Textos sobre Graus

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Textos de graus escritos por poetas consagrados, filósofos e outros autores famosos. Conheça estes e outros temas em Poetris.

Compaix√£o Perversa

O prazer de maltratar outr√©m √© distinto da crueldade. Esta consiste em encontrar satisfa√ß√£o na compaix√£o, e atinge o ponto culminante quando a compaix√£o chega a extremos, como quando maltratamos os que amamos; todavia, se fosse algu√©m, que n√£o n√≥s, a magoar os que amamos, ent√£o fic√°vamos furiosos, e a compaix√£o tornar-se-nos-ia dolorosa; mas somos n√≥s a am√°-los e somos n√≥s a mago√°-los…
A compaixão exerce uma infinita atenção: a contradição de dois instintos fortes e opostos actua em nós como atractivo supremo.
(…) A crueldade e o prazer da compaix√£o:
A compaixão aumenta quanto mais conhecemos e mais amamos intensamente quem é objecto dela. Portanto, aquele que trata com crueldade o objecto do seu amor retira da crueldade Рque amplia a compaixão Рa máxima satisfação.
Quando, acima de tudo, nos amamos a nós próprios, o maior prazer que encontramos Рpor meio da compaixão Рpode levar-nos a mostrarmo-nos cruéis para connosco. Heróico da nossa parte é o esforço de completa identificação com aquilo que nos é contrário. A metamorfose do Diabo em Deus representa esse grau de crueldade.

As Janelas da Memória

A mem√≥ria humana n√£o √© lida globalmente, como a mem√≥ria dos computadores, mas por √°reas espec√≠ficas a que chamo de janelas. Atrav√©s das janelas vemos, reagimos, interpretamos… Quantas vezes tentamos lembrar-nos de algo que n√£o nos vem √† ideia? Nesse caso, a janela permaneceu fechada ou inacess√≠vel.

A janela da mem√≥ria √©, portanto, um territ√≥rio de leitura num determinado momento existencial. Em cada janela pode haver centenas ou milhares de informa√ß√Ķes e experi√™ncias. O maior desafio de uma mulher, e do ser humano em geral, √© abrir o m√°ximo de janelas em cada situa√ß√£o. Se ela abre diversas janelas, poder√° dar respostas inteligentes. Se as fecha, poder√° dar respostas inseguras, med√≠ocres, est√ļpidas, agressivas. Somos mais instintivos e animalescos quando fechamos as janelas, e mais racionais quando as abrimos.

O mundo dos sentimentos possui as chaves para abrir as janelas. O medo, a tens√£o, a ang√ļstia, o p√Ęnico, a raiva e a inveja podem fech√°-las. A tranquilidade, a serenidade, o prazer e a afetividade podem abri-las. A emo√ß√£o pode fazer os intelectuais reagirem como crian√ßas agressivas e as pessoas simples reagirem como elegantes seres humanos. Sob um foco de tens√£o, como perdas e contrariedades, uma mulher serena pode ficar irreconhec√≠vel.

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O Autofagismo do Meio Urbano

O momento presente √© o momento do autofagismo do meio urbano. O rebentar das cidades sobre campos recobertos de ¬ęmassas informes de res√≠duos urbanos¬Ľ (Lewis Mumford) √©, de um modo imediato, presidido pelos imperativos do consumo. A ditadura do autom√≥vel, produto-piloto da primeira fase da abund√Ęncia mercantil, estabeleceu-se na terra com a prevalesc√™ncia da auto-estrada, que desloca os antigos centos e exige uma dispers√£o cada vez maior. Ao passo que os momentos de reorganiza√ß√£o incompleta do tecido urbano polarizam-se passageiramente em torno das ¬ęf√°bricas de distribui√ß√£o¬Ľ que s√£o os gigantescos supermercados, geralmente edificados em terreno aberto e cercados por um estacionamento; e estes templos de consumo precipitado est√£o, eles pr√≥prios, em fuga num movimento centr√≠fugo, que os repele √† medida que eles se tornam, por sua vez, centros secund√°rios sobrecarregados, porque trouxeram consigo uma recimposi√ß√£o parcial da aglomera√ß√£o. Mas a organiza√ß√£o t√©cnica do consumo n√£o √© outra coisa sen√£o o arqu√©tipo da dissolu√ß√£o geral que conduziu a cidade a consumir-se a si pr√≥pria.
A história económica, que se desenvolveu intensamente em torno da oposição cidade-campo, chegou a um tal grau de sucesso que anula ao mesmo tempo os dois termos. A paralisia actual do desenvolvimento histórico total, em proveito da exclusiva continuação do movimento independente da economia,

