Textos sobre Emo√ß√Ķes

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Textos de emo√ß√Ķes escritos por poetas consagrados, fil√≥sofos e outros autores famosos. Conhe√ßa estes e outros temas em Poetris.

O Amor é Mais Forte

Os amantes de hoje preferem a droga mais leve, o tabaco mais light ou o caf√© descafeinado. J√° ningu√©m quer ficar pedrado de amor ou sofrer de uma overdose de paix√£o. As emo√ß√Ķes fortes s√£o fracas e as pr√≥prias fraquezas revelam-se mais fortes. Os amantes, esses, s√£o igualmente namorados da monotonia e amigos √≠ntimos da disciplina. O que est√° fora de controlo causa-lhes confus√£o, e afecta-lhes uma certa zona do c√©rebro, mas quase nunca lhes toca o cora√ß√£o. O amor devia ser sonhado e devia faz√™-los voar; em vez disso √© planeado, e quanto muito, f√°-los pensar.
Sobre o amor n√£o se tem controlo. √Č um sentimento que nos domina, que nos sufoca e que nos mata. Depois d√°-nos um pouco vida. No amor queremos viver, mas pouco nos importa morrer e estamos sempre dispostos a ir mais al√©m. Deixamo-nos cair em tenta√ß√£o, e n√£o nos livramos do mal, embora procuremos o bem. No amor tamb√©m se tem f√©, mas n√£o se conhecem ora√ß√Ķes: amamos porque cremos, porque desejamos e porque sabemos que o amor existe. Amamos sem saber se somos amados, e por isso podemos acabar desolados, isolados e deprimidos. Que se lixe! O amor n√£o √© justo,

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Serenidade Desperta

Tenho tanta coisa para fazer. Pois, mas aquilo que faz, f√°-lo com qualidade? Conduzir at√© ao emprego, falar com os clientes, trabalhar no computador, fazer recados, lidar com os incont√°veis afazeres que preenchem a sua vida quotidiana – at√© que ponto √© que se entrega √†s coisas que faz? E realiza-as com entrega, sem resist√™ncia, ou, pelo contr√°rio, sem se entregar e resistindo √† ac√ß√£o? √Č isto que determina o sucesso na vida e n√£o a dose de esfor√ßo que se despende. O esfor√ßo implica stresse e desgaste f√≠sico, implica a necessidade absoluta de atingir um determinado objectivo ou de alcan√ßar um determinado resultado.

√Č capaz de detectar dentro de si at√© a mais pequena sensa√ß√£o de n√£o quererestar a fazer aquilo que est√° a fazer? Isso √© uma nega√ß√£o da vida e, desse modo, n√£o ser√° poss√≠vel obter resultados verdadeiramente bons.

Se for capaz de descobrir aquela sensa√ß√£o, ser√° que tamb√©m consegue abdicar dela e entregar–se completamente √†quilo que faz?

‚ÄúFazer uma coisa de cada vez”, foi assim que um Mestre Zen definiu o esp√≠rito da filosofia Zen.

Fazer uma coisa de cada vez significa estar nela por inteiro, concentrar nela toda a sua atenção.

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Todo o Génio é um Degenerado

Sendo certo que todo o g√©nio √© um degenerado (nem superior, nem inferior, porque h√° s√≥ degenerados de uma esp√©cie, mau grado a absurda escapat√≥ria dos psiquiatras modern style), cert√≠ssimo √©, sem d√ļvida, que entre os g√©nios, os da intelig√™ncia assumem um relevo m√°ximo de degenera√ß√£o. Um chefe pol√≠tico, um grande general, s√£o, no que g√©nios, degenerados, porque s√£o desvios do tipo normal e originais na sua ac√ß√£o e na sua individualidade. Mas s√£o normais porque s√£o homens de ac√ß√£o, porque vivem no meio da vida, e n√£o se pode fazer isso sem uma certa adapta√ß√£o a ela. O mais revolucion√°rio dos g√©nios pol√≠ticos tem de se adpatar ao que quer destruir para o poder destruir. Tem de mergulhar na vida que quer substituir para poder agir sobre ela.
Não assim na esfera da inteligência e da emoção intelectualizada Рna da filosofia e na da arte, digo. Sobre ser original, o artista, o pensador é um inadaptado às formas normais da vida, por isso que nem age no sentido da actividade normal (porque é original), nem age no que age, age vulgarmente (porque, em lugar de ter uma acção vulgar, orienta a sua vida sobretudo para a sensação e para a inteligência e não para a acção,

