Textos sobre Emo√ß√Ķes

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Textos de emo√ß√Ķes escritos por poetas consagrados, fil√≥sofos e outros autores famosos. Conhe√ßa estes e outros temas em Poetris.

Felicidade Interiorizada

¬ęPergunta-me onde, neste mundo, se pode encontrar a felicidade?¬Ľ Depois de numerosas experi√™ncias, convenci-me que ela reside apenas na satisfa√ß√£o em rela√ß√£o a n√≥s pr√≥prios. As paix√Ķes n√£o nos conseguem comunicar esse contentamento; desejamos sempre o imposs√≠vel – o que obtemos nunca nos satisfaz. Penso que as pessoas dotadas de uma s√≥lida virtude devem possuir uma grande por√ß√£o dessa satisfa√ß√£o, que me parece imprescind√≠vel para a felicidade; eu, no entanto, como n√£o me sinto suficientemente seguro para me satisfazer comigo pr√≥prio, dessa forma, procuro apoiar-me na verdadeira satisfa√ß√£o que comunica o trabalho.
Este, comunica-nos um bem real e aumenta a nossa indiferen√ßa em rela√ß√£o aos prazeres que s√£o s√≥ de nome e com os quais as pessoas de sociedade se t√™m de contentar. Eis, minha querida amiga, a minha modesta filosofia – a qual, sobretudo quando me encontro bem de sa√ļde, √© de efeito seguro. Isto, contudo, n√£o nos deve afastar das pequenas distrac√ß√Ķes que nos podem ocupar de vez em quando: um pequeno caso sentimental, de circunst√Ęncia, a visita a um belo pa√≠s ou as viagens, de modo geral, podem deixar na nossa mem√≥ria encantadores tra√ßos. Recordamo-nos mais tarde de todas estas emo√ß√Ķes, quando nos encontramos longe ou n√£o conseguimos encontrar outras,

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Suportar a Adversidade

Das ocorr√™ncias indesejadas, falando de maneira gen√©rica, algumas acarretam naturalmente dor e vexa√ß√£o, mas, na maior parte dos casos, √© falsa a no√ß√£o que nos habituou a nos enfadarmos com elas. Como espec√≠fico contra este tipo de ocorr√™ncia, √© conveniente ter √† m√£o um dito de Menandro: ¬ęNada te aconteceu de facto enquanto n√£o te importares muito com o ocorrido¬Ľ. Isso quer dizer que n√£o h√° motivo para o teu corpo e a tua alma se mostrarem afectados se, por exemplo, o teu pai √© de baixa extrac√ß√£o, a tua mulher cometeu adult√©rio, tu mesmo te viste privado de alguma coroa honor√≠fica ou privil√©gio especial, pois nada disso te impede de prosperar de corpo ou alma.
Para a primeira categoria – doen√ßas, priva√ß√Ķes, a morte de amigos ou filhos -, que parece acarretar naturalmente dor e vexa√ß√£o, esta linha de Eur√≠pedes deve estar √† m√£o: “Ai! por que ai? √Č o quinh√£o da mortalidade que nos coube”. Nenhum outro argumento l√≥gico pode romper de forma t√£o efectiva a espiral descendente das nossas emo√ß√Ķes, do que a reflex√£o de que somente atrav√©s da compuls√£o comum da Natureza, um dos elementos da sua constitui√ß√£o f√≠sica, √© que o homem se torna vulner√°vel √† Fortuna;

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Evitar o Sofrimento

Privamo-nos para mantermos a nossa integridade, poupamos a nossa sa√ļde, a nossa capacidade de gozar a vida, as nossas emo√ß√Ķes, guardamo-nos para alguma coisa sem sequer sabermos o que essa coisa √©. E este h√°bito de reprimirmos constantemente as nossas puls√Ķes naturais √© o que faz de n√≥s seres t√£o refinados. Porque √© que n√£o nos embriagamos? Porque a vergonha e os transtornos das dores de cabe√ßa fazem nascer um desprazer mais importante que o prazer da embriaguez. Porque √© que n√£o nos apaixonamos todos os meses de novo? Porque, por altura de cada separa√ß√£o, uma parte dos nossos cora√ß√Ķes fica desfeita. Assim, esfor√ßamo-nos mais por evitar o sofrimento do que na busca do prazer.