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Ter Objetivos

Qualquer dia que comece sem um objetivo, est√°, √† partida, condenado ao ¬ęera melhor n√£o ter sa√≠do da cama¬Ľ; como tal, torna–se fundamental saberes o que queres, o que tens e o que podes fazer sempre que o Sol nasce. Um simples objetivo √©, na realidade, suficiente para te motivar a viver todo o dia que tens pela frente, pois aniquila todo e qualquer sentimento de inutilidade, ansiedade e frustra√ß√£o que possas estar a viver. T√£o simples e ao mesmo tempo t√£o complicado. T√£o complicado porque sei, por experi√™ncia pr√≥pria e pelo que oi√ßo nas minhas sess√Ķes e palestras, que nem sempre √© f√°cil ter um objetivo di√°rio. Ou melhor, muitas das vezes, at√© o temos, mas como estamos desprovidos de estrat√©gia, a a√ß√£o nunca ocorre.
Mas vamos por partes, um objetivo é algo nato, pois ainda que de uma forma inconsciente o objetivo de cada bebé, por exemplo, é tornar-se autónomo, gatinhando primeiro, agarrando-se às coisas depois até, finalmente, começar a andar. Esta sensação de querermos sempre mais ou melhor é algo que nasce connosco e que apenas deixa de fazer sentido quando o estado emocional da pessoa é tão depressivo que se opta por desistir. Ter objetivos é como ter fome e comer,

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A Imaginação é a Base do Homem

De tal modo a imagina√ß√£o √© a base do homem ‚ÄĒ Joana de novo ‚ÄĒ que todo o mundo que ele tem constru√≠do encontra sua justificativa na beleza da cria√ß√£o e n√£o na sua utilidade, n√£o em ser o resultado de um plano de fins adequados √†s necessidades. Por isso √© que vemos multiplicarem-se os rem√©dios destinados a unir o homem √†s ideias e institui√ß√Ķes existentes ‚ÄĒ a educa√ß√£o, por exemplo, t√£o dif√≠cil ‚ÄĒ e vemo-lo continuar sempre fora do mundo que ele construiu. O homem levanta casas para olhar e n√£o para nelas morar. Porque tudo segue o caminho da inspira√ß√£o. O determinismo n√£o √© um determinismo de fins, mas um estreito determinismo de causas. Brincar, inventar, seguir a formiga at√© seu formigueiro, misturar √°gua com cal para ver o resultado, eis o que se faz quando se √© pequeno e quando se √© grande. √Č erro considerar que chegamos a um alto grau de pragmatismo e materialismo. Na verdade o pragmatismo ‚ÄĒ o plano orientado para um dado fim real ‚ÄĒ seria a compreens√£o, a estabilidade, a felicidade, a maior vit√≥ria de adapta√ß√£o que o homem conseguisse. No entanto fazer as coisas ¬ępara qu√™¬Ľ parece-me, perante a realidade,

