Textos sobre Comportamento

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Textos de comportamento escritos por poetas consagrados, filósofos e outros autores famosos. Conheça estes e outros temas em Poetris.

Todos nós Somos Crentes

Todos os homens da terra est√£o conscientes do infinito e da eternidade. A √ļnica diferen√ßa que existe entre eles √© saber at√© que ponto essa consci√™ncia abala cada indiv√≠duo considerado isoladamente. Um acredita num deus pessoal acima das coisas e dos homens, o outro acredita no seu pr√≥prio querer como no seu deus, uns s√£o humildes, outros revoltam-se, e todos, seja qual for o comportamento individual de cada um – todos s√£o crentes.

Os Momentos Decisivos

Tendemos a pensar que a verdade das pessoas emerge nos momentos decisivos, no fio da navalha, quando se testam os limites. A hora dos santos e dos her√≥is. Ora bem, nesses momentos o comportamento humano n√£o costuma ser nem exemplar nem animador. A chusma que se acotovela para chegar primeiro √† bilheteira da sala de concertos; os espectadores que se atropelam ao fugir de um teatro em chamas, espezinhando os mais fracos sem se aperceberem deles, a crian√ßa, as cansadas carnes do anci√£o, calcadas pelos tac√Ķes das jovens mulheres que se aperaltaram para a sa√≠da noturna; os honrados cidad√£os, incluindo as senhoras ‚ÄĒ de boas fam√≠lias, ou de fam√≠lias humildes, nisso n√£o h√° distin√ß√Ķes ‚ÄĒ, que golpeiam furiosamente com os remos as cabe√ßas dos n√°ufragos que tentam subir para o bote salva-vidas superlotado. Salve-se quem puder.

A Tua Import√Ęncia na Tua Vida

√Č fundamental reconheceres a tua import√Ęncia na tua vida. Por algum motivo nasceste, aprendeste a respirar e tiveste direito a um nome, nome esse que, em conjunto com as tuas caracter√≠sticas, te identificar√° eternamente como um ser individual, √ļnico e livre. Haver√° algo mais especial e precioso que isso? Estou em crer que n√£o; ainda assim, encontro muitas pessoas a quererem ser outras e outras ainda a querer acabar com elas pr√≥prias na esperan√ßa de, imediatamente, poderem vir a ser outro algu√©m. √Č o teu caso? Se for deve ser uma chatice, mas, tamb√©m, se n√£o te d√°s qualquer import√Ęncia, que import√Ęncia te darei eu? J√° calculaste o perigo em que incorres por pensar desta maneira? Em menos de nada, estar√°s sozinho ou rodeado de gente como tu, ausente e que meteu f√©rias no inferno para sempre. Bom, mas alegrem-se os cora√ß√Ķes porque acredito que n√£o lerias estas linhas iniciais se nada estivesse a borbulhar a√≠ dentro, se n√£o existisse, pelo menos, uma fugaz esperan√ßa e uma enorme vontade de mudar. Est√° atento, o passado s√≥ influencia o presente se mantiveres o mesmo comportamento, por isso liberta-te dessa dor por uns instantes e l√™ em voz alta a pr√≥xima frase tantas vezes quantas achares necess√°rio.

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A Virtude Pura n√£o Existe nos Dias de Hoje

Numa √©poca t√£o doente como esta, quem se ufana de aplicar ao servi√ßo da sociedade uma virtude genu√≠na e pura, ou n√£o sabe o que ela √©, j√° que as opini√Ķes se corrompem com os costumes (de facto, ouvi-os retratarem-na, ouvi a maior parte glorificar-se do seu comportamento e formular as suas regras: em vez de retratarem a virtude, retratam a pura injusti√ßa e o v√≠cio, e apresentam-na assim falsificada para educa√ß√£o dos pr√≠ncipes), ou, se o sabe, ufana-se erradamente e, diga o que disser, faz mil coisas que a sua consci√™ncia reprova.
(…) Em tal aperto, a mais honrosa marca de bondade consiste em reconhecer o erro pr√≥prio e o alheio, empregar todas as for√ßas a resistir e a obstar √† inclina√ß√£o para o mal, seguir contra a corrente dessa tend√™ncia, esperar e desejar que as coisas melhorem.

