Textos sobre Filhos

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Textos de filhos escritos por poetas consagrados, filósofos e outros autores famosos. Conheça estes e outros temas em Poetris.

Caminho da Manh√£

Vais pela estrada que é de terra amarela e quase sem nenhuma sombra. As cigarras cantarão o silêncio de bronze. À tua direita irá primeiro um muro caiado que desenha a curva da estrada. Depois encontrarás as figueiras transparentes e enroladas; mas os seus ramos não dão nenhuma sombra. E assim irás sempre em frente com a pesada mão do Sol pousada nos teus ombros, mas conduzida por uma luz levíssima e fresca. Até chegares às muralhas antigas da cidade que estão em ruínas. Passa debaixo da porta e vai pelas pequenas ruas estreitas, direitas e brancas, até encontrares em frente do mar uma grande praça quadrada e clara que tem no centro uma estátua. Segue entre as casas e o mar até ao mercado que fica depois de uma alta parede amarela. Aí deves parar e olhar um instante para o largo pois ali o visível se vê até ao fim. E olha bem o branco, o puro branco, o branco da cal onde a luz cai a direito. Também ali entre a cidade e a água não encontrarás nenhuma sombra; abriga-te por isso no sopro corrido e fresco do mar. Entra no mercado e vira à tua direita e ao terceiro homem que encontrares em frente da terceira banca de pedra compra peixes.

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Os Verdadeiros Problemas

Digo muitas vezes que n√£o s√£o necessariamente os homens e mulheres com t√≠tulos, mas os homens e mulheres humildes que encontramos em todas as comunidades, mas que escolherem o mundo como o seu teatro de opera√ß√Ķes, que sentem que os maiores desafios s√£o os problemas socioecon√≥micos que o mundo defronta, por exemplo, a pobreza, a iliteracia, a doen√ßa, a falta de casa, a impossibilidade de mandar os filhos √† escola. Esses s√£o os meus her√≥is. O chefe de Estado que se classificar como um destes √© o meu her√≥i.

Um Bom Pai

Um bom pai não é aquele que nunca perde a paciência, mas é aquele que dialoga muito com os seus filhos, que tem prazer em entrar no mundo deles, que não os deixa do lado de fora da sua história. Ninguém tem filhos sabendo o que é ser pai. Ser pai exige um constante treino, em que os erros corrigem as rotas e as lágrimas acertam os caminhos. Educar filhos é uma tarefa complexa. Costumo brincar e dizer que os melhores filhos para serem educados são os dos outros e não os nossos. E fácil educar os filhos dos outros, pois não temos vínculos nem dificuldades com eles. Sem vínculo, o amor não cresce, mas onde há vínculos há sempre problemas e atritos. Não acredite em manuais mágicos de educação. Acredite na sua sensibilidade.

A melhor educa√ß√£o que os pais podem dar aos seus filhos √© dividir a sua hist√≥ria com eles. O melhor treino da emo√ß√£o √© falar das suas frustra√ß√Ķes, dos seus momentos de hesita√ß√£o, das suas conquistas, dos seus sonhos, dos seus erros. Nunca houve tantos div√≥rcios, mas o ser humano n√£o deixa de se unir. Porqu√™? Porque viver em fam√≠lia √© uma das experi√™ncias mais prazerosas da exist√™ncia.

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√ď M√£e

√ď m√£e, regressa a mim. Embala-me no tempo em que os teus l√°bios rebentavam de ternura. √ď m√£e, √≥ minha m√£e, √≥ rio de √°gua pura, correndo pelas veias. Pelo vento.

√ď m√£e, que √©s m√£e de Deus, que √©s m√£e de mim e m√£e de Antero e de Cam√Ķes, e m√£e de quem lhe faltam as palavras como se faltasse o ar. E s√£o assim uma esp√©cie de filhos de ningu√©m. Abre o teu ventre, m√£e. Acorda. Vem parir-me. E vem sofrer a minha dor uma vez mais. Morrer de amor por mim. Vem impedir-me o medo. Ensinar-me a amar a luz dos animais.

√ď m√£e, √≥ minha m√£e. √ď p√°tria. √ď minha pena. Que me pariste, assim, temperamental. M√£e de Ulisses, de Guevara e m√£e de Helena. E m√£e da minha dor universal.

