Textos sobre Filhos

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Textos de filhos escritos por poetas consagrados, filósofos e outros autores famosos. Conheça estes e outros temas em Poetris.

O Amor Certo

Penso em tudo o que os homens sentem pelas mulheres que amam e tento dizer o que nos une nesse amor. Fora dos pormenores e das particularidades. Sei que as mulheres que nos amam não nos amam de maneira diferente mas, como nunca se sabe, deixei-as de fora, falando apenas pelo meu género: a malta.

Minha amada querida. O meu pai, logo depois de se ter apaixonado pela minha m√£e, disse-lhe, em pleno namoro (ela uma mulher inglesa casada, com uma filha pequena; ele um solteir√£o portugu√™s): ¬ęSe soubesses quanto eu te amava, destru√≠as-me j√°.¬Ľ E disse a verdade. Era tanto o amor e o ci√ļme que lhe tinha, que fez mal √† mulher que amava, minha m√£e, e mal ao homem que a amava: ele pr√≥prio, meu pai.

O amor é um castigo: é um desespero: é um medo. O amor vai contra todos os nossos instintos de sobrevivência. Instiga-nos a cometer loucuras. Instiga-nos a comprometermo-nos. Obriga-nos a cumprir promessas que não somos capazes de cumprir. Mas cumprimos.

Eu amo-te. E n√£o me custa. √Č um acto de ego√≠smo. Mesmo que tu me odiasses mas te odiasses tanto a ti pr√≥pria que n√£o te importasses de ficar comigo,

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As Pessoas Só Crescem ao Ritmo a que São Obrigadas

Os jovens de agora parece que t√™m dificuldade em crescer. N√£o sei porqu√™. Se calhar as pessoas s√≥ crescem ao ritmo a que s√£o obrigadas. Um primo meu, com dezoito anos, j√° tinha as insign√≠as de auxiliar do xerife. Era casado e tinha um filho. Tive um amigo de inf√Ęncia que, com a mesma idade, j√° tinha sido ordenado sacerdote baptista. Era pastor de uma igrejinha rural, muito antiga. Ao fim de uns tr√™s anos foi transferido para Lubbock e, quando disse √†s pessoas que se ia embora, elas desataram todas a chorar, ali sentadas no banco da igraja. Homens e mulheres, todos em l√°grimas. Tinha celebrado casamento, baptizados, funerais. Com vinte e um anos, talvez vinte e dois. Quando pregava os seus serm√Ķes, a assist√™ncia era tanta que havia gente de p√© no adro a ouvir. Fiquei espantado. Na escola ele era sempre t√£o calado.
(…) A Loretta contou-me que ouviu falar na r√°dio de uma certa percentagem de crian√ßas deste pa√≠s que est√° a ser criada pelos av√≥s. J√° n√£o me lembro do n√ļmero. Era bastante alto, pareceu-me. Os pais n√£o querem ter esse trabalho. Convers√°mos sobre isso. Demos connosco a pensar que quando a pr√≥xima gera√ß√£o crescer e tamb√©m j√° n√£o quiser criar os filhos,

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Este Amor Infinito e Imaculado

Querida, o teu viver era um letargo,
Nenhuma aspiração te atormentava;
Afeita j√° do jugo ao duro cargo,
Teu peito nem sequer desafogava.
Fui eu que te apontei um mundo largo
De novas sensa√ß√Ķes; teu peito ansiava
Ouvindo-me contar entre caricias,
Do livre e ardente amor tantas delicias!

N√£o te mentia, n√£o. Sentiste-o, filha,
Esse amor infinito e imaculado,
Estrela maga que incessante brilha
Da alma pura ao casto amor sagrado;
Afecto nobre que jamais partilha
O coracão de vícios ulcerado.
N√£o sentes, nem recordas, j√° sequer?
Quem deste amor te despenhou, mulher ?

Eu n√£o! Se muitos crimes me desluzem,
Se p√īde transviar-me o seu encanto,
Ao menos uma só não me recusem,
Uma virtude só: amar-te tanto!
Embora inj√ļrias contra mim se cruzem,
Cuspindo insultos neste amor t√£o santo,
Diz tu quem fui, quem sou, e se é verdade
O opróbrio aviltador da sociedade.