As Três Espécies de Portugueses

Há três espécies de Portugal, dentro do mesmo Portugal; ou, se se preferir, há três espécies de português. Um começou com a nacionalidade: é o português típico, que forma o fundo da nação e o da sua expansão numérica, trabalhando obscura e modestamente em Portugal e por toda a parte de todas as partes do Mundo. Este português encontra-se, desde 1578, divorciado de todos os governos e abandonado por todos. Existe porque existe, e é por isso que a nação existe também.

Outro √© o portugu√™s que o n√£o √©. Come√ßou com a invas√£o mental estrangeira, que data, com verdade poss√≠vel, do tempo do Marqu√™s de Pombal. Esta invas√£o agravou-se com o Constitucionalismo, e tornou-se completa com a Rep√ļblica. Este portugu√™s (que √© o que forma grande parte das classes m√©dias superiores, certa parte do povo, e quase toda a gente das classes dirigentes) √© o que governa o pa√≠s. Est√° completamente divorciado do pa√≠s que governa. √Č, por sua vontade, parisiense e moderno. Contra sua vontade, √© est√ļpido.

Há um terceiro português, que começou a existir quando Portugal, por alturas de El-Rei D. Dinis, começou, de Nação, a esboçar-se Império. Esse português fez as Descobertas,

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Amo-te, Portugal

Portugal,

Estou há que séculos para te escrever. A primeira vez que dei por ti foi quando dei pela tua falta. Tinha 19 anos e estava na Inglaterra. De repente, deixei de me sentir um homem do mundo e percebi, com tristeza, que era apenas mais um dos teus desesperados pretendentes.

Apaixonaste-me sem que eu desse por isso. Deve ter sido durante os meus primeiros 18 anos de vida, quando estava em Portugal e só queria sair de ti. Insinuaste-te. Não fui eu que te escolhi. Quando descobri que te amava, já era tarde de mais.

Eu n√£o queria ficar preso a ti; queria correr mundo. Passei a querer correr para ti – e foi para ti que corri, mal pude.

Teria preferido chegar √† conclus√£o que te amava por uma lenta acumula√ß√£o de raz√Ķes, emo√ß√Ķes e vantagens. Mas foi ao contr√°rio. Apaixonei-me de um dia para o outro, sem qualquer esp√©cie de aviso, e desde esse dia, que rem√©dio, l√° fui acumulando, lentamente, as raz√Ķes por que te amo, retirando-as uma a uma dentre todas as outras raz√Ķes, para n√£o te amar, ou n√£o querer saber de ti.

Custou-me justificar o meu amor por ti.

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Poupar a Vontade

Em compara√ß√£o com o comum dos homens, poucas coisas me atingem, ou, dizendo melhor, me prendem; pois √© razo√°vel que elas atinjam, contanto que n√£o nos possuam. Tenho grande zelo em aumentar pelo estudo e pela reflex√£o esse privil√©gio de insensibilidade, que em mim √© naturalmente muito saliente. Desposo – e consequentemente me apaixono por – poucas coisas. A minha vis√£o √© clara, mas detenho-a em poucos objectos; a sensibilidade, delicada e male√°vel. Mas a apreens√£o e aplica√ß√£o, tenho-a dura e surda: dificilmente me envolvo. Tanto quanto posso, emprego-me todo em mim; por√©m mesmo nesse objecto eu refrearia e suspenderia de bom grado a minha afei√ß√£o para que ela n√£o se entregasse por inteiro, pois √© um objecto que possuo por merc√™ de outr√©m e sobre o qual a fortuna tem mais direito do que eu. De maneira que at√© a sa√ļde, que tanto estimo, ser-me-ia preciso n√£o a desejar e n√£o me dedicar a ela t√£o desenfreadamente a ponto de achar insuport√°veis as doen√ßas. Devemos moderar-nos entre o √≥dio e o amor √† voluptuosidade; e Plat√£o receita um caminho mediano de vida entre ambos.
Mas √†s paix√Ķes que me distraem de mim e me prendem alhures, a essas certamente me oponho com todas as minhas for√ßas.

