Textos sobre Terra

262 resultados
Textos de terra escritos por poetas consagrados, filósofos e outros autores famosos. Conheça estes e outros temas em Poetris.

Porque Escrevo?

Escrever. Porque escrevo? Escrevo para criar um espa√ßo habit√°vel da minha necessidade, do que me oprime, do que √© dif√≠cil e excessivo. Escrevo porque o encantamento e a maravilha s√£o verdade e a sua sedu√ß√£o √© mais forte do que eu. Escrevo porque o erro, a degrada√ß√£o e a injusti√ßa n√£o devem ter raz√£o. Escrevo para tornar poss√≠vel a realidade, os lugares, tempos que esperam que a minha escrita os desperte do seu modo confuso de serem. E para evocar e fixar o percurso que realizei, as terras, gentes e tudo o que vivi e que s√≥ na escrita eu posso reconhecer, por nela recuperarem a sua essencialidade, a sua verdade emotiva, que √© a primeira e a √ļltima que nos liga ao mundo. Escrevo para tornar vis√≠vel o mist√©rio das coisas. Escrevo para ser. Escrevo sem raz√£o.

Saber Terminar uma Amizade Indesej√°vel

Sucede, tamb√©m, como por calamidade, que algumas vezes √© necess√°rio romper uma amizade: porque passo agora das amizades dos s√°bios √†s liga√ß√Ķes vulgares. Muitas vezes quando os v√≠cios se revelam num homem, os seus amigos s√£o as suas v√≠timas como todos os outros: contudo √© sobre eles que recai a vergonha. √Č preciso, pois, desligar-se de tais amizades ‚ÄĒ, afrouxando o la√ßo pouco a pouco e, como ouvi dizer a Cat√£o, √© necess√°rio descoser antes que despeda√ßar, a menos que se n√£o haja produzido um esc√Ęndalo de tal modo intoler√°vel, que n√£o fosse nem justo nem honesto, nem mesmo poss√≠vel, deixar de romper imediatamente.

Mas se o car√°cter e os gostos vierem a mudar, o que acontece muitas vezes; se algum dissentimento pol√≠tico separar dois amigos (n√£o falo mais, repito-o, das amizades dos s√°bios, mas das afei√ß√Ķes vulgares), √© preciso tomar cuidado em, desfazendo a amizade, n√£o a substituir logo pelo √≥dio. Nada mais vergonhoso, com efeito, que estar em guerra com aquele que se amou por muito tempo.
(…) Apliquemo-nos, pois, antes de tudo, em afastar toda a causa de ruptura: se contudo, acontecer alguma, que a amizade pare√ßa antes extinta do que estrangulada. Temamos sobretudo que ela n√£o se transforme em √≥dio violento,

Continue lendo…

A Intuição é mais Forte que a Razão

Devemos sempre dominar a nossa impress√£o perante o que √© presente e intuitivo. Tal impress√£o, comparada ao mero pensamento e ao mero conhecimento, √© incomparavelmente mais forte; n√£o devido √† sua mat√©ria e ao seu conte√ļdo, ami√ļde bastante limitados, mas √† sua forma, ou seja, √† sua clareza e ao seu imediatismo, que penetram na mente e perturbam a sua tranquilidade ou atrapalham os seus prop√≥sitos. Pois o que √© presente e intuitivo, enquanto facilmente apreens√≠vel pelo olhar, faz efeito sempre de um s√≥ golpe e com todo o seu vigor. Ao contr√°rio, pensamentos e raz√Ķes requerem tempo e tranquilidade para serem meditados parte por parte, logo, n√£o se pode t√™-los a todo o momento e integralmente diante de n√≥s. Em virtude disso, deve-se notar que a vis√£o de uma coisa agrad√°vel, √† qual renunciamos pela pondera√ß√£o, ainda nos atrai. Do mesmo modo, somos feridos por um ju√≠zo cuja inteira incompet√™ncia conhecemos; somos irritados por uma ofensa de car√°cter reconhecidamente desprez√≠vel; e, do mesmo modo, dez raz√Ķes contra a exist√™ncia de um perigo caem por terra perante a falsa apar√™ncia da sua presen√ßa real, e assim por diante. Em tudo se faz valer a irracionalidade origin√°ria do nosso ser.

Onde Ser√° a Terra Prometida?

