Textos sobre Ofício

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Textos de ofício escritos por poetas consagrados, filósofos e outros autores famosos. Conheça estes e outros temas em Poetris.

Conseguir Escrever

O of√≠cio de escritor √© talvez o √ļnico que se torna mais dif√≠cil √† medida que mais se pratica. A facilidade com que me sentei a escrever aquele conto n√£o se pode comparar com o trabalho que me d√° agora escrever uma p√°gina. Quanto ao meu m√©todo de trabalho, √© bastante coerente com isto que vos estou a dizer. Nunca sei quanto vou poder escrever nem o que vou escrever. Espero que me ocorra alguma coisa e, quando me ocorre uma ideia que ache boa para a escrever, ponho-me a dar-lhe voltas na cabe√ßa e deixo-a ir amadurecendo. Quando a tenho terminada (e √†s vezes passam muitos anos, como no caso de Cem Anos de Solid√£o, que passei dezanove anos a pensar), quando a tenho terminada, repito, ent√£o sento-me a escrev√™-la e √© a√≠ que come√ßa a parte mais dif√≠cil e a que mais me aborrece. Porque o mais delicioso da hist√≥ria √© conceb√™-la, ir arredondando-a, dando-lhe voltas e mais voltas, de maneira que na altura de nos sentarmos a escrev√™-la j√° n√£o nos interessa muito, ou pelo menos a mim n√£o me interessa muito; a ideia que d√° voltas.

Não se Ama Alguém Senão pelas Qualidades Aparentes

Um homem que se p√Ķe √† janela para ver quem passa, se eu passar, poderei dizer que ele se p√īs l√° para me ver? N√£o, pois ele n√£o pensa em mim em particular. Mas aquele que ama algu√©m por causa da sua beleza, ama-o? N√£o; porque a var√≠ola, que matar√° a beleza sem matar a pessoa, far√° com que ele deixe de a amar.
E se me adiam pelo meu ju√≠zo, pela minha mem√≥ria, amam-me, a mim? N√£o; porque eu posso perder estas qualidades sem me perder a mim mesmo. Onde est√° pois este eu, se n√£o est√° nem no corpo nem na alma? E como amar o corpo ou a alma, sen√£o por essas qualidades que n√£o s√£o o que faz o eu, visto que podem perecer? Pois, amar-se-√° a subst√Ęncia da alma de uma pessoa abstractamente e as qualidades que l√° estiverem? Isso n√£o pode ser e seria injusto. Logo n√£o se ama nunca a pessoa, mas somente as qualidades. Portanto, que n√£o se riam mais daqueles que se fazem honrar pelos cargos e of√≠cios, pois n√£o se ama ningu√©m sen√£o pelas qualidades aparentes.

Inveja Justa e Injusta

Quando a fortuna envia a alguém bens de que ele é verdadeiramente indigno, e a inveja só é excitada em nós porque amando naturalmente a justiça ficamos contrariados que ela não seja observada na distribuição desses bens, trata-se de um zelo que pode ser desculpável; principalmente quando o bem que invejamos de outros é de tal natureza que pode converter-se em mal nas mãos deles, como se for algum cargo ou ofício em cujo exercício eles possam comportar-se mal.
Mesmo quando desejamos para nós o mesmo bem e somos impedidos de tê-lo, porque ouros que são menos merecedores o possuem, isto torna mais violenta tal paixão; e ela não deixa de ser desculpável, contanto que o ódio que contém se relacione somente com a má distribuição do bem que se inveja, e não com as pessoas que o possuem e distribuem.
Mas há poucos que sejam tão justos, e tão generosos a ponto de não ter ódio por aqueles que os precederam na obtenção de um bem que não é comunicável a várias pessoas e que eles haviam desejado para si mesmos, embora os que os obtiveram sejam tanto ou mais merecedores. E o que habitualmente é mais invejado é a glória,