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A Nulidade como Ideal

A nulidade exige ordem. Tem necessidade de uma hierarquia, de meios de press√£o, de agentes e de uma finalidade que se confunda consigo pr√≥pria. Para manter o ser humano no seu n√≠vel mais baixo, onde n√£o corre o risco de fazer ondas, nada melhor que uma organiza√ß√£o estruturada com n√≠veis de poder e pe√Ķes disciplinados capazes de os exercer. Qualquer estrutura deste tipo aguenta-se de p√© devido √† convic√ß√£o geral de que n√£o √© necess√°rio explicar para se ser obedecido, nem compreender para obedecer. A verdade difunde-se por si s√≥ de cima para baixo pelo mero efeito do ascensor hier√°riquico. A efic√°cia √© proporcional ao grau de complexidade gra√ßas ao qual √© mantida a ilus√£o de uma certa liberdade em todos os n√≠veis de comando.
Quanto mais insignificantes s√£o as engrenagens humanas, mais f√°cil √© convenc√™-las da sua falsa autonomia. As nulidades fornecem as melhores engrenagens, associando o m√°ximo de in√©rcia intelectual ao m√°ximo de aplica√ß√£o no exerc√≠cio de uma ditadura sobre a pequena por√ß√£o de poder que lhes cabe. Essas estruturas, onde todos t√™m raz√£o quando est√£o acima e n√£o a t√™m quando est√£o abaixo, realizam uma esp√©cie de ideal humano feito de equil√≠brio entre arrog√Ęncia e humildade.

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Do Contraditório como Terapêutica de Libertação

Recentemente, entre a poeira de algumas campanhas pol√≠ticas, tomou de novo relevo aquele grosseiro h√°bito de polemista que consiste em levar a mal a uma criatura que ela mude de partido, uma ou mais vezes, ou que se contradiga, frequentemente. A gente inferior que usa opini√Ķes continua a empregar esse argumento como se ele fosse depreciativo. Talvez n√£o seja tarde para estabelecer, sobre t√£o delicado assunto do trato intelectual, a verdadeira atitude cient√≠fica.
Se há facto estranho e inexplicável é que uma criatura de inteligência e sensibilidade se mantenha sempre sentado sobre a mesma opinião, sempre coerente consigo próprio. A contínua transformação de tudo dá-se também no nosso corpo, e dá-se no nosso cérebro consequentemente. Como então, senão por doença, cair e reincidir na anormalidade de querer pensar hoje a mesma coisa que se pensou ontem, quando não só o cérebro de hoje já não é o de ontem, mas nem sequer o dia de hoje é o de ontem? Ser coerente é uma doença, um atavismo, talvez; data de antepassados animais em cujo estádio de evolução tal desgraça seria natural.
A coer√™ncia, a convic√ß√£o, a certeza s√£o al√©m disso, demonstra√ß√Ķes evidentes ‚ÄĒ quantas vezes escusadas ‚ÄĒ de falta de educa√ß√£o.

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A Essência do Fanatismo

A ess√™ncia do fanatismo consiste em considerar determinado problema como t√£o importante que ultrapasse qualquer outro. Os bizantinos, nos dias que precederam a conquista turca, entendiam ser mais importante evitar o uso do p√£o √°zimo na comunh√£o do que salvar Constantinopla para a cristandade. Muitos habitantes da pen√≠nsula indiana est√£o dispostos a precipitar o seu pa√≠s na ru√≠na por divergirem numa quest√£o importante: saber se o pecado mais detest√°vel consiste em comer carne de porco ou de vaca. Os reaccion√°rios amercianos prefiririam perder a pr√≥xima guerra do que empregar nas investiga√ß√Ķes at√≥micas qualquer indiv√≠duo cujo primo em segundo grau tivesse encontrado um comunista nalguma regi√£o. Durante a Primeira Guerra Mundial, os escoceses sabat√°rios, a despeito da escassez de v√≠veres provocada pela actividade dos submarinos alem√£es, protestavam contra a planta√ß√£o de batatas ao domingo e diziam que a c√≥lera divina, devido a esse pecado, explicava os nossos malogros militares. Os que op√Ķem objec√ß√Ķes teol√≥gicas √† limita√ß√£o dos nascimentos, consentem que a fome, a mis√©ria e a guerra persistam at√© ao fim dos tempos porque n√£o podem esquecer um texto, mal interpretado, do G√©nese. Os partid√°rios entusiastas do comunismo, tal como os seus maiores inimigos, preferem ver a ra√ßa humana exterminada pela radioactividade do que chegar a um compromisso com o mal –