Triste época a nossa! Para que oceano correrá esta torrente de iniquidades? Para onde vamos nós, numa noite tão profunda? Os que querem tactear este mundo doente retiram-se depressa, aterrorizados com a corrupção que se agita nas suas entranhas.
Quando Roma se sentiu agonizar, tinha pelo menos uma esperança, entrevia por detrás da mortalha a Cruz radiosa, brilhando sobre a eternidade. Essa religião durou dois mil anos, mas agora começa a esgotar-se, já não basta, troçam dela; e as suas igrejas caem em ruínas, os seus cemitérios transbordam de mortos.
E nós, que religião teremos nós? Sermos tão velhos como somos, e caminharmos ainda no deserto, como os Hebreus que fugiam do Egipto.
Onde ser√° a Terra prometida?
Tentámos tudo e renegámos tudo, sem esperança; e depois uma estranha ambição invadiu-nos a alma e a humanidade, há uma inquietação imensa que nos rói, há um vazio na nossa multidão; sentimos à nossa volta um frio de sepulcro.
A humanidade come√ßou a mexer em m√°quinas, e ao ver o ouro que nelas brilhava, exclamou: ¬ę√Č Deus!¬Ľ E come esse Deus. H√° – e √© porque tudo acabou, adeus! adeus! – vinho antes da morte! Cada um se precipita para onde o seu instinto o impele,

Continue lendo…

A Essência da Poesia

Não aprendi nos livros qualquer receita para a composição de um poema; e não deixarei impresso, por meu turno, nem sequer um conselho, modo ou estilo para que os novos poetas recebam de mim alguma gota de suposta sabedoria. Se narrei neste discurso alguns sucessos do passado, se revivi um nunca esquecido relato nesta ocasião e neste lugar tão diferentes do sucedido, é porque durante a minha vida encontrei sempre em alguma parte a asseveração necessária, a fórmula que me aguardava, não para se endurecer nas minhas palavras, mas para me explicar a mim próprio.
Encontrei, naquela longa jornada, as doses necess√°rias para a forma√ß√£o do poema. Ali me foram dadas as contribui√ß√Ķes da terra e da alma. E penso que a poesia √© uma ac√ß√£o passageira ou solene em que entram em doses medidas a solid√£o e solidariedade, o sentimento e a ac√ß√£o, a intimidade da pr√≥pria pessoa, a intimidade do homem e a revela√ß√£o secreta da Natureza. E penso com n√£o menor f√© que tudo se apoia – o homem e a sua sombra, o homem e a sua atitude, o homem e a sua poesia – numa comunidade cada vez mais extensa, num exerc√≠cio que integrar√° para sempre em n√≥s a realidade e os sonhos,

Continue lendo…

O Planeta da Inexperiência

Primeiro t√≠tulo pensado para A Insustent√°vel Leveza do Ser: ¬ęO Planeta da Inexperi√™ncia¬Ľ. A inexperi√™ncia como uma qualidade da condi√ß√£o humana. Nascemos uma vez por todas, nunca poderemos recome√ßar uma outra vida com as experi√™ncias da vida anterior. Sa√≠mos da inf√Ęncia sem sabermos o que √© a juventude, casamo-nos sem sabermos o que √© ser casado, e mesmo quando entramos na velhice, n√£o sabemos para onde vamos: os velhos s√£o crian√ßas inocentes da sua velhice. Neste sentido, a terra do homem √© o planeta da inexperi√™ncia.

O Futuro da Espécie Humana

N√£o sei se as popula√ß√Ķes est√£o a aumentar ou a diminuir. √Č claro que, com o aborto, com a p√≠lula, com as “camisas de V√©nus”, com a soma dessas coisas todas, a procria√ß√£o diminui, a velhice aumenta; a receita dos impostos diminui, porque h√° menos jovens no trabalho e h√° mais velhos a ser remunerados. √Č preciso que a popula√ß√£o aumente sempre e que n√£o se fa√ßa a desertifica√ß√£o da prov√≠ncia, como est√° a acontecer. Tiram escolas, hospitais e as pessoas desertificam essas cidades. Porque √© da prov√≠ncia, da cultura da terra, que n√≥s vivemos, e ela est√° desertificada.

[Mas eu referia-me mesmo à sobrevivência do planeta Terra. Acha que ele está em perigo?]

Está em perigo, claro. De tal modo que a gente pergunta: onde está a inteligência do homem? Há um progresso, é certo, mas esse progresso encaminha-se para a morte.