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Emoção e Poesia

Quem quer que seja de algum modo um poeta sabe muito bem qu√£o mais f√°cil √© escrever um bom poema (se os bons poemas se acham ao alcance do homem) a respeito de uma mulher que lhe interessa muito do que a respeito de uma mulher pela qual est√° profundamente apaixonado. A melhor esp√©cie de poema de amor √©, em geral, escrita a respeito de uma mulher abstracta. Uma grande emo√ß√£o √© por demais ego√≠sta; absorve em si pr√≥pria todo o sangue do esp√≠rito, e a congest√£o deixa as m√£os demasiado frias para escrever. Tr√™s esp√©cies de emo√ß√Ķes produzem grande poesia – emo√ß√Ķes fortes, por√©m r√°pidas, captadas para a arte t√£o logo passaram; emo√ß√Ķes fortes e profundas ao serem lembradas muito tempo depois; e emo√ß√Ķes falsas, isto √©, emo√ß√Ķes sentidas no intelecto. N√£o a insinceridade, mas sim, uma sinceridade traduzida, √© a base de toda a arte.
O grande general que pretende ganhar uma batalha para o império do seu país e para a história do seu povo não deseja Рnão pode desejar ter muitos dos seus soldados assassinados (mortos). Contudo, uma vez que tenha penetrado na contemplação da sua estratégia, escolherá (sem um pensamento para os seus homens) o golpe melhor,

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As Janelas da Memória

A mem√≥ria humana n√£o √© lida globalmente, como a mem√≥ria dos computadores, mas por √°reas espec√≠ficas a que chamo de janelas. Atrav√©s das janelas vemos, reagimos, interpretamos… Quantas vezes tentamos lembrar-nos de algo que n√£o nos vem √† ideia? Nesse caso, a janela permaneceu fechada ou inacess√≠vel.

A janela da mem√≥ria √©, portanto, um territ√≥rio de leitura num determinado momento existencial. Em cada janela pode haver centenas ou milhares de informa√ß√Ķes e experi√™ncias. O maior desafio de uma mulher, e do ser humano em geral, √© abrir o m√°ximo de janelas em cada situa√ß√£o. Se ela abre diversas janelas, poder√° dar respostas inteligentes. Se as fecha, poder√° dar respostas inseguras, med√≠ocres, est√ļpidas, agressivas. Somos mais instintivos e animalescos quando fechamos as janelas, e mais racionais quando as abrimos.

O mundo dos sentimentos possui as chaves para abrir as janelas. O medo, a tens√£o, a ang√ļstia, o p√Ęnico, a raiva e a inveja podem fech√°-las. A tranquilidade, a serenidade, o prazer e a afetividade podem abri-las. A emo√ß√£o pode fazer os intelectuais reagirem como crian√ßas agressivas e as pessoas simples reagirem como elegantes seres humanos. Sob um foco de tens√£o, como perdas e contrariedades, uma mulher serena pode ficar irreconhec√≠vel.

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A Origem do Medo

A condição psicológica do medo está divorciada de qualquer perigo concreto e real. Surge sob diversas formas: desconforto, preocupação, ansiedade, nervosismo, tensão, temor, fobia, etc. Este tipo de medo psicológico é sempre algo que poderá acontecer e não algo que esteja a acontecer no momento. O leitor está aqui e agora, enquanto a sua mente se encontra no futuro. Este facto gera um hiato de ansiedade. Além disso, se o leitor se identificar com a sua mente e tiver perdido o contacto com o poder e a simplicidade do Agora, esse hiato de ansiedade acompanhá-lo-á constantemente.

