Textos sobre Conservação

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Textos de conservação escritos por poetas consagrados, filósofos e outros autores famosos. Conheça estes e outros temas em Poetris.

A Piedade

A piedade √© um sentimento natural, que, moderando em cada indiv√≠duo a actividade do amor de si pr√≥prio, concorre para a conserva√ß√£o m√ļtua de toda a esp√©cie. √Č ela que nos leva sem reflex√£o em socorro daqueles que vemos sofrer; √© ela que, no estado de natureza, faz as vezes de lei, de costume e de virtude, com a vantagem de que ningu√©m √© tentado a desobedecer √† sua doce voz; √© ela que impede todo o selvagem robusto de arrebatar a uma crian√ßa fraca ou a um velho enfermo a sua subsist√™ncia adquirida com sacrif√≠cio, se ele mesmo espera poder encontrar a sua alhures; √© ela que, em vez desta m√°xima sublime de justi√ßa raciocinada, faz a outrem o que queres que te fa√ßam, inspira a todos os homens esta outra m√°xima de bondade natural, bem menos perfeita, por√©m mais √ļtil, talvez, do que a precedente: faz o teu bem com o menor mal poss√≠vel a outrem. Em uma palavra, √© nesse sentimento natural, mais do que em argumentos subtis, que √© preciso buscar a causa da repugn√Ęncia que todo o homem experimentaria em fazer mal, mesmo independentemente das m√°ximas da educa√ß√£o. Embora possa competir a S√≥crates e aos esp√≠ritos da sua t√™mpera adquirir a virtude pela raz√£o,

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Nao há Virtude sem Agitação Desordenada

Os choques e abalos que a nossa alma recebe pelas paix√Ķes corporais muito podem sobre ela; por√©m podem mais ainda as suas pr√≥prias, pelas quais est√° t√£o fortemente dominada que talvez possamos afirmar que n√£o tem nenhuma outra velocidade e movimento que n√£o os do sopro dos seus ventos, e que, sem a agita√ß√£o destes, ela permaneceria sem ac√ß√£o, como um navio em pleno mar e que os ventos deixassem sem ajuda. E quem sustentasse isso, seguindo o partido dos peripat√©ticos, n√£o nos causaria muito dano, pois √© sabido que a maior parte das mais belas ac√ß√Ķes da alma procedem desse impulso das paix√Ķes e necessitam dele. A valentia, diz-se, n√£o se pode cumprir sem a assist√™ncia da c√≥lera.

Ajax sempre foi valente, mas nunca o foi tanto como na sua loucura (Cícero)

Nem investimos contra os maus e os inimigos com tanto vigor se n√£o estivermos encolerizados; e pretende-se que o advogado inspire a c√≥lera nos ju√≠zes para deles obter justi√ßa. As paix√Ķes excitaram Tem√≠stocles, excitaram Dem√≥stenes e impeliram os fil√≥sofos para trabalhos, vig√≠lias e peregrina√ß√Ķes; conduzem-nos √† honra, √† ci√™ncia, √† sa√ļde – fins √ļteis. E essa falta de vigor da alma para suportar o sofrimento e os desgostos serve para alimentar na consci√™ncia a penit√™ncia e o arrependimento,

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Instinto de Rebanho

Em toda a parte onde encontramos uma moral encontramos uma avalia√ß√£o e uma classifica√ß√£o hier√°rquica dos instintos e dos actos humanos. Essas classifica√ß√Ķes e essas avalia√ß√Ķes s√£o sempre a express√£o das necessidades de uma comunidade, de um rebanho: √© aquilo que aproveita ao rebanho, aquilo que lhe √© √ļtil em primeiro lugar – e em segundo e em terceiro -, que serve tamb√©m de medida suprema do valor de qualquer indiv√≠duo. A moral ensina a este a ser fun√ß√£o do rebanho, a s√≥ atribuir valor em fun√ß√£o deste rebanho. Variando muito as condi√ß√Ķes de conserva√ß√£o de uma comunidade para outra, da√≠ resultam morais muito diferentes; e, se considerarmos todas as transforma√ß√Ķes essenciais que os rebanhos e as comunidades, os Estados e as sociedades s√£o ainda chamados a sofrer, pode-se profetizar que haver√° ainda morais muito divergentes. A moralidade √© o instinto greg√°rio no indiv√≠duo.