O Mérito da Monotonia

A capacidade para suportar uma vida mais ou menos mon√≥tona deve ser adquirida desde a inf√Ęncia. A este respeito, os pais modernos s√£o bastante censur√°veis; proporcionam aos filhos demasiados prazeres passivos, tais como espect√°culos e guloseimas, e n√£o compreendem a import√Ęncia que tem para uma crian√ßa um dia ser igual a outro dia, excepto, √© claro, nalgumas raras ocasi√Ķes. Em geral, os prazeres da inf√Ęncia deveriam ser aqueles que a pr√≥pria crian√ßa descobrisse no seu ambiente por meio de algum esfor√ßo e imagina√ß√£o.
Os prazeres que excitam e ao mesmo tempo n√£o implicam qualquer exerc√≠cio f√≠sico, o teatro por exemplo, s√≥ lhes seriam facultados muito raramente. A excita√ß√£o √© da mesma natureza dos narc√≥ticos que cada vez se tornam mais exigentes, e a passividade f√≠sica durante a excita√ß√£o √© contr√°ria ao instinto. Uma crian√ßa desenvolve-se melhor quando, tal como uma jovem planta, a deixam tranquila no mesmo solo. Demasiadas viagens, demasiadas variedades de impress√Ķes, n√£o s√£o boas para as crian√ßas e tornam-nas mais tarde, quando forem crescidas, incapazes de suportar uma monotonia fecunda. N√£o quero dizer que a monotonia tenha algum m√©rito em si mesma; quero s√≥mente afirmar que algumas coisas boas n√£o s√£o poss√≠veis sen√£o quando h√° um certo grau de monotonia.

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O Supremo Palhaço da Criação

A velha no√ß√£o antropom√≥rfica de que todo o universo se centraliza no homem ‚Äď de que a exist√™ncia humana √© a suprema express√£o do processo c√≥smico ‚Äď parece galopar alegremente para o ba√ļ das ilus√Ķes perdidas. O facto √© que a vida do homem, quanto mais estudada √† luz da biologia geral, parece cada vez mais vazia de significado. O que no passado deu a impress√£o de ser a principal preocupa√ß√£o e obra-prima dos deuses, a esp√©cie humana come√ßa agora a apresentar o aspecto de um sub-produto acidental das maquina√ß√Ķes vastas, inescrut√°veis e provavelmente sem sentido desses mesmos deuses.
(…) O que n√£o quer dizer, naturalmente, que um dia a tal teoria seja abandonada pela grande maioria dos homens. Pelo contr√°rio, estes a abra√ßar√£o √† medida que ela se tornar cada vez mais duvidosa. De fato, hoje, a teoria antropom√≥rfica ainda √© mais adoptada do que nas eras de obscurantismo, quando a doutrina de que um homem era um quase Deus foi no m√≠nimo aperfei√ßoada pela doutrina de que as mulheres inferiores. O que mais est√° por tr√°s da caridade, da filantropia, do pacifismo, da ‚Äúinspira√ß√£o‚ÄĚ e do resto dos atuais sentimentalismos? Uma por uma, todas estas tolices s√£o baseadas na no√ß√£o de que o homem √© um animal glorioso e indescrit√≠vel,

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Intragável é Estar Parado

Intragável é estar parado. Não mudar. Aguentar. Sobreviver. Permanecer. Mesmo que seja pouco, mesmo que seja insuficiente. Manter tudo como está apenas para não correr o risco de ficar pior. Intragável é não perdoar, não ilibar. E só criticar, só apontar, só atacar. E não criar, não refazer, não imaginar. Intragável é não acreditar. Intragável é o que não é maravilhoso, o que não é delicioso, o que não é fantástico, monumental, abençoado, miraculoso, espantoso. Intragável é acordar para o dia a recusar o dia, a não querer o dia, a não apetecer o dia, a não pensar nas mil e uma maneiras de o tornar inesquecível. Deixar estar. Não mexer, não querer a ferida se for através da ferida que se chega à cura. Ser cauteloso, prevenido. Intragável é o que não é exagerado, o que não é desproporcionado, o que não parece incomportável. Se não parece incomportável, é insuportável. Não quero. Não admito. Não me admito. Intragável é repetir. Hoje como réplica exacta de ontem e como réplica exacta de amanhã. As mesmas coisas, as mesmas palavras, os mesmos actos, os mesmos movimentos. Sempre igual. Sempre o mesmo. Intragável é continuar por continuar, andar por andar, viver por viver.