O Pequeno Hamlet

O Tom√°s, o meu filho, brinca na velha ponte abandonada junto √† casa onde habito agora. Gosto muito deste filho cheio de consequentes sil√™ncios, reservas que lhe v√™m do desamparo da inf√Ęncia – de toda a inf√Ęncia – mas que nele se sublinham como se um veio nocturno se acercasse das coisas que interroga. A mim tudo se me esquece quando olho este filho que espanca com um ferro o ferro da ponte. Observando-o na desaten√ß√£o que o guarda assim no fotograma da mem√≥ria, interpelo-o: ¬ęE leste O pr√≠ncipe da Dinamarca?¬Ľ, e ele responde-me seco, mortalmente evasivo: ¬ęN√£o √© O pr√≠ncipe da Dinamarca, √© O cavaleiro da Dinamarca¬Ľ, e volta a espancar, rebarbativo, o ferro.

Os Homens não Sabem o que é o Amor

De forma geral, os homens não sabem o que é amor, é um sentimento que lhes é totalmente estranho. Conhecem o desejo, o desejo sexual em estado bruto e a competição entre machos; e depois, muito mais tarde, já casados, chegam, chegavam antigamente, a sentir um certo reconhecimento pela companheira quando ela lhes tinha dado filhos, tinha mantido bem a casa e era boa cozinheira e boa amante Рentão chegavam a ter prazer por dormirem na mesma cama. Não era talvez o que as mulheres desejavam, talvez houvesse aí um mal-entendido, mas era um sentimento que podia ser muito forte Рe mesmo quando eles sentiam uma excitação, aliás cada vez mais fraca, por esta ou aquela mulher, já não conseguiam literalmente viver sem a mulher e, se acontecia ela morrer, eles desatavam a beber e acabavam rapidamente, em geral uns meses bastavam. Os filhos, esses, representavam a transmissão de uma condição, de regras e de um património. Era evidentemente o que acontecia nas classes feudais, mas igualmente com os comerciantes, camponeses, artesãos, de forma geral com todos os grupos da sociedade. Hoje, nada disso existe.
As pessoas são assalariadas, locatárias, não têm nada para deixar aos filhos.

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Da Liberdade

A: Eis uma bateria de canh√Ķes que atira junto aos nossos ouvidos; tendes a liberdade de ouvi-la e de a n√£o ouvir?
B: √Č claro que n√£o posso evitar ouvi-la.
A: Desejaríeis que esse canhão decepasse a vossa cabeça e as da vossa mulher e da vossa filha que estivessem convosco?
B: Que espécie de proposição me fazeis? Eu jamais poderia, no meu são juízo, desejar semelhante coisa. Isso é-me impossível.
A: Muito bem; ouvis necessariamente esse canhão e, também necessariamente, não quereis morrer, vós e a vossa família, de um tiro de canhão; não tendes nem o poder de não o ouvir nem o poder de querer permanecer aqui.
B: Isso é evidente.
A: Em consequência, destes uma trintena de passos a fim de vos colocardes ao abrigo do canhão: tivestes o poder de caminhar comigo estes poucos passos?
B: Nada mais verdadeiro.
A: E se f√īsseis paral√≠tico? N√£o ter√≠eis podido evitar ficar exposto a essa bateria; n√£o ter√≠eis o poder de estar onde agora estais: ter√≠eis ent√£o necessariamente ouvido e recebido um tiro de canh√£o e necessariamente estar√≠eis morto?
B: Nada mais claro.
A: Em que consiste, pois,

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Caminho da Manh√£

Vais pela estrada que é de terra amarela e quase sem nenhuma sombra. As cigarras cantarão o silêncio de bronze. À tua direita irá primeiro um muro caiado que desenha a curva da estrada. Depois encontrarás as figueiras transparentes e enroladas; mas os seus ramos não dão nenhuma sombra. E assim irás sempre em frente com a pesada mão do Sol pousada nos teus ombros, mas conduzida por uma luz levíssima e fresca. Até chegares às muralhas antigas da cidade que estão em ruínas. Passa debaixo da porta e vai pelas pequenas ruas estreitas, direitas e brancas, até encontrares em frente do mar uma grande praça quadrada e clara que tem no centro uma estátua. Segue entre as casas e o mar até ao mercado que fica depois de uma alta parede amarela. Aí deves parar e olhar um instante para o largo pois ali o visível se vê até ao fim. E olha bem o branco, o puro branco, o branco da cal onde a luz cai a direito. Também ali entre a cidade e a água não encontrarás nenhuma sombra; abriga-te por isso no sopro corrido e fresco do mar. Entra no mercado e vira à tua direita e ao terceiro homem que encontrares em frente da terceira banca de pedra compra peixes.