√Č Mais Simples e Mais √ötil Adaptar-se Aos Outros

Supondo que s√≥ existiam hoje dois homens na terra que a possuissem sozinhos, e a dividam entre si, estou convencido de que nascer√° logo entre eles algum motivo de disc√≥rdia, nem que seja pelos limites. √Äs vezes √© mais simples e mais √ļtil adaptar-se aos outros do que fazer os outros se adaptarem a n√≥s.
(…) H√° uma coisa que nunca se viu sob o c√©u e segundo todas as apar√™ncias, nunca se ver√°: √© uma cidade pequena que n√£o esteja dividida em partidos; onde as fam√≠lias sejam unidas e os primos se vejam com confian√ßa; onde um casamento n√£o gere guerra civil; onde a querela dos partidos n√£o desperte a todo o momento, por fraude, incenso e p√£o bento, prociss√Ķes e enterros; de onde se baniram os linguarudos, a mentira e a maledic√™ncia: onde se vejam falar juntos o juiz e o presidente da c√Ęmara, os eleitores e os assessores; onde o de√£o viva bem com o c√≥nego, onde os c√≥negos n√£o desdenhem os capel√£es e estes suportem os padres-mestres.
Os provincianos e os tolos est√£o sempre prontos a se zangarem e a pensarem que se est√° a zombar deles, ou a desprez√°-los; nunca se deve arriscar uma brincadeira,

Continue lendo…

O Sentido de Possibilidade

Poderia definir-se o sentido de possibilidade como aquela capacidade de pensar tudo aquilo que tamb√©m poderia ser e de n√£o dar mais import√Ęncia √†quilo que √© do que √†quilo que n√£o √©. Como se v√™, as consequ√™ncias desta disposi√ß√£o criadora podem ser not√°veis; infelizmente, n√£o √© raro que fa√ßam aparecer como falso aquilo que as pessoas admiram e como l√≠cito aquilo que elas pro√≠bem, ou ent√£o as duas coisas como sendo indiferentes. Esses homens do poss√≠vel vivem, como se costuma dizer, numa trama mais subtil, numa teia de n√©voa, fantasia, sonhos e conjuntivos; se uma crian√ßa mostra tend√™ncias destas, acaba-se firmemente com elas, e diz-se-lhe que tais pessoas s√£o vision√°rios, sonhadores, fracos, gente que tudo julga saber melhor e em tudo p√Ķe defeito.
Quando se quer elogiar estes loucos, chama-se-lhes também idealistas, mas é claro que com isso só se alude à sua natureza débil, incapaz de compreender a realidade, ou que a evita por melancolia, uma natureza na qual a falta do sentido de realidade é um verdadeiro defeito. O possível, porém, não abarca apenas os sonhos dos neurasténicos, mas também os desígnios ainda adormecidos de Deus. Uma experiência possível ou uma verdade possível não são iguais a uma experiência real e uma verdade real menos o valor da sua realidade,

Continue lendo…

Seguro Emocional

Com frequência, comento com os meus alunos da licenciatura em psicanálise e psicologia multifocal que uma das tarefas mais nobres e relevantes do Eu é mapear, esquadrinhar os nossos fantasmas e reeditar as nossas janelas traumáticas. De outro modo, podemos fazer parte do rol dos que falam sobre maturidade mas são verdadeiras crianças no território da emoção, pois não sabem ser minimamente criticados, contrariados e, além disso, têm a necessidade neurótica de poder e de que o mundo gravite na sua órbita.

Certa vez, perguntei a executivos das cinquenta empresas psicologicamente mais saud√°veis do pa√≠s: ¬ęQuem tem algum tipo de seguro?¬Ľ Todos responderam que tinham. Em seguida, indaguei: ¬ęQuem tem um seguro emocional?¬Ľ Ningu√©m arriscou levantar a m√£o. Foram sinceros. Como podemos falar de empresas saud√°veis sem mencionar os mecanismos b√°sicos para proteger a emo√ß√£o? S√≥ fazemos um seguro daquilo que nos √© caro. Mas, infelizmente, a mais importante propriedade tem tido um valor irrelevante.

Em geral, estes profissionais s√£o √≥timos para a empresa, mas carrascos de si mesmos. Acertam no trivial, mas erram muito no essencial. E eu? E o leitor? Ainda que possamos dizer que a mente humana √© a mais complexa de todas as ¬ęempresas¬Ľ,

Continue lendo…

Depois de Chorar

N√£o √© a tristeza que nos faz chorar, mas o amor que enfrenta os vazios. As ang√ļstias e desesperos s√£o express√Ķes de falta.

