Textos sobre Duros

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Textos de duros escritos por poetas consagrados, filósofos e outros autores famosos. Conheça estes e outros temas em Poetris.

Os Deuses Reclinados

… Por todos os lados as est√°tuas de Buda, de Lorde Buda… As severas, verticais, carcomidas est√°tuas, com um dourado de resplendor animal, com uma dissolu√ß√£o como se o ar as desgastasse… Crescem-lhes nas faces, nas pregas das t√ļnicas, nos cotovelos, nos umbigos, na boca e no sorriso pequenas m√°culas: fungos, porosidades, vest√≠gios excrement√≠cios da selva… Ou ent√£o as jacentes, as imensas jacentes, as est√°tuas de quarenta metros de pedra, de granito areento, p√°lidas, estendidas entre as sussurrantes frondes, inesperadas, surgindo de qualquer canto da selva, de qualquer plataforma circundante… Adormecidas ou n√£o adormecidas, est√£o ali h√° cem anos, mil anos, mil vezes mil anos… Mas s√£o suaves, com uma conhecida ambiguidade ultraterrena, aspirando a ficar e a ir-se embora… E aquele sorriso de suav√≠ssima pedra, aquela majestade imponder√°vel, mas feita de pedra dura, perp√©tua, para quem sorriem, para quem, sobre a terra sangrenta?… Passaram as camponesas que fugiam, os homens do inc√™ndio, os guerreiros mascarados, os falsos sacerdotes, os turistas devoradores…

E manteve-se no seu lugar a est√°tua, a imensa pedra com joelhos, com pregas na t√ļnica de pedra, com o olhar perdido e n√£o obstante existente, inteiramente inumana e de alguma forma tamb√©m humana, de alguma forma ou de alguma contradi√ß√£o estatu√°ria,

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O Instante Decisivo da Evolução Humana

O instante decisivo da evolução humana dura sempre. Eis porque os movimentos espirituais e revolucionários declaram nulo tudo o que os precede produzido outrora, fazem-no com razão porque ainda nada foi.

Neruda e García Lorca em Homenagem a Rubén Dario

Eis o texto do discurso:

Neruda: Senhoras…

Lorca: …e senhores. Existe na lide dos touros uma sorte chamada ¬ętoreio dei alim√≥n¬Ľ, em que dois toureiros furtam o corpo ao touro protegidos pela mesma capa.

Neruda: Federico e eu, ligados por um fio eléctrico, vamos emparelhar e responder a esta recepção tão significativa.

Lorca: √Č costume nestas reuni√Ķes que os poetas mostrem a sua palavra viva, prata ou madeira, e sa√ļdem com a sua voz pr√≥pria os companheiros e amigos.

Neruda: Mas n√≥s vamos colocar entre v√≥s um morto, um comensal vi√ļvo, escuro nas trevas de uma morte maior que as outras mortes, vi√ļvo da vida, da qual foi na sua hora um marido deslumbrante. Vamos esconder-nos sob a sua sombra ardente, vamos repetir-lhe o nome at√© que a sua grande for√ßa salte do esquecimento.

Lorca: N√≥s, depois de enviarmos o nosso abra√ßo com ternura de pinguim ao delicado poeta Amado Villar, vamos lan√ßar um grande nome sobre a toalha, na certeza de que v√£o estalar as ta√ßas, saltar os garfos, buscando o olhar que todos anseiam, e que um golpe de mar h√°-de manchar as toalhas. N√≥s vamos evocar o poeta da Am√©rica e da Espanha: Rub√©n…

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Descobrir os Vícios dos Outros

Eis agora um bom m√©todo para descobrir os v√≠cios de uma pessoa. Come√ßa por conduzir a conversa para os v√≠cios mais correntes, depois aborda mais em particular os que pensas que possam afligir o teu interlocutor. Fica a saber que se mostrar√° extremamente duro na reprova√ß√£o e den√ļncia do v√≠cio de que ele pr√≥prio padece. Assim se v√™em muitas vezes pregadores fustigar com a maior veem√™ncia os v√≠cios que os aviltam.
Para desmascarar um falso, consulta-o acerca de um determinado assunto. Depois, passados alguns dias, volta a falar-lhe nesse mesmo assunto. Se, da primeira vez, te quis induzir em erro, a opinião que desta segunda vez te dará será diferente: quer a Diniva Providência que depressa esqueçamos as nossas próprias mentiras.
Finge-te bem informado acerca de um caso de que, na realidade, não sabes grande coisa, na presença de pessoas das quais tenhas motivos para crer que estão perfeitamente ao corrente: verás que se trairão, ao corrigirem o que disseres.
Quando vires um homem afectado por um grande desgosto, aproveita a ocasi√£o para o lisonjear e consolar. √Č muitas vezes nestas circunst√Ęncias que deixar√° transparecer os seus pensamentos mais secretos e ocultos.
Leva as pessoas –