A pessoa pode sempre lidar com o momento presente, mas não o consegue fazer com algo que é apenas uma projeção mental Рnão é possível lidar com o futuro.
E enquanto o leitor se identifica com a sua mente, o ego comanda a sua vida. Devido à natureza ilusória que lhe é característica e apesar dos mecanismos de defesa elaborados, o ego torna-se muito vulnerável e inseguro, vendo-se a si próprio constantemente sob ameaça. Este facto, a propósito, é o que acontece, mesmo que por fora o ego pareça muito confiante. Agora lembre-se de que uma emoção é a reação do corpo à mente.

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A Psicologia de Grupo

O indiv√≠duo num grupo est√° sujeito, atrav√©s da influ√™ncia deste, ao que com frequ√™ncia constitui uma profunda altera√ß√£o na sua actividade mental. A sua submiss√£o √† emo√ß√£o torna-se extraordinariamente intensificada, enquanto que a sua capacidade intelectual √© acentuadamente reduzida, com ambos os processos evidentemente dirigindo-se para uma aproxima√ß√£o com os outros indiv√≠duos do grupo; e esse resultado s√≥ pode ser alcan√ßado pela remo√ß√£o daquelas inibi√ß√Ķes aos instintos que s√£o peculiares a cada indiv√≠duo, e pela resigna√ß√£o deste √†quelas express√Ķes de inclina√ß√Ķes que s√£o especialmente suas. Aprendemos que essas consequ√™ncias, ami√ļde importunas, s√£o, at√© certo ponto pelo menos, evitadas por uma ¬ęorganiza√ß√£o¬Ľ superior do grupo, mas isto n√£o contradiz o fato fundamental da psicologia de grupo: as duas teses relativas √† intensifica√ß√£o das emo√ß√Ķes e √† inibi√ß√£o do intelecto nos grupos primitivos.

Um Eu Forte e Maduro

Precisamos de conhecer os papéis do Eu, que representa a capacidade de escolha. Entre esses papéis, o de ser autor da própria história, um protetor da mente, um jardineiro do território da emoção, um plantador de janelas light na memória da pessoa amada.

Discutir, gritar, impor ideias, não significa nem de longe ter um Eu forte, mas sim fraco. Dizer o que vem à mente, dizer sempre a verdade, nem sempre é a expressão de um Eu maduro, mas sim de alguém que não tem autocontrolo. Um Eu forte e maduro aquieta a sua ansiedade, protege a pessoa amada, pede desculpas sem medo, aponta primeiro o dedo a si próprio antes de falar dos erros do outro, repensa a sua história, exige menos e dá-se mais; não tem a necessidade neurótica de mudar as pessoas ao seu redor.

Saber Falar √†s Multid√Ķes

Longos discursos, agitar de punhos, socos na mesa, e resolu√ß√Ķes expressas com emo√ß√£o mas desligadas das condi√ß√Ķes objectivas, n√£o produzem ac√ß√£o de massas e podem provocar grande dano √† organiza√ß√£o e √† luta que servimos.
(…) H√° uma fase na vida de todo o reformador social em que ele troveja nas tribunas, principalmente para se livrar de informa√ß√£o mal digerida que se lhe acumulou na cabe√ßa, uma tentativa para impressionar as multid√Ķes, em vez de iniciar uma exposi√ß√£o calma e simples de princ√≠pios e ideias, cuja verdade universal se evidencia pela experi√™ncia pessoal e estudo mais aprofundado.