As Janelas da Memória

A mem√≥ria humana n√£o √© lida globalmente, como a mem√≥ria dos computadores, mas por √°reas espec√≠ficas a que chamo de janelas. Atrav√©s das janelas vemos, reagimos, interpretamos… Quantas vezes tentamos lembrar-nos de algo que n√£o nos vem √† ideia? Nesse caso, a janela permaneceu fechada ou inacess√≠vel.

A janela da mem√≥ria √©, portanto, um territ√≥rio de leitura num determinado momento existencial. Em cada janela pode haver centenas ou milhares de informa√ß√Ķes e experi√™ncias. O maior desafio de uma mulher, e do ser humano em geral, √© abrir o m√°ximo de janelas em cada situa√ß√£o. Se ela abre diversas janelas, poder√° dar respostas inteligentes. Se as fecha, poder√° dar respostas inseguras, med√≠ocres, est√ļpidas, agressivas. Somos mais instintivos e animalescos quando fechamos as janelas, e mais racionais quando as abrimos.

O mundo dos sentimentos possui as chaves para abrir as janelas. O medo, a tens√£o, a ang√ļstia, o p√Ęnico, a raiva e a inveja podem fech√°-las. A tranquilidade, a serenidade, o prazer e a afetividade podem abri-las. A emo√ß√£o pode fazer os intelectuais reagirem como crian√ßas agressivas e as pessoas simples reagirem como elegantes seres humanos. Sob um foco de tens√£o, como perdas e contrariedades, uma mulher serena pode ficar irreconhec√≠vel.

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Trazer a Paix√£o de Volta

Se te encontras numa rela√ß√£o, e parto do princ√≠pio que se l√° est√°s √© porque ainda a queres, a √ļnica via para trazeres a paix√£o de volta ao seio do vosso quotidiano passa por romp√™-lo. Sim, acabar com os h√°bitos, com as rotinas doentias e enfadonhas e com tudo aquilo que est√°, deem conta ou n√£o, a acabar convosco e a consumir-vos lentamente. Daqui a pouco, se √© que j√° n√£o se encontram nesse estado, j√° nem podem olhar um para o outro, ouvir-se, cheirar-se e muito menos tocar-se e, por incr√≠vel que pare√ßa, nada disto significa que o amor tenha desaparecido. O que se escafedeu foi mesmo a paix√£o, a ponte que passa por cima de todas as diferen√ßas, conflitos e afins. Uma noite de sexo ou uma conchinha ao dormir, por exemplo, conseguem salvar a turbul√™ncia de uma semana inteira. √Č a magia dos sentidos.

Portanto, e retomando a nossa conversa, se queres despertar novamente o fogo entre ti e a pessoa com quem estás, não esperes mais pelo trágico e anunciado fim nem por uma eventual iniciativa que o outro possa tomar, agarra tu nas rédeas da tua vida e convida a pessoa para um jantar ou um outro programa qualquer num lugar diferente,

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O Mundo Tem um Focinho

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N√£o penses que o mundo tem para ti um rosto,
uma fisionomia de dócil empregado de mesa
ou de mulher bela;
a vida ‚ÄĒ e o mundo a que est√° agarrada ‚ÄĒ
tem sim um focinho. E esses beiços grossos
(que jamais incitam √† m√ļsica)
desde que nasces, como um juiz de cara
deformada, observam e julgam os teus comportamentos.

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Em média: as pessoas aperfeiçoam mais os engenhos
mec√Ęnicos da corrup√ß√£o e das trai√ß√Ķes mesquinhas
que os da hospitalidade. Os perigos
que observam um corpo s√£o produzidos incessantemente
em qualquer f√°brica desconhecida
mas eficaz.
H√° muito perigo no mundo
‚ÄĒ ter√°s pois (n√£o te aborre√ßas j√°) a tua bela parte.

Gonçalo M.

