Textos sobre Religi√£o

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Textos de religião escritos por poetas consagrados, filósofos e outros autores famosos. Conheça estes e outros temas em Poetris.

Os Deuses Reclinados

… Por todos os lados as est√°tuas de Buda, de Lorde Buda… As severas, verticais, carcomidas est√°tuas, com um dourado de resplendor animal, com uma dissolu√ß√£o como se o ar as desgastasse… Crescem-lhes nas faces, nas pregas das t√ļnicas, nos cotovelos, nos umbigos, na boca e no sorriso pequenas m√°culas: fungos, porosidades, vest√≠gios excrement√≠cios da selva… Ou ent√£o as jacentes, as imensas jacentes, as est√°tuas de quarenta metros de pedra, de granito areento, p√°lidas, estendidas entre as sussurrantes frondes, inesperadas, surgindo de qualquer canto da selva, de qualquer plataforma circundante… Adormecidas ou n√£o adormecidas, est√£o ali h√° cem anos, mil anos, mil vezes mil anos… Mas s√£o suaves, com uma conhecida ambiguidade ultraterrena, aspirando a ficar e a ir-se embora… E aquele sorriso de suav√≠ssima pedra, aquela majestade imponder√°vel, mas feita de pedra dura, perp√©tua, para quem sorriem, para quem, sobre a terra sangrenta?… Passaram as camponesas que fugiam, os homens do inc√™ndio, os guerreiros mascarados, os falsos sacerdotes, os turistas devoradores…

E manteve-se no seu lugar a est√°tua, a imensa pedra com joelhos, com pregas na t√ļnica de pedra, com o olhar perdido e n√£o obstante existente, inteiramente inumana e de alguma forma tamb√©m humana, de alguma forma ou de alguma contradi√ß√£o estatu√°ria,

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O Desejo de Discutir

Se as discuss√Ķes pol√≠ticas se tornam facilmente in√ļteis, √© porque quando se fala de um pa√≠s se pensa tanto no seu governo como na sua popula√ß√£o, tanto no Estado como na no√ß√£o de Estado enquanto tal. Pois o Estado como no√ß√£o √© uma coisa diferente da popula√ß√£o que o comp√Ķe, igualmente diferente do governo que o dirige. √Č qualquer coisa a meio caminho entre o f√≠sico e o metaf√≠sico, entre a realidade e a ideia.
√ą a esse g√©nero de estirilidade que est√£o geralmente condenadas, tal como acontece com as discuss√Ķes pol√≠ticas, as que incidem sobre a religi√£o, pois a religi√£o pode ser sin√≥nima de dogmas, ou de ritual, ou referir-se a posi√ß√Ķes pessoais do indiv√≠duo sobre quest√Ķes ditas eternas, o infinito e a eternidade, problemas do livre arb√≠trio e da responsabilidade ou, como se diz tamb√©m: Deus.
E o mesmo acontece com as discuss√Ķes que t√™m a ver com a maior parte dos assuntos abstractos, sobretudo a √©tica e os temas filos√≥ficos, mas tamb√©m com campos de an√°lise mais restritos, incidindo sobre os problemas mais imediatos, como por exemplo o socialismo, o capitalismo, a aristocracia, a democracia, etc…, em que as no√ß√Ķes s√£o tomadas tanto no sentido amplo como no restrito,

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O Sensacionismo

Sentir é criar.
Sentir é pensar sem ideias, e por isso sentir é compreender, visto que o Universo não tem ideias.
РMas o que é sentir?
Ter opini√Ķes √© n√£o sentir.
Todas as nossas opini√Ķes s√£o dos outros.
Pensar é querer transmitir aos outros aquilo que se julga que se sente.
Só o que se pensa é que se pode comunicar aos outros. O que se sente não se pode comunicar. Só se pode comunicar o valor do que se sente. Só se pode fazer sentir o que se sente. Não que o leitor sinta a pena comum [?].
Basta que sinta da mesma maneira.
O sentimento abre as portas da pris√£o com que o pensamento fecha a alma.
A lucidez s√≥ deve chegar ao limiar da alma. Nas pr√≥prias antec√Ęmaras √© proibido ser expl√≠cito.
Sentir é compreender. Pensar é errar. Compreender o que outra pessoa pensa é discordar dela. Compreender o que outra pessoa sente é ser ela. Ser outra pessoa é de uma grande utilidade metafísica. Deus é toda a gente.
Ver, ouvir, cheirar, gostar, palpar – s√£o os √ļnicos mandamentos da lei de Deus. Os sentidos s√£o divinos porque s√£o a nossa rela√ß√£o com o Universo,