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A Racionaliza√ß√£o das Emo√ß√Ķes

O ponto de vista feminino tem sido muito mais difícil de expressar que o masculino. Se assim me posso exprimir, o ponto de vista feminino não passa pela racionalização por que o intelecto do homem faz passar os seus sentimentos. A mulher pensa emocionalmente; a sua visão baseia-se na intuição. Por exemplo, ela pode ter um sentimento em relação a qualquer coisa que nem sequer é capaz de articular.
A princ√≠pio, achei extremamente dif√≠cil descrever como me sentia. Por√©m, se fazemos psican√°lise, a quest√£o √© sempre: ¬ęComo √© que se sentiu em rela√ß√£o a isso?¬Ľ e n√£o ¬ęO que √© que pensou?¬Ľ E como muito frequentemente a mulher n√£o deu o segundo passo, que √© explicar a sua intui√ß√£o – por que passos l√° chegou, o a-b-c daquilo – ela n√£o consegue ser t√£o articulada.
Ora eu tentei fazer isso (quer tenha conseguido quer n√£o), e, porque estava a escrever um di√°rio que pensava que ningu√©m leria, consegui anotar o que sentia acerca das pessoas ou o que sentia acerca do que via sem o segundo processo. O segundo processo veio atrav√©s da psican√°lise, que era igualmente um m√©todo de comunicar com o homem em termos de uma racionaliza√ß√£o das nossas emo√ß√Ķes de modo que pare√ßam fazer sentido ao intelecto masculino.

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Onde Começa a Felicidade

¬ęAurea mediocritas¬Ľ – dizia Hor√°cio, um dos poetas latinos que faz a base da nossa civiliza√ß√£o. As palavras com o tempo corrompem-se, alteram-se, adulteram-se. ¬ęMediocritas¬Ľ em portugu√™s deu mediocridade, tal como ¬ęparvus¬Ľ deu parvo, ao contr√°rio do castelhano em que apenas significa pequeno, ou ¬ęsinistra¬Ľ em italiano quer apenas dizer esquerda.

A ¬ęAurea mediocritas¬Ľ que cantava Hor√°cio era a doce e suave mediania entre as emo√ß√Ķes, um equil√≠brio quase buc√≥lico na vida a ter e nos neg√≥cios a ter na vida. N√£o, Hor√°cio, romano educado, n√£o era adepto dos desportos radicais.
Equil√≠brio entre o qu√™? Distorcendo Hor√°cio, a dois mil anos de dist√Ęncia, podemos dizer, talvez, equil√≠brio entre o sonho e a realidade. A felicidade n√£o pode ser s√≥ o que h√°, sen√£o apodrecemos, mas tamb√©m n√£o pode ser s√≥ o que desejamos, sen√£o ficamos com uma neurose de tanto ansiar pelo que h√°-de vir.

O resto √© com cada qual. Alguns gostam da felicidade bovina de n√£o pensar muito, outros gostam de estar sozinhos no deserto, outros ficam felizes com a desgra√ßa alheia. Estes tr√™s exemplos s√£o, c√° para mim, desgra√ßados, mas o que sei eu dos outros? √Č por n√£o saber nada dos outros que escrevo hist√≥rias sobre os outros.