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Os Verdadeiros Problemas

Digo muitas vezes que n√£o s√£o necessariamente os homens e mulheres com t√≠tulos, mas os homens e mulheres humildes que encontramos em todas as comunidades, mas que escolherem o mundo como o seu teatro de opera√ß√Ķes, que sentem que os maiores desafios s√£o os problemas socioecon√≥micos que o mundo defronta, por exemplo, a pobreza, a iliteracia, a doen√ßa, a falta de casa, a impossibilidade de mandar os filhos √† escola. Esses s√£o os meus her√≥is. O chefe de Estado que se classificar como um destes √© o meu her√≥i.

Um Bom Pai

Um bom pai não é aquele que nunca perde a paciência, mas é aquele que dialoga muito com os seus filhos, que tem prazer em entrar no mundo deles, que não os deixa do lado de fora da sua história. Ninguém tem filhos sabendo o que é ser pai. Ser pai exige um constante treino, em que os erros corrigem as rotas e as lágrimas acertam os caminhos. Educar filhos é uma tarefa complexa. Costumo brincar e dizer que os melhores filhos para serem educados são os dos outros e não os nossos. E fácil educar os filhos dos outros, pois não temos vínculos nem dificuldades com eles. Sem vínculo, o amor não cresce, mas onde há vínculos há sempre problemas e atritos. Não acredite em manuais mágicos de educação. Acredite na sua sensibilidade.

A melhor educa√ß√£o que os pais podem dar aos seus filhos √© dividir a sua hist√≥ria com eles. O melhor treino da emo√ß√£o √© falar das suas frustra√ß√Ķes, dos seus momentos de hesita√ß√£o, das suas conquistas, dos seus sonhos, dos seus erros. Nunca houve tantos div√≥rcios, mas o ser humano n√£o deixa de se unir. Porqu√™? Porque viver em fam√≠lia √© uma das experi√™ncias mais prazerosas da exist√™ncia.

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√ď M√£e

√ď m√£e, regressa a mim. Embala-me no tempo em que os teus l√°bios rebentavam de ternura. √ď m√£e, √≥ minha m√£e, √≥ rio de √°gua pura, correndo pelas veias. Pelo vento.

√ď m√£e, que √©s m√£e de Deus, que √©s m√£e de mim e m√£e de Antero e de Cam√Ķes, e m√£e de quem lhe faltam as palavras como se faltasse o ar. E s√£o assim uma esp√©cie de filhos de ningu√©m. Abre o teu ventre, m√£e. Acorda. Vem parir-me. E vem sofrer a minha dor uma vez mais. Morrer de amor por mim. Vem impedir-me o medo. Ensinar-me a amar a luz dos animais.

√ď m√£e, √≥ minha m√£e. √ď p√°tria. √ď minha pena. Que me pariste, assim, temperamental. M√£e de Ulisses, de Guevara e m√£e de Helena. E m√£e da minha dor universal.

O Mérito da Monotonia

A capacidade para suportar uma vida mais ou menos mon√≥tona deve ser adquirida desde a inf√Ęncia. A este respeito, os pais modernos s√£o bastante censur√°veis; proporcionam aos filhos demasiados prazeres passivos, tais como espect√°culos e guloseimas, e n√£o compreendem a import√Ęncia que tem para uma crian√ßa um dia ser igual a outro dia, excepto, √© claro, nalgumas raras ocasi√Ķes. Em geral, os prazeres da inf√Ęncia deveriam ser aqueles que a pr√≥pria crian√ßa descobrisse no seu ambiente por meio de algum esfor√ßo e imagina√ß√£o.
Os prazeres que excitam e ao mesmo tempo n√£o implicam qualquer exerc√≠cio f√≠sico, o teatro por exemplo, s√≥ lhes seriam facultados muito raramente. A excita√ß√£o √© da mesma natureza dos narc√≥ticos que cada vez se tornam mais exigentes, e a passividade f√≠sica durante a excita√ß√£o √© contr√°ria ao instinto. Uma crian√ßa desenvolve-se melhor quando, tal como uma jovem planta, a deixam tranquila no mesmo solo. Demasiadas viagens, demasiadas variedades de impress√Ķes, n√£o s√£o boas para as crian√ßas e tornam-nas mais tarde, quando forem crescidas, incapazes de suportar uma monotonia fecunda. N√£o quero dizer que a monotonia tenha algum m√©rito em si mesma; quero s√≥mente afirmar que algumas coisas boas n√£o s√£o poss√≠veis sen√£o quando h√° um certo grau de monotonia.