Sobre a Diferença dos Espíritos

Apesar de todas as qualidades do espírito se poderem encontrar num grande espírito, algumas há, no entanto, que lhe são próprias e específicas: as suas luzes não têm limites, actua sempre de igual modo e com a mesma actividade, distingue os objectos afastados como se estivessem presentes, compreende e imagina as coisas mais grandiosas, vê e conhece as mais pequenas; os seus pensamentos são elevados, extensos, justos e intelegíveis; nada escapa à sua perspicácia, que o leva sempre a descobrir a verdade, através das obscuridades que a escondem dos outros. Mas, todas estas grandes qualidades não impedem por vezes que o espírito pareça pequeno e fraco, quando o humor o domina.
Um belo esp√≠rito pensa sempre nobremente; produz com facilidade coisas claras, agrad√°veis e naturais; torna vis√≠veis os seus aspectos mais favor√°veis, e enfeita-os com os ornamentos que melhor lhes conv√™m; compreende o gosto dos outros e suprime dos seus pensamentos tudo o que √© in√ļtil ou lhe possa desagradar. Um esp√≠rito recto, f√°cil e insinuante sabe evitar e ultrapassar as dificuldades; adapta-se facilmente a tudo o que quer; sabe conhecer e acompanhar o espirito e o humor daqueles com quem priva e ao preocupar-se com os interesses dos amigos,

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Somos Cidadãos Sem Laços de Cidadania

√Č escusado. Em nenhuma √°rea do comportamento social conseguimos encontrar um denominador comum que nos torne a conviv√™ncia harmoniosa. Procedemos em todos os planos da vida colectiva como figadais advers√°rios. Guerreamo-nos na pol√≠tica, na literatura, no com√©rcio e na ind√ļstria. Onde est√£o dois portugueses est√£o dois concorrentes hostis √† Presid√™ncia da Rep√ļblica, √† chefia dum partido, √† ger√™ncia dum banco, ao comando de uma corpora√ß√£o de bombeiros. N√£o somos capazes de reconhecer no vizinho o talento que nos falta, as virtudes de que carecemos. Diante de cada sucesso alheio ficamos transtornados. E vingamo-nos na s√°tira, na mordacidade, na maledic√™ncia. Nas cidades ou nas aldeias, por f√°s e por nefas, n√£o h√° ningu√©m sem alcunha, a todos √© colado um rabo-leva pejorativo. Quem quiser conhecer a natureza do nosso relacionamento, leia as pol√©micas que trav√°mos ao longo dos tempos. S√£o reveladoras. A celebrada carta de E√ßa a Camilo ou a tamb√©m conhecida deste ao conselheiro Forjaz de Sampaio d√£o a medida exacta da verrina em que nos comprazemos no trato di√°rio. Gregariamente, somos um somat√≥rio de cidad√£os sem la√ßos de cidadania.

As Notícias São o Contrário da Vida

As not√≠cias s√£o o contr√°rio da vida. Uma not√≠cia √© uma novidade; √© uma excep√ß√£o. Mas a pergunta mais dif√≠cil (provocando a resposta mais interessante) √©: “S√£o uma excep√ß√£o a qu√™?”
A no√ß√£o corrente, idiota, √© que “c√£o morde homem” n√£o √© not√≠cia, mas que “homem morde c√£o” √©. Mentira. A grande maioria dos c√£es n√£o morde as pessoas. E quando h√° uma pessoa que morde um c√£o n√£o s√≥ √© raro, como desinteressante.
Atrás Рou à frente Рdesta simplificação está a questão bastante mais importante de como se dão os cães e os homens. As mordeduras são episódios pouco representativos e facilmente explicáveis, sem explicarem nada.
Um psicopata assassina muitas pessoas. √Č uma not√≠cia. Mas que nos diz dos noruegueses? Nada. Que nos diz sobre o comportamento dos europeus? Nada.
A realidade é o contrário da notícia. A notícia é histriónica e histérica, separada da normalidade, que nunca é unívoca ou definidora. Existem dois impulsos. O mais antigo é realçar a surpresa e a indignação. O mais moderno é notar as ausências e as diferenças, mas investigar e descrever as presenças circundantes, onde e entre as quais ocorrem tanto a novidade como a antiguidade.