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Que Significado Tem a Felicidade?

Deve-se neste momento – relacionando-a com certas informa√ß√Ķes do dicion√°rio – formular ainda a pergunta: o que s√£o afinal os bens da vida humana? Quem nos diz que um determinado bem √© superior ou inferior? H√° lacunas desagrad√°veis nos dicion√°rios, at√© nos mais conhecidos. Pode-se demonstrar que h√° pessoas para quem DM 2,5 s√£o um bem muito superior a qualquer outra vida humana, com excep√ß√£o da deles, e h√° at√© outros que, por amor a um bocado de chouri√ßo de sangue, que conseguem ou n√£o apanhar, arriscam sem hesita√ß√£o os bens das mulheres e dos filhos, como, por exemplo: uma vida familiar alegre e a presen√ßa de um pai ao menos uma vez radiante. E que significado tem esse bem, que louvamos sob o nome de F.(Felicidade)? Que diabo, este est√° bem perto da F., se consegue juntar as tr√™s ou quatro beatas que chegam para ele fazer outro cigarro ou se pode beber o resto de Vermute de uma garrafa que se deitou fora, aquele precisa para ser feliz durante cerca de dez minutos – pelo menos segundo o costume ocidental de amor a ritmo acelerado-, mais precisamente: para estar r√†pidamente com a pessoa que naquele momento deseja, precisa de um avi√£o a jacto particular,

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A Lusit√Ęnia

A terra mais ocidental de todas √© a Lusit√Ęnia. E porque se chama Ocidente aquela parte do mundo? Porventura porque vivem ali menos, ou morrem mais os homens? N√£o; sen√£o porque ali v√£o morrer, ali acabam, ali se sepultam e se escondem todas as luzes do firmamento. Sai no Oriente o Sol com o dia coroado de raios, como Rei e fonte da Luz: sai a Lua e as Estrelas com a noite, como tochas acesas e cintilantes contra a escuridade das trevas, sobem por sua ordem ao Z√©nite, d√£o volta ao globo do mundo resplandecendo sempre e alumiando terras e mares; mas em chegando aos Horizontes da Lusit√Ęnia, ali se afogam os raios, ali se sepultam os resplendores, ali desaparece e perece toda aquela pompa de luzes.
E se isto sucede aos lumes celestes e imortais; que nos lastimamos, Senhores, de ler os mesmos exemplos nas nossas Histórias? Que foi um Afonso de Albuquerque no Oriente? Que foi um Duarte Pacheco? Que foi um D. João de Castro? Que foi um Nuno da Cunha, e tantos outros Heróis famosos, senão uns Astros e Planetas lucidíssimos, que assim como alumiaram com estupendo resplendor aquele glorioso século, assim escurecerão todos os passados?

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O Amor de Si Próprio

[Ferido por uma cr√≠tica adversa, um poeta busca consolo para a m√°goa relendo seus pr√≥prios versos.] Desgosto (…), mas desgosto curto. Ele ir√° dali remirar-se nos pr√≥prios livros. A justi√ßa que um atrevido lhe negou, n√£o lhe negar√£o as p√°ginas dele. Oh! a m√£e que gerou o filho, que o amamenta e acalenta, que p√Ķe nessa fr√°gil criaturinha o mais puro de todos os amores, essa m√£e √© Medeia, se a compararmos √†quele engenho, que se consola da inj√ļria, relendo-se; porque se o amor de m√£e √© a mais elevada forma de altru√≠smo, o dele √© a mais profunda forma de ego√≠smo, e s√≥ h√° uma coisa mais forte que o amor materno, √© o amor de si pr√≥prio.