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A Inteligência e o Sentido Moral

A intelig√™ncia √© quase in√ļtil para aqueles que s√≥ a possuem a ela. O intelectual puro √© um ser incompleto, infeliz, pois √© incapaz de atingir aquilo que compreende. A capacidade de apreender as rela√ß√Ķes das coisas s√≥ √© fecunda quando associada a outras actividades, como o sentido moral, o sentido afectivo, a vontade, o racioc√≠nio, a imagina√ß√£o e uma certa for√ßa org√Ęnica. S√≥ √© utiliz√°vel √† custa de esfor√ßo.
Os detentores da ciência preparam-se longamente realizando um duro trabalho. Submetem-se a uma espécie de ascetismo. Sem o exercício da vontade, a inteligência mantém-se dispersa e estéril. Uma vez disciplinada, torna-se capaz de perseguir a verdade. Mas só a atinge plenamente se for ajudada pelo sentido moral. Os grandes cientistas têm sempre uma profunda honestidade intelectual. Seguem a realidade para onde quer que ela os conduza. Nunca procuram substituí-la pelos seus próprios desejos, nem ocultá-la quando se torna opressiva. O homem que quiser contemplar a verdade deve manter a calma dentro de si mesmo. O seu espírito deve ser como a água serena de um lago. As actividades afectivas, contudo, são indispensáveis ao progresso da inteligência. Mas devem reduzir-se a essa paixão que Pasteur chamava deus inteiror, o entusiasmo.

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Um Autêntico Sonho de Amor

Orgulho, vaidade, despeito, rancor, tudo passa, se verdadeiramente o homem tem dentro de si um autêntico sonho de amor. Essas pequenas misérias são fatais apenas no começo, na puberdade, quando se olha uma janela e se desflora quem está lá dentro. Depois, não. Depois, sofre-se é pelo homem, é pela estupidez colectiva, é por não se poder continuar alegremente num mundo povoado, e se desejar um deserto de asceta. O ascetismo é a desumanização, é o adeus à vida, e é duro ser uma espécie de fantasma da cultura cercado de areias.

A Vaidade Acompanha-nos Até na Morte

Sendo o termo da vida limitado, n√£o tem limite a nossa vaidade; porque dura mais, do que n√≥s mesmos, e se introduz nos aparatos √ļltimos da morte. Que maior prova, do que a f√°brica de um elevado mausol√©u? No sil√™ncio de uma urna depositam os homens as suas mem√≥rias, para com a f√© dos m√°rmores fazerem seus nomes imortais: querem que a sumptuosidade do t√ļmulo sirva de inspirar venera√ß√£o, como se fossem rel√≠quias as suas cinzas, e que corra por conta dos jaspes a continua√ß√£o do respeito. Que fr√≠volo cuidado! Esse triste resto daquilo, que foi homem, j√° parece um √≠dolo colocado em um breve, mas soberbo domic√≠lio, que a vaidade edificou para habita√ß√£o de uma cinza fria, e desta declara a inscri√ß√£o o nome, e a grandeza. A vaidade at√© se estende a enriquecer de adornos o mesmo pobre horror da sepultura.

Vivemos com vaidade, e com vaidade morremos; arrancando os √ļltimos suspiros, estamos dispondo a nossa pompa f√ļnebre, como se em hora t√£o fatal o morrer n√£o bastasse para ocupa√ß√£o; nessa hora, em que estamos para deixar o mundo, ou em que o mundo est√° para nos deixar, entramos a compor, e a ordenar o nosso acompanhamento,

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O Inseguro

A eterna can√ß√£o: Que fiz durante o ano, que deixei de fazer, por que perdi tanto tempo cuidando de aproveit√°-lo? Ah, se eu tivesse sido menos apressado! Se parasse meia hora por dia para n√£o fazer absolutamente nada ‚ÄĒ quer dizer, para sentir que n√£o estava fazendo coisas de programa, sem cor nem sabor. A√≠, a fantasia galopava, e eu me reencontraria como gostava de ser; como seria, se eu me deixasse…
Não culpo os outros. Os outros fazem comigo o que eu consinto que eles façam, dispersando-me. Aquilo que eu lhes peço para fazerem: não me deixarem ser eu-um. Nem foi preciso rogar-lhes de boca. Adivinharam. Claro que eu queria é sair com eles por aí, fugindo de mim como se foge de um chato. Mas não foi essa a dissipação maior. No trabalho é que me perdi completamente de mim, tornando-me meu próprio computador. Sem deixar faixa livre para nenhum ato gratuito. Na programação implacável, só omiti um dado: a vida.