A (Má-)Emoção Controlada Pela Razão

H√° a ideia de que quando se concede √† raz√£o inteira liberdade ela destr√≥i todas as emo√ß√Ķes profundas. Esta opini√£o parece-me devida a uma concep√ß√£o inteiramente errada da fun√ß√£o da raz√£o na vida humana. N√£o √© objectivo da raz√£o gerar emo√ß√Ķes, embora possa ser parte da sua fun√ß√£o descobrir os meios de impedir que tais emo√ß√Ķes sejam um obst√°culo ao bem-estar. Descobrir os meios de dminuir o √≥dio e a inveja √© sem d√ļvida parte da fun√ß√£o da psicologia racional. Mas √© um erro supor que diminuindo essas paix√Ķes, diminuiremos ao mesmo tempo a intensidade das paix√Ķes que a raz√£o n√£o condena.
No amor apaixonado, na afei√ß√£o dos pais, na amizade, na benevol√™ncia, na devo√ß√£o √†s ci√™ncias ou √†s artes, nada h√° que a raz√£o deseje diminuir. O homem racional, quando sente essas emo√ß√Ķes, ficar√° contente por as sentir e nada deve fazer para diminuir a sua intensidade, pois todas elas fazem parte da verdadeira vida, isto √©, da vida cujo objectivo √© a felicidade, a pr√≥pria e a dos outros. Nada h√° de irracional nas paix√Ķes como paix√Ķes e muitas pessoas irracionais sentem s√≥mente as paix√Ķes mais triviais. Ningu√©m deve recear que ao optar pela raz√£o torne triste a vida.

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Sonhar é Preciso

Sem sonhos, as pedras do caminho tornam-se montanhas, os pequenos problemas s√£o insuper√°veis, as perdas s√£o insuport√°veis, as decep√ß√Ķes transformam-se em golpes fatais e os desafios em fonte de medo.
Voltaire disse que os sonhos e a esperan√ßa nos foram dados como compensa√ß√£o √†s dificuldades da vida. Mas precisamos de compreender que os sonhos n√£o s√£o desejos superficiais. Os sonhos s√£o b√ļssolas do cora√ß√£o, s√£o projectos de vida. Os desejos n√£o suportam o calor das dificuldades. Os sonhos resistem √†s mais altas temperaturas dos problemas. Renovam a esperan√ßa quando o mundo desaba sobre n√≥s.

John F. Kennedy disse que precisamos de seres humanos que sonhem o que nunca foram. Tem fundamento o seu pensamento, pois os sonhos abrem as janelas da mente, arejam a emoção e produzem um agradável romance com a vida.
Quem n√£o vive um romance com a sua vida ser√° um miser√°vel no territ√≥rio da emo√ß√£o, ainda que habite em mans√Ķes, tenha carros luxuosos, viaje em primeira classe nos avi√Ķes e seja aplaudido pelo mundo.

Precisamos de perseguir os nossos mais belos sonhos. Desistir é uma palavra que tem de ser eliminada do dicionário de quem sonha e deseja conquistar, ainda que nem todas as metas sejam atingidas.

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Os Supermercados

Os supermercados s√£o os pal√°cios dos pobres. N√£o s√£o s√≥ os azarentos e os mal alojados, os que ao longo das gera√ß√Ķes foram reduzindo os gastos da imagina√ß√£o, que frequentam e, de certo modo, vivem o supermercado, as chamadas grandes superf√≠cies. As grandes superf√≠cies com a sua √°rea iluminada e sempre em festa; a concentra√ß√£o dos prazeres correntes, como a alimenta√ß√£o e a imagem oferecida pelo cinema, satisfazem as pequenas ambi√ß√Ķes do quotidiano. N√£o h√° euforia mas h√° um sentimento de parentesco face √†s limita√ß√Ķes de cada um. A chuva e o calor s√£o poupados aos passeantes; a comida ligeira confina com a dieta dos adolescentes; h√° uma emo√ß√£o pr√≥pria que paira nas naves das grandes superf√≠cies. S√£o as catedrais da conveni√™ncia, d√£o a ilus√£o de que o sol quando nasce √© para todos e que a cultura e a seguran√ßa est√£o ao alcance das pequenas bolsas. N√£o h√° pol√≠cia, h√° uma paz de transeunte que a cidade j√° n√£o oferece.

