļpia extrema que o homem normal s√≥ pode encontrar nas grandes alegrias que v√™m da ambi√ß√£o subitamente satisfeita toda ou das saudades de repente desaparecidas, ou ent√£o nos actos finais e carnais do amor; poder encontrar na vis√£o dum poente ou na contempla√ß√£o dum detalhe decorativo aquela exaspera√ß√£o de senti-los que geralmente s√≥ pode dar, n√£o o que se v√™ ou o que se ouve, mas o que se cheira ou se gosta ‚ÄĒ essa proximidade do objecto da sensa√ß√£o que s√≥ as sensa√ß√Ķes carnais ‚ÄĒ o tacto, o gosto, o olfacto – esculpem de encontro √† consci√™ncia; poder tornar a vis√£o interior, o ouvido do sonho ‚ÄĒ todos os sentidos supostos e do suposto ‚ÄĒ recebedores e tang√≠veis como sentidos virados para o externo: escolho estas, e as an√°logas suponham-se,

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Mensagem a Alunos e Professores

A arte mais importante do professor é a de despertar a alegria pelo trabalho e pelo conhecimento.
¬ęQueridos estudantes!
Regozijo-me por vos ver hoje diante de mim, alegre juventude de um país abençoado.
Lembrai-vos de que as coisas maravilhosas que ireis aprender nas vossas escolas s√£o a obra de muitas gera√ß√Ķes, levada a cabo por todos os pa√≠ses do mundo, √† custa de muito entusiasmo, muito esfor√ßo e muita dor. Tudo √© depositado nas vossas m√£os, como uma heran√ßa, para que a aceitem, honrem, desenvolvam e a transmitam fielmente um dia aos vossos filhos. Assim n√≥s, embora mortais, somos imortais nas obras duradouras que criamos em comum.
Se tiverem esta ideia sempre em mente, encontrar√£o algum sentido na vida e no trabalho e poder√£o formar uma opini√£o justa em rela√ß√£o aos outros povos e aos outros tempos.¬Ľ

A Disciplina é Sempre Exterior

A disciplina é sempre exterior, embora nem sempre aplicada de fora. As leis do meu temperamento nunca podem constituir uma disciplina minha. Uma disciplina é um princípio regrador da vida e da obra, que a inteligência aceita como verdadeira, e a sensibilidade aceita por boa. Sem a acção sobre tanto sensibilidade como inteligência, não há disciplina: se a inteligência aceita e a sensibilidade não, há um mero diletantismo; se o inverso, há um conflito esterilizante, anarquisador.
Os rom√Ęnticos eram crist√£os da sensibilidade e pag√£os do pensamento; os neocl√°ssicos eram crist√£os do pensamento e pag√£os da sensibilidade. Por isso a arte de uns e de outros resultou d√©bil e, desde nada, caduca.

A Caridade como Dever

Ser caritativo quando se pode s√™-lo √© um dever, e h√° al√©m disso muitas almas de disposi√ß√£o t√£o compassiva que, mesmo sem nenhum outro motivo de vaidade ou interesse, acham √≠ntimo prazer em espalhar alegria √† sua volta e se podem alegrar com o contentamento dos outros, enquanto este √© obra sua. Eu afirmo por√©m que neste caso uma tal ac√ß√£o, por conforme ao dever, por am√°vel que ela seja, n√£o tem contudo nenhum verdadeiro valor moral, mas vai emparelhar com outras inclina√ß√Ķes, por exemplo o amor das honras que, quando por feliz acaso topa aquilo que efectivamente √© de interesse geral e conforme ao dever, √© consequentemente honroso e merece louvor e est√≠mulo, mas n√£o estima; pois √† sua m√°xima falta o conte√ļdo moral que manda que tais ac√ß√Ķes se pratiquem, n√£o por inclina√ß√£o, mas por dever.
Admitindo pois que o √Ęnimo desse filantropo estivesse velado pelo desgosto pessoal que apaga toda a compaix√£o pela sorte alheia, e que ele continuasse a ter a possibilidade de fazer bem aos desgra√ßados, mas que a desgra√ßa alheia o n√£o tocava porque estava bastante ocupado com a sua pr√≥pria; se agora, que nenhuma inclina√ß√£o o estimula j√°, ele se arrancasse a esta mortal insensibilidade e praticasse a ac√ß√£o sem qualquer inclina√ß√£o,

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Não há Descoberta sem Violência

Devemos a quase totalidade das nossas descobertas às nossas violências, à exacerbação do nosso desequilíbrio. Mesmo Deus, na medida em que nos intriga, não é no mais íntimo de nós que o discernimos, mas antes no limite exterior da nossa febre, no ponto preciso em que, confrontando-se a nossa ira com a sua, se produz um choque, um encontro tão ruinoso para Ele como para nós. Ferido pela maldição que se liga aos actos, o violento só força a sua natureza, só se ultrapassa a si próprio, para a ela regressar, furioso e agressor, seguido pelas suas empresas, que o punem por as ter feito nascer. Não há obra que não se volte contra o seu autor: o poema esmagará o poeta, o sistema o filósofo, o acontecimento o homem de acção. Destrói-se quem, respondendo à sua vocação e cumprindo-a, se agita no interior da história; apenas se salva aquele que sacrifica dons e talentos para, desprendido da sua qualidade de homem, poder repousar no ser. Se aspiro a uma carreira metafísica, não posso por preço algum conservar a minha identidade: terei de liquidar o menor resíduo que dela possa guardar; se, pelo contrário, escolho a aventura de um papel histórico,

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