O Desejo de Criar

Diotima: Qual √©, S√≥crates, na sua opini√£o, a causa deste amor, deste desejo? Voc√™ j√° observou em que estranha crise se encontram todos os animais, os que voam e os que marcham, quando s√£o tomados pelo desejo de procriar? Como ficam doentes e possu√≠dos de desejo, primeiro no momento de se ligarem, depois, quando se torna necess√°rio alimentar os filhos? (… ) Tanto no caso dos humanos como no dos animais, a natureza mortal busca, na medida do poss√≠vel, perpetuar-se e imortalizar-se. Apenas desse modo, por meio da procria√ß√£o, a natureza mortal √© capaz da imortalidade, deixando sempre um jovem no lugar do velho. [… ] Pois saiba, S√≥crates, que o mesmo vale para a ambi√ß√£o dos homens. Voc√™ ficar√° assombrado com a sua misteriosa irracionalidade, a n√£o ser que compreenda o que eu disse, e reflicta sobre o que se passa com eles quando s√£o tomados pela ambi√ß√£o e pelo desejo de gl√≥ria eterna. √Č pela fama, mais ainda que pelos seus filhos, que eles se disp√Ķem a encarar todos os riscos, suportar fadigas, esbanjar fortunas e at√© mesmo sacrificar as suas vidas. [… ] Aqueles cujo instinto criador √© f√≠sico recorrem de prefer√™ncia √†s mulheres e revelam o seu amor dessa maneira,

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O Dom de Deixar Ir

√Č preciso aprender a viver. A qualidade da nossa exist√™ncia depende de um equil√≠brio fundamental na nossa rela√ß√£o com o mundo: apego e desapego. Nesta vida, a pondera√ß√£o, a propor√ß√£o e a subtileza s√£o sempre melhores que qualquer arrebatamento. Mas o essencial √© aprender que a exist√™ncia √© feita de d√°divas e perdas.

Eis porque quem reza deve pedir e agradecer: tudo √©, na verdade, um dom. Tudo passa… importa pois prepararmo-nos para a perda, ainda que tantas vezes n√£o seja sen√£o tempor√°ria… Alegrias e dores. S√≥ h√° felicidade num cora√ß√£o onde habita a sabedoria e paci√™ncia dos tempos e dos momentos, a paz de quem sabe que s√£o muitos os porqu√™s e para qu√™s que ultrapassam a capacidade humana de compreender.

Na vida, tudo se recebe e tudo se perde.
Amar é um apego natural mas também obriga a que deixemos o outro ser quem é, abrindo mão e permitindo-lhe que parta, ou que fique, sem desejar outra coisa senão que seja radicalmente livre. Aprendendo que há muito mais valor no ato de quem decide ficar do que naquele de quem só está por não poder partir.

Nada verdadeiramente nos pertence. O sublime do amor está aí,

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As Três Realidades Sociais

H√° tr√™s realidades sociais – o indiv√≠duo, a Na√ß√£o, a Humanidade. Tudo mais √© fict√≠cio. S√£o fic√ß√Ķes a Fam√≠lia, a Religi√£o, a Classe. √Č fic√ß√£o o Estado. √Č fic√ß√£o a Civiliza√ß√£o.
O indiv√≠duo, a Na√ß√£o, a Humanidade s√£o realidades porque s√£o perfeitamente definidos. T√™m contorno e forma. O indiv√≠duo √© a realidade suprema porque tem um contorno material e mental ‚ÄĒ √© um corpo vivo e uma alma viva.
A Na√ß√£o √© tamb√©m uma realidade, pois a definem o territ√≥rio, ou o idioma, ou a continuidade hist√≥rica ‚ÄĒ um desses elementos, ou todos. O contorno da na√ß√£o √© contudo mais esbatido, mais contingente, quer geograficamente, porque nem sempre as fronteiras s√£o as que deviam ser; quer linguisticamente, porque largas dist√Ęncias no espa√ßo separam pa√≠ses de igual idioma e que naturalmente deveriam formar uma s√≥ na√ß√£o; quer historicamente, porque, por uma parte, crit√©rios diferentes do passado nacional quebram, ou tendem para o quebrar, o vas√≠culo nacional, e, por outra, a continuidade hist√≥rica opera diferentemente sobre camadas da popula√ß√£o, diferentes por √≠ndole, costumes ou cultura.
A Humanidade é outra realidade social, tão forte como o indivíduo, mais forte ainda que a Nação, porque mais definida do que ela. O indivíduo é,

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Acreditei que Podia Dar-te um Céu para Brincares