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O Supremo Palhaço da Criação

A velha no√ß√£o antropom√≥rfica de que todo o universo se centraliza no homem ‚Äď de que a exist√™ncia humana √© a suprema express√£o do processo c√≥smico ‚Äď parece galopar alegremente para o ba√ļ das ilus√Ķes perdidas. O facto √© que a vida do homem, quanto mais estudada √† luz da biologia geral, parece cada vez mais vazia de significado. O que no passado deu a impress√£o de ser a principal preocupa√ß√£o e obra-prima dos deuses, a esp√©cie humana come√ßa agora a apresentar o aspecto de um sub-produto acidental das maquina√ß√Ķes vastas, inescrut√°veis e provavelmente sem sentido desses mesmos deuses.
(…) O que n√£o quer dizer, naturalmente, que um dia a tal teoria seja abandonada pela grande maioria dos homens. Pelo contr√°rio, estes a abra√ßar√£o √† medida que ela se tornar cada vez mais duvidosa. De fato, hoje, a teoria antropom√≥rfica ainda √© mais adoptada do que nas eras de obscurantismo, quando a doutrina de que um homem era um quase Deus foi no m√≠nimo aperfei√ßoada pela doutrina de que as mulheres inferiores. O que mais est√° por tr√°s da caridade, da filantropia, do pacifismo, da ‚Äúinspira√ß√£o‚ÄĚ e do resto dos atuais sentimentalismos? Uma por uma, todas estas tolices s√£o baseadas na no√ß√£o de que o homem √© um animal glorioso e indescrit√≠vel,

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Intragável é Estar Parado

Intragável é estar parado. Não mudar. Aguentar. Sobreviver. Permanecer. Mesmo que seja pouco, mesmo que seja insuficiente. Manter tudo como está apenas para não correr o risco de ficar pior. Intragável é não perdoar, não ilibar. E só criticar, só apontar, só atacar. E não criar, não refazer, não imaginar. Intragável é não acreditar. Intragável é o que não é maravilhoso, o que não é delicioso, o que não é fantástico, monumental, abençoado, miraculoso, espantoso. Intragável é acordar para o dia a recusar o dia, a não querer o dia, a não apetecer o dia, a não pensar nas mil e uma maneiras de o tornar inesquecível. Deixar estar. Não mexer, não querer a ferida se for através da ferida que se chega à cura. Ser cauteloso, prevenido. Intragável é o que não é exagerado, o que não é desproporcionado, o que não parece incomportável. Se não parece incomportável, é insuportável. Não quero. Não admito. Não me admito. Intragável é repetir. Hoje como réplica exacta de ontem e como réplica exacta de amanhã. As mesmas coisas, as mesmas palavras, os mesmos actos, os mesmos movimentos. Sempre igual. Sempre o mesmo. Intragável é continuar por continuar, andar por andar, viver por viver.

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Que Significado Tem a Felicidade?

Deve-se neste momento – relacionando-a com certas informa√ß√Ķes do dicion√°rio – formular ainda a pergunta: o que s√£o afinal os bens da vida humana? Quem nos diz que um determinado bem √© superior ou inferior? H√° lacunas desagrad√°veis nos dicion√°rios, at√© nos mais conhecidos. Pode-se demonstrar que h√° pessoas para quem DM 2,5 s√£o um bem muito superior a qualquer outra vida humana, com excep√ß√£o da deles, e h√° at√© outros que, por amor a um bocado de chouri√ßo de sangue, que conseguem ou n√£o apanhar, arriscam sem hesita√ß√£o os bens das mulheres e dos filhos, como, por exemplo: uma vida familiar alegre e a presen√ßa de um pai ao menos uma vez radiante. E que significado tem esse bem, que louvamos sob o nome de F.(Felicidade)? Que diabo, este est√° bem perto da F., se consegue juntar as tr√™s ou quatro beatas que chegam para ele fazer outro cigarro ou se pode beber o resto de Vermute de uma garrafa que se deitou fora, aquele precisa para ser feliz durante cerca de dez minutos – pelo menos segundo o costume ocidental de amor a ritmo acelerado-, mais precisamente: para estar r√†pidamente com a pessoa que naquele momento deseja, precisa de um avi√£o a jacto particular,

