Textos sobre Duros

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Textos de duros escritos por poetas consagrados, filósofos e outros autores famosos. Conheça estes e outros temas em Poetris.

A Instabilidade e Imprevisibilidade do Nosso Comportamento

N√£o deveis estranhar se hoje vedes poltr√£o aquele que ontem vistes t√£o intr√©pido: ou a c√≥lera, ou a necessidade, ou a companhia, ou o vinho, ou o som de uma trombeta, tinham-lhe incutido coragem. N√£o se trata de uma coragem que a raz√£o haja modelado; foram as circunst√Ęncias que lhe deram consist√™ncia; n√£o espanta, pois, que circunst√Ęncias contr√°rias a tenham transformado.
Esta t√£o flex√≠vel varia√ß√£o e estas contradi√ß√Ķes que em n√≥s se v√™em, fizeram com que alguns imaginassem termos duas almas, e que outros supusessem que dois poderes nos acompanham e agitam, cada qual √† sua maneira, um tendendo para o bem, o outro para o mal, j√° que t√£o brutal diversidade n√£o poderia atribuir-se a uma s√≥ entidade.
N√£o somente o vento dos acidentes me agita consoante a direc√ß√£o para que sopra, mas, ademais, eu agito-me e perturbo-me a mim pr√≥prio pela instabilidade da minha postura; e quem, antes do mais, se observar, nunca se achar√° duas vezes no mesmo estado. Confiro √† minha alma ora um rosto ora outro, conforme o lado sobre que a pousar. Se falo de mim de diferentes maneiras √© porque de maneiras diferentes me observo. Toda a sorte de contradi√ß√Ķes se podem encontrar em mim sob algum ponto de vista e sob alguma forma.

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A Vida em Pleno

Diariamente criticamos o destino: “Porque foi este homem arrebatado a meio da carreira? E aquele, porque n√£o morre, em vez de prolongar uma velhice t√£o penosa para ele como para os outros?” Diz-me c√°, por favor: o que achas tu mais justo, seres tu a obedecer √† natureza ou a natureza a ti? Que diferen√ßa faz sair mais ou menos depressa de um s√≠tio de onde temos mesmo de sair? N√£o nos devemos preocupar em viver muito, mas sim em viver plenamente; viver muito depende do destino, viver plenamente, da nossa pr√≥pria alma. Uma vida plena √© longa quanto basta; e ser√° plena se a alma se apropria do bem que lhe √© pr√≥prio e se apenas a si reconhece poder sobre si mesma. Que interessa os oitenta anos daquele homem passados na inac√ß√£o? Ele n√£o viveu, demorou-se nesta vida; n√£o morreu tarde, levou foi muito tempo a morrer! “Viveu oitenta anos!”. O que importa √© ver a partir de que data ele come√ßou a morrer. “Mas aquele outro morreu na for√ßa da vida”. √Č certo, mas cumpriu os deveres de um bom cidad√£o, de um bom amigo, de um bom filho, sem descurar o m√≠nimo pormenor; embora o seu tempo de vida ficasse incompleto,

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Viver √©…

Viver √© uma perip√©cia. Um dever, um afazer, um prazer, um susto, uma cambalhota. Entre o √Ęnimo e o des√Ęnimo, um entusiasmo ora doce, ora din√Ęmico e agressivo.
Viver não é cumprir nenhum destino, não é ser empurrado ou rasteirado pela sorte. Ou pelo azar. Ou por Deus, que também tem a sua vida. Viver é ter fome. Fome de tudo. De aventura e de amor, de sucesso e de comemoração de cada um dos dias que se podem partilhar com os outros. Viver é não estar quieto, nem conformado, nem ficar ansiosamente à espera.
Viver é romper, rasgar, repetir com criatividade. A vida não é fácil, nem justa, e não dá para a comparar a nossa com a de ninguém. De um dia para o outro ela muda, muda-nos, faz-nos ver e sentir o que não víamos nem sentíamos antes e, possivelmente, o que não veremos nem sentiremos mais tarde.
Viver é observar, fixar, transformar. Experimentar mudanças. E ensinar, acompanhar, aprendendo sempre. A vida é uma sala de aula onde todos somos professores, onde todos somos alunos. Viver é sempre uma ocasião especial. Uma dádiva de nós para nós mesmos. Os milagres que nos acontecem têm sempre uma impressão digital.