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O Delírio pelo Isolamento e pelo Convívio

O eremita volta as costas a este mundo; n√£o quer ter nada a ver com ele. Mas podemos fazer mais do que isso; podemos tentar recri√°-lo, tentar construir um outro em vez dele, no qual os componentes mais insuport√°veis s√£o eliminados e substitu√≠dos por outros que correspondam aos nossos desejos. Quem por desespero ou desafio parte por este carninho, por norma, n√£o chegar√° muito longe; a realidade ser√° demasiado forte para ele. Torna-se louco e normalmente n√£o encontra ningu√©m que o ajude a levar a cabo o seu del√≠rio. Diz-se contudo, que todos n√≥s nos comportamos em alguns aspectos como paran√≥icos, substituindo pela satisfa√ß√£o de um desejo alguns aspectos do mundo que nos s√£o insuport√°veis transportando o nosso del√≠rio para a realidade. Quando um grande n√ļmero de pessoas faz esta tentativa em conjunto e tenta obter a garantia de felicidade e protec√ß√£o do sofrimento atrav√©s de uma transforma√ß√£o ilus√≥ria da realidade, adquire um significado especial. Tamb√©m as religi√Ķes devem ser classificadas como del√≠rios em massa deste g√©nero. Escusado ser√° dizer que ningu√©m que participa num del√≠rio o reconhece como tal.

O Nosso Infinito

H√° ou n√£o um infinito fora de n√≥s? √Č ou n√£o √ļnico, imanente, permanente, esse infinito; necessariamente substancial pois que √© infinito, e que, se lhe faltasse a mat√©ria, limitar-se-ia √†quilo; necess√°riamente inteligente, pois que √© infinito, e que, se lhe faltasse a intelig√™ncia, acabaria ali? Desperta ou n√£o em n√≥s esse infinito a ideia de ess√™ncia, ao passo que n√≥s n√£o podemos atribuir a n√≥s mesmos sen√£o a ideia de exist√™ncia? Por outras palavras, n√£o √© ele o Absoluto, cujo relativo somos n√≥s?
Ao mesmo tempo que fora de n√≥s h√° um infinito n√£o h√° outro dentro de n√≥s? Esses dois infinitos (que horroroso plural!) n√£o se sobrep√Ķem um ao outro? N√£o √© o segundo, por assim dizer, subjacente ao primeiro? N√£o √© o seu espelho, o seu reflexo, o seu eco, um abismo conc√™ntrico a outro abismo? Este segundo infinito n√£o √© tamb√©m inteligente? N√£o pensa? N√£o ama? N√£o tem vontade? Se os dois infinitos s√£o inteligentes, cada um deles tem um princ√≠pio volante, h√° um eu no infinito de cima, do mesmo modo que o h√° no infinito de baixo. O eu de baixo √© a alma; o eu de cima √© Deus.
P√īr o infinito de baixo em contacto com o infinito de cima,

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Do Contraditório como Terapêutica de Libertação

Recentemente, entre a poeira de algumas campanhas pol√≠ticas, tomou de novo relevo aquele grosseiro h√°bito de polemista que consiste em levar a mal a uma criatura que ela mude de partido, uma ou mais vezes, ou que se contradiga, frequentemente. A gente inferior que usa opini√Ķes continua a empregar esse argumento como se ele fosse depreciativo. Talvez n√£o seja tarde para estabelecer, sobre t√£o delicado assunto do trato intelectual, a verdadeira atitude cient√≠fica.
Se há facto estranho e inexplicável é que uma criatura de inteligência e sensibilidade se mantenha sempre sentado sobre a mesma opinião, sempre coerente consigo próprio. A contínua transformação de tudo dá-se também no nosso corpo, e dá-se no nosso cérebro consequentemente. Como então, senão por doença, cair e reincidir na anormalidade de querer pensar hoje a mesma coisa que se pensou ontem, quando não só o cérebro de hoje já não é o de ontem, mas nem sequer o dia de hoje é o de ontem? Ser coerente é uma doença, um atavismo, talvez; data de antepassados animais em cujo estádio de evolução tal desgraça seria natural.
A coer√™ncia, a convic√ß√£o, a certeza s√£o al√©m disso, demonstra√ß√Ķes evidentes ‚ÄĒ quantas vezes escusadas ‚ÄĒ de falta de educa√ß√£o.