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O Verdadeiro Filósofo

Se a ideia de Deus n√£o √© conhecida na natureza, deve portanto tratar-se de uma inven√ß√£o humana… Mas n√£o me olheis como se eu n√£o tivesse s√£os princ√≠pios e n√£o fosse um fiel servidor do meu rei. Um verdadeiro fil√≥sofo n√£o pretende de modo algum subverter a ordem natural das coisas. Aceita-a. S√≥ pretende que o deixem cultivar os pensamentos que consolam uma alma forte. Para os outros, √© uma sorte que existam papas e bispos para reter as multid√Ķes da revolta e do crime. A ordem do Estado exige uma uniformidade do comportamento, a religi√£o √© necess√°ria ao povo e o s√°bio deve sacrificar parte da sua independ√™ncia para que a sociedade se mantenha firme.

A Idade só se Aplica às Pessoas Vulgares

A tend√™ncia para colocar uma √™nfase especial ou organizar a juventude nunca me foi cara; para mim, a no√ß√£o de pessoa velha ou nova s√≥ se aplica √†s pessoas vulgares. Todos os seres humanos mais dotados e mais diferenciados s√£o ora velhos ora novos, do mesmo modo que ora s√£o tristes ora alegres. √Č coisa dos mais velhos lidar mais livre, mais jovialmente, com maior experi√™ncia e benevol√™ncia com a pr√≥pria capacidade de amar do que os jovens. Os mais idosos apressam-se sempre a achar os jovens precoces demasiado velhos para a idade, mas s√£o eles pr√≥prios que gostam de imitar os comportamentos e maneiras da juventude, eles pr√≥prios s√£o fan√°ticos, injustos, julgam-se detentores de toda a verdade e sentem-se facilmente ofendidos. A idade n√£o √© pior que a juventude, do mesmo modo que Lao-Ts√© n√£o √© pior que Buda e o azul n√£o √© pior que o vermelho. A idade s√≥ perde valor quando quer fingir ser juventude.

Abra√ßa o Conte√ļdo e N√£o a Forma

√Äs vezes o homem repudia a mulher, ou a mulher muda de amante, por se ter desiludido. Consequ√™ncias do comportamento leviano quer de um quer do outro. Porque s√≥ √© poss√≠vel amar atrav√©s da mulher e n√£o a mulher. Atrav√©s do poema e n√£o o poema. Atrav√©s da paisagem entrevista do alto das montanhas. E a licenciosidade nasce da ang√ļstia de n√£o se conseguir ser. Quando uma pessoa anda com ins√≥nias, volta-se e torna-se a voltar na cama, √† procura do fresco ombro do leito. Mas basta toc√°-lo, para ele se tornar t√©pido e recusar-se. E ele procura noutro s√≠tio uma fonte dur√°vel de frescura. Mas n√£o consegue dar com ela, porque mal lhe toca a provis√£o esvai-se.
O mesmo se passa com aquele ou com aquela que se fica no vazio dos seres. N√£o passam de vazios os seres que n√£o s√£o janelas ou frestas para Deus. √Č por isso que, no amor vulgar, s√≥ amas o que te foge. De outra maneira, v√™s-te saciado e descoro√ßoado com a tua satisfa√ß√£o.

Personalidade Limitada

H√° pessoas muito competentes no seu of√≠cio mas que nunca se adaptam a certos obst√°culos menores, como a nomes que desconhecem e saem do habitual. Tamb√©m nunca sabem usar uma chave de fendas e n√£o s√£o capazes de conhecer uma marca de carros pelas jantes, por exemplo. Cada indiv√≠duo tem um espa√ßo muito limitado de opera√ß√£o e o seu c√©rebro trabalha num pequeno circuito de observa√ß√Ķes; a sua evolu√ß√£o √© restrita ao que o rodeia e aos factos exteriores mais pr√≥ximos. A educa√ß√£o sem grandes exig√™ncias de comportamento social e intelectual, leva-os a formar uma personalidade mesquinha, √†s vezes ressentida e admiradora de extremos, como da lideran√ßa dum chefe.