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Leia, Ouça, Veja, mas sobretudo, Pense

Se grandes inven√ß√Ķes ou descobertas, como o fogo, a roda ou a alavanca, se fizeram antes que o homem fosse, historicamente, capaz de escrever, tamb√©m se p√Ķe como fora de d√ļvida que mais rapidamente se avan√ßou quando foi poss√≠vel fixar intelig√™ncia em escrita, quando o saber se p√īde transmitir com maior fidelidade do que oralmente, quando biblioteca, em qualquer forma, foi testamento do passado e base de arranque para o futuro. A livro se veio juntar arquivo, para o que mais ligeiro se afigurava; e fora de bibliotecas ou arquivos ficaram os milh√Ķes de p√°ginas de discorrer ou emo√ß√£o humana que mais ligeiras pareceram ainda, ou menos duradouras. Escrevendo ou lendo nos unimos para al√©m do tempo e do espa√ßo, e os limitados bra√ßos se p√Ķem a abra√ßar o mundo; a riqueza de outros nos enriquece a n√≥s. Leia.
Milh√Ķes de homens, por√©m, no mundo actual est√£o incapacitados de escrever e de ler, muito menos porque faltam m√©todos e meios do que incitamento que os levante acima do seu t√£o dif√≠cil quotidiano e vontade de quem mais pode de que seus reais irm√£os mais dependam de si pr√≥prios do que de exteriores e quase sempre enganadoras salva√ß√Ķes. Mais se comunica falando do que de qualquer outra forma;

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A Arte de Representar

A base da representa√ß√£o √© a falsidade. A arte do ator consiste em servir-se do drama do autor para mostrar por meio dele a sua capacidade de interpreta√ß√£o. A pe√ßa √© como uma barra onde o actor mostra as suas habilidades gin√°sticas. √Č apenas limitado pelas condi√ß√Ķes necess√°rias de uma barra: pode fazer com ela apenas um n√ļmero limitado de coisas, mas pode fazer de mil formas individuais.
A representa√ß√£o, repito, tem todo o atractivo de uma falsifica√ß√£o. Todos adoramos um falsificador. √Č um sentimento muito humano e completamente instintivo. Todos adoramos a trapa√ßa e a imita√ß√£o. A representa√ß√£o une e intensifica, por meio do car√°cter material e vital das suas manifesta√ß√Ķes, todos os baixos instintos do instinto art√≠stico ‚ÄĒ o instinto do enigma, o instinto do trap√©zio (…). √Č popular e apreciado por estas raz√Ķes, ou antes, por esta raz√£o.
A sede de gl√≥ria do artista √© feita carne na sede de aplauso do actor. Todo o aparecimento em p√ļblico √© baixo. Todas as assembleias s√£o multid√Ķes, e se n√£o suadas de corpo, pelo menos suadas de emo√ß√Ķes.
Todos os esp√≠ritos grosseiros adoram falar. Ser falador √© j√° por si vulgar. A √ļnica coisa que torna a verbosidade interessante √© a profanidade e a obscenidade,

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Os Cl√°ssicos da Literatura

As emo√ß√Ķes que a literatura suscita s√£o talvez eternas, mas os meios devem variar constantemente, mesmo que lligeiramente, para n√£o perder a sua virtude. Desgastam-se √† medida que o leitor os reconhece. Da√≠ o perigo de afirmar que existem obras cl√°ssicas que o ser√£o para sempre.
Cada qual descr√™ da sua arte e dos seus artif√≠cios. Eu, que me resignei a p√īr em d√ļvida a indefinida dura√ß√£o de Voltaire ou de Shakespeare, acredito (nesta tarde de um dos √ļltimos dias de 1965) na de Schopenhauer e na de Berkeley.
Cl√°ssico n√£o √© um livro (repito-o) que possui necessariamente tais ou tais m√©ritos. √Č um livro que as gera√ß√Ķes dos homens, motivadas por raz√Ķes diversas, l√™em com pr√©vio fervor e com uma misteriosa lealdade.