As lágrimas que de nós brotam e caem longe do olhar dos outros são as que mais força trazem em si, as que fazem concreto e objetivo o sentir mais íntimo.

Por vezes, o cora√ß√£o cai nas armadilhas das tristezas antigas… outras, sentimos os espinhos das novas adversidades cravarem-se-nos na carne. H√° sempre tristezas, h√° sempre sofrimento, haver√° sempre dor enquanto houver amor.
As lágrimas não choradas não deixam de ser amargas, mas essas, ao contrário das que nascem, corroem o interior de quem com elas não chega a regar a terra que lhe segura os pés.

A vida faz-se também com as nossas lágrimas e vence-se, muitas vezes, de olhos carregados de mar. O esforço que nos é exigido chega quase a ser impossível sem lágrimas. Chorar não é sinal de derrota, antes sim de um amor que busca a paz merecida.

O sentido da vida cabe dentro de uma gota de √°gua salgada‚Ķ a verdadeira paix√£o √© a dor m√°xima do amor mais profundo. Aquele que faz germinar em n√≥s o melhor…

Continue lendo…

A Mediocridade do Talento

Quem entre n√≥s n√£o tem talento? Mesmo aqueles que nada t√™m, t√™m talento at√© os pol√≠ticos – at√© os jornalistas… Fique pois dito de uma vez para sempre: quem me disser que eu tenho talento, ofende-me; quem me disser que sou um homem de talento, aflige-me.
Renego o vosso talento; despejo-o com os jornais na latrina. Falo-vos claro; para mim o talento n√£o √© sen√£o o grau sublime da mediocridade. O talento √© aquela forma superior de intelig√™ncia que todos podem compreender, apreciar e amar. O talento √© aquela mistura saborosa de facilidade, de esp√≠rito, de lugares-comuns afectados, de filite√≠smo um tanto brilhante que agrada √†s senhoras, aos professores, aos advogados, aos mundanos, √†s famosas pessoas cultas, em suma, a todos os que est√£o meio por meio entre o c√©u e a terra, entre o para√≠so e o inferno, a igual dist√Ęncia da animalidade profunda e do g√©nio grande.

Imitadores

Os homens n√£o descendem dos macacos, mas desenvolvem todos os esfor√ßos para o fazer crer. O pecado original aproximou-nos dos animais e toda a alma √©, de uma maneira ou de outra, uma crestomia zool√≥gica. O que Dante diz das ovelhas – ¬ęe o que uma faz primeiro as outras imitam¬Ľ – poder-se-ia aplicar a quase todos n√≥s.
Desde que Ad√£o resolveu imitar Eva e mordeu o fruto, somos, a despeito da nossa ilus√£o em contr√°rio, uma sucess√£o infinita de c√≥pias. Um √ļnico cunho – em regra, chamado g√©nio – basta para imprimir milhares e milhares daquelas moedas vulgares que circulam pela Terra. E o g√©nio nem sempre se liberta da servid√£o universal da imita√ß√£o. Toda a vida √© um mosaico de pl√°gios.
A maioria imita por preguiça, para se poupar o trabalho de procurar e inventar, ou por prudência, que aconselha os caminhos percorridos e as experiências coroadas de êxito. Compreende-se que a humildade, embora rara, leve naturalmente quem a possui a imitar aqueles que reconhece superiores, mas a própria soberba, que deveria afastar da repetição, torna-nos macacos. Se viver é distinguir-se, o orgulhoso deveria providenciar para não se parecer com ninguém. Mas a inveja, sob a sonante designação da emulação,

Continue lendo…

O Caminho da Verdade

Afirmo que a verdade é uma terra sem caminhos definidos, e que não a podemos abordar por qualquer caminho que seja, por nenhuma religião, por nenhum credo. Este é o meu ponto de vista, e adiro a este de forma absoluta e incondicional. A verdade, sendo ilimitada, incondicionada, inacessível por qualquer caminho que seja, não pode ser organizada; nem deve nenhuma organização ser formada para liderar ou coagir as pessoas para seguir um caminho em particular. Se entender isto, então compreenderá quanto impossível é organizar uma crença. Uma crença é uma questão puramente individual, e não é possível organizá-la. Se fizer isso, esta crença torna-se morta, cristaliza-se, tonar-se um credo, uma seita, uma religião, a ser imposta a outros.