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A Verdadeira Virtude

N√£o se pode pensar em virtude sem se pensar num estado e num impulso contr√°rios aos de virtude e num persistente esfor√ßo da vontade. Para me desenhar um homem virtuoso tenho que dar relevo principal ao que nele √© volunt√°rio; tenho de, talvez em esquema exagerado, lhe p√īr acima de tudo o que √© modelar e conter. Pela origem e pelo significado n√£o posso deixar de a ligar √†s fortes resolu√ß√Ķes e √† coragem civil. E um cont√≠nuo querer e uma cont√≠nua vigil√Ęncia, uma batalha perp√©tua dada aos elementos que, entendendo, classifiquei como maus; requer as n√≠tidas vis√Ķes e as almas destemidas.
Por isso não me prende o menino virtuoso; a bondade só é nele o estado natural; antes o quero bravio e combativo e com sua ponta de maldade; assim me dá a certeza de que o terei mais tarde, quando a vontade se afirmar e a reflexão distinguir os caminhos, com material a destruir na luta heróica e a energia suficiente para nela se empenhar. O que não chora, nem parte, nem esbraveja, nem resiste aos conselhos há-de formar depois nas massas submissas; muitas vezes me há-de parecer que a sua virtude consiste numa falta de habilidade para urdir o mal,

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Personalidade Limitada

H√° pessoas muito competentes no seu of√≠cio mas que nunca se adaptam a certos obst√°culos menores, como a nomes que desconhecem e saem do habitual. Tamb√©m nunca sabem usar uma chave de fendas e n√£o s√£o capazes de conhecer uma marca de carros pelas jantes, por exemplo. Cada indiv√≠duo tem um espa√ßo muito limitado de opera√ß√£o e o seu c√©rebro trabalha num pequeno circuito de observa√ß√Ķes; a sua evolu√ß√£o √© restrita ao que o rodeia e aos factos exteriores mais pr√≥ximos. A educa√ß√£o sem grandes exig√™ncias de comportamento social e intelectual, leva-os a formar uma personalidade mesquinha, √†s vezes ressentida e admiradora de extremos, como da lideran√ßa dum chefe.

Considera√ß√Ķes sobre a Vingan√ßa

A vingan√ßa √© uma esp√©cie de justi√ßa b√°rbara, de tal maneira que quanto mais a natureza humana se inclinar para ela, tanto mais a deve a lei extermin√°-la. Porque a primeira inj√ļria n√£o faz mais que ofender a lei, ao passo que a vingan√ßa da inj√ļria p√Ķe a lei fora do seu of√≠cio. De certo, ao exercer a vingan√ßa, o homem iguala-se ao inimigo; mas, passando sobre ela, √©-lhe superior; porque √© pr√≥prio do pr√≠ncipe perdoar. E tenho a certeza que Salom√£o disse: ¬ę√Č glorioso para um homem desdenhar uma ofensa¬Ľ. O que passou, passou, e √© irrevog√°vel; os homens prudentes j√° t√™m bastante que fazer com as coisas presentes e vindouras; n√£o devem, portanto, preocupar-se com bagatelas como o trabalhar em coisas pret√©ritas.
Não há homem que faça o mal pelo mal, mas apenas na perseguição do lucro, do prazer ou da honra, etc. Porque hei-de ficar ressentido com alguém, apenas pela razão de que ele mais ama a si próprio do que a mim? E se alguém me fez mal, apenas por pura maldade, então, esse é unicamente como a roseira e o cardo que picam e arranham apenas porque não podem de outra forma proceder. A espécie mais tolerável de vingança ainda é aquela que vai contra ofensas que na lei não encontram remédio;