O Segredo das Mulheres

Como os homens andam sempre atrasados em relação às mulheres (porque só pensam numa coisa de cada vez e acham que falar acerca das coisas é pior do que fazê-las), quem sabe se não é estudando o comportamento feminino de hoje que poderemos vislumbrar o nosso macaquismo masculino de amanhã?
As mulheres de hoje sabem quem lhes pode fazer mal: são as outras mulheres. Os homens, por muito amados e queridos, nem sequer são considerados competidores. São como são, têm a inteligência e o material que têm Рe que Deus os abençoe por ser assim, como os pêssegos-rosa e os arcos-íris e todos os outros fenómenos naturais que são difíceis de prever e de controlar.

O segredo das mulheres, que nenhum homem pode perceber, a n√£o ser que seja amado por alguma que se sinta suficientemente amada por um para lhe contar mais do que o suficiente para ele continuar a existir tal como √© (que mais n√£o se lhe pede) √©: os homens n√£o entram na equa√ß√£o. √Č tudo uma quest√£o entre elas.
Elas s√£o espertas. √Č por isso que morrem de medo umas das outras. Conhecem o perigo e sabem quem pode emperig√°-las.

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Nunca Mostrar Espírito e Entendimento

Como ainda √© inexperiente quem sup√Ķe que, ao mostrar esp√≠rito e entendimento, recorre a um meio seguro para fazer-se benquisto em sociedade! Na verdade, na maioria das pessoas, tais qualidades despertam √≥dio e rancor, que ser√£o t√£o mais amargos quanto quem os sentir n√£o tiver o direito de externar o motivo, chegando at√© a dissimul√°-lo para si mesmo. Isso acontece da seguinte forma: se algu√©m nota e sente uma grande superioridade intelectual naquele com quem fala, ent√£o conclui tacitamente e sem consci√™ncia clara que este, em igual medida, notar√° e sentir√° a sua inferioridade e a sua limita√ß√£o. Essa conclus√£o desperta o √≥dio, o rancor e a raiva mais amarga.
(…) Mostrar esp√≠rito e entendimento √© uma maneira indirecta de repreender nos outros a sua incapacidade e estupidez. Ademais, o indiv√≠duo comum revolta-se ao avistar o seu oposto, sendo a inveja o seu instigador secreto. A satisfa√ß√£o da vaidade √©, como se pode ver diariamente, um prazer que as pessoas colocam acima de qualquer outro, mas que s√≥ √© poss√≠vel por interm√©dio da compara√ß√£o delas pr√≥prias com os demais. No entanto, nenhum m√©rito torna o homem mais orgulhoso do que o intelectual: s√≥ neste repousa a sua superioridade em rela√ß√£o aos animais.

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Um Cérebro Sempre Jovem

A sociedade est√° a ser varrida por um movimento chamado nova velhice. A norma social para as pessoas de idade era passiva e sombria; confinadas a cadeiras de baloi√ßo, esperava-se que entrassem em decl√≠nio f√≠sico e mental. Agora o inverso √© verdade. As pessoas mais velhas t√™m expetativas mais elevadas de que permanecer√£o ativas e com vitalidade. Consequentemente, a defini√ß√£o de velhice mudou. Num inqu√©rito perguntou-se a uma amostra de baby boomers: “Quando tem in√≠cio a velhice?” A resposta m√©dia foi aos 85. √Ä medida que aumentam as expetativas, o c√©rebro deve claramente manter-se a par e adaptar-se √† nova velhice. A antiga teoria do c√©rebro fixo e estagnado sustentava ser inevit√°vel um c√©rebro que envelhecesse. Supostamente as c√©lulas cerebrais morriam continuamente ao longo do tempo √† medida que uma pessoa envelhecia, e a sua perda era irrevers√≠vel.

Agora que compreendemos qu√£o flex√≠vel e din√Ęmico √© o c√©rebro, a inevitabilidade da perda celular j√° n√£o √© v√°lida. No processo de envelhecimento ‚ÄĒ que progride √† raz√£o de 1% ao ano depois dos trinta anos de idade ‚ÄĒ n√£o h√° duas pessoas que envelhe√ßam de maneira igual. At√© os g√©meos id√™nticos, nascidos com os mesmos genes, ter√£o muito diferentes padr√Ķes de atividade gen√©tica aos setenta anos,

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A Construção da Personalidade Criadora