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O Dever Para Nós Próprios

Influenciar uma pessoa √© dar-lhe a nossa pr√≥pria alma. O indiv√≠duo deixa de pensar com os seus pr√≥prios pensamentos ou de arder com as suas pr√≥prias paix√Ķes. As suas virtudes n√£o lhe s√£o naturais. Os seus pecados, se √© que existe tal coisa, s√£o tomados de empr√©stimo. Torna-se o eco de uma m√ļsica alheia, o actor de um papel que n√£o foi escrito para ele. O objectivo da vida √© o desenvolvimento pr√≥prio, a total percep√ß√£o da pr√≥pria natureza, √© para isso que cada um de n√≥s vem ao mundo. Hoje em dia as pessoas t√™m medo de si pr√≥prias. Esqueceram o maior de todos os deveres, o dever para consigo mesmos. √Č verdade que s√£o caridosas. Alimentam os esfomeados e vestem os pobres. Mas as suas pr√≥prias almas morrem de fome e est√£o nuas. A coragem desapareceu da nossa ra√ßa e se calhar nunca a tivemos realmente. O temor √† sociedade, que √© a base da moal, e o temor a Deus, que √© o segredo da religi√£o, s√£o as duas coisas que nos governam.

Alimentar o Ego

Para quem faz do sonho a vida, e da cultura em estufa das suas sensa√ß√Ķes uma religi√£o e uma pol√≠tica, para esse primeiro passo, o que acusa na alma que ele deu o primeiro passo, √© o sentir as coisas m√≠nimas extraordin√°ria ‚ÄĒ e desmedidamente. Este √© o primeiro passo, e o passo simplesmente primeiro n√£o √© mais do que isto. Saber p√īr no saborear duma ch√°vena de ch√° a vol√ļpia extrema que o homem normal s√≥ pode encontrar nas grandes alegrias que v√™m da ambi√ß√£o subitamente satisfeita toda ou das saudades de repente desaparecidas, ou ent√£o nos actos finais e carnais do amor; poder encontrar na vis√£o dum poente ou na contempla√ß√£o dum detalhe decorativo aquela exaspera√ß√£o de senti-los que geralmente s√≥ pode dar, n√£o o que se v√™ ou o que se ouve, mas o que se cheira ou se gosta ‚ÄĒ essa proximidade do objecto da sensa√ß√£o que s√≥ as sensa√ß√Ķes carnais ‚ÄĒ o tacto, o gosto, o olfacto – esculpem de encontro √† consci√™ncia; poder tornar a vis√£o interior, o ouvido do sonho ‚ÄĒ todos os sentidos supostos e do suposto ‚ÄĒ recebedores e tang√≠veis como sentidos virados para o externo: escolho estas, e as an√°logas suponham-se,

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As Desvantagens do Ateísmo

Parece-nos que o homem feliz n√£o colhe vantagem alguma em ser ateu. √Č-lhe t√£o agrad√°vel cismar que os seus dias se prolongar√£o al√©m da vida! Com que desespero n√£o deixaria ele este mundo, se acreditasse separar-se para sempre da felicidade! Debalde sobre a sua cabe√ßa se acumulariam todos os bens do s√©culo, que serviriam apenas para lhe tornar mais tormentoso o nada.
O rico pode tamb√©m contar com que a religi√£o lhe amplie os prazeres, mesclando-os com inexplic√°vel ternura; n√£o se lhe endurecer√° o cora√ß√£o, o gozo, escolho inevit√°vel das grandes prosperidades, n√£o o infastiar√°; que a religi√£o refrigera as sequid√Ķes da alma: √© o que representa esse √≥leo santo com que o cristianismo consagrava a realeza, a inf√Ęncia, e a morte, para as salvar da esterilidade.
O guerreiro arremessa-se ao combate: ser√° ateu esse filho da gl√≥ria? O que busca uma vida infinita consentir√° em termin√°-la? Aparecei sobre as vossas nuvens fulminantes, soldados inumer√°veis, antigas legi√Ķes da p√°tria! Famosas mil√≠cias de Fran√ßa, e agora mil√≠cias do c√©u, aparecei! Dizei aos her√≥is da nossa idade, do alto da cidade santa, que o bravo n√£o cai inteiro no tumulo, e que, ap√≥s ele, permanece alguma coisa mais que um v√£o renome.