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Alimentar o Ego

Para quem faz do sonho a vida, e da cultura em estufa das suas sensa√ß√Ķes uma religi√£o e uma pol√≠tica, para esse primeiro passo, o que acusa na alma que ele deu o primeiro passo, √© o sentir as coisas m√≠nimas extraordin√°ria ‚ÄĒ e desmedidamente. Este √© o primeiro passo, e o passo simplesmente primeiro n√£o √© mais do que isto. Saber p√īr no saborear duma ch√°vena de ch√° a vol√ļpia extrema que o homem normal s√≥ pode encontrar nas grandes alegrias que v√™m da ambi√ß√£o subitamente satisfeita toda ou das saudades de repente desaparecidas, ou ent√£o nos actos finais e carnais do amor; poder encontrar na vis√£o dum poente ou na contempla√ß√£o dum detalhe decorativo aquela exaspera√ß√£o de senti-los que geralmente s√≥ pode dar, n√£o o que se v√™ ou o que se ouve, mas o que se cheira ou se gosta ‚ÄĒ essa proximidade do objecto da sensa√ß√£o que s√≥ as sensa√ß√Ķes carnais ‚ÄĒ o tacto, o gosto, o olfacto – esculpem de encontro √† consci√™ncia; poder tornar a vis√£o interior, o ouvido do sonho ‚ÄĒ todos os sentidos supostos e do suposto ‚ÄĒ recebedores e tang√≠veis como sentidos virados para o externo: escolho estas, e as an√°logas suponham-se,

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Um Certo Grau de Desafogo

Depressa compreendi como para um homem na minha posi√ß√£o se tornava indispens√°vel uma certa riqueza. Seria t√£o desagrad√°vel para mim ter uma excessiva fortuna, como n√£o ter nenhuma. A dignidade e o respeito pr√≥prios s√£o insepar√°veis de um certo grau de desafogo. Eis o que eu aprecio, aquilo de que eu necessito – mais do que as pequenas comodidades que uma riqueza relativa permite. O que se segue a esta necessidade de independ√™ncia √© a tranquilidade de esp√≠rito: √© sentir-se livre dos cuidados e dos empreendimentos ign√≥beis que acarretam sempre as dificuldades monet√°rias. √Č necess√°ria uma grande prud√™ncia para chegar a este estado fundamental e mantermo-nos nele; √© preciso ter constantemente em mente a necessidade desta calma e desta falta de preocupa√ß√Ķes materiais, que nos permite entregarmo-nos completamente aos empreendimentos mais elevados e que impede que a nossa alma e o nosso esp√≠rito se degradem.

Estado de Grandeza Dependente

A pura, perfeita, e absoluta liberdade consiste em n√£o necessitar de coisa alguma: e esta √© pr√≥pria dos bem-aventurados. Outra mais inferior consiste em necessitar de poucas coisas: e quanto estas forem menos, tanto a liberdade ser√° de mais alto grau. E esta √© a que na presente vida podemos, e devemos procurar (…).
Daqui se infere, que quanto maior é a grandeza de estado de uma pessoa, tanto maior é o seu cativeiro (excepto aqueles poucos, que só no exterior são grandes, e no seu interior pequenos): porque necessita de inumeráveis coisas para o adquirir, e conservar: antes nessas mesmas coisas consiste o tal estado.