A Desvantagem da Sabedoria

A sua inteligência estorvava-o. Que podia esperar da sabedoria e das suas cinco propriedades?
Primeiro, ele saberia como tratar os problemas dif√≠ceis ligados √† conduta humana e ao sentido da vida. Mas isso n√£o era priorit√°rio para ningu√©m, iam ach√°-lo desalmado e p√īr-lhe toda a esp√©cie de obst√°culos pela frente.
Segundo, a sabedoria exprime uma qualidade superior do conhecimento. Antecipa a avalia√ß√£o das situa√ß√Ķes, por tudo e nada reanima a aten√ß√£o dos outros com os seus conselhos. Depressa √© tratada como importuna e ter√° que recuar ao abrigo da frivolidade.
Terceiro, a sabedoria √© moderada e v√™ as coisas em profundidade. √Č, portanto, inimiga do ju√≠zo f√°cil e das paix√Ķes que s√£o requestadas para dar emo√ß√£o √†s exist√™ncias f√ļteis e cinzentas.
Quarto, a sabedoria é exercida tendo em vista o bem-estar da humanidade. Tem, por isso, mau nome em qualquer publicidade que faz vender produtos de grande lucro, como a guerra, o amor e as máquinas.
Quinto, finalmente: a sabedoria é reconhecida como valor estável pela maioria da população, o que é nocivo para o envolvimento dessa mesma população em qualquer campanha, seja de poder ou de ganho de negócios.
Enfim, ele teria que formar-se e esquecer os seus sonhos de grandeza,

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N√£o Sabemos Ler o Mundo

Falamos em ler e pensamos apenas nos livros, nos textos escritos. O senso comum diz que lemos apenas palavras. Mas a ideia de leitura aplica-se a um vasto universo. N√≥s lemos emo√ß√Ķes nos rostos, lemos os sinais clim√°ticos nas nuvens, lemos o ch√£o, lemos o Mundo, lemos a Vida. Tudo pode ser p√°gina. Depende apenas da inten√ß√£o de descoberta do nosso olhar. Queixamo-nos de que as pessoas n√£o l√™em livros. Mas o deficit de leitura √© muito mais geral. N√£o sabemos ler o mundo, n√£o lemos os outros.

Vale a pena ler livros ou ler a Vida quando o acto de ler nos converte num sujeito de uma narrativa, isto é, quando nos tornamos personagens.

A Literatura é a Mais Ameaçada das Formas de Arte

Justamente porque a literatura se funda genericamente na ideia, ela √© a mais amea√ßada das formas de arte, para l√° do que sabemos da sua aparente maior dura√ß√£o. Ou portanto a mais equ√≠voca. Ou a mais mortal. Porque nas outras artes, a ideia √© a nossa tradu√ß√£o do seu sil√™ncio, o modo de uma emo√ß√£o ser dita ou seja transaccion√°vel, um modo irresist√≠vel de explicar, uma forma afinal de dominarmos o que nos domina, porque nomear √© reduzir ao nosso poder aquilo que se nomeia. Mas a forma de arte n√£o discursiva permanece intacta ao nosso nomear. A literatura, por√©m, √© nesse nomear que come√ßa. Na rela√ß√£o da emo√ß√£o com a palavra que a diz, o seu movimento √© inverso do que acontece com a m√ļsica ou a pintura. A emo√ß√£o de um quadro resolve-se numa palavra terminal. Mas a literatura parte-se dessa palavra para se chegar √° emo√ß√£o. Assim pois a ¬ęideia¬Ľ √© o seu elemento nuclear, ainda que uma associa√ß√£o imprevis√≠vel de palavras a disfarce.