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O Amor e a Vida

O amor √© uma imagem da nossa vida. Tanto o primeiro como a segunda est√£o sujeitos √†s mesmas revolu√ß√Ķes e mudan√ßas. A sua juventude √© resplandecente, alegre e cheia de esperan√ßas porque somos felizes por ser jovens tal como somos felizes por amar. Este agradabil√≠ssimo estado leva-nos a procurar outros bens muito s√≥lidos. N√£o nos contentamos nessa fase da vida com o facto de susbsistirmos, queremos progredir, ocupamo-nos com os meios para nos aperfei√ßoarmos e para assegurar a nossa boa sorte. Procuramos a protec√ß√£o dos ministros, mostrando-nos sol√≠citos e n√£o aguentamos que outrem queira o mesmo que temos em vista. Este est√≠mulo cumula-nos de mil trabalhos e esfor√ßos que logo se apagam quando alcan√ßamos o desejado. Todas as nossas paix√Ķes ficam ent√£o satisfeitas e nem por sombras podemos imaginar que a nossa felicidade tenha fim.
No entanto, esta felicidade raramente dura muito e fatiga-se da graça da novidade. Para possuirmos o que desejámos não paramos de desejar mais e mais. Habituamo-nos ao que temos, mas os mesmos haveres não conservam o seu preço, como nem sempre nos tocam do mesmo modo. Mudamos imperceptivelmente sem disso nos apercebermos. O que já adquirimos torna-se parte de nós mesmos e sofreríamos muito com a sua perda,

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As Paix√Ķes Humanas

Eu considero inteligente o homem que em vez de desprezar este ou aquele semelhante √© capaz de o examinar com olhar penetrante, de lhe sondar por assim dizer a alma e descobrir o que se encontra em todos os seus desv√£os. Tudo no homem se transforma com grande rapidez; num abrir e fechar de olhos, um terr√≠vel verme pode corroer-lhe as entranhas e devorar-lhe toda a sua subst√Ęncia vital. Muitas vezes uma paix√£o, grande ou mesquinha pouco importa, nasce e cresce num indiv√≠duo para melhor sorte, obrigando-o a esquecer os mais sagrados deveres, a procurar em √≠nfimas bagatelas a grandeza e a santidade. As paix√Ķes humanas n√£o t√™m conta, s√£o tantas, tantas, como as areias do mar, e todas, as mais vis como as mais nobres, come√ßam por ser escravas do homem para depois o tiranizarem.
Bem-aventurado aquele que, entre todas as paix√Ķes, escolhe a mais nobre: a sua felicidade aumenta de hora a hora, de minuto a minuto, e cada vez penetra mais no ilimitado para√≠so da sua alma. Mas existem paix√Ķes cuja escolha n√£o depende do homem: nascem com ele e n√£o h√° for√ßa bastante para as repelir. Uma vontade superior as dirige, t√™m em si um poder de sedu√ß√£o que dura toda a vida.

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Política de Interesse

Em Portugal n√£o h√° ci√™ncia de governar nem h√° ci√™ncia de organizar oposi√ß√£o. Falta igualmente a aptid√£o, e o engenho, e o bom senso, e a moralidade, nestes dois factos que constituem o movimento pol√≠tico das na√ß√Ķes.
A ciência de governar é neste país uma habilidade, uma rotina de acaso, diversamente influenciada pela paixão, pela inveja, pela intriga, pela vaidade, pela frivolidade e pelo interesse.
A pol√≠tica √© uma arma, em todos os pontos revolta pelas vontades contradit√≥rias; ali dominam as m√°s paix√Ķes; ali luta-se pela avidez do ganho ou pelo gozo da vaidade; ali h√° a posterga√ß√£o dos princ√≠pios e o desprezo dos sentimentos; ali h√° a abdica√ß√£o de tudo o que o homem tem na alma de nobre, de generoso, de grande, de racional e de justo; em volta daquela arena enxameiam os aventureiros inteligentes, os grandes vaidosos, os especuladores √°speros; h√° a tristeza e a mis√©ria; dentro h√° a corrup√ß√£o, o patrono, o privil√©gio. A refrega √© dura; combate-se, atrai√ßoa-se, brada-se, foge-se, destr√≥i-se, corrompe-se. Todos os desperd√≠cios, todas as viol√™ncias, todas as indignidades se entrechocam ali com dor e com raiva.
√Ä escalada sobem todos os homens inteligentes, nervosos, ambiciosos (…) todos querem penetrar na arena,

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Somos a Resposta que Damos ao que Nos Acontece

Somos frágeis. A vida é dura. Não somos o que nos acontece.