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A Lusit√Ęnia

A terra mais ocidental de todas √© a Lusit√Ęnia. E porque se chama Ocidente aquela parte do mundo? Porventura porque vivem ali menos, ou morrem mais os homens? N√£o; sen√£o porque ali v√£o morrer, ali acabam, ali se sepultam e se escondem todas as luzes do firmamento. Sai no Oriente o Sol com o dia coroado de raios, como Rei e fonte da Luz: sai a Lua e as Estrelas com a noite, como tochas acesas e cintilantes contra a escuridade das trevas, sobem por sua ordem ao Z√©nite, d√£o volta ao globo do mundo resplandecendo sempre e alumiando terras e mares; mas em chegando aos Horizontes da Lusit√Ęnia, ali se afogam os raios, ali se sepultam os resplendores, ali desaparece e perece toda aquela pompa de luzes.
E se isto sucede aos lumes celestes e imortais; que nos lastimamos, Senhores, de ler os mesmos exemplos nas nossas Histórias? Que foi um Afonso de Albuquerque no Oriente? Que foi um Duarte Pacheco? Que foi um D. João de Castro? Que foi um Nuno da Cunha, e tantos outros Heróis famosos, senão uns Astros e Planetas lucidíssimos, que assim como alumiaram com estupendo resplendor aquele glorioso século, assim escurecerão todos os passados?

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O Amor de Si Próprio

[Ferido por uma cr√≠tica adversa, um poeta busca consolo para a m√°goa relendo seus pr√≥prios versos.] Desgosto (…), mas desgosto curto. Ele ir√° dali remirar-se nos pr√≥prios livros. A justi√ßa que um atrevido lhe negou, n√£o lhe negar√£o as p√°ginas dele. Oh! a m√£e que gerou o filho, que o amamenta e acalenta, que p√Ķe nessa fr√°gil criaturinha o mais puro de todos os amores, essa m√£e √© Medeia, se a compararmos √†quele engenho, que se consola da inj√ļria, relendo-se; porque se o amor de m√£e √© a mais elevada forma de altru√≠smo, o dele √© a mais profunda forma de ego√≠smo, e s√≥ h√° uma coisa mais forte que o amor materno, √© o amor de si pr√≥prio.

O Desejo de Criar

Diotima: Qual √©, S√≥crates, na sua opini√£o, a causa deste amor, deste desejo? Voc√™ j√° observou em que estranha crise se encontram todos os animais, os que voam e os que marcham, quando s√£o tomados pelo desejo de procriar? Como ficam doentes e possu√≠dos de desejo, primeiro no momento de se ligarem, depois, quando se torna necess√°rio alimentar os filhos? (… ) Tanto no caso dos humanos como no dos animais, a natureza mortal busca, na medida do poss√≠vel, perpetuar-se e imortalizar-se. Apenas desse modo, por meio da procria√ß√£o, a natureza mortal √© capaz da imortalidade, deixando sempre um jovem no lugar do velho. [… ] Pois saiba, S√≥crates, que o mesmo vale para a ambi√ß√£o dos homens. Voc√™ ficar√° assombrado com a sua misteriosa irracionalidade, a n√£o ser que compreenda o que eu disse, e reflicta sobre o que se passa com eles quando s√£o tomados pela ambi√ß√£o e pelo desejo de gl√≥ria eterna. √Č pela fama, mais ainda que pelos seus filhos, que eles se disp√Ķem a encarar todos os riscos, suportar fadigas, esbanjar fortunas e at√© mesmo sacrificar as suas vidas. [… ] Aqueles cujo instinto criador √© f√≠sico recorrem de prefer√™ncia √†s mulheres e revelam o seu amor dessa maneira,

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O Dom de Deixar Ir

√Č preciso aprender a viver. A qualidade da nossa exist√™ncia depende de um equil√≠brio fundamental na nossa rela√ß√£o com o mundo: apego e desapego. Nesta vida, a pondera√ß√£o, a propor√ß√£o e a subtileza s√£o sempre melhores que qualquer arrebatamento. Mas o essencial √© aprender que a exist√™ncia √© feita de d√°divas e perdas.