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A Justa Medida no Convívio

N√£o √© necess√°rio esfor√ßar-se demasiado pela abund√Ęncia quando se tem apenas a inten√ß√£o de agradar, o valor e a raridade s√£o bem mais consider√°veis, a abund√Ęn¬≠cia cansa, a menos que seja extremamente diversificada. Pode at√© mesmo ocorrer, pelo demasiado n√ļmero de belas coisas, que n√£o se goste tanto, e mesmo que se estime menos aqueles que as fazem ou que as dizem; pois a abund√Ęncia atrai a inveja que arru√≠na sempre a amizade. Essa abund√Ęncia faz tamb√©m com que n√£o se admire mais aquilo que se achava, de in√≠cio, t√£o surpreendente, pois fica-se acostumado, e aquilo n√£o parece mais t√£o dif√≠cil.
Em todos os exercícios como a dança, o manejo das armas, voltear ou montar a cavalo, conhecem-se os exce­lentes mestres do ofício por um não sei quê de livre e desenvolto que agrada sempre, mas que não pode ser muito adquirido sem uma grande prática; não basta ainda ter-se exercitado assim por longo tempo, a menos que tenham sido tomados os melhores caminhos. As graças amam a justeza em tudo o que acabo de dizer; mas de um modo tão ingénuo, que dá a pensar que é um presente da natureza. Isto mostra-se também verdadeiro nos exer­cícios do espírito e na conversação,

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O Costume Constrange a Natureza

A coisa mais importante de toda a vida √© a escolha do of√≠cio: o acaso prepara-a. O costume faz os pedreiros, soldados, empalhadores. ¬ęE um excelente empalhado¬Ľ, diz-se; e, falando dos soldados: ¬ęEles s√£o loucos¬Ľ, diz-se; e outros pelo contr√°rio: ¬ęN√£o h√° nada maior do que a guerra; o resto dos homens s√£o uns cobardes¬Ľ. √Ä for√ßa de ouvir louvar na inf√Ęncia estes of√≠cios e desprezar todos os outros, escolhe-se; pois naturalmente ama-se a virtude, e detesta-se a loucura; estas palavras emocionam-nos: s√≥ se peca na aplica√ß√£o. √Č t√£o grande a for√ßa do costume que, daqueles que a natureza fez apenas homens, se fazem todas as condi√ß√Ķes dos homens; pois h√° regi√Ķes onde s√£o todos pedreiros, noutras todos soldados, etc. Certamente que a natureza n√£o √© t√£o uniforme. √Č portanto o costume que faz isto, porque constrange a natureza; e algumas vezes a natureza supera-o, e conserva o homem no seu instinto, apesar do costume, bom ou mau.

Ser Religioso com Vantagem

H√° pessoas s√≥brias e industriosas, em quem a religi√£o est√° bordada como uma ourela de humanidade superior: essas fazem muito bem em continuar a ser religiosas, isso embeleza-as. Todas as pessoas, que n√£o entendem de um qualquer of√≠cio relacionado com armas – incluindo nas armas a boca e a pena – tornam-se servis: para essa gente, a religi√£o crist√£ √© muito √ļtil, pois o servilismo toma, assim, a apar√™ncia de uma virtude crist√£ e fica espantosamente embelezado. Pessoas, a quem a sua vida quotidiana parece demasiado vazia e mon√≥tona, tornam-se facilmente religiosas: isso √© compreens√≠vel e perdo√°vel; simplesmente, elas n√£o t√™m direito de exigir religiosidade daqueles para quem a vida quotidiana n√£o decorre vazia e mon√≥tona.

O Homem Congrega Todas as Espécies de Animais

H√° t√£o diversas esp√©cies de homens como h√° diversas esp√©cies de animais, e os homens s√£o, em rela√ß√£o aos outros homens, o que as diferentes esp√©cies de animais s√£o entre si e em rela√ß√£o umas √†s outras. Quantos homens n√£o vivem do sangue e da vida dos inocentes, uns como tigres, sempre ferozes e sempre cru√©is, outros como le√Ķes, mantendo alguma apar√™ncia de generosidade, outros como ursos grosseiros e √°vidos, outros como lobos arrebatadores e impiedosos, outros ainda como raposas, que vivem de habilidades e cujo of√≠cio √© enganar!
Quantos homens n√£o se parecem com os c√£es! Destroem a sua esp√©cie; ca√ßam para o prazer de quem os alimenta; uns andam sempre atr√°s do dono; outros guardam-lhes a casa. H√° lebr√©us de trela que vivem do seu m√©rito, que se destinam √† guerra e possuem uma coragem cheia de nobreza, mas h√° tamb√©m dogues irasc√≠veis, cuja √ļnica qualidade √© a f√ļria; h√° c√£es mais ou menos in√ļteis, que ladram frequentemente e por vezes mordem, e h√° at√© c√£es de jardineiro. H√° macacos e macacas que agradam pelas suas maneiras, que t√™m esp√≠rito e que fazem sempre mal. H√° pav√Ķes que s√≥ t√™m beleza, que desagradam pelo seu canto e que destroem os lugares que habitam.