O Desporto √© a Intelig√™ncia In√ļtil

O sport √© a intelig√™ncia in√ļtil manifestada nos movimentos do corpo. O que o paradoxo alegra no cont√°gio das almas, o sport aligeira na demonstra√ß√£o dos bonecos delas. A beleza existe, verdadeiramente, s√≥ nos altos pensamentos, nas grandes emo√ß√Ķes, nas vontades conseguidas. No sport – ludo, jogo, brincadeira – o que existe √© sup√©rfluo, como o que o gato faz antes de comer o rato que lhe h√°-de escapar. Ningu√©m pensa a s√©rio no resultado, e, enquanto dura o que desaparece, existe o que n√£o dura. H√° uma certa beleza nisso, como no domin√≥, e, quando o acaso proporciona o jogo acertado, a maravilha entesoura o corpo encostado do vencedor. Fica, no fim, e sempre virado para o in√ļtil, o inconseguido do jogo. Pueri ludunt, como no prim√°rio do latim…

Ao sol brilham, no seu breve movimento de gl√≥ria esp√ļria, os corpos juvenis que envelhecer√£o, os trajectos que, com o existirem, deixaram j√° de existir. Entardece no que vemos, como no que vimos. A Gr√©cia antiga n√£o nos afaga sen√£o intelectualmente. Ditosos os que naufragam no sacrif√≠cio da posse. S√£o comuns e verdadeiros. O sol das arenas faz suar os gestos dos outros. Os poetas cantam-nos antes que des√ßa todo o sol.

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Nenhuma √Čpoca Transmite a Outra a sua Sensibilidade

Nenhuma época transmite a outra a sua sensibilidade; transmite-lhe apenas a inteligência que teve dessa sensibilidade. Pela emoção somos nós; pela inteligência somos alheios. A inteligência dispersa-nos; por isso é através do que nos dispersa que nos sobrevivemos. Cada época entrega às seguintes apenas aquilo que não foi.

Um deus, no sentido pagão, isto é, verdadeiro, não é mais que a inteligência que um ente tem de si próprio, pois essa inteligência, que tem de si próprio, é a forma impessoal, e por isso ideal, do que é. Formando de nós um conceito intelectual, formamos um deus de nós próprios. Raros, porém, formam de si próprios um conceito intelectual, porque a inteligência é essencialmente objectiva. Mesmo entre os grandes génios são raros os que existiram para si próprios com plena objectividade.

Viver é pertencer a outrem. Morrer é pertencer a outrem. Viver e morrer são a mesma coisa. Mas viver é pertencer a outrem de fora, e morrer é pertencer a outrem de dentro. As duas coisas assemelham-se, mas a vida é o lado de fora da morte. Por isso a vida é a vida e a morte a morte, pois o lado de fora é sempre mais verdadeiro que o lado de dentro,

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A Verdadeira Religião é Individual e não Social

√Č poss√≠vel que a religi√£o da solid√£o seja de certa maneira superior √† religi√£o social e formalizada. O que √© certo √© que ela apareceu mais tarde no decurso da evolu√ß√£o. Al√©m disso, os fundadores das religi√Ķes e seitas hist√≥ricamente mais importantes t√™m sido todos, com excep√ß√£o de Conf√ļcio, solit√°rios. Talvez seja verdade dizer-se que, quanto mais poderosa e original for uma mente, mais ela se inclinar√° para a religi√£o da solid√£o, e menos ela ser√° atra√≠da no sentido da religi√£o social ou impressionada pelas suas pr√°ticas. Pela sua pr√≥pria superioridade a religi√£o da solid√£o est√° condenada a ser a religi√£o das minorias. Para a grande maioria dos homens e das mulheres a religi√£o ainda significa, o que sempre significou, religi√£o social formalizada, um assunto de rituais, observ√Ęncias mec√Ęnicas, emo√ß√£o das massas. Perguntem a qualquer dessas pessoas o que √© a verdadeira ess√™ncia da religi√£o, e eles responder√£o que ela consiste na devida observ√Ęncia de certas formalidades, na repeti√ß√£o de certas frases, na reuni√£o em certos tempos e em certos lugares, da realiza√ß√£o por meios apropriados de emo√ß√Ķes comunais.