H√° pesos que n√£o podemos rejeitar. Toda a revolta seria t√£o ilus√≥ria quanto in√ļtil. Mas n√£o devemos ficar pela simples resigna√ß√£o, √© preciso que assumamos esses pesos e os queiramos levar de vencidos. Que escolhamos ser quem somos, apesar deles. Com eles. Neles.

Somos a resposta que damos ao que nos acontece.

Temos de aceitar a indiferen√ßa e a incompreens√£o dos outros. As d√ļvidas e as contradi√ß√Ķes do mundo s√£o um peso acrescido, que devemos carregar junto √†s nossas pr√≥prias dores, falhas e fraquezas.

Depois, h√° ainda os pesos que os outros n√£o podem, ou n√£o querem, levar…

Os males pesam, sempre. Sejam os meus, os do mundo ou os dos que amo… h√° que aceit√°-los primeiro, para lhes fazer frente depois.

√Č essencial aceitar a fraqueza das nossas for√ßas. A imperman√™ncia de tudo o que temos. A fragilidade do que somos.

Por vezes, a cruz é o caminho.

√Č na dor que o verdadeiro amor se manifesta.

Tenho de me negar a mim mesmo se quero amar o outro.

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Deixa o que Seduz a Multid√£o

Se n√≥s nada fizermos sen√£o de acordo com os ditames da raz√£o, tamb√©m nada evitaremos sen√£o de acordo com os ditames da raz√£o. Se quiseres escutar a raz√£o, eis o que ela te dir√°: deixa de uma vez por todas tudo quanto seduz a multid√£o! Deixa a riqueza, deixa os perigos e os fardos de ser rico; deixa os prazeres, do corpo e do esp√≠rito, que s√≥ servem para amolecer as energias; deixa a ambi√ß√£o que n√£o passa de uma coisa artificialmente empolada, in√ļtil, inconsciente, incapaz de reconhecer limites, t√£o interessada em n√£o ter superiores como em evitar at√© os iguais, sempre torturada pela inveja, e uma inveja ainda por cima dupla. V√™ como de facto √© infeliz quem, objecto de inveja ele pr√≥prio, tem inveja por outros.
N√£o est√°s a ver essas casas dos grandes senhores, as suas portas cheias de clientes que se atropelam na entrada? Para l√° entrares, teria de sujeitar-te a in√ļmeras inj√ļrias, mas mais ainda terias de suportar se entrasses. Passa frente √†s escadarias dos ricos senhores, aos seus √°trios suspensos como terra√ßos: se l√° puseres os p√©s ser√° como estares √† beira de uma escarpa, e de uma escarpa prestes a ruir. Dirige ante os teus passos na via da sapi√™ncia,

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A Independência da Solidão

O que me importa unicamente √© o que tenho de fazer, n√£o o que pensam os outros. Esta regra, igualmente √°rdua na vida imediata como na intelectual, pode servir para a distin√ß√£o total entre a grandeza e a baixeza. E √© tanto mais dura quanto sempre se encontrar√£o pessoas que acreditam saber melhor do que tu qual √© o teu dever. √Č f√°cil viver no mundo de conformidade com a opini√£o das gentes; √© f√°cil viver de acordo consigo pr√≥prio na solid√£o; mas o grande homem √© aquele que, no meio da turba, mant√©m, com perfeita serenidade, a independ√™ncia da solid√£o.