Que sentimento tive da vida, este ano? Que escava√ß√£o tentei em suas jazidas? A que profundidade cheguei? Substitu√≠ a no√ß√£o de profundidade pela de altura. N√£o quis saber de minera√ß√Ķes. Cravei os olhos no espa√ßo,

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Da Duração das Obras

Algumas obras morrem porque nada valem; estas, por morrerem logo, s√£o natimortas. Outras t√™m o dia breve que lhes confere a sua express√£o de um estado de esp√≠rito passageiro ou de uma moda da sociedade; morrem na inf√Ęncia. Outras, de maior escopo, coexistem com uma √©poca inteira do pa√≠s, em cuja l√≠ngua foram escritas, e, passada essa √©poca, elas tamb√©m passam; morrem na puberdade da fama e n√£o alcan√ßam mais do que a adolesc√™ncia na vida perene da gl√≥ria. Outras ainda, como exprimem coisas fundamentais da mentalidade do seu pa√≠s, ou da civiliza√ß√£o, a que ele pertence, duram tanto quanto dura aquela civiliza√ß√£o; essas alcan√ßam a idade adulta da gl√≥ria universal. Mas outras duram al√©m da civiliza√ß√£o, cujos sentimentos expressam. Essas atingem aquela maturidade de vida que √© t√£o mortal como os Deuses, que come√ßam mas n√£o acabam, como acontece com o Tempo; e est√£o sujeitas apenas ao mist√©rio final que o Destino encobre para todo o sempre (…)

Desconfia da Ideia de Homem Feliz

Verifica que homem feliz n√£o √© aquele que o vulgo entende por tal, ou seja, um homem de grandes recursos monet√°rios; √©, sim, aquele para quem todo o bem reside na pr√≥pria alma, √© o homem sereno, magn√Ęnimo, que pisa aos p√©s os interesses vulgares, que s√≥ admira no homem aquilo que faz a sua qualidade de homem, que segue as li√ß√Ķes da natureza, se conforma com as suas leis, e vive segundo o que ela prescreve; √© o homem a quem for√ßa alguma despojar√° dos seus bens pr√≥prios, o homem capaz de fazer do pr√≥prio mal um bem, seguro do seu pensamento, inabal√°vel, intr√©pido; √© o homem a quem a for√ßa pode abalar, mas nunca desviar da sua rota; a quem a fortuna, apontando contra ele as mais duras armas com a maior viol√™ncia, pode arranhar, mas nunca ferir, e mesmo assim raramente, porquanto os dardos da sorte, que afligem em geral a humanidade, fazem ricochete contra ele √† maneira do granizo que, batendo no tecto, salta e se derrete sem causar qualquer dano ao ocupante da casa.

O Meu P√ļblico

Quando escrevo, o meu √ļnico p√ļblico sou eu. Depois √© que me ponho √† espera de que sejam tamb√©m os outros. N√£o porque antes os menospreze: simplesmente porque n√£o existem. Mas √© evidente que me interessa que existam depois como p√ļblico pelo desejo natural de me confirmarem a exist√™ncia como escritor. Porque a exist√™ncia como escritor implica a audi√™ncia dos outros. N√£o escolho por√©m o p√ļblico – espero que ele me escolha. Seria duro que me n√£o escolhesse, por todas as implica√ß√Ķes que se adivinham. Mas n√£o √© impeditivo de continuar – excepto se me convencerem (quem se convence?) que n√£o tinha nada a dizer. E no entanto, se n√≥s exprimirmos o tempo que nos exprime, h√° um pacto indissol√ļvel entre o tempo e n√≥s. Assim, o nosso p√ļblico est√° a√≠ sempre, ainda que tenhamos que ser n√≥s a despert√°-lo.

Esse p√ļblico n√£o desperta se n√≥s de facto lhe n√£o falarmos, ou seja, se realmente n√£o houve pacto algum com ele. Todas estas quest√Ķes, por√©m, s√£o sup√©rfluas para a necessidade de escrever. Cumpre-se um destino de artista como outros o de serem santos ou criminosos…
O resto não é connosco Рé com os críticos, os hagiógrafos e os arquivos da polícia.