Quanto Mais se Ama Mais Fraco se √Č

Nas rela√ß√Ķes amorosas o √ļnico sentimento que n√£o funciona √© o da piedade. Quando √© o caso de que se devesse manifestar, o que surge n√£o √© a piedade mas o asco ou a irrita√ß√£o. Eis porque em rela√ß√£o alguma se √© t√£o cruel. Todos os sentimentos t√™m o seu contraponto. Exclu√≠da a piedade, a crueldade n√£o o tem. Por experi√™ncia se pode saber quanto se sofre quando n√£o se √© amado. Mas isso de nada vale quando se n√£o ama quem nos ama: √©-se de pedra e implac√°vel. Decerto, tudo se pode pedir e obter. Excepto que nos amem, porque nenhum sentir depende da nossa vontade. Mas s√≥ no amor se √© intolerante e cruel. Porque mostar amor a quem nos n√£o ama rebaixa-nos a um n√≠vel de degrada√ß√£o. E a degrada√ß√£o s√≥ nos d√° l√°stima e repulsa. A √ļnica possibilidade de se ser amado por quem nos n√£o ama √© parecer que se n√£o ama. Ent√£o n√£o se desce e assim o outro n√£o sobe. E ent√£o, porque n√£o sobe, ele tem menos apre√ßo por si, ou seja, mais apre√ßo pelo amante. O jogo do amor √© um jogo de for√ßas. Quanto mais se ama mais fraco se √©.

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Um Vento de Ambi√ß√Ķes Econ√≥micas em Todos os Graus

Elementos subversivos fermentam, de mistura com interesses econ√≥micos √† vista, em povos n√£o preparados para a emancipa√ß√£o, que √© hoje a f√≥rmula aliciante das novas servid√Ķes. Independ√™ncias alicer√ßadas em √≥dios pol√≠ticos ou r√°cicos constituem-se em unidades nacionais desprovidas de apoio econ√≥mico e t√©cnico, capaz de valoriz√°-las e faz√™-las progredir. Nacionalismos imprudentes e excessivos cavam a ru√≠na de povos que s√≥ a coopera√ß√£o amig√°vel podia salvar. A miragem do aumento indefinido das riquezas traz as imagina√ß√Ķes em alvoro√ßo: confiantes numa t√©cnica que se afirma de possibilidades ilimitadas, somos batidos por um vento de ambi√ß√Ķes econ√≥micas em todos os graus ‚ÄĒ nos indiv√≠duos, nos povos, no g√©nero humano. E no entanto os homens por toda a parte se mostram desalentados, ansiosos, inquietos, como se a riqueza e as divers√Ķes n√£o trouxessem √†s almas consola√ß√£o nem paz. Os t√£o reclamados direitos da pessoa humana (que muitos julgam ter descoberto agora) parece visarem preferentemente a massa confusa, desumanizada, despersonalizada, e n√£o o homem na integridade e plenitude do seu ser, da sua nobreza e valor infinito.

O Preço da Vaidade

Se o que se deseja é apenas dar sustento à natureza, bastam três libras esterlinas por ano, segundo a estimativa de William Petty; mas, como os tempos andam muito alterados, vamos supor seis libras. Essa quantia permitirá encher a pança, obter proteção contra as intempéries do clima, e até mesmo a compra de um casaco resistente, desde que feito de um bom couro de boi. Agora, tudo o que vá além disso é artificial e será desejado com vista a obter um maior grau de respeito dos nossos concidadãos. E, se seiscentas libras por ano proporcionam a um homem mais distinção social e, é claro, mais felicidade do que seis libras por ano, a mesma proporção vai-se manter para seis mil, e assim por diante, até onde se possa levar a opulência. Talvez o dono de uma grande fortuna possa não ser tão feliz como alguém que tem menos; mas isso decorrerá de outras causas que não a posse da grande fortuna.

O Conceito de Nós Próprios

Cada homem, desde que sai da nebulose da inf√Ęncia e da adolesc√™ncia, √© em grande parte um produto do seu conceito de si mesmo. Pode dizer-se sem exagero mais que verbal, que temos duas esp√©cies de pais: os nossos pais, propriamente ditos, a quem devemos o ser f√≠sico e a base heredit√°ria do nosso temperamento; e, depois, o meio em que vivemos, e o conceito que formamos de n√≥s pr√≥prios – m√£e e pai, por assim dizer, do nosso ser mental definitivo.
Se um homem criar o h√°bito de se julgar inteligente, n√£o obter√° com isso, √© certo, um grau de intelig√™ncia que n√£o tem; mas far√° mais da intelig√™ncia que tem do que se julgar est√ļpido. E isto, que se d√° num caso intelectual, mais marcadamente se d√° num caso moral, pois a plasticidade das nossas qualidades morais √© muito mais acentuada que a das faculdades da nossa mente.
Ora, ordinariamente, o que é verdade da psicologia individual Рabstraindo daqueles fenómenos que são exclusivamente individuais Рé também verdade da psicologia colectiva. Uma nação que habitualmente pense mal de si mesma acabará por merecer o conceito de si que anteformou. Envenena-se mentalmente.
O primeiro passo passou para uma regeneração,