O Homem Age Sempre Bem

N√£o acusamos a Natureza de imoral, se ela nos manda uma tro¬≠voada e nos molha: porque chamamos imoral √† pes¬≠soa que prejudica? Porque, aqui, admitimos uma vontade livre exercendo-se arbitrariamente; ali, uma necessidade. Mas essa distin√ß√£o √© um erro. E mais: nem em todas as circunst√Ęncias chamamos ¬ęimoral¬Ľ mesmo ao acto de lesar com inten√ß√£o; por exemplo, mata-se deliberadamente um mosquito, sem hesita¬≠√ß√£o, apenas porque o seu zumbido nos desagrada, castiga-se com inten√ß√£o o criminoso e inflige-se-Ihe sofrimento, para nos protegermos a n√≥s e √† socieda¬≠de. No primeiro caso, √© o indiv√≠duo que, para se manter ou at√© para n√£o se expor a um desagrado, faz sofrer intencionalmente; no segundo, √© o Estado. Toda a moral aceita que se fa√ßa mal de prop√≥sito, em leg√≠tima defesa: ou seja, quando se trata da conser¬≠va√ß√£o de si pr√≥prio! Mas estes dois pontos de vista bas¬≠tam para explicar todas as m√°s ac√ß√Ķes cometidas por seres humanos contra seres humanos: ou se quer prazer para si ou se quer evitar desprazer; em qual¬≠quer dos sentidos, trata-se sempre da conserva√ß√£o de si pr√≥prio. S√≥crates e Plat√£o tamb√©m t√™m raz√£o: seja o que for que o homem fa√ßa, ele faz sempre o bem, is¬≠to √©, aquilo que lhe parece bom (√ļtil),

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A Doutrina do Objectivo da Vida

Quer considere os homens com bondade ou malevol√™ncia, encontro-os sempre, a todos e a cada um em particular, empenhados na mesma tarefa: tornar-se √ļteis √† conserva√ß√£o da esp√©cie. E isto n√£o por amor a essa esp√©cie, mas simplesmente porque n√£o h√° neles nada mais antigo, mais poderoso, mais impiedoso e mais invenc√≠vel do que esse instinto… porque esse instinto √© propriamente a ess√™ncia da nossa esp√©cie, do nosso rebanho.

Se bem que se chegue assaz rapidamente, com a miopia ordin√°ria, a separar a cinco passos os nossos semelhantes em √ļteis e em prejudiciais, em seres bons e maus, quando fazemos o nosso balan√ßo final e reflectimos sobre o conjunto acabamos por desconfiar destas depura√ß√Ķes, destas distin√ß√Ķes, e acabamos por renunciar a elas.

Talvez o homem mais prejudicial seja ainda, no fim de contas, o mais √ļtil √† conserva√ß√£o da esp√©cie; porque sustenta em si mesmo, ou nos outros, com a sua ac√ß√£o, instintos sem os quais a humanidade estaria h√° muito tempo mole e corrompida. O √≥dio, o prazer de prejudicar, a sede de tomar e de dominar, e, de uma maneira geral, tudo aquilo a que se d√° o nome de mal, n√£o passam no fundo de um dos elementos da espantosa economia da conserva√ß√£o da esp√©cie;

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As Uni√Ķes Necess√°rias

A primeira união necessária é a de dois seres que são incapazes de existir um sem o outro: é o caso do macho e da fêmea tendo em vista a procriação (e essa união nada tem de arbitrária, mas como nas outras espécies animais e nas plantas, trata-se de uma tendência natural a deixar atrás de si um outro ser semelhante); é ainda a união daquele cuja natureza é comandar com aquele cuja natureza é ser comandado, tendo em vista a sua conservação comum.