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Virtude e Pecado s√£o Inatos

Nenhum pr√©mio certo tem a virtude, nenhum castigo certo o pecado. Nem seria justo que houvesse tal pr√©mio ou tal castigo. Virtude ou pecado s√£o manifesta√ß√Ķes inevit√°veis de organismos condenados a um ou a outro, servindo a pena de serem bons ou a pena de serem maus. Por isso todas as religi√Ķes colocam as recompensas e os castigos, merecidos por quem, nada sendo nem podendo, nada p√īde merecer, em outros mundos, de que nenhuma ci√™ncia pode dar not√≠cia, de que nenhuma f√© pode transmitir a vis√£o. Abdiquemos, pois, de toda a cren√ßa sincera, como de toda a preocupa√ß√£o de influir em outrem.
A vida, disse Gabriel Tarde, √© a busca do imposs√≠vel atrav√©s do in√ļtil. Busquemos sempre o imposs√≠vel, porque tal √© o nosso fado; busquemo-lo atrav√©s do in√ļtil, porque n√£o passa caminho por outro ponto; ascendamos, por√©m, √† consci√™ncia de que nada buscamos que possa obter-se, de que por nada passamos que mere√ßa um carinho ou uma saudade.
Cansamo-nos de tudo, excepto de compreender, disse o escolista. Compreendamos, compreendamos sempre, e façamos por tecer astuciosamente capelas ou grinaldas que hão-de murchar também, as flores espectrais dessa compreensão.

O Verdadeiro Filósofo

Se a ideia de Deus n√£o √© conhecida na natureza, deve portanto tratar-se de uma inven√ß√£o humana… Mas n√£o me olheis como se eu n√£o tivesse s√£os princ√≠pios e n√£o fosse um fiel servidor do meu rei. Um verdadeiro fil√≥sofo n√£o pretende de modo algum subverter a ordem natural das coisas. Aceita-a. S√≥ pretende que o deixem cultivar os pensamentos que consolam uma alma forte. Para os outros, √© uma sorte que existam papas e bispos para reter as multid√Ķes da revolta e do crime. A ordem do Estado exige uma uniformidade do comportamento, a religi√£o √© necess√°ria ao povo e o s√°bio deve sacrificar parte da sua independ√™ncia para que a sociedade se mantenha firme.

O Amor Maior

O amor é preocupação. Ter o coração já previamente ocupado. Ter medo que alguma coisa de mal aconteça à pessoa amada. Sofrer mais por não poder aliviar o sofrimento da pessoa amada do que ela própria sofre.
O amor √© banal. √Č por isso que √© t√£o bonito. O que se quer da pessoa amada: antes que ela nos ame tamb√©m, √© que ela seja feliz, que seja saud√°vel, que tudo lhe corra bem. Embora se saiba que o mundo n√£o o permite, passa-se por cima da realidade, do racioc√≠nio do que √© poss√≠vel, e quer-se, e espera-se, que Deus abra, no caso dela, uma excep√ß√£o.

A paix√£o pode parecer mais interessante. Mas irrita-me que se compare com o amor. Como se pode comparar dois sentimentos que n√£o t√™m uma √ļnica semelhan√ßa? Se o amor e a paix√£o coincidem, √© como a cor do c√©u e do mar num dia de Ver√£o ‚ÄĒ √© uma alegria, mas nada nos diz acerca do que distingue o ar da √°gua.
Dizer que o amor pode começar como paixão é uma forma falaciosa de estabelecer uma continuidade entre uma e outra, geralmente pejorativa para o amor, que é entendido como um resíduo da paixão,

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Causas e Curas para o Fanatismo

O fanatismo √© para a supersti√ß√£o o que o del√≠rio √© para a febre, o que √© a raiva para a c√≥lera. Aquele que tem √™xtases, vis√Ķes, que considera os sonhos como realidades e as imagina√ß√Ķes como profecias √© um entusiasta; aquele que alimenta a sua loucura com a morte √© um fan√°tico. (…) O mais detest√°vel exemplo de fanatismo √© aquele dos burgueses de Paris que correram a assassinar, degolar, atirar pelas janelas, despeda√ßar, na noite de S√£o Bartolomeu, os seus concidad√£os que n√£o iam √† missa. H√° fan√°ticos de sangue frio: s√£o os juizes que condenam √† morte aqueles cujo √ļnico crime √© n√£o pensar como eles. Quando uma vez o fanatismo gangrenou um c√©rebro a doen√ßa √© quase incur√°vel. Eu vi convulsion√°rios que, falando dos milagres de S. P√°ris, sem querer se acaloravam cada vez mais; os seus olhos encarni√ßavam-se, os seus membros tremiam, o furor desfigurava os seus rostos e teriam morto quem quer que os houvesse contrariado.
Não há outro remédio contra essa doença epidémica senão o espírito filosófico que, progressivamente difundido, adoça enfim a índole dos homens, prevenindo os acessos do mal porque, desde que o mal fez alguns progressos, é preciso fugir e esperar que o ar seja purificado.