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Ajuda entre S√°bios

Est√°s interessado em saber se um s√°bio pode ser √ļtil a outro s√°bio. N√≥s definimos o s√°bio como um homem dotado de todos os bens no mais alto grau poss√≠vel. A quest√£o est√° pois em saber como √© poss√≠vel algu√©m ser √ļtil a quem j√° atingiu o supremo bem. Ora, os homens de bem s√£o √ļteis uns aos outros. A sua fun√ß√£o √© praticar a virtude e manter a sabedoria num estado de perfeito equil√≠brio. Mas cada um necessita de outro homem de bem com quem troque impress√Ķes e discuta os problemas. A per√≠cia na luta s√≥ se adquire com a pr√°tica; dois m√ļsicos aproveitam melhor se estudarem em conjunto. O s√°bio necessita igualmente de manter as suas virtudes em actividade e, por isso mesmo, n√£o s√≥ se estimula a si pr√≥prio como se sente estimulado por outro s√°bio. Em que pode um s√°bio ser √ļtil a outro s√°bio? Pode servir-lhe de incitamento, pode sugerir-lhe oportunidades para a pr√°tica de ac√ß√Ķes virtuosas. Al√©m disso, pode comunicar-lhe as suas medita√ß√Ķes e dar-lhe conta das suas descobertas. Nunca faltar√° mesmo ao s√°bio algo de novo a descobrir, algo que d√™ ao seu esp√≠rito novos campos a explorar.
Os indivíduos perversos fazem mal uns aos outros,

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O Homem Age Sempre Bem

N√£o acusamos a Natureza de imoral, se ela nos manda uma tro¬≠voada e nos molha: porque chamamos imoral √† pes¬≠soa que prejudica? Porque, aqui, admitimos uma vontade livre exercendo-se arbitrariamente; ali, uma necessidade. Mas essa distin√ß√£o √© um erro. E mais: nem em todas as circunst√Ęncias chamamos ¬ęimoral¬Ľ mesmo ao acto de lesar com inten√ß√£o; por exemplo, mata-se deliberadamente um mosquito, sem hesita¬≠√ß√£o, apenas porque o seu zumbido nos desagrada, castiga-se com inten√ß√£o o criminoso e inflige-se-Ihe sofrimento, para nos protegermos a n√≥s e √† socieda¬≠de. No primeiro caso, √© o indiv√≠duo que, para se manter ou at√© para n√£o se expor a um desagrado, faz sofrer intencionalmente; no segundo, √© o Estado. Toda a moral aceita que se fa√ßa mal de prop√≥sito, em leg√≠tima defesa: ou seja, quando se trata da conser¬≠va√ß√£o de si pr√≥prio! Mas estes dois pontos de vista bas¬≠tam para explicar todas as m√°s ac√ß√Ķes cometidas por seres humanos contra seres humanos: ou se quer prazer para si ou se quer evitar desprazer; em qual¬≠quer dos sentidos, trata-se sempre da conserva√ß√£o de si pr√≥prio. S√≥crates e Plat√£o tamb√©m t√™m raz√£o: seja o que for que o homem fa√ßa, ele faz sempre o bem, is¬≠to √©, aquilo que lhe parece bom (√ļtil),

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O Provincianismo Português (II)