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A Luta para a Supress√£o Radical das Guerras

A minha participa√ß√£o na produ√ß√£o da bomba at√≥mica consistiu numa √ļnica ac√ß√£o: assinei uma carta dirigida ao presidente Roosevelt, na qual se sublinhava a necessidade de levar a cabo experi√™ncias em grande escala, para investiga√ß√£o das possibilidades de produ√ß√£o duma bomba at√≥mica.
Tive bem consciência do grande perigo que significava para a Humanidade o êxito desse empreendimento. Mas a probabilidade de que os Alemães trabalhassem no mesmo problema e fossem bem sucedidos, obrigou-me a dar este passo. Não tinha outra solução, embora tivesse sido sempre um pacifista convicto. Foi, portanto, uma reacção de legítima defesa.
Enquanto, por√©m, as na√ß√Ķes n√£o estiverem resolvidas a trabalhar em comum para suprimir a guerra, a resolverem os seus conflitos por decis√£o pac√≠fica e a protegerem os seus interesses de maneira legal, v√™em-se obrigadas a preparar-se para a guerra. V√™em-se, mais, obrigadas a preparar todos os meios, mesmo os mais detest√°veis, para n√£o se deixarem ficar para tr√°s, na corrida geral aos armamentos. Este caminho conduz fatalmente √† guerra que, nas condi√ß√Ķes actuais, significa destrui√ß√£o geral.
Nestas condi√ß√Ķes, a luta contra os meios n√£o tem probabilidades de √™xito. S√≥ ainda pode valer a supress√£o radical das guerras e do perigo de guerra.

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Uma Vida Maior

Estou querendo viver daquilo inicial e primordial que exactamente fez com que certas coisas chegassem ao ponto de aspirar a serem humanas. Estou querendo que eu viva da parte humana mais dif√≠cil: que eu viva do germe do amor neutro, pois foi dessa fonte que come√ßou a nascer aquilo que depois foi se distorcendo em sentimenta√ß√Ķes a tal ponto que o n√ļcleo ficou esmagado em n√≥s mesmos pela pata humana. √Č um amor muito maior que estou exigindo de mim ‚Äď √© uma vida t√£o maior que n√£o tem sequer beleza. Estou tendo essa coragem dura que me d√≥i como a carne que se transforma em parto.

.H.’

Homens em Ficção

As coisas que existem s√£o o que s√£o, mas as que n√£o existem s√£o o que n√£o s√£o, e isso √© muito maior. (…) A vida toda est√° cheia do que n√£o existe e isso √© que √© dif√≠cil. Mesmo naquilo que existe h√° sempre aquilo que n√£o existe e √© s√≥ isso que nos interessa. Porque o que importa n√£o √© aquilo que se tem, mesmo que se tenha j√° tudo: o que importa √© o que ainda a√≠ procuramos, mesmo que j√° n√£o haja nada para encontrar. Mas se calhar √© s√≥ assim que se √© homem, o que nos torna a vida um pouco dura.

O Desporto √© a Intelig√™ncia In√ļtil

O sport √© a intelig√™ncia in√ļtil manifestada nos movimentos do corpo. O que o paradoxo alegra no cont√°gio das almas, o sport aligeira na demonstra√ß√£o dos bonecos delas. A beleza existe, verdadeiramente, s√≥ nos altos pensamentos, nas grandes emo√ß√Ķes, nas vontades conseguidas. No sport – ludo, jogo, brincadeira – o que existe √© sup√©rfluo, como o que o gato faz antes de comer o rato que lhe h√°-de escapar. Ningu√©m pensa a s√©rio no resultado, e, enquanto dura o que desaparece, existe o que n√£o dura. H√° uma certa beleza nisso, como no domin√≥, e, quando o acaso proporciona o jogo acertado, a maravilha entesoura o corpo encostado do vencedor. Fica, no fim, e sempre virado para o in√ļtil, o inconseguido do jogo. Pueri ludunt, como no prim√°rio do latim…

Ao sol brilham, no seu breve movimento de gl√≥ria esp√ļria, os corpos juvenis que envelhecer√£o, os trajectos que, com o existirem, deixaram j√° de existir. Entardece no que vemos, como no que vimos. A Gr√©cia antiga n√£o nos afaga sen√£o intelectualmente. Ditosos os que naufragam no sacrif√≠cio da posse. S√£o comuns e verdadeiros. O sol das arenas faz suar os gestos dos outros. Os poetas cantam-nos antes que des√ßa todo o sol.