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Os Ministros da Pena

Eu n√£o sei como n√£o treme a m√£o a todos os ministros de pena, e muito mais √†queles que sobre um joelho aos p√©s do rei recebem os seus or√°culos, e os interpretam, e estendem. Eles s√£o os que com um adv√©rbio podem limitar ou ampliar as fortunas; eles os que com uma cifra podem adiantar direitos, e atrasar prefer√™ncias; eles os que com uma palavra podem dar ou tirar peso √† balan√ßa da justi√ßa; eles os que com uma cl√°usula equ√≠voca ou menos clara, podem deixar duvidoso, e em quest√£o, o que havia de ser certo e efectivo; eles os que com meter ou n√£o meter um papel, podem chegar a introduzir a quem quiserem, e desviar e excluir a quem n√£o quiserem; eles, finalmente, os que d√£o a √ļltima forma √†s resolu√ß√Ķes soberanas, de que depende o ser ou n√£o ser de tudo. Todas as penas, como as ervas, t√™m a sua virtude; mas as que est√£o mais chegadas √† fonte do poder s√£o as que prevalecem sempre a todas as outras. S√£o por of√≠cio, ou artif√≠cio, como as penas da √°guia, das quais dizem os naturais, que postas entre as penas das outras aves, a todas comem e desfazem.

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A Guerra é Deus

Pouco interessa o que os homens pensam da guerra, disse o juiz. A guerra perdura. √Č o mesmo que perguntar-lhes o que acham da pedra. A guerra sempre esteve presente. Antes de o homem existir, a guerra j√° estava √† espera dele. O of√≠cio supremo a aguardar o seu supremo art√≠fice. Sempre foi assim e sempre assim ser√°. Assim e n√£o de outra forma.
(…) Os homens nasceram para jogar. Nada mais. Todo o garoto sabe que a brincadeira √© uma ocupa√ß√£o mais nobre do que o trabalho. Sabe tamb√©m que a excel√™ncia ou m√©rito de um jogo n√£o √© inerente ao jogo em si, mas reside, isso sim, no valor daquilo que os jogadores arriscam. Os jogos de azar exigem que se fa√ßam apostas, sem o que n√£o fazem sequer sentido. Os desportos implicam medir a destreza e a for√ßa dos advers√°rios e a humilha√ß√£o da derrota e o orgulho da vit√≥ria constituem em si mesmos aposta suficiente, pois traduzem o valor dos contendores e definem-nos. Por√©m, quer se trate de contendas cuja sorte se decide pelo azar quer pelo m√©rito, todos os jogos anseiam elevar-se √† condi√ß√£o da guerra, pois nesta aquilo que se aposta devora tudo,

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Todos Temos Duas Almas

Cada criatura humana traz duas almas consigo: uma que olha de dentro para fora, outra que olha de fora para dentro… Espantem-se √† vontade, podem ficar de boca aberta, dar de ombros, tudo; n√£o admito r√©plica. Se me replicarem, acabo o charuto e vou dormir. A alma exterior pode ser um esp√≠rito, um fluido, um homem, muitos homens, um objeto, uma opera√ß√£o. H√° casos, por exemplo, em que um simples bot√£o de camisa √© a alma exterior de uma pessoa; – e assim tamb√©m a polca, o voltarete, um livro, uma m√°quina, um par de botas, uma cavatina, um tambor, etc. Est√° claro que o of√≠cio dessa segunda alma √© transmitir a vida, como a primeira; as duas completam o homem, que √©, metafisicamente falando, uma laranja. Quem perde uma das metades, perde naturalmente metade da exist√™ncia; e casos h√°, n√£o raros, em que a perda da alma exterior implica a da exist√™ncia inteira. (…) Agora, √© preciso saber que a alma exterior n√£o √© sempre a mesma…
– N√£o?
– N√£o, senhor; muda de natureza e de estado. N√£o aludo a certas almas absorventes, como a p√°tria, com a qual disse o Cam√Ķes que morria, e o poder,