Civilização de Hipócritas

Existem infinitamente mais homens que aceitam a civiliza√ß√£o como hip√≥critas do que homens verdadeiramente e realmente civilizados, e √© l√≠cito at√© perguntarmo-nos se um certo grau de hipocrisia n√£o ser√° necess√°rio √† manuten√ß√£o e √† conserva√ß√£o da civiliza√ß√£o, dado o reduzido n√ļmero de homens nos quais a tend√™ncia para a vida civilizada se tornou uma propriedade org√Ęnica.

Ser Sensível

N√£o se √© obrigado a fazer do homem um fil√≥sofo, em lugar de fazer dele um homem; os seus deveres para com outrem n√£o lhe s√£o ditados unicamente pelas tardias li√ß√Ķes da sabedoria; e, enquanto n√£o resistir ao impulso interior da comisera√ß√£o, jamais far√° mal a outro homem, nem mesmo a nenhum ser sens√≠vel, excepto no caso leg√≠timo em que, achando-se a conserva√ß√£o interessada, √© obrigado a dar prefer√™ncia a si mesmo. Por esse meio, terminam tamb√©m as antigas disputas sobre a participa√ß√£o dos animais na lei natural; porque √© claro que, desprovidos de luz e de liberdade, n√£o podem reconhecer essa lei; mas, unidos de algum modo √† nossa natureza pela sensibilidade de que s√£o dotados, julgar-se-√° que devem tamb√©m participar do direito natural e que o homem est√° obrigado, para com eles a certa esp√©cie de deveres. Parece, com efeito, que, se sou obrigado a n√£o fazer nenhum mal ao meu semelhante, √© menos porque ele √© um ser racional do que porque √© um ser sens√≠vel, qualidade que, sendo comum ao animal e ao homem, deve ao menos dar a um o direito de n√£o ser maltratado inutilmente pelo outro.

Os que Morrem por Amor

Os que morrem por amor continuam a pertencer √† lenda. Os seus funerais arrastam uma multid√£o piedosa, tal como decerto aconteceu na cidade de Verona, h√° seiscentos anos. Ainda que nesse tempo os costumes fossem bastante f√°ceis, a pr√°tica er√≥tica da juventude era muito mais modesta. Reflectindo melhor, √© de crer que a pr√≥pria licen√ßa produzisse um tipo de pessoas orgulhosas da sua intimidade afectiva; o que, se n√£o √© virtude, algo se parece. Este orgulho da pr√≥pria intimidade conduz a uma atitude hostil em rela√ß√£o a tudo o que pode burocratizar os sentimentos. H√° um soci√≥logo inclinado a crer que existe muito de romantismo burocr√°tico no amor moderno. √Č poss√≠vel. E quando aparecem os contestat√°rios dessa esp√©cie de burocracia, como s√£o os Romeus e Julietas do Candal, a cidade fica-lhes agradecida. No campo dos afectos trata-se da luta obstinada que resulta do choque entre a vida privada e o regime governativo; entre um corpo animado de impulsos e uma autoridade explicada por leis. Atrav√©s de inqu√©ritos feitos nos meios juvenis para inquirir das transforma√ß√Ķes que se efectuam no √Ęmbito das rela√ß√Ķes afectivas, deparam-se declara√ß√Ķes bastante confusas. Elas pairam entre uma sinceridade elementar que descura a experi√™ncia e teorias perfeitamente viciadas nos lugares-comuns do s√©culo.