Os Comunistas

… Passaram bastantes anos desde que ingressei no Partido… Estou contente… Os comunistas constituem uma boa fam√≠lia… T√™m a pele curtida e o cora√ß√£o valoroso… Por todo o lado recebem pauladas… Pauladas exclusivamente para eles… Vivam os espiritistas, os mon√°rquicos, os aberrantes, os criminosos de v√°rios graus… Viva a filosofia com fumo mas sem esqueletos… Viva o c√£o que ladra e que morde, vivam os astr√≥logos libidinosos, viva a pornografia, viva o cinismo, viva o camar√£o, viva toda a gente menos os comunistas… Vivam os cintos de castidade, vivam os conservadores que n√£o lavam os p√©s ideol√≥gicos h√° quinhentos anos… Vivam os piolhos das popula√ß√Ķes miser√°veis, viva a for√ßa comum gratuita, viva o anarco-capitalismo, viva Rilke, viva Andr√© Gide com o seu coribantismo, viva qualquer misticismo… Tudo est√° bem… Todos s√£o her√≥icos… Todos os jornais devem publicar-se… Todos devem publicar-se, menos os comunistas… Todos os pol√≠ticos devem entrar em S√£o Domingos sem algemas… Todos devem festejar a morte do sanguin√°rio Trujillo, menos os que mais duramente o combateram… Viva o Carnaval, os derradeiros dias do Carnaval… H√° disfarces para todos… Disfarces de idealistas crist√£os, disfarces de extrema-esquerda, disfarces de damas beneficentes e de matronas caritativas… Mas, cuidado, n√£o deixem entrar os comunistas…

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O Homem Perfeito

A virtude subdivide-se em quatro aspectos: refrear os desejos, dominar o medo, tomar as decis√Ķes adequadas, dar a cada um o que lhe √© devido. Concebemos assim as no√ß√Ķes de temperan√ßa, de coragem, de prud√™ncia e de justi√ßa, cada qual comportando os seus deveres espec√≠ficos. A partir de qu√™, ent√£o, concebemos n√≥s a virtude? O que no-la revela √© a ordem por ela pr√≥pria estabelecida, o decoro, a firmeza de princ√≠pios, a total harmonia de todos os seus actos, a grandeza que a eleva acima de todas as conting√™ncias. A partir daqui concebemos o ideal de uma vida feliz, fluindo segundo um curso inalter√°vel, com total dom√≠nio sobre si mesma. E como √© que este ideal aparece aos nossos olhos? Vou dizer-te.
O homem perfeito, possuidor da virtude, nunca se queixa da fortuna, nunca aceita os acontecimentos de mau humor, pelo contr√°rio, convicto de ser um cidad√£o do universo, um soldado pronto a tudo, aceita as dificuldades como uma miss√£o que lhes √© confiada. N√£o se revolta ante as desgra√ßas como se elas fossem um mal originado pelo azar, mas como uma tarefa de que ele √© encarregado. ¬ęSuceda o que suceder¬Ľ, ‚ÄĒ diz ele ‚ÄĒ ¬ęo caso √© comigo;

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N√°ufragos que Navegam Tempestades

As tempestades são sempre períodos longos. Poucas pessoas gostam de falar destes momentos em que a vida se faz fria e anoitece, preferem histórias de praias divertidas às das profundas tragédias de tantos naufrágios que são, afinal, os verdadeiros pilares da nossa existência.

Gente vazia tende a pensar em quem sofre como fraco… quando fracos s√£o os que evitam a qualquer custo mares revoltos, tempestades em que qualquer um se sente min√ļsculo, mas s√≥ os que n√£o prestam o s√£o verdadeiramente. Para a gente de cora√ß√£o pequeno, qualquer dor √© grande. Os homens e mulheres que assumem o seu destino sabem que, mais cedo ou mais tarde, morrer√£o, mas h√° ainda uma decis√£o que lhes cabe: desviver a fugir ou morrer sofrendo para diante.
Da morte saímos, para a morte caminhamos. O que por aqui sofremos pode bem ser a forma que temos de nos aproximarmos do coração da verdade.

Haverá sempre quem seja mestre de conversas e valente piloto de naus alheias, os que sabem sempre tudo, principalmente o que é (d)a vida do outro, e mais especificamente se estiver a passar um mau bocado. Logo se apressam a dizer que depois da tempestade vem a bonança,

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N√£o Posso o que Quero

Que gra√ßa ser√° esperardes de mim prop√≥sitos, em cousa que os n√£o tem para comigo? Pois, ainda que queira, n√£o posso o que quero; que um sentido remontado, de n√£o p√īr p√© em ramo verde, tudo lhe sucede assim; e ¬ęcada um acode ao que lhe mais d√≥i¬Ľ; e mais eu, que o que mais me entristece √© contentamento ter, pois fujo dele, que minh’alma o aborrece, porque lhe lembra que √© virtude de viver sem ele. Porque j√° sabeis que m√°goa √©: ¬ęv√™-lo h√°s e n√£o o papar√°s¬Ľ. Por fugir destes inconvenientes,

Toda a cousa descontente
contentar-me só convinha,
de meu gosto;
que, o mal de que sou doente,
sua mais certa mesinha
é desgosto.