O Provincianismo Português (II)

Se fosse preciso usar de uma s√≥ palavra para com ela definir o estado presente da mentalidade portuguesa, a palavra seria “provincianismo”. Como todas as defini√ß√Ķes simples esta, que √© muito simples, precisa, depois de feita, de uma explica√ß√£o complexa. Darei essa explica√ß√£o em dois tempos: direi, primeiro, a que se aplica, isto √©, o que deveras se entende por mentalidade de qualquer pa√≠s, e portanto de Portugal; direi, depois, em que modo se aplica a essa mentalidade.
Por mentalidade de qualquer pa√≠s entende-se, sem d√ļvida, a mentalidade das tr√™s camadas, organicamente distintas, que constituem a sua vida mental ‚ÄĒ a camada baixa, a que √© uso chamar povo; a camada m√©dia, a que n√£o √© uso chamar nada, excepto, neste caso por engano, burguesia; e a camada alta, que vulgarmente se designa por escol, ou, traduzindo para estrangeiro, para melhor compreens√£o, por elite.
O que caracteriza a primeira camada mental é, aqui e em toda a parte, a incapacidade de reflectir. O povo, saiba ou não saiba ler, é incapaz de criticar o que lê ou lhe dizem. As suas ideias não são actos críticos, mas actos de fé ou de descrença, o que não implica, aliás,

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Falar com Coração

N√£o √© poss√≠vel dominares as palavras nem, por exemplo, uma qualquer audi√™ncia que tenhas √† frente se n√£o tiveres um total e absoluto conhecimento a teu pr√≥prio respeito, se n√£o confiares em ti e se n√£o tiveres como h√°bito dar voz aos teus sentidos. Vai sempre soar a falso. N√£o √© poss√≠vel agarrares uma plateia nem mexer com as emo√ß√Ķes de quem te ouve se n√£o te vulnerabilizares, se n√£o te assumires como o ser humano que √©s e se tudo o que disseres j√° tiver sido dito por outros. Vais fazer figura de parvo. E n√£o esperes nunca sensibilizar ou gerar identifica√ß√£o em algu√©m se n√£o falares sobre ti mesmo, se n√£o te expuseres ao erro e se n√£o partilhares o segredo que tu pr√≥prio desvendaste para superar um qualquer problema. Vais ver as pessoas a bocejar. As pessoas precisam de saber que n√£o s√£o as √ļnicas a ter problemas por resolver, que h√° mais gente em busca de si mesma, com crises existenciais e que errar √©, afinal, absolutamente humano, assim como desvendar solu√ß√Ķes para tudo. √Č isso que gera identifica√ß√£o, √© isso que fortalece os la√ßos entre as pessoas e √© isso que te torna num bom comunicador.