A harmonia do comportamento social requer, todos o sabemos, tanto o isolamento como o convívio. Excessiva comunicação, debates exagerados de assuntos que requerem meditação e peso moral, avesso muitas vezes à cordialidade natural das afinidades electivas, não enriquecem o património de uma sociedade. Antes embotam e alteram o terreno imparcial da sabedoria.
A solidão favorece a intensidade do pensamento; por outro lado, torna de certo modo celerado o homem que lida com a força material, com a técnica, com os outros homens. O impulso é a força que actualiza estas duas atitudes. Os ricos de impulso que se prontificam a uma reacção agressiva ou escandalosa, esses são associais especialmente difíceis. Todo o revolucionário é associal, se o impulso for nele um desvio da vida instintiva, e não uma atitude de homem capaz de obedecer e mandar a si próprio.
¬ęA felicidade m√°xima do filho da terra h√°-de ser a personalidade¬Ľ – disse Goethe. Personalidade criadora, obtida √† custa do ajustamento das nossas pr√≥prias leis interiores, que n√£o ser√£o mais, no futuro, for√ßas repelidas ou encobertas, mas sim valiosas contribui√ß√Ķes para o tempo do homem. Quando tudo for analisado e conhecido, s√≥ o justo h√°-de prevalecer.

Somos Uma Surpresa Para Nós Próprios

Como ser√£o em privado as pessoas que conhecemos? Quanta surpresa se o soub√©ssemos. Porque n√≥s, instintivamente, tendemos a julg√°-las id√™nticas dentro e fora de si. Mas o que somos por fora √© o que aceitamos que o seja e √© o que os outros estabeleceram. Tal fanfarr√£o na pra√ßa p√ļblica pode ser um chilro piegas quando l√° n√£o est√° ou um medricas quando a coisa √© a s√©rio (N√£o dizia Arist√≥teles que os grandes atletas eram maus soldados?). Ou inversamente. O que aceita para si a imagem exterior de um mole, de um t√≠bio, de um encolhido de comportamento – no interior de si, e quando for caso disso, pode ser um obstinado de dente rilhado. H√° um estilo de se ser que se adopta por conven√ß√£o generalizada, orienta√ß√£o de uma √©poca, obriga√ß√£o protocolar no modo de nos manifestarmos.
(…) As regras de comportamento em grandezas chegam s√≥ √† porta da rua ou ao menos da do quarto ou seguramente √† da casa de banho. E da√≠ para dentro, vale tudo, ou seja a regra somos n√≥s. E √© ent√£o que sabemos quem somos ou quem √© aquele que consentimos que seja ou em que medida respeitamos em n√≥s o que respeitamos nos outros.

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O Comportamento Simbólico e o Comportamento Inequívoco

Na verdade, encontramos desde as origens da hist√≥ria humana estas duas formas de comportamento, a simb√≥lica e a inequ√≠voca. O ponto de vista do inequ√≠voco √© a lei do pensamento e da ac√ß√£o despertos, que domina quer uma conclus√£o irrefut√°vel da l√≥gica quer o c√©rebro de um chantagista que pressiona passo a passo a sua v√≠tima, uma lei que resulta das necessidades da vida, √†s quais sucumbir√≠amos se n√£o fosse poss√≠vel dar uma forma inequ√≠voca √†s coisas. O s√≠mbolo, por seu lado, √© a articula√ß√£o de ideias pr√≥prias do sonho, √© a l√≥gica deslizante da alma, a que corresponde o parentesco das coisas nas intui√ß√Ķes da arte e da religi√£o; mas tamb√©m tudo o que na vida existe de vulgares inclina√ß√Ķes e avers√Ķes, de concord√Ęncia e repulsa, de admira√ß√£o, submiss√£o, lideran√ßa, imita√ß√£o e seus contr√°rios, todas estas rela√ß√Ķes do homem consigo e com a natureza, que ainda n√£o s√£o puramente objectivas e talvez nunca venham a s√™-lo, s√≥ podem ser entendidas em termos simb√≥licos.
Aquilo a que se chama a humanidade superior mais não é, com certeza, do que a tentativa de fundir estas duas metades da vida, a do símbolo e a da verdade, cuidadosamente separadas antes. Mas quando separamos num símbolo tudo aquilo que talvez possa ser verdadeiro do que é apenas espuma,

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