Filho. Gostava que houvesse uma aragem qualquer que me explicasse esse teu sorriso e outra que te explicasse, sem te magoar, o meu silêncio. Gostava de aprender o trejeito dos teus lábios, a maneira dos teus olhos, e to lembrar quando tivesses a minha idade. Fui um dia a tua inocência. E dela ficou-me a grande inocência de acreditar.
Acreditei que podia dar-te um céu para brincares e que a vida seria o que nós quiséssemos. Assim. Bastaria querermos, esforçarmo-nos muito, trabalharmos, e teríamos então o que desejássemos. Não digo coisas majestosas, roupas bonitas ou charretes, mas comida, comida gostosa e bem temperada, e um cavalo de cartão novo, se por acaso esquecesses o teu no quintal numa noite de chuva. Acreditei que a felicidade dos teus olhos a sorrir podia voltar aos olhos da tua mãe, aos meus e perdurar intocada nos teus. Acreditei em tantas coisas. Sabes, aproximo-me da vila e o que me espera é morrer um pouco mais. Preferia que não o soubesses, mas infelizmente nem isso posso esconder-te, porque um dia, quando te contarem a história da tua vida, dir-te-ão que numa noite de estrelas, o teu pai foi à vila e levou uma sova;

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Preguiça Corporal e Preguiça Espiritual

Há um trabalho servil, que é do corpo e para o corpo, embora a mente ajude, e um trabalho régio, que é da alma e para a alma, e quase ninguém exige às mãos. Há, portanto, uma preguiça corporal e outra espiritual, uma ou outra senhora de todos.
A primeira √© dominada – n√£o destru√≠da – pela necessidade e pelo t√©dio; a outra, refor√ßada pela arrog√Ęncia, raramente √© vencida. Os homens s√£o indolentes que trabalham contra a vontade com os bra√ßos e a intelig√™ncia para fugir ao trabalho mais dif√≠cil da alma.
As actividade imoderadas de muitos n√£o passam de pretextos da ociosidade espiritual. Em vez de se afadigarem para conseguir a ren√ļncia dos bens materiais, sujeitam-se a um trabalho totalmente exterior que por vezes se converte, devido a in√©rcia ou embriaguez, em frenesim.
Mas reformar a natureza doente e transviada, abandonar a senda da concupiscência e alcançar a liberdade serena dos filhos da luz representa um trabalho incomparavelmente mais duro do que dirigir uma empresa, fábrica ou banco. A maioria, por cáclculo de indolência, prefere o trabalho servil, embora penoso, ao real, mais áspero e duro Рtorna-se escravo das coisas terrestres para evitar o esforço que o tornaria dono do espírito.

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Ter Raz√£o √© uma Quest√£o de Explica√ß√Ķes

Havia que ser um fan√°tico para querer ter sempre raz√£o. Ter raz√£o era sobretudo uma quest√£o de explica√ß√Ķes. O homem intelectual tornara-se uma criatura explicativa. Toda a gente explicava, os pais aos filhos, os maridos √†s mulheres, os conferencistas ao seu p√ļblico, os especialistas aos leigos, os colegas aos colegas, os m√©dicos aos pacientes, o homem √† sua alma. A g√©nese disto, a causa daquilo, as origens dos acontecimentos, a hist√≥ria, a estrutura, as raz√Ķes pelas quais. Na maior parte dos casos, a explica√ß√£o entrava por um ouvido e sa√≠a pelo outro. A alma desejava o que desejava. Tinha o seu pr√≥prio saber natural. A infeliz poisava, pobre avezinha, sobre superstruturas de explica√ß√£o, sem saber para onde levantar voo.

(…) Era um af√£ holand√™s, pensou Sammler, sempre a dar √† bomba para manter enxutos alguns hectares de terra. O mar invasor era uma met√°fora da multiplica√ß√£o dos factos e das sensa√ß√Ķes; quanto √† terra, era uma terra de ideias.

. Sammler’

Ser Feliz

Ser feliz √© reconhecer que vale a pena viver a vida, apesar de todos os desafios, incompreens√Ķes e per√≠odos de crise. Ser feliz n√£o √© uma fatalidade do destino, mas uma conquista de quem sabe viajar para dentro do seu pr√≥prio ser.

Ser feliz √© deixar de ser v√≠tima dos problemas e tornar-se autor da sua pr√≥pria hist√≥ria. √Č atravessar desertos fora de si, mas ser capaz de encontrar um o√°sis no rec√īndito da sua alma. √Č agradecer a Deus em cada manh√£ pelo milagre da vida.