A Necessidade da Compaix√£o

Arrebatavam-me os espect√°culos teatrais, cheios de imagens das minhas mis√©rias e de alimento pr√≥prio para o fogo das minhas paix√Ķes. Mas porque quer o homem condoer-se, quando presenceia cenas dolorosas e tr√°gicas, se de modo algum deseja suport√°-las? Todavia, o espectador anseia por sentir esse sofrimento que, afinal, para ele constitui um prazer. Que √© isto sen√£o rematada loucura? Com efeito, tanto mais cada um se comove com tais cenas quanto menos curado se acha de tais afectos (delet√©rios). Mas ao sofrimento pr√≥prio chamamos ordinariamente desgra√ßa, e √† comparticipa√ß√£o das dores alheias, compaix√£o. Que compaix√£o √© essa em assuntos fict√≠cios e c√©nicos, se n√£o induz o espectador a prestar aux√≠lio, mas somente o convida √† ang√ļstia e a comprazer o dramaturgo na propor√ß√£o da dor que experimenta? E se aquelas trag√©dias humanas, antigas ou fingidas, se representam de modo a n√£o excitarem a compaix√£o, e espectador retira-se enfastiado e criticando. Pelo contr√°rio, se se comove, permanece atento e chora de satisfa√ß√£o.
Amamos, portanto, as l√°grimas e as dores. Mas todo o homem deseja o gozo. Ora, ainda que a ningu√©m apraz ser desgra√ßado, apraz-nos contudo a ser compadecidos. N√£o gostaremos n√≥s dessas emo√ß√Ķes dolorosas pelo √ļnico motivo de que a compaix√£o √© companheira insepar√°vel da dor?

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N√£o Julgues Segundo a Soma

N√£o h√°s-de julgar segundo a soma. Vens-me dizer que n√£o h√° nada a esperar daqueles acol√°. S√£o grosseria, gosto do lucro, ego√≠smo, aus√™ncia de coragem, fealdade. Mas se me podes falar assim das pedras, as quais s√£o rudeza, peso morno e espessura, j√° o n√£o podes daquilo que tiras das pedras: est√°tua ou templo. Quase nunca vi o ser comportar-se como o teriam feito prever as suas partes. Se pegares em vizinhos √† parte, vir√°s a concluir que cada um deles odeia a guerra e n√£o est√° disposto a abandonar o lar, porque ama os filhos e a esposa e as refei√ß√Ķes de anivers√°rio; nem a derramar o sangue, porque √© bom, d√° de comer ao c√£o e faz car√≠cias ao burro, nem a roubar outrem, pois tu bem v√™s que ele apenas preza a sua pr√≥pria casa e puxa o lustro √†s suas madeiras e manda pintar as paredes e perfuma o jardim de flores.
E dir-me-√°s: ¬ęEles representam no mundo o amor √† paz…¬Ľ No entanto, o imp√©rio deles n√£o passa de uma grande terrina onde se vai cozendo a guerra. E a bondade deles e a do√ßura deles pelo animal ferido e a emo√ß√£o deles √† vista de flores n√£o passam de ingrediente de uma magia que prepara o tilintar das armas,

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A Alma Transforma-se em Sensa√ß√Ķes

Eis um efeito que me será contestado, e que só apresento aos homens que, digamos, são bastante infelizes para terem amado com paixão durante longos anos, dum amor contrariado por obstáculos invencíveis:
A vista de tudo o que √© extremamente belo, tanto na natureza como nas artes, traz-nos a recorda√ß√£o do que amamos, com a rapidez de um rel√Ęmpago. √Č que, pelo processo do ramo de √°rvore guarnecido de diamantes da mina de Salzburgo, tudo o que no mundo √© belo e sublime faz parte da beleza do que amamos, e esta vis√£o imprevista da felicidade enche-nos os olhos de l√°grimas num instante. √Č assim que o amor do belo e o amor se d√£o vida um ao outro.
Uma das infelicidades da vida √© que a ventura de ver a quem amamos e de lhe falar n√£o deixa recorda√ß√Ķes distintas. Aparentemente, a alma est√° demasiado perturbada pelas suas emo√ß√Ķes para poder prestar aten√ß√£o ao que as causa ou as acompanha. Transforma-se na pr√≥pria sensa√ß√£o. √Č talvez porque estes prazeres n√£o se podem renovar sempre que queremos, por simples for√ßa de vontade, que se renovam com tanta for√ßa, desde que um objecto qualquer nos venha tirar da medita√ß√£o consagrada √† mulher que amamos,