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A Verdadeira Religi√£o

Nunca me esquecerei do dia em que, dizendo-lhe ¬ęMas, senhor padre Manuel, a verdade, a verdade, acima de tudo¬Ľ, ele, a tremer, sussurou-me ao ouvido – e isso apesar de estarmos sozinhos no meio do campo: – ¬ęA verdade? A verdade, L√°zaro, √© porventura uma coisa terr√≠vel, uma coisa intoler√°vel, uma coisa mortal; as pessoas simples n√£o conseguiriam viver com ela.¬Ľ
¬ęE porque √© que ma deixa vislumbrar agora aqui, como confiss√£o?¬Ľ, perguntei-lhe. E ele respondeu: ¬ęPorque se n√£o atormentar-me-ia tanto, tanto, que eu acabaria por grit√°-lo no meio da pra√ßa, e isso nunca, nunca, nunca. Eu estou c√° para fazer viver as almas dos meus paroquianos, para os fazer felizes, para fazer com que se sonhem imortais e n√£o para os matar.
O que aqui faz falta √© que eles vivam s√£mente, que vivam em unanimidade de sentido, e com a verdade, com a minha verdade, n√£o viveriam. Que vivam. E √© isto que a Igreja faz, fazer com que vivam. Religi√£o verdadeira? Todas as religi√Ķes s√£o verdadeiras enquanto fazem viver espiritualmente os povos que as professam, enquanto os consolam de terem tido de nascer para morrer, e para cada povo a religi√£o mais verdadeira √© a sua,

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O Ponto da Sinceridade no Embuste

Em todos os grandes embusteiros h√° um fen√≥meno digno de nota, ao qual eles devem o seu poder. No pr√≥prio acto do embuste, entre todos os preparativos, com o horripilante na voz, na express√£o, nos gestos, no meio da eficiente encena√ß√£o, acomete-os a cren√ßa em si pr√≥prios: √© esta que, t√£o milagrosa e fascinante, fala ent√£o aos circunstantes. Os fundadores das religi√Ķes distinguem-se desses grandes embusteiros por n√£o sairem deste estado de auto-ilus√£o: ou, muito raramente, l√° t√™m aqueles momentos mais l√ļcidos, em que a d√ļvida os subjuga; mas, habitualmente, consolam-se, atribuindo esses momentos mais l√ļcidos ao maligno Satan√°s. O engano de si pr√≥prio tem de estar presente, para que estes como aqueles fa√ßam um efeito grandioso. Pois as pessoas acreditam na verdade daquilo que, visivelmente, √© crido com veem√™ncia.

A Verdadeira Religião é Individual e não Social

√Č poss√≠vel que a religi√£o da solid√£o seja de certa maneira superior √† religi√£o social e formalizada. O que √© certo √© que ela apareceu mais tarde no decurso da evolu√ß√£o. Al√©m disso, os fundadores das religi√Ķes e seitas hist√≥ricamente mais importantes t√™m sido todos, com excep√ß√£o de Conf√ļcio, solit√°rios. Talvez seja verdade dizer-se que, quanto mais poderosa e original for uma mente, mais ela se inclinar√° para a religi√£o da solid√£o, e menos ela ser√° atra√≠da no sentido da religi√£o social ou impressionada pelas suas pr√°ticas. Pela sua pr√≥pria superioridade a religi√£o da solid√£o est√° condenada a ser a religi√£o das minorias. Para a grande maioria dos homens e das mulheres a religi√£o ainda significa, o que sempre significou, religi√£o social formalizada, um assunto de rituais, observ√Ęncias mec√Ęnicas, emo√ß√£o das massas. Perguntem a qualquer dessas pessoas o que √© a verdadeira ess√™ncia da religi√£o, e eles responder√£o que ela consiste na devida observ√Ęncia de certas formalidades, na repeti√ß√£o de certas frases, na reuni√£o em certos tempos e em certos lugares, da realiza√ß√£o por meios apropriados de emo√ß√Ķes comunais.