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O Pranto e o Riso

Se o Pranto e o Riso aparecessem neste grande teatro no traje da verdade (sempre nua), sem d√ļvida seria a vit√≥ria do Pranto. Mas vestido, ornado e armado de uma t√£o superior eloqu√™ncia, que o Riso se ria do Pranto, n√£o √© merecimento, foi sorte. De tudo quanto ri saiu vestido, ornado e armado o Riso: riem-se os prados e saiu vestido de flores: ri-se a Aurora, e saiu ornado de luzes; e se aos rel√Ęmpagos e raios chamou a Antiguidade Risus Vestae, et Vulcani, entre tantos rel√Ęmpagos, trov√Ķes e raios de eloqu√™ncia, quem n√£o julgar√° ao miser√°vel Pranto cego, at√≥nito e fulminado? Tal √© a fortuna, ou a natureza, destes dois contr√°rios. Por isso nasce o Riso na boca, como eloquente, e o Pranto nos olhos, como mudo.
(…) Dem√≥crito ria sempre: logo nunca ria. A consequ√™ncia parece dif√≠cil e √© evidente. O Riso, como dizem todos os Fil√≥sofos, nasce da novidade e da admira√ß√£o e cessando a novidade ou a admira√ß√£o, cessa tamb√©m o riso; e como Dem√≥crito se ria dos ordin√°rios desconcertos do mundo, e o que √© ordin√°rio e se v√™ sempre n√£o pode causar admira√ß√£o nem novidade; segue-se que nunca ria, rindo sempre, pois n√£o havia mat√©ria que motivasse o riso.

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Casamento e Fus√£o Moral

Na vida conjugal, o casal s√≥ deve formar de certo modo uma √ļnica pessoa moral, animada e governada pelo gosto da mulher e pela intelig√™ncia do homem. Se as mulheres mostram mais liberdade e fineza no sentimento, em compensa√ß√£o os homens parecem mais ricos no discernimento que a experi√™ncia d√°. Acrescentemos que quanto mais um car√°cter √© sublime, mais ele tende a fazer todos os seus esfor√ßos para o contentamento do ser amado, e √© caracter√≠stico de uma bela alma responder a isso com complac√™ncia. Sob essa rela√ß√£o, toda a pretens√£o √† superioridade seria, portanto, inepta e reveladora de um gosto grosseiro ou de uma uni√£o mal sucedida. Tudo se perde quando se disputa o comando. Pois uma vez que a uni√£o repousa na inclina√ß√£o, ela √© meio rompida assim que o dever come√ßa a se fazer entender.
Um tom duro e impiedoso é um dos mais detestáveis nas mulheres, um dos mais vis e desprezíveis nos homens. O sábio comando da natureza quer, além disso, que toda essa delicadeza, toda essa ternura de sentimento só tenha plena força no começo, em seguida a vida em comum e os afazeres domésticos vêm enfraquecê-la, pouco a pouco, e transformá-la em amizade familiar.

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Ser Português, Ainda

Para ser portugu√™s, ainda, vive-se entre letras de poemas e esperan√ßas, cantigas e promessas, de passados esquecidos e futuros desejados, sem presente, sem pensamento, sem Portugal. Para ser portugu√™s, ainda, aprende-se a existir no gume da tristeza, como um equilibrista num andaime de navalhas levantadas, numa obra que se vai construindo sob uma arquitectura de demoli√ß√£o. T√≠nhamos direito a um Portugal inteiro, com povo e com a terra, mas o povo enlouqueceu e a terra foi arrasada e tudo o que era p√°tria, doce e atrevida, se afasta √† medida que olhamos para ela, tal √© a √Ęnsia de apagamento e de perdi√ß√£o. Restam-nos sons e riscos. Portugal encolheu-se. Escondeu-se nos poetas e cantores. Recolheu-se nas vozes fundas de onde nasceu. Portugal abrigou-se em portugueses e portuguesas nos quais uma ideia de Portugal nunca se perdeu.

Para se ser português, ainda, é preciso estreitar os olhos e molhar a garganta com vinho tinto para poder gritar que isto assim não é Portugal, não é país, não é nada. Torna-se cada vez mais difícil que o povo e a terra e a ideia se possam alguma vez reunir.
√Č preciso defender violentamente as institui√ß√Ķes: a Universidade, o Parlamento,

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