O Socorro

Ele foi cavando, foi cavando, cavando, pois sua profiss√£o – coveiro – era cavar. Mas, de repente, na distrac√ß√£o do of√≠cio que amava, percebeu que cavara de mais. Tentou sair da cova e n√£o conseguiu. Levantou o olhar para cima e viu que, sozinho, n√£o conseguiria sair. Gritou. Ningu√©m atendeu. Gritou mais forte. Ningu√©m veio. Enlouqueceu de gritar, cansou de esbravejar, desistiu com a noite. Sentou-se no fundo da cova, desesperado. A noite chegou, subiu, fez-se o sil√™ncio das horas tardas. Bateu o frio da madrugada e, na noite escura, n√£o se ouvia mais um som humano, embora o cemit√©rio estivesse cheio dos pipilos e coaxares naturais dos matos. S√≥ pouco depois da meia-noite √© que l√° vieram uns passos. Deitado no fundo da cova o coveiro gritou. Os passos se aproximaram. Uma cabe√ßa √©bria apareceu l√° em cima, perguntou o que havia: ¬ęO que √© que h√°?¬Ľ
O coveiro ent√£o gritou, desesperado: ¬ęTire-me daqui, por favor. Estou com um frio terr√≠vel!¬Ľ. ¬ęMas coitado!¬Ľ – condoeu-se o b√™bado. – ¬ęTem toda raz√£o de estar com frio.
Algu√©m tirou a terra toda de cima de voc√™, meu pobre mortinho!¬Ľ. E, pegando na p√°, encheu-a de terra e p√īs-se a cobri-lo cuidadosamente.

Continue lendo…

O Futuro de Portugal

O que calcula que seja o futuro da raça portuguesa?
‚ÄĒ O Quinto Imp√©rio. O futuro de Portugal ‚ÄĒ que n√£o calculo, mas sei ‚ÄĒ est√° escrito j√°, para quem saiba l√™-lo, nas trovas do Bandarra, e tamb√©m nas quadras de Nostradamus. Esse futuro √© sermos tudo. Quem, que seja portugu√™s, pode viver a estreiteza de uma s√≥ personalidade, de uma s√≥ na√ß√£o, de uma s√≥ f√©? Que portugu√™s verdadeiro pode, por exemplo, viver a estreiteza est√©ril do catolicismo, quando fora dele h√° que viver todos os protestantismos, todos os credos orientais, todos os paganismos mortos e vivos, fundindo-os portuguesmente no Paganismo Superior? N√£o queiramos que fora de n√≥s fique um √ļnico deus! Absorvamos os deuses todos! Conquistamos j√° o Mar: resta que conquistemos o C√©u, ficando a terra para os Outros, os eternamente Outros, os Outros de nascen√ßa, os europeus que n√£o s√£o europeus porque n√£o s√£o portugueses. Ser tudo, de todas as maneiras, porque a verdade n√£o pode estar em faltar ainda alguma cousa! Criemos assim o Paganismo Superior, o Polite√≠smo Supremo! Na eterna mentira de todos os deuses, s√≥ os deuses todos s√£o verdade.

A Felicidade Est√° Fora da Nossa Realidade

O amoroso apaixonado j√° n√£o vive em si, mas no que ama; quanto mais se afasta de si para se fundir no seu amor, mais feliz se sente. Assim, quando a alma sonha em fugir do corpo e renuncia a servir-se normalmente dos seus org√£os, podeis dizer com raz√£o que ele enlouquece. As express√Ķes correntes n√£o querem dizer outra coisa: ¬ęN√£o est√° em si… Volta a ti… Ele voltou a si.¬Ľ E quanto mais perfeito √© o amor, maior a loucura e mais feliz.
Quem ser√°, pois, essa vida no C√©u, √† qual aspiram t√£o ardentemente as almas piedosas? O esp√≠rito, mais forte e vitorioso, absorver√° o corpo; isto ser√° tanto mais f√°cil quanto mais purificado e extenuado tiver sido o corpo durante a vida. Por sua vez, o esp√≠rito ser√° absorvido pela suprema Intelig√™ncia, cujos poderes s√£o infinitos. Assim se encontrar√° fora de si mesmo o homem inteiro e a √ļnica raz√£o da sua felicidade ser√° de n√£o mais se pertencer, mas de submeter-se a este soberano inef√°vel, que tudo atrai a si.
Uma tal felicidade, é certo, só poderá ser perfeita no momento em que as almas, dotadas de imortalidade, retomem os antigos corpos. Mas, como a vida dos piedosos não é mais do que a meditação sobre a eternidade e como que a sombra dela,