Ser feliz √© n√£o ter medo dos pr√≥prios sentimentos. √Č saber falar de si mesmo. E ter a coragem de ouvir um ¬ęn√£o¬Ľ. √Č ter seguran√ßa para receber uma cr√≠tica, mesmo que injusta. √Č beijar os filhos, ter prazer com os pais e ter momentos po√©ticos com os amigos, mesmo que eles nos magoem.

Ser feliz √© deixar viver a crian√ßa livre, alegre e simples que mora dentro de cada um de n√≥s. √Č ter maturidade para dizer ¬ęeu errei¬Ľ. √Č ter ousadia para dizer ¬ęperdoa-me¬Ľ. √Č ter sensibilidade para expressar ¬ęeu preciso de ti¬Ľ. E ter capacidade de dizer ¬ęeu amo-te¬Ľ.

Desejo que a vida se torne um canteiro de oportunidades que lhe permita ser feliz…

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A Eternidade é o Nosso Signo

Sim, a eternidade √© o nosso signo. N√£o come√ß√°mos a existir nem o fim da exist√™ncia o entendemos como fim. Por isso n√£o sentimos que n√£o existimos antes de come√ßarmos a existir mas apenas que tudo isso que aconteceu antes de termos existido foi apenas qualquer coisa a que por acaso n√£o assistimos como a muito do que acontece no nosso tempo. E √† morte invencivelmente a ultrapassamos para nos pormos a existir depois dela. O prazer que nos d√° a hist√≥ria do passado, sobretudo os documentos que no-lo d√£o flagrantemente, vem de nos sentirmos prolongados at√© l√°, de nos sentirmos de facto presentes nesse modo de ser contempor√Ęneos. Mas sobretudo h√° em n√≥s uma mem√≥ria-limite, uma mem√≥ria absoluta que n√£o tem nada de referenci√°vel e se prolonga ao sem fim. Do mesmo modo h√° o futuro que √© pura projec√ß√£o de n√≥s, apelo irreprim√≠vel a um amanh√£ sem termo ou sem amanh√£. Por isso a morte nos angustia e sobretudo nos intriga por nos provar √† evid√™ncia o que profundamente n√£o conseguimos compreender. Mas sobretudo a eternidade √© o que se nos imp√Ķe no instante em que vivemos. O tempo n√£o passa por n√≥s e da√≠ vem a impossibilidade de nos sentirmos envelhecer.

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√Č Imposs√≠vel que o Tempo Actual n√£o Seja o Amanhecer doutra Era

√Č imposs√≠vel que o tempo actual n√£o seja o amanhecer doutra era, onde os homens signifiquem apenas um instinto √†s ordens da primeira solicita√ß√£o. Tudo quanto era coer√™ncia, dignidade, hombridade, respeito humano, foi-se. Os dois ou tr√™s casos pessoais que conhe√ßo do s√©culo passado, levam-me a concluir que era uma gente naturalmente cheia de limita√ß√Ķes, mas digna, direita, capaz de repetir no fim da vida a palavra com que se comprometera no in√≠cio dela. Al√©m disso her√≥ica nas suas dores, sofrendo-as ao mesmo tempo com a tristeza do animal e a grandeza da pessoa. Agora √© esta ferocidade que se v√™, esta coragem que n√£o d√° para deixar abrir um panar√≠cio ou parir um filho sem anestesia, esta tartufice, que a gente chega a perguntar que diferen√ßa haver√° entre uma humanidade que √© daqui, dali, de acol√°, conforme a brisa, e uma col√≥nia de bichos que sentem a humidade ou o cheiro do alimento de certo lado, e n√£o t√™m mais nenhuma hesita√ß√£o nem mais nenhum entrave.

Saber Estar

√Čs impaciente e dif√≠cil de contentar. Se est√°s s√≥, queixas-te da solid√£o; se na companhia dos outros, tu os chamas de conspiradores e de ladr√Ķes, e achas defeitos nos teus pr√≥prios pais, filhos, irm√£os e vizinhos. No entanto, quando est√°s sozinho, deves falar em tranquilidade e liberdade e te considerares igual aos deuses. E quando est√°s em companhia numerosa, n√£o a deves chamar de turba aborrecida ou ruidosa, mas de assembleia e tribunal, dessarte aceitando tudo com contentamento.