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Versos Curtos e Compridos

Como poeta actuante, combati o meu pr√≥prio ensimesmamento. Por isso, o debate entre o real e o subjectivo se decidiu dentro do meu pr√≥prio ser. Sem pretens√Ķes de aconselhar ningu√©m, os resultados podem auxiliar as minhas experi√™ncias Vejamo-los de relance.
√Č natural que a minha poesia esteja exposta tanto √† opini√£o da cr√≠tica elevada como submetida √† paix√£o do libelo. Isto faz parte do jogo. Sobre este aspecto da discuss√£o n√£o tenho voz, mas tenho voto. Para a cr√≠tica essencial, o meu voto s√£o os meus livros, a minha poesia inteira. Para o libelo inamistoso, tenho tamb√©m direito de voto ‚ÄĒ e este tamb√©m √© constitu√≠do pela minha pr√≥pria e constante cria√ß√£o.
Se soa a vaidade o que digo, pode ser que tenham razão. No meu caso, trata-se da vaidade do artesão que exerceu um oficio por muitos anos com amor indelével.
Mas há uma coisa com que estou satisfeito: de uma maneira ou outra, fiz respeitar, pelo menos na minha pátria, o ofício de poeta, a profissão da poesia.

Na época em que comecei a escrever, o poeta era de dois géneros. Uns, eram poetas grandes senhores que se faziam respeitar pelo seu dinheiro,

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Muda de Vida ou Muda de Poema

Um poema n√£o √© uma coisa que se coloca sobre o teu dia como um condimento sobre o teu almo√ßo. A vida de uma pessoa n√£o tem material semelhante a nada que conhe√ßas. Existir √© feito de pe√ßas imposs√≠veis de copiar. E a poesia n√£o entra nesse material √ļnico – a vida de uma pessoa – como o avi√£o no ar ou o acidente do avi√£o na terra dura. Um poema n√£o √© manso nem meigo, n√£o √© mau nem ilegal.
Os homens não se medem pelos poemas que leram, mas talvez fosse melhor. O que é a fita métrica comparada com algo intenso? Há poemas que explicam trinta graus de uma vida e poemas que são um ofício de demolição completa: o edifício é trocado por outro, como se um edifício fosse uma camisa. Muda de vida ou, claro, muda de poema.

Gonçalo M.

A Sugestibilidade Humana

Os ideais da democracia e da liberdade chocam com o facto brutal da sugestibilidade humana. Um quinto de todos os eleitores pode ser hipnotizado quase num abrir e fechar de olhos, um s√©timo pode ser aliviado das suas dores mediante injec√ß√Ķes de √°gua, um quarto responder√° de modo pronto e entusi√°stico √† hipnop√©dia. A todas estas minorias demasiado dispostas a cooperar, devemos adicionar as maiorias de reac√ß√Ķes menos r√°pidas, cuja sugestibilidade mais moderada pode ser explorada por n√£o importa que manipulador ciente do seu of√≠cio, pronto a consagrar a isso o tempo e os esfor√ßos necess√°rios.
√Č a liberdade individual compat√≠vel com um alto grau de sugestibilidade individual?

O Compromisso Estraga o Escritor

Gosto mais dos homens que tomam um partido do que das literaturas que tomam partido. Coragem na vida e talento nas obras já não é nada mau. E, depois, o escritor só é comprometido quando quer. O seu mérito é o movimento. E se isso deve passar a ser uma lei, um ofício ou um terror, onde está então o mérito?
Parece que escrever hoje um poema sobre a Primavera é servir o capitalismo. Não sou poeta, mas fruiria sem rebuço uma semelhante obra se ela fosse bela. E se o homem tem necessidade de pão e de justiça, e se é preciso fazer o necessário para satisfazer essa necessidade, não se deve esquecer que ele precisa também de beleza pura, que é o pão do seu coração. O resto não é sério.
Sim, eu desej√°-los-ia menos comprometidos nas suas obras e um pouco mais na sua vida de todos os dias.