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A Memória é Como o Ventre da Alma

Encerro também na memória os afectos da minha alma, não da maneira como os sente a própria alma, quando os experimenta, mas de outra muito diferente, segundo o exige a força da memória.
N√£o √© isto para admirar, tratando-se do corpo: porque o esp√≠rito √© uma coisa e o corpo √© outra. Por isso, se recordo, cheio de gozo, as dores passadas do corpo, n√£o √© de admirar. Aqui, por√©m, o esp√≠rito √© a mem√≥ria. Efectivamente, quando confiamos a algu√©m qualquer neg√≥cio, para que se lhe grave na mem√≥ra, dizemos-lhe: ¬ęv√™ l√°, grava-o bem no teu esp√≠rito¬Ľ. E quando nos esquecemos, exclamamos: ¬ęn√£o o conservei no esp√≠rito¬Ľ, ou ent√£o: ¬ęescapou-se-me do esp√≠rito¬Ľ; portanto, chamamos esp√≠rito √† pr√≥pria mem√≥ria.
Sendo assim, porque será que, ao evocar com alegria as minhas tristezas passadas, a alma contém a alegria e a memória a tristeza, de modo que a minha alma se regozija com a alegria que em si tem e a memória se não entristece com a tristeza que em si possui? Será porque não faz parte da alma? Quem se atreverá a afirmá-lo?
N√£o h√° d√ļvida que a mem√≥ria √© como o ventre da alma. A alegria, por√©m, e a tristeza s√£o o seu alimento,

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Aprender a Ser Feliz

√Č imposs√≠vel exigir a estabilidade plena da energia ps√≠quica, pois ela organiza-se, desorganiza-se (caos) e reorganiza-se continuamente. N√£o existem pessoas que sejam sempre calmas, alegres e serenas. Nem mesmo existem pessoas ansiosas, irritadas e incoerentes permanentemente. Ningu√©m √© emocionalmente est√°tico, a n√£o ser que esteja morto. Devemos reagir e comportar-nos segundo determinado padr√£o para n√£o sermos inst√°veis, mas este padr√£o reflectir√° sempre uma emo√ß√£o flutuante.

A pessoa mais tranquila perderá a paciência. A pessoa mais ansiosa terá momentos de calma. Só os computadores são rigorosamente estáveis. Por isso, eles são lógicos, programáveis e, portanto, de baixa complexidade. Nós, pelo contrário, somos tão complexos que a nossa disposição, humor e interesses mudam com frequência. Devemos estar preparados para enfrentar os problemas internos e externos. Devemos ter consciência de que os problemas nunca vão desaparecer nesta sinuosa e bela existência. Podemos evitar alguns, outros porém são imprevisíveis.

Mas os problemas existem para serem resolvidos e n√£o para nos controlarem. Infelizmente, muitos s√£o controlados por eles. A melhor maneira de ter dignidade diante das dificuldades e dos sofrimentos existenciais √© extrair li√ß√Ķes deles. Caso contr√°rio, o sofrimento √© in√ļtil. Ser feliz, do ponto de vista da psicologia, n√£o √© ter uma vida perfeita,

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As Influências no Estado de Espírito

Agora estou disposto a fazer tudo, agora a nada fazer; o que me √© um prazer neste momento em alguma outra vez me ser√° um esfor√ßo. Acontecem em mim mil agita√ß√Ķes desarrazoadas e acidentais. Ou o humor melanc√≥lico me domina, ou o col√©rico; e, com a sua autoridade pessoal, neste momento a tristeza predomina em mim, neste momento a alegria. Quando pego em livros, terei captado em determinada passagem qualidades excelentes e que ter√£o tocado a minha alma; quando uma outra vez volto a deparar com ela, por mais que a vire e revire, por mais que a dobre e apalpe, √© para mim uma massa desconhecida e informe.
Mesmo nos meus escritos nem sempre reencontro o sentido do meu pensamento anterior: n√£o sei o que quis dizer, e ami√ļde me esfalfo corrigindo e dando-lhe um novo sentido, por haver perdido o primeiro, que valia mais. N√£o fa√ßo mais que ir e vir: o meu julgamento nem sempre caminha para a frente; ele flutua, vagueia, Como um barquinho fr√°gil surpreendido no vasto mar por uma tempestade violenta (Catulo).
Muitas vezes (como habitualmente me advém fazer), tendo tomado para defender, por exercício e por diversão, uma opinião contrária à minha,

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