J√° ouvir√≠eis dizer: ¬ęMouro, o que n√£o podes haver, d√°-o pela tua alma¬Ľ. O mal sem rem√©dio, o mais certo que tem, √© fazer da necessidade virtude; quanto mais, se tudo t√£o pouco dura como o passado prazer. Porque, enfim, allegados son iguales los que viven por sus manos, etc. A este prop√≥sito, pouco mais ou menos, se fizeram umas voltas a um mote de enche-m√£o, que diz por sua arte, zombando mais, que n√£o de siso (que toda a galantaria √© tir√°-la donde se n√£o espera),

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A Força da Vontade

Tudo vence uma vontade obstinada, todos os obst√°culos abate o homem que integrou na sua vida o fim a atingir e que est√° disposto a todos os sacrif√≠cios para cumprir a miss√£o que a si pr√≥prio se imp√īs. Atento ao mundo exterior, para que n√£o falte nenhuma oportunidade de p√īr em pr√°tica o pensamento que o anima, n√£o deixa que ele o distraia da tens√£o interna que lhe h√°-de dar a vit√≥ria; tem os dotes do pol√≠tico e os dotes do artista, quer modelar o mundo segundo o esquema que ideou. N√£o se trata, claro, de um triunfo pessoal; em hist√≥ria da cultura n√£o h√° triunfos pessoais; ou a vontade √© pura e generosa, nitidamente orientada ao bem geral, ou mais cedo, mais tarde, se h√°-de quebrar contra vontades de progresso mais fortes que ela. Que o querer tenha sua origem e seu apoio em cora√ß√£o aberto √† nobreza, √† beleza e √† justi√ßa; de outro modo √© apenas gume fino e duro de faca; por isso mesmo fr√°gil, na sua aparente penetra√ß√£o e resist√™ncia. Vontade inteligente, e n√£o manhosa, altru√≠sta, e n√£o virada ao sujeito, pedag√≥gica, e n√£o sedenta de dom√≠nio; a esta pertencem os s√©culos por vir: √© a voz a que surgem;

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A Conivência com o Mundo

Nasci dura, her√≥ica, solit√°ria e em p√©. E encontrei meu contraponto na paisagem sem pitoresco e sem beleza. A fei√ļra √© o meu estandarte de guerra. Eu amo o feio com um amor de igual para igual. E desafio a morte. Eu ‚Äď eu sou a minha pr√≥pria morte. E ningu√©m vai mais longe. O que h√° de b√°rbaro em mim procura o b√°rbaro e cruel fora de mim. Vejo em claros e escuros os rostos das pessoas que vacilam √†s chamas da fogueira. Sou uma √°rvore que arde com duro prazer. S√≥ uma do√ßura me possui: a coniv√™ncia com o mundo. Eu amo a minha cruz, a que doloridamente carrego. √Č o m√≠nimo que posso fazer de minha vida: aceitar comiseravelmente o sacrif√≠cio da noite.

Controlar o Desejo de Posse

√Č dif√≠cil, sen√£o imposs√≠vel, determinar os limites dos nossos desejos razo√°veis em rela√ß√£o √† posse. Pois o con¬≠tentamento de cada pessoa, a esse respeito, n√£o repousa numa quantidade absoluta, mas meramente relativa, a sa¬≠ber, na rela√ß√£o entre as suas pretens√Ķes e a sua posse. Por isso, esta √ļltima, considerada nela mesma, √© t√£o vazia de sen¬≠tido quanto o numerador de uma fra√ß√£o sem denomina¬≠dor. Um homem que nunca alimentou a aspira√ß√£o a cer¬≠tos bens, n√£o sente de modo algum a sua falta e est√° com¬≠pletamente satisfeito sem eles; enquanto um outro, que possui cem vezes mais do que o primeiro, sente-se infe¬≠liz, porque lhe falta uma s√≥ coisa √† qual aspira.
A esse respeito, cada um tem um horizonte pr√≥prio daquilo que pode alcan√ßar, e as suas pretens√Ķes v√£o at√© onde vai esse horizonte. Quando algum objecto se apresenta a ele nos limites desse horizonte, de modo que possa ter confian¬≠√ßa em alcan√ß√°-lo, sente-se feliz; pelo contr√°rio, sente-se in¬≠feliz quando dificuldades advindas o privam de seme¬≠lhante perspectiva. Aquilo que reside al√©m desse hori¬≠zonte n√£o faz efeito sobre ele. Eis por que as grandes posses do rico n√£o inquietam o pobre, e, por outro lado, o muito que j√° possui,