Se fosse preciso usar de uma s√≥ palavra para com ela definir o estado presente da mentalidade portuguesa, a palavra seria “provincianismo”. Como todas as defini√ß√Ķes simples esta, que √© muito simples, precisa, depois de feita, de uma explica√ß√£o complexa. Darei essa explica√ß√£o em dois tempos: direi, primeiro, a que se aplica, isto √©, o que deveras se entende por mentalidade de qualquer pa√≠s, e portanto de Portugal; direi, depois, em que modo se aplica a essa mentalidade.
Por mentalidade de qualquer pa√≠s entende-se, sem d√ļvida, a mentalidade das tr√™s camadas, organicamente distintas, que constituem a sua vida mental ‚ÄĒ a camada baixa, a que √© uso chamar povo; a camada m√©dia, a que n√£o √© uso chamar nada, excepto, neste caso por engano, burguesia; e a camada alta, que vulgarmente se designa por escol, ou, traduzindo para estrangeiro, para melhor compreens√£o, por elite.
O que caracteriza a primeira camada mental é, aqui e em toda a parte, a incapacidade de reflectir. O povo, saiba ou não saiba ler, é incapaz de criticar o que lê ou lhe dizem. As suas ideias não são actos críticos, mas actos de fé ou de descrença, o que não implica, aliás,

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Mais Vale ser Estimado que Amado

Rochefoucauld observou de maneira pertinente que √© dif√≠cil, ao mesmo tempo, ter em alta estima e amar muito a mesma pessoa. Ter√≠amos, ent√£o, de escolher entre querer ganhar o amor ou a estima dos homens. O seu amor √© sempre interesseiro, embora de maneiras bem diversas. Al√©m do mais, a condi√ß√£o que nos permite conquist√°-lo nem sempre √© apropriada para nos orgulharmos. Antes de mais nada, uma pessoa √© tanto mais amada quanto mais moderar as suas expectativas em rela√ß√£o ao esp√≠rito e ao cora√ß√£o dos outros; e tudo isso a s√©rio, sem fingimento, e n√£o apenas devido √† indulg√™ncia enraizada no desprezo. Recordemos aqui o dito verdadeiro de Helv√©cio: ¬ęO grau de esp√≠rito necess√°rio para nos agradar √© uma medida bastante exacta do grau de esp√≠rito que possu√≠mos¬Ľ. E assim chegamos √† conclus√£o iniciada pelas premissas. Por outro lado, quando se trata da estima dos homens, d√°-se o contr√°rio: esta s√≥ lhes √© arrancada contra a vontade; por isso, na maioria das vezes √© ocultada. Desse modo, ela proporciona-nos uma satisfa√ß√£o interior bem maior, pois est√° relacionada ao nosso valor, o que n√£o vale imediatamente para o amor dos homens, j√° que este √© subjectivo, enquanto a estima √© objectiva.

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O Sucesso para um Grande Amor

Estou contente porque a minha querida n√£o tem ainda o afecto exclusivo e √ļnico que h√°-de sentir um dia por um homem, apesar de todas as suas teorias que h√°-de ver voar, voar para t√£o longe ainda!… E no entanto, elas s√£o t√£o verdadeiras! Ainda assim, minha querida J√ļlia, uma das coisas melhores da nossa vida de t√£o prosaico s√©culo, √© o amor, o grande e discutido amor, o nosso encanto e o nosso mist√©rio; as nossas p√©talas de rosa e a nossa coroa de espinhos. O amor √ļnico, doce e sentimental da nossa alma de portugueses, o amor de que fala J√ļlio Dantas, ¬ęuma ternura casta, uma ternura s√£¬Ľ de que ¬ęo peito que o sente √© um sacr√°rio estrela¬≠do¬Ľ, como diz Junqueiro; o amor que √© a raz√£o √ļnica da vida que se vive e da alma que se tem; a paix√£o delicada que d√° beijos ao luar e alma a tudo, desde o olhar ao sorriso, ‚ÄĒ √© ainda uma coisa nobre, bela e digna! Digna de si, do seu sentir, do seu grande cora√ß√£o, ao mesmo tempo violento e calmo. Esse amor que ¬ęem sendo triste, canta, e em sendo alegre, chora¬Ľ, esse amor h√°-de senti-lo um dia,

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