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O Abismo da Agitação

Uma vida demasiado repleta de agita√ß√£o √© uma vida esgotante que continuamente exige estimulantes mais fortes para provocar as emo√ß√Ķes que acabam por ser consideradas parte essencial do prazer. Uma pessoa habituada a demasiada agita√ß√£o √© compar√°vel √† que tem um desejo m√≥rbido de pimenta e acaba por ser incapaz de lhe apreciar o sabor numa quantidade que sufocaria qualquer outra pessoa. H√° sempre um certo aborrecimento quando se evita em demasia a agita√ß√£o, mas por sua vez a agita√ß√£o demasiada n√£o s√≥ enfraquece a sa√ļde como embota o gosto para toda a esp√©cie de prazeres, substituindo titila√ß√Ķes por profundas satisfa√ß√Ķes org√Ęnicas, habilidade por intelig√™ncia e impress√Ķes fugidias por beleza. N√£o pretendo exagerar os perigos da agita√ß√£o. Uma certa quantidade talvez seja saud√°vel, mas como em quase todas as outras coisas, o problema √© de ordem quantitativa. Uma dose demasiado pequena pode gerar desejos m√≥rbidos e o abuso pode produzir o esgotamento. Certa capacidade para suportar o aborrecimento √© pois essencial a uma vida feliz e isso era uma das coisas que deviam ser ensinadas aos jovens.

A Embriaguez e Seriedade da Juventude

Passada a adolesc√™ncia, √© poss√≠vel conhecer-se alegrias, mas n√£o j√° a embriaguez. Tapar os buracos das pe√ļgas uns com os outros! Ter medo de perder o comboio! Ter o dinheiro √† justa para a viagem e recear que √† √ļltima hora um irm√£o ainda a dormir surripie a quantia! Talvez porque a embriaguez venha do facto da inquieta√ß√£o e das hesita√ß√Ķes se tornarem mais angustiantes quando tudo se ignora. N√£o teria qualquer aventura amorosa em Nantes? Quem diz ¬ęamor¬Ľ diz pistola, e pistola era coisa que eu n√£o tinha. Ora o que nesta viagem mais me surpreendeu foi terem-me reconhecido, em casa de um sapateiro, por certa parecen√ßa com uma velha parente minha e o elogio que ouvi fazerem dessa criatura cuja vida eu considerava nula. Os jovens levam tudo a s√©rio, ainda que n√£o saibam conferir um ar s√©rio √†quilo que levam. Na realidade, experimentam apenas emo√ß√Ķes desproporcionadas.

A Subjectividade dos Comportamentos

Podemos ter para com as coisas que nos acontecem ou que fazemos uma atitude mais geral ou mais pessoal. Podemos sentir uma pancada n√£o apenas como dor, mas tamb√©m como ofensa, e neste caso ela torna-se cada vez mais insuport√°vel; mas tamb√©m aceit√°-la desportivamente, como um obst√°culo que n√£o nos intimidar√° nem nos arrastar√° para uma ira cega, e ent√£o n√£o √© raro nem sequer darmos por ela. Neste segundo caso, por√©m, o que aconteceu foi apenas que integr√°mos essa pancada num contexto mais geral, o do combate, e em fun√ß√£o disso a natureza do golpe revelou-se dependente da tarefa que tem de desempenhar. E precisamente este fen√≥meno, que leva a que um acontecimento receba o seu significado, e mesmo o seu conte√ļdo, mediante a sua inser√ß√£o numa cadeia de ac√ß√Ķes consequentes, produz-se em todos os indiv√≠duos que n√£o o encaram apenas como acontecimento pessoal, mas como desafio √† sua capacidade intelectual.
Tamb√©m ele ser√° mais superficialmente afectado nas suas emo√ß√Ķes pelo que faz. Mas, estranhamente, aquilo que se v√™ como sinal de intelig√™ncia superior num pugilista √© visto como frieza e insensibilidade em pessoas que n√£o sabem de boxe e nas quais isso se deve √† sua inclina√ß√£o para uma determinada forma de vida intelectual.

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