Eis porque quem reza deve pedir e agradecer: tudo √©, na verdade, um dom. Tudo passa… importa pois prepararmo-nos para a perda, ainda que tantas vezes n√£o seja sen√£o tempor√°ria… Alegrias e dores. S√≥ h√° felicidade num cora√ß√£o onde habita a sabedoria e paci√™ncia dos tempos e dos momentos, a paz de quem sabe que s√£o muitos os porqu√™s e para qu√™s que ultrapassam a capacidade humana de compreender.

Na vida, tudo se recebe e tudo se perde.
Amar é um apego natural mas também obriga a que deixemos o outro ser quem é, abrindo mão e permitindo-lhe que parta, ou que fique, sem desejar outra coisa senão que seja radicalmente livre. Aprendendo que há muito mais valor no ato de quem decide ficar do que naquele de quem só está por não poder partir.

Nada verdadeiramente nos pertence. O sublime do amor está aí,

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As Três Realidades Sociais

H√° tr√™s realidades sociais – o indiv√≠duo, a Na√ß√£o, a Humanidade. Tudo mais √© fict√≠cio. S√£o fic√ß√Ķes a Fam√≠lia, a Religi√£o, a Classe. √Č fic√ß√£o o Estado. √Č fic√ß√£o a Civiliza√ß√£o.
O indiv√≠duo, a Na√ß√£o, a Humanidade s√£o realidades porque s√£o perfeitamente definidos. T√™m contorno e forma. O indiv√≠duo √© a realidade suprema porque tem um contorno material e mental ‚ÄĒ √© um corpo vivo e uma alma viva.
A Na√ß√£o √© tamb√©m uma realidade, pois a definem o territ√≥rio, ou o idioma, ou a continuidade hist√≥rica ‚ÄĒ um desses elementos, ou todos. O contorno da na√ß√£o √© contudo mais esbatido, mais contingente, quer geograficamente, porque nem sempre as fronteiras s√£o as que deviam ser; quer linguisticamente, porque largas dist√Ęncias no espa√ßo separam pa√≠ses de igual idioma e que naturalmente deveriam formar uma s√≥ na√ß√£o; quer historicamente, porque, por uma parte, crit√©rios diferentes do passado nacional quebram, ou tendem para o quebrar, o vas√≠culo nacional, e, por outra, a continuidade hist√≥rica opera diferentemente sobre camadas da popula√ß√£o, diferentes por √≠ndole, costumes ou cultura.
A Humanidade é outra realidade social, tão forte como o indivíduo, mais forte ainda que a Nação, porque mais definida do que ela. O indivíduo é,

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Acreditei que Podia Dar-te um Céu para Brincares

Filho. Gostava que houvesse uma aragem qualquer que me explicasse esse teu sorriso e outra que te explicasse, sem te magoar, o meu silêncio. Gostava de aprender o trejeito dos teus lábios, a maneira dos teus olhos, e to lembrar quando tivesses a minha idade. Fui um dia a tua inocência. E dela ficou-me a grande inocência de acreditar.
Acreditei que podia dar-te um céu para brincares e que a vida seria o que nós quiséssemos. Assim. Bastaria querermos, esforçarmo-nos muito, trabalharmos, e teríamos então o que desejássemos. Não digo coisas majestosas, roupas bonitas ou charretes, mas comida, comida gostosa e bem temperada, e um cavalo de cartão novo, se por acaso esquecesses o teu no quintal numa noite de chuva. Acreditei que a felicidade dos teus olhos a sorrir podia voltar aos olhos da tua mãe, aos meus e perdurar intocada nos teus. Acreditei em tantas coisas. Sabes, aproximo-me da vila e o que me espera é morrer um pouco mais. Preferia que não o soubesses, mas infelizmente nem isso posso esconder-te, porque um dia, quando te contarem a história da tua vida, dir-te-ão que numa noite de estrelas, o teu pai foi à vila e levou uma sova;

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