A Arte da Retórica Floresce nas Sociedades Decadentes

Um ret√≥rico do passado dizia que o seu of√≠cio era fazer que as coisas pequenas parecessem grandes e como tais fossem julgadas. Dir-se-ia um sapateiro que, para cal√ßar p√©s pequenos, sabe fazer sapatos grandes. Em Esparta ter-lhe-iam dado a experimentar o azorrague por professar uma arte trapaceira e mentirosa. E creio que Arquidamo, que foi seu rei, n√£o ter√° ouvido sem espanto a resposta de Tuc√≠dides, ao qual perguntara quem era mais forte na luta, se P√©ricles, se ele: ¬ęIsso ser√° dif√≠cil de verificar, pois quando o deito por terra, ele convence os espectadores que n√£o caiu, e ganha¬Ľ. Os que, com cosm√©ticos, caracterizam e pintam as mulheres fazem menos mal, pois √© coisa de pouca perda n√£o as ver ao natural, ao passo que estoutros fazem ten√ß√£o de enganar, n√£o j√° os olhos, mas o nosso ju√≠zo, e de abastardar e corromper a ess√™ncia das coisas. Os Estados que longamente se mantiveram em boa ordem e bem governados, como o cretense e o lacedem√≥nio, n√£o tinham em grande conta os oradores.
Aríston definiu sabiamente a retórica como a ciência de persuadir o povo; Sócrates e Platão, como a arte de enganar e lisonjear; e aqueles que isto negam na sua definição genérica,

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A Visita do Príncipe

N√£o sei nunca o que me trazem as palavras, elas gostam tanto de me surpreender. Hoje ao levantar da n√©voa trouxeram-me a casa sobre o rio, o terra√ßo escassamente iluminado por um lampe√£o que balan√ßava ao vento, o pequeno sapo que todas as noites, rente ao muro, se ia aproximando, deposit√°rio de tudo o que nesse tempo em mim se confundia com a ternura. Pequeno pr√≠ncipe da vadiagem, por ali se quedava sem outro of√≠cio que n√£o fosse o de receber alguma car√≠cia, s√≥ depois regressando por entre a humidade das pedras aos p√Ęntanos da sombra, a noite inteira nos olhos desmedidos.

Virtude Representa Muito Mais que Bondade

Parece-me que a virtude √© coisa diferente e mais nobre do que as inclina√ß√Ķes para a bondade que nascem em n√≥s. As almas bem ajustadas por si mesmas e bem nascidas seguem o mesmo andamento e apresentam nas suas a√ß√Ķes a mesma apar√™ncia que as virtuosas. Por√©m a virtude significa n√£o sei qu√™ de maior e mais activo do que, por uma √≠ndole favorecida, deixar-se conduzir docemente e tranquilamente na esteira da raz√£o. Aquele que com uma do√ßura e complac√™ncia naturais menosprezasse as ofensas recebidas faria coisa mui bela e digna de louvor; mas aquele que, espica√ßado e ultrajado at√© o √Ęmago por uma ofensa, se armasse com as armas da raz√£o contra o furio¬≠so apetite de vingan√ßa e ap√≥s um grande conflito finalmen¬≠te o dominasse, sem a menor d√ļvida seria muito mais. Aquele agiria bem, e este virtuosamente: uma ac√ß√£o poder-¬≠se-ia dizer bondade; a outra, virtude, pois parece que o nome de virtude pressup√Ķe dificuldade e oposi√ß√£o, e que ela n√£o pode se exercer sem combate. Talvez seja por isso que chamamos Deus de bom, forte e liberal, e justo; mas n√£o O chamamos de virtuoso: Os Seus actos s√£o todos natu¬≠rais e sem esfor√ßo.
Metelo, o √ļnico de todos os senadores romanos a se ter proposto,

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