Continue lendo…

Esta Prosa Travada

P√Ķe-se a gente a ler estes Gides, estes Munthes, estes Malraux. E √© sempre a mesma sensa√ß√£o de plenitude. Sempre a mesma sensa√ß√£o de que, depois daquilo, n√£o vale a pena escrever uma palavra, de mais a mais nesta l√≠ngua de que o diabo ainda se serve para falar √† av√≥… Mas depois vem a revolta. Esta impotente revolta de todo o verdadeiro escritor portugu√™s que come√ßou por nascer atr√°s duma fraga e acaba por gastar a vida em Paio Pires, amanuense de secretaria. Metessem no bra√ßo dum Gide uma manga de alpaca, e eu queria ver… Ent√£o um homem nasce em Paris ou numa terra lavada da Su√©cia, tanto faz, mestres logo √† beira do ber√ßo, todas as civiliza√ß√Ķes na biblioteca do pai, uma vida inteira pelo mundo al√©m, e aqueles neur√≥nios, e aqueles sentidos n√£o h√£o-de reagir?! O mais bronco ser humano, quando fala com um Wilde, ouviu pelo menos falar o autor do De Profundis. Evidentemente √© preciso mais alguma coisa do que ir √† China e ter certa experi√™ncia para escrever A Condi√ß√£o Humana. Mas, sem um homem andar de avi√£o, como h√°-de um homem ganhar perspectivas de p√°ssaro e falar de po√ßos de ar?!
…E a gente n√£o tem outro rem√©dio sen√£o gastar as horas a fabricar esta prosa travada,

Continue lendo…

A Pergunta Limita a Resposta

Quando se faz uma pergunta dissemos j√° que nos interessamos por uma determinada quest√£o, limitamos j√° o campo da resposta. Que eu te pergunte, disseste-me tu, ¬ęest√° frio?¬Ľ, e nada se poder√° dizer sen√£o referente ao frio. N√£o se poder√° responder por exemplo que a arte √© bela ou que a Terra √© redonda. √Č por isso que √© suspeito para um ateu que se pergunte se Deus existe; como seria ofensivo perguntar-se a algu√©m se a mulher o atrai√ßoa… Mesmo que a resposta dissesse ¬ęn√£o¬Ľ, a pergunta, s√≥ por si, j√° de algum modo tinha dito ¬ęsim¬Ľ.

A Fragilidade dos Valores

Todas as coisas ¬ęboas¬Ľ foram noutro tempo m√°s; todo o pecado original veio a ser virtude original. O casamento, por exemplo, era tido como um atentado contra a sociedade e pagava-se uma multa, por ter tido a imprud√™ncia de se apropriar de uma mulher (ainda hoje no Cambodja o sacerdote, guarda dos velhos costumes, conserva o jus primae noctis). Os sentimentos doces, ben√©volos, conciliadores, compassivos, mais tarde vieram a ser os ¬ęvalores por excel√™ncia¬Ľ; por muito tempo se atraiu o desprezo e se envergonhava cada qual da brandura, como agora da dureza.
A submiss√£o ao direito: oh! que revolu√ß√£o de consci√™ncia em todas as ra√ßas aristocr√°ticas quando tiveram de renunciar √† vingan√ßa para se submeterem ao direito! O ¬ędireito¬Ľ foi por muito tempo um vetitum, uma inova√ß√£o, um crime; foi institu√≠do com viol√™ncia e opr√≥bio.
Cada passo que o homem deu sobre a Terra custou-lhe muitos supl√≠cios intelectuais e corporais; tudo passou adiante e atrasou todo o movimento, em troca teve inumer√°veis m√°rtires; por estranho que isto hoje nos pare√ßa, j√° o demonstrei na Aurora, aforismo 18: ¬ęNada custou mais caro do que esta migalha de raz√£o e de liberdade, que hoje nos envaidece¬Ľ. Esta mesma vaidade nos impede de considerar os per√≠odos imensos da ¬ęmoraliza√ß√£o dos costumes¬Ľ que precederam a hist√≥ria capital e foram a verdadeira hist√≥ria,

Continue lendo…