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A Dificuldade do Poder Obtido sem Esforço

Aqueles que, s√≥ pela m√£o da fortuna, de vulgares cidad√£os se tornam pr√≠ncipes alcan√ßam o mando com pouca fadiga, mas s√≥ com muito esfor√ßo o conseguem manter. N√£o experimentam dificuldades na caminhada para o poder, parecendo que para l√° v√£o voando. As dificuldades surgem depois de serem entronizados. √Č o que sucede com aqueles a quem √© dado um estado a troco de dinheiro ou por gra√ßa de quem o concede (…) Os que assim sobem √† condi√ß√£o de pr√≠ncipe ficam dependentes da vontade e da fortuna de quem lhes proporcionou o trono, que s√£o duas coisas assaz vol√ļveis e inst√°veis, n√£o sabendo nem podendo garantir a sua conserva√ß√£o. N√£o sabem – porque, a menos que seja um homem de grande habilidade e virtude, n√£o √© razo√°vel que, tendo sempre vivido como vulgar cidad√£o, saiba comandar; n√£o podem – porque n√£o disp√Ķem de for√ßas que lhes possam ser amigas e fi√©is. Al√©m disto, os estados que surgem de repente, como todas as outras coisas da natureza que nascem e crescem rapidamente, n√£o desenvolvem as ra√≠zes, o tronco e os ramos, sendo destru√≠dos pelo primeiro temporal. Isto, a menos que aqueles que, como eu disse, de repente se tornaram pr√≠ncipes possuam tanta virtude como a fortuna que tiveram quando o estado lhes caiu no rega√ßo e saibam,

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A Sociedade é Baseada no Instinto Individual

A vida de uma sociedade √©, fundamentalmente, uma vida de ac√ß√£o. As rela√ß√Ķes dos indiv√≠duos adentro dela, s√£o, fundamentalmente, rela√ß√Ķes entre as actividades, entre as ac√ß√Ķes, deles. As rela√ß√Ķes dessa sociedade com outras sociedades – sejam essas rela√ß√Ķes de que esp√©cie forem – s√£o rela√ß√Ķes de qualquer esp√©cie de actividade, s√£o rela√ß√Ķes de ac√ß√£o. √Č, portanto, pelas faculdades que conduzem √† ac√ß√£o que o indiv√≠duo √© directamente social. Ora, como a ci√™ncia constata que s√£o os instintos, os h√°bitos, os sentimentos – tudo quanto em n√≥s constitui o inconsciente, ou o subconsciente – que levam √† ac√ß√£o, segue que √© pelos seus instintos, pelos seus h√°bitos, pelos seus sentimentos – e n√£o pela sua intelig√™ncia – que o indiv√≠duo √© directamente social.
Por que esp√©cie de instintos, por√©m, √© que o indiv√≠duo √© directamente social? Alguns dos seus instintos, como o instinto de conserva√ß√£o e o instinto sexual, s√£o sociais apenas indirectamente. Servindo-os, o indiv√≠duo serve, em √ļltimo resultado, a sociedade a que pertence, porque, mantendo a sua vida, mant√©m a vida de um elemento componente da sociedade a que pertence, e, propagando a esp√©cie, contribui para a continuidade de vida dessa sociedade; mas nem um, nem outro, desses instintos tem um fim directamente social.

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A Dieta do Génio

Os meios de que J√ļlio C√©sar se serviu para se defender das doen√ßas e das dores de cabe√ßa: grandes caminhadas, um modo de vida simpl√≠ssimo, perman√™ncia constante ao ar livre, fadigas cont√≠nuas ‚ÄĒ estas s√£o, em grandes tra√ßos, as regras de conserva√ß√£o e defesa geral contra a extrema vulnerabilidade dessa m√°quina subtil, e que trabalha a uma alt√≠ssima press√£o, chamada g√©nio.