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O Saber Esmaga a Fé

A fé e o saber não se dão bem dentro da mesma cabeça: são como o lobo e o cordeiro dentro de uma jaula; e o saber é justamente o lobo, que ameaça devorar o seu vizinho.
O saber √© feito de uma mat√©ria mais dura do que a f√©, de modo que, quando colidem, a √ļltima se quebra.

O Desejo e a Posse

Um homem n√£o se sente totalmente privado dos bens aos quais nunca sonhou aspirar, mas fica muito satisfeito mesmo sem eles, enquanto outro que possua cem vezes mais do que o primeiro sente-se infeliz quando lhe falta uma √ļnica coisa que tenha desejado. A esse respeito, cada um tem tamb√©m um horizonte pr√≥prio daquilo que lhe √© poss√≠vel atingir, e as suas pretens√Ķes t√™m uma extens√£o semelhante a esse horizonte. Quando determinado objecto, situado dentro desses limites, se lhe apresenta de modo que o fa√ßa acreditar na possibilidade de alcan√ß√°-lo, o homem sente-se feliz; em contrapartida, sentir-se-√† infleliz quando eventuais dificuldades lhe tirarem tal possibilidade. Tudo o que estiver situado externamente a esse campo visual n√£o agir√° de forma alguma sobre ele. Por esse motivo, as grandes propriedades dos ricos n√£o perturbam o pobre, e, por outro lado, para o rico cujos prop√≥sitos tenham fracassado, serve de consolo as muitas coisas que j√° possui. (A riqueza assemelha-se √† √°gua do mar; quanto mais dela se bebe, mais sede se tem. O mesmo vale para a gl√≥ria).

O facto de que o nosso humor habitual não resulte muito diferente do anterior após a perda de uma riqueza ou do bem-estar,

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Os Deuses Reclinados

… Por todos os lados as est√°tuas de Buda, de Lorde Buda… As severas, verticais, carcomidas est√°tuas, com um dourado de resplendor animal, com uma dissolu√ß√£o como se o ar as desgastasse… Crescem-lhes nas faces, nas pregas das t√ļnicas, nos cotovelos, nos umbigos, na boca e no sorriso pequenas m√°culas: fungos, porosidades, vest√≠gios excrement√≠cios da selva… Ou ent√£o as jacentes, as imensas jacentes, as est√°tuas de quarenta metros de pedra, de granito areento, p√°lidas, estendidas entre as sussurrantes frondes, inesperadas, surgindo de qualquer canto da selva, de qualquer plataforma circundante… Adormecidas ou n√£o adormecidas, est√£o ali h√° cem anos, mil anos, mil vezes mil anos… Mas s√£o suaves, com uma conhecida ambiguidade ultraterrena, aspirando a ficar e a ir-se embora… E aquele sorriso de suav√≠ssima pedra, aquela majestade imponder√°vel, mas feita de pedra dura, perp√©tua, para quem sorriem, para quem, sobre a terra sangrenta?… Passaram as camponesas que fugiam, os homens do inc√™ndio, os guerreiros mascarados, os falsos sacerdotes, os turistas devoradores…

E manteve-se no seu lugar a est√°tua, a imensa pedra com joelhos, com pregas na t√ļnica de pedra, com o olhar perdido e n√£o obstante existente, inteiramente inumana e de alguma forma tamb√©m humana, de alguma forma ou de alguma contradi√ß√£o estatu√°ria,

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O Instante Decisivo da Evolução Humana

O instante decisivo da evolução humana dura sempre. Eis porque os movimentos espirituais e revolucionários declaram nulo tudo o que os precede produzido outrora, fazem-no com razão porque ainda nada foi.