O Homem é o Animal Menos Preparado

A capacidade do homem para o pensamento abstracto, que parece faltar √† maioria dos outros mam√≠feros, conferiu-lhe sem d√ļvida o seu actual dom√≠nio sobre a superf√≠cie da Terra ‚Äď um dom√≠nio disputado apenas por centenas de milhares de tipos de insectos e organismos microsc√≥picos. Este pensamento abstracto √© o respons√°vel pela sua sensa√ß√£o de superioridade e pelo que, sob esta sensa√ß√£o, corresponde a uma certa medida de realidade, pelo menos dentro de estreitos limites. Mas o que √© frequentemente subestimado √© o facto de que a capacidade de desempenhar um acto n√£o √©, de forma alguma, sin√≥nima de seu exerc√≠cio salubre. √Č f√°cil observar que a maior parte do pensamento do homem √© est√ļpida, sem sentido e injuriosa para ele. Na realidade, de todos os animais, ele parece o menos preparado para tirar conclus√Ķes apropriadas nas quest√Ķes que afectam mais desesperadamente o seu bem-estar.
Tente imaginar um rato, no universo das ideias dos ratos, chegando a no√ß√Ķes t√£o ocas de plausibilidade como, por exemplo, o Swedenborgianismo, a homeopatia ou a telepatia mental. O instinto natural do homem, de facto, nunca se dirige para o que √© s√≥lido e verdadeiro; prefere tudo que √© especioso e falso. Se uma grande na√ß√£o moderna se confrontar com dois problemas antag√≥nicos ‚Äď um deles baseado em argumentos prov√°veis e racionais,

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Raz√£o afectada pelo Desejo

O homem que deseja agir de certa forma se persuadirá que, assim procedendo, alcançará algum propósito que considera bom, mesmo que não vise motivo algum para pensar dessa forma, se não tivesse tal desejo. E julgará os factos e probabilidades de maneira muito diferente daquela adoptada por um homem com desejos opostos. Como todos sabem, os jogadores estão cheios de crenças irracionais relativas a sistemas que devem, no fim, fazê-los ganhar. Os que se interessam pela política persuadem-se de que os líderes do seu partido jamais praticariam as patifarias cometidas pelos adversários. Os homens que gostam de administrar acham que é bom para o povo ser tratado como um rebanho de ovelhas, os que gostam do fumo dizem que acalma os nervos, e os que apreciam o álcool afirmam que aguça o tino. A parcialidade assim criada falsifica o julgamento dos homens em relação aos factos, de modo muito difícil de evitar.
At√© mesmo um erudito artigo cient√≠fico sobre os efeitos do √°lcool no sistema nervoso em geral trai, por sintomas internos, o facto de o autor ser ou n√£o abst√©mio; em ambos os casos tende a ver os factos de maneira que justifique a sua atitude. Em pol√≠tica e religi√£o tais considera√ß√Ķes tornam-se muito importantes.

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Da Conversa

H√° quem, na conversa, prefira mostrar esp√≠rito brilhante, e ser capaz de sustentar todos os argumentos, a exercer o ju√≠zo no discernimento da verdade, como se houvesse maior m√©rito em saber o que pode ser dito, do que em conhecer o que deve ser pensado, alguns t√™m certos lugares comuns e certos temas em que se mostram bons conversadores, mas s√£o falhos na variedade; esta esp√©cie de indig√™ncia √© quase sempre aborrecida, e de vez em quando rid√≠cula; a parte mais honrosa do col√≥quio consiste em dar ocasi√£o a novo tema, e tamb√©m em moderar ou acelerar a transi√ß√£o para assunto diferente; √© bom variar, mesclando o assunto de que se est√° a conversar com argumentos, narrativas com discuss√Ķes, perguntas com respostas, jocosidades com seriedades; h√°, por√©m, assuntos que n√£o permitem brincadeira, nomeadamente a religi√£o, os neg√≥cios do Estado, as altas personalidades, todas as quest√Ķes de import√Ęncia para as pessoas presentes, enfim, todos os casos dignos de d√≥.
Aquele que muito interrogar muito aprenderá também, muito contentará também, especialmente se adaptar as suas perguntas aos conhecimentos daqueles que lhe podem responder, pois assim lhes dará ocasião de se comprazerem a falar, e ele próprio continuará a ganhar conhecimentos; se por vezes fingirdes ignorar o que consta que sabeis,

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