O Amor-Próprio como Fonte de Todos os Males

√Č preciso n√£o confundir o amor-pr√≥prio e o amor de si mesmo, duas paix√Ķes muito diferentes pela sua natureza e pelos seus efeitos. O amor de si mesmo √© um sentimento natural que leva todo o animal a velar pela sua pr√≥pria conserva√ß√£o, e que, dirigido no homem pela raz√£o e modificado pela piedade, produz a humanidade e a virtude. O amor-pr√≥prio √© apenas um sentimento relativo, fact√≠cio e nascido na sociedade, que leva cada indiv√≠duo a fazer mais caso de si do que de qualquer outro, que inspira aos homens todos os males que se fazem mutuamente, e que √© a verdadeira fonte da honra.
Bem entendido isso, repito que, no nosso estado primitivo, no verdadeiro estado de natureza, o amor-pr√≥prio n√£o existe; porque, cada homem em particular olhando a si mesmo como o √ļnico espectador que o observa, como o √ļnico ser no universo que toma interesse por ele, como o √ļnico juiz do seu pr√≥prio m√©rito, n√£o √© poss√≠vel que um sentimento que teve origem em compara√ß√Ķes que ele n√£o √© capaz de fazer possa germinar na sua alma.
Pela mesma raz√£o, esse homem n√£o poderia ter √≥dio nem desejo de vingan√ßa, paix√Ķes que s√≥ podem nascer da opini√£o de alguma ofensa recebida.

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A Gloriola do Jornal

O jornal estende sobre o mundo as suas duas folhas, salpicadas de preto, como aquelas duas asas com que os iconografistas do s√©culo XV representavam a Lux√ļria ou a Gula: e o Mundo todo se arremessa para o jornal, se quer agachar sob as duas asas que o levem √† gloriola, lhe espalhem o nome pelo ar sonoro. E √© por essa gloriola que os homens se perdem, e as mulheres se aviltam, e os Pol√≠ticos desmancham a ordem do Estado, e os Artistas rebolam na extravag√Ęncia est√©tica, e os S√°bios alardeiam teorias mirabolantes, e de todos os cantos, em todos os g√©neros, surge a horda ululante dos charlat√£es… (Como me vim tornando altiloquente e roncante!…) Mas e a verdade, meu Bento! V√™ quantos preferem ser injuriados a serem ignorados! (Homenzinhos de letras, poetisas, dentistas, etc.). O pr√≥prio mal apetece sofregamente as sete linhas que o maldizem. Para aparecerem no jornal, h√° assassinos que assassinam. At√© o velho instinto da conserva√ß√£o cede ao novo instinto da notoriedade – e existe tal magan√£o, que ante um funeral convertido em apoteose pela abund√Ęncia das coroas, dos coches e dos prantos orat√≥rios, lambe os bei√ßos, pensativo, e deseja ser o morto.

O Que Mais Contribui para a Felicidade

J√° reconhecemos em geral que aquilo que somos contribui muito mais para a felicidade do que aquilo que temos ou representamos. Importa saber o que algu√©m √© e, por conseguinte, o que tem em si mesmo, pois a sua individualidade acompanha-o sempre e por toda a parte, e tinge cada uma das suas viv√™ncias. Em todas as coisas e ocasi√Ķes, o indiv√≠duo frui, em primeiro lugar, apenas a si mesmo. Isso j√° vale para os deleites f√≠sicos e muito mais para os intelectuais. Por isso, a express√£o inglesa to enjoy one’s self √© bastante acertada; com ela, dizemos, por exemplo, he enjoys himself at Paris, portanto, n√£o ¬ęele frui Paris¬Ľ, mas ¬ęele frui a si em Paris¬Ľ. Entretanto, se a individualidade √© de m√° qualidade, ent√£o todos os deleites s√£o como vinhos deliciosos numa boca impregnada de fel.
Assim, tanto no bem quanto no mal, tirante os casos graves de infelicidade, importa menos saber o que ocorre e sucede a alguém na vida, do que a maneira como ele o sente, portanto, o tipo e o grau da sua susceptibilidade sob todos os aspectos. O que alguém é e tem em si mesmo, ou seja, a personalidade e o seu valor,

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A Subjectividade do Amor-Próprio

Um mendigo dos arredores de Madrid esmolava nobremente. Disse-lhe um transeunte:
– O senhor n√£o tem vergonha de se dedicar a mister t√£o infame, quando podia trabalhar?
– Senhor, – respondeu o pedinte – estou-lhe a pedir dinheiro e n√£o conselhos. – E com toda a dignidade castelhana virou-lhe as costas.
Era um mendigo soberbo. Um nada lhe feria a vaidade. Pedia esmola por amor de si mesmo, e por amor de si mesmo n√£o suportava reprimendas.
Viajando pela √ćndia, topou um mission√°rio com um faquir carregado de cadeias, nu como um macaco, deitado sobre o ventre e deixando-se chicotear em resgate dos pecados de seus patr√≠cios hindus, que lhe davam algumas moedas do pa√≠s.
– Que ren√ļncia de si pr√≥prio! – dizia um dos espectadores.
– Ren√ļncia de mim pr√≥prio? – retorquiu o faquir. – Ficai sabendo que n√£o me deixo a√ßoitar neste mundo sen√£o para vos retribuir no outro. Quando fordes cavalo e eu cavaleiro.
Tiveram pois plena raz√£o os que disseram ser o amor de n√≥s mesmos a base de todos as nossas ac√ß√Ķes – na √ćndia, na Espanha como em toda a terra habit√°vel. Sup√©rfluo √© provar aos homens que t√™m rosto.

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Cada um Usa a História da Forma que a Sente

A hist√≥ria pertence ao ser vivo por tr√™s raz√Ķes: porque ele √© activo e ambicioso; porque tem o gosto pela conserva√ß√£o e pela venera√ß√£o; porque sofre e tem necessidade de liberta√ß√£o. A essa rela√ß√£o tripla corresponde a forma tripla da hist√≥ria, na medida em que √© permitido distingui-las: hist√≥ria monumental, hist√≥ria tradicionalista, hist√≥ria cr√≠tica.
(…) Quando o homem que quer criar grandes coisas precisa do passado, usa a hist√≥ria monumental. Ao contr√°rio, aquele que quer perpetuar o que √© habitual e h√° muito venerado ocupa-se do passado mais como antiqu√°rio do que como historiador. Apenas aquele que a necessidade presente sufoca e quer a qualquer pre√ßo afastar o seu peso sente a necessidade de uma hist√≥ria cr√≠tica, isto √©, que julga e condena.

Conquista e Governação

Quando os estados que se conquistam t√™m a tradi√ß√£o de viver segundo as suas leis e em liberdade, para a sua conserva√ß√£o existem tr√™s op√ß√Ķes: a primeira √© a sua destrui√ß√£o; a segunda √© ir para l√° viver o pr√≠ncipe conquistador; e a terceira consiste em deix√°-los viver de acordo com as suas leis, mas exigindo-lhes um tributo e criando no seu seio uma oligarquia que vos garanta a sua fidelidade. Porque, sendo este novo poder uma cria√ß√£o daquele pr√≠ncipe, sabem os seus mandat√°rios que n√£o podem sobreviver sem a sua amizade e apoio, tudo havendo de fazer para manter o novo regime. E mais facilmente se conserva uma cidade habituada a viver livre atrav√©s do consenso dos seus cidad√£os do que de qualquer outro modo.
(…) Na verdade, o √ļnico modo seguro de conservar uma cidade conquistada √© a sua destrui√ß√£o. Quem se torna senhor de uma cidade habituada a viver livre e a n√£o desfa√ßa, pode preparar-se para ser por ela desfeito, porque sempre encontrar√£o grande receptividade no seio da rebeli√£o a recorda√ß√£o da liberdade e das antigas institui√ß√Ķes, as quais nem pela ac√ß√£o do tempo nem pela concess√£o de benesses se apagar√£o da sua mem√≥ria. O que quer que se fa√